Por Marcelo Salles - salles@fazendomedia.com

Isso é notícia?
30.07.2007 | 21h53 |

Ouço no duopólio radiofônico: "Os EUA vão investir 20 bilhões de dólares na Arábia Saudita para que ela se proteja de eventuais ataques do Irã. Um alto funcionário dos EUA, que confirmou a informação, disse que esse montante ainda pode aumentar".

Na boa, isso é notícia? Com todo o respeito à coleguinha que leu essa besteira, temos aí pelo menos três mentiras embutidas nesse discurso que vai servir para enganar boa parte dos ouvintes. 1) A idéia não é se defender do Irã, mas atacá-lo para roubar seu petróleo, assim como fizeram com Iraque e Afeganistão; 2) A Arábia Saudita é uma ditadura sanguinária, mas a repórter não diz isso porque trata-se de uma ditadura aliada dos EUA; 3) Pelo amor de Deus, é óbvio que o "alto funcionário" dos EUA vai confirmar a informação, querida colega. Como você acha que ela foi parar na sua mão? Acha que foi um esforço de reportagem da sua rádio? Tenha a santa paciência!

Outras informações sobre o assunto no Blog do Bourdoukan.

É lamentável o nível do jornalismo brasileiro. E o povo não tem nem mesmo um Conselho para denunciar esses abusos. No Brasil, as corporações de mídia podem apoiar invasões, torturas, seqüestros e assassinatos em nome da ganância e fica por isso mesmo.

Publicidade
Na seqüência, ouço um publicitário se locupletando com uma campanha que ele mesmo fez para o Bradesco. Diz que foi a "melhor de todos os tempos" e que está gerando uma "taxa fantástica de wareness", seja lá o que isso queira dizer. Sobre as novas técnicas de propaganda, diz o publicitário: "Hoje o seu público é o cara que de manhã bota o tênis nike, vai fazer seu esporte, depois veste um terno sério e de noite joga uma tinta vermelha no cabelo, bota um piercing de fora e vai pra balada. O publicitário precisa entender que esse é o seu público, hoje".

Aí vem o Oliviero Toscani, fotógrafo italiano que esteve à frente da campanha United Colors of Beneton, e fala: "Vocês, publicitários, geram delinqüência. Porque ao enfiar na cabeça das pessoas que elas precisam ter determinada marca para ser alguém, as pessoas vão fazer de tudo para possuir essas mercadorias. Inclusive matar e morrer". Mas os publicitários capitalistas não estão preocupados com isso. Sua medida de sucesso é a taxa de vendas do anunciante e o resto que se exploda.

Mas não deixou de ser engraçado ouvir o publicitário, no embalo de sua auto-promoção: "A campanha do Bradesco foi um exemplo de que conseguimos criar algo novo". Sim, sim... Criar algo novo é algo da mais elevada importância! Entretanto, cabe a objeção: seria possível criar algo velho, subir para baixo ou entrar para fora?

Latuff é censurado na Espanha
30.07.2007 | 04h44 |

Intimado pela polícia no Rio de Janeiro, censurado em Salamanca. Uma ilustração de Carlos Latuff foi impedida de circular numa galeria de arte por ser considerada "de mau gosto e anti-amerciana". A história é a seguinte: Robert Vandenbego, designer que distribui gratuitamente seus fanzines em cidades européias, teve a edição intitulada "Begó!madrid" censurada em virtude da ilustração da capa, desenhada por Latuff (imagem acima). Leia mais, em espanhol, aqui.

Novo filme de Michael Moore
30.07.2007 | 04h10 |

Acabo de assistir a um trecho do novo filme de Michael Moore. "Sicko" é uma crítica ao sistema de saúde estadunidense, mercantilizado até a alma e que, na prática, garante o direito à vida a quem tem dinheiro e abandona os pobres à própria sorte. Moore vai a Cuba com alguns bombeiros e voluntários que adoeceram por trabalhar nos escombros das torres gêmeas, em Nova York, e descobre um tratamento médico pautado pelo humanismo. Em Havana, eles se surpreendem ao encontrar o mesmo remédio que custa 120 dólares nos EUA por 5 centavos de dólar. "É como um insulto", diz uma das visitantes.

Veja aqui um trecho de Sicko, novo filme de Michael Moore.

Enquanto a câmera caminha pelo Hospital de Havana, Moore narra: "O índice de mortalidade infantil cubano é menor que o dos EUA; aqui em Cuba a expectativa de vida é maior do que nos EUA. Aqui não nos pediram dinheiro ou convênio médico. Pediram apenas nome e data de nascimento". E pra quem esperava um hospital velho, com falta de equipamentos, surpresa: o Hospital de Havana é moderno e o equipamento, novo em folha. Às lágrimas, uma mulher que não conseguiu tratamento nos EUA, seu país de origem, diz para o médico cubano: "É muito difícil escutar que tudo isso é de graça. Nos últimos 20 anos da minha vida gastei muito dinheiro em tratamentos médicos".

Por isso Cuba é considerada uma ditadura pelas corporações de mídia. E o pior é que muitas pessoas assumem este discurso e o repetem indiscriminadamente. Ontem mesmo um grande amigo meu disse, com todas as letras: "Fidel é um ditador". A existência de Cuba será sempre inaceitável para o governo dos EUA por uma razão muito simples: trata-se da negação da mercantilização da vida, eixo principal do lucro do sistema capitalista. Cuba prova que, mesmo com todas as dificuldades e carências de recursos naturais, é possível construir uma sociedade sem analfabetos, sem miseráveis e sem pessoas doentes. Prova ainda que para ter acesso a comida, medicamentos e educação não é preciso ter dinheiro. Por isso as corporações de mídia, servis ao governo Bush, repetem feito papagaios: "Fidel é um ditador; Cuba é uma ditadura selvagem". Seu lucro advém da exploração do ser humano.

Contra a criminalização da pobreza
30.07.2007 | 01h07 |

A partir do estudo crítico da criminologia e da experiência prática, o delegado da Polícia Civil do RJ Orlando Zaccone desconstrói a idéia do traficante perigoso, violento, considerado o inimigo público número 1 da sociedade. Em livro a ser lançado em agosto ou setembro, ele mostra que existe uma seletividade na pena: os bandidos pobres são presos e estigmatizados, enquanto os bandidos de classe média ou ricos são autuados como consumidores e não ficam detidos. Assim, o estudo de Zaccone contribui para derrubar o mito de que o problema da criminalidade seria resolvido com a redução da maoiridade penal ou a partir da existência de penas mais duras.

No livro, que provavelmente vai se chamar "Acionistas do nada - quem são os traficantes de drogas", Zaccone também chama a atenção para os verdadeiros traficantes, que operam internacionalmente e não vivem em favelas; não combatem a polícia de chinelos, bermudas e sem camisa. Para tanto, ele cita um trecho do livro "O século do crime", de José Arbex Jr. e Cláudio Júlio Tognolli: "O banqueiro saudita Gaith Pharaon, à época um dos quinze homens mais ricos do mundo, declarou, em Buenos Aires, que todos os grandes bancos lavam dinheiro do narcotráfico, incluindo instituições como o First Bank of Boston e o Crédit Suisse. Pharaon se ressentia do fato de que apenas o seu Bank of Credit and Commerce International, estopim de um grande escândalo financeiro em 1992, fosse citado com freqüência por suas vinculações com o narcotráfico".

Segue abaixo um trecho do livro do delegado Orlando Zaccone, cujo lançamento será realizado numa livraria carioca. Quando a data e o local estiverem confirmados, vou anunciar aqui neste blog:

O Fundo Monetário Internacional calcula que o chamado crime organizado movimenta, por ano, 750 bilhões de dólares, sendo que 500 bilhões de dólares são gerados pelo "narcotráfico". No comando deste grande negócio é identificada, em seu aspecto político e legal, a figura do "narcotraficante", cujo estereótipo, construído pelo discurso oficial e divulgado pela mídia, aponta para o protótipo do criminoso organizado, violento, poderoso e enriquecido através da circulação ilegal desta mercadoria, conhecida em nossa legislação, outrora, como "entorpecente" e hoje, genericamente, como "droga".

Toda atual política de repressão ao comércio de drogas ilícitas está voltada a combater este "inimigo" da sociedade que, já no final dos anos noventa, representava em torno de 60 % da população carcerária no estado do Rio de Janeiro, segundo um dos últimos anuários estatísticos.

Como delegado de polícia, atuando há pouco mais de seis anos na capital, acabei por encontrar uma realidade diversa daquela que nos é apresentada, diariamente, enquanto "verdade". Os criminosos autuados e presos pela conduta descrita como tráfico de drogas são constituídos por homens e mulheres extremamente pobres, com baixa escolaridade e, na grande maioria dos casos, detidos com drogas sem portar nenhuma arma. Desprovidos do apoio de qualquer "organização", surgem, rotineiramente, nos distritos policiais, os "narcotraficantes" que superlotam os presídios e casas de detenção.

O sistema penal revela assim o estado de miserabilidade dos varejistas das drogas ilícitas, conhecidos como "esticas", "mulas", "aviões", ou seja, aqueles jovens (e até idosos) pobres das favelas e periferias cariocas, responsáveis pela venda de drogas no varejo, alvos fáceis da repressão policial por não apresentarem nenhuma resistência aos comandos de prisão.

O fato da imprensa e das autoridades públicas darem grande destaque às prisões dos chamados "chefões" do tráfico, dedicando as primeiras páginas dos jornais e muitos esforços à captura dos "donos" do negócio relativo ao comércio de drogas, demonstra, por si só, a existência de um escalonamento. De um lado "grandes" traficantes, como Fernandinho Beira Mar, e pouco mais de uma dezena de nomes considerados delinqüentes de alta periculosidade, para os quais são reservadas algumas celas nos presídios de segurança máxima; do outro, milhares de "fogueteiros", "endoladores" e "esticas" que, junto dos "soldados" - única categoria armada e responsável pela segurança do negócio - assemelha-se mais à estrutura de uma empresa do que a de um exército, lotando as carceragens do estado.

(...)

Para além da função de reprimir a circulação destas substâncias, o sistema penal exercita um poder de vigilância disciplinar, de uso cotidiano, nas áreas carentes, seja restringindo a liberdade de ir e vir naquelas comunidades, através das prisões para averiguação, ou restringindo reuniões e o próprio lazer das pessoas, como na proibição dos "bailes funks", que a pretexto de reprimir a "apologia ao narcotráfico", traduz o poder de controle exercido sobre as populações pobres. Não é por menos que a historiadora Gizlene Neder, citada pela criminóloga Vera Malaguti Batista, conclui: "a eficácia das instituições de controle social se funda na capacidade de intimidação que estas são capazes de exercer sobre as classes subalternas".

PS: Na revista Caros Amigos deste mês há uma entrevista com o delegado Orlando Zaccone (ver nota Outro olhar sobre a criminalidade). Uma entrevista que tem rendido pelo menos um emeio por dia de estudantes de direito, juízes e leitores do Brasil inteiro que admiram a postura do delegado.

PS 2: Orlando Zaccone, hoje delegado titular da 52ª DP (Nova Iguaçu), desenvolve um trabalho em parceria com Marcelo Yuka e a Companhia Brasileira de Cinema Barato. Eles levam quinzenalmente um filme para ser exibido na carceragem, numa iniciativa que tem o objetivo de reduzir os danos causados pelo sistema punitivo. Além disso, o delegado conseguiu atendimento médico e odontológico para os presidiários numa parceria com a prefeitura de Nova Iguaçu, bem como montou uma biblioteca - que inclusive já recebeu doações da Caros Amigos. Como resultado, a convivência entre os detentos tem sido mais tranquila.

Renúncia coletiva na OAB
28.07.2007 | 18h53 |

41 integrantes da Comissão de Direitos Humanos da OAB/RJ renunciaram coletivamente nesta sexta-feira. A decisão foi motivada pela exoneração do presidente da comissão, o advogado João Tancredo, que investigava as denúncias de execução que teriam ocorrido durante a invasão da polícia ao Complexo do Alemão, no dia 27 de junho. Segue abaixo um trecho da carta de renúncia, enviada ao presidente da OAB/RJ, Wadih Damous, e que pode ser lida na íntegra aqui.

É imperioso que rememoremos a Vossa Excelência que o provimento nº 56/85, do Conselho Federal da OAB determina que os presidentes de Comissões de Direitos Humanos sejam eleitos pelo Conselho Seccional, como foi o advogado João Tancredo. Logo, não há qualquer legitimidade na decisão colegiada dessa diretoria na exoneração de um Conselheiro eleito por seus pares. Ademais, o provimento do Conselho Federal prevê que os presidentes de Comissões de Direitos Humanos terão mandato. Talvez justamente para estarem a salvo de humores autoritários de Presidentes de Conselhos Seccionais.

Temos, portanto, muito orgulho em levar a Vossa Excelência nossa renúncia coletiva às funções de integrantes, delegados e colaboradores da CDHAJ da OAB/RJ para os quais fomos nomeados pos Vossa Excelência, frisando que não se trata de simples solidariedade ao nosso presidente (que a merece, indiscutivelmente), mas de coerência com os valores que defendemos durante nossa campanha, durante o tempo em que estivemos na Comissão e que continuaremos defendendo pelo resto de nossas vidas.

Chacina a conta-gotas
28.07.2007 | 15h32 |

Converso com um professor de Direito e advogado criminalista dos mais renomados do Rio de Janeiro, que pede para não ser identificado. Ele acompanhou desde o início as invasões da polícia no Complexo do Alemão (que desde 2 de maio deixaram 44 mortos e quase cem ferido, de acordo com os números oficiais) e chegou à seguinte conclusão: "Trata-se de uma chacina a conta-gotas com o objetivo claro de tomada das bocas de fumo. Quem é do Terceiro Comando não é incomodado, mas quem é do Comando Vermelho está sendo assassinado. Toda semana estão indo lá e matando cinco ou seis meninos".

A Secretaria de Segurança, evidentemente, nega. Diz que são ações de combate ao tráfico. Por outro lado, são muitos os fatos que contrariam o discurso oficial. Primeiro deles: de repente as corporações de mídia esqueceram-se das tais milícias, grupos formados por policiais, bombeiros e agentes penitenciários que atuam da mesma maneira que os traficantes varejistas e que já teriam ocupado aproximadamente 100 favelas do Rio de Janeiro. O reportariado carioca sabe muito bem que essas milícias atuam com o apoio da polícia, que empresta até o Caveirão para tomar o controle de algumas localidades.

Alguém de posse das estatísticas e capaz de analisar a situação além do sensacionalismo das corporações de mídia percebe que só existem duas interpretações para esse discurso oficial de "combate ao tráfico". 1) É uma mentira, pura e simplesmente; 2) Reflete uma política ineficiente. Senão, vejamos. O tráfico tem uma lógica internacional e quem enriquece com ele não está na favela, como ressaltou o historiador e deputado estadual Marcelo Freixo. Na favela não tem fábrica de armas, não tem fábrica de cocaína e nem plantação de maconha. Além disso, de acordo com o Instituto de Segurança Pública, órgão vinculado à Secretaria de Segurança Pública do RJ, embora a polícia esteja matando mais, os bandidos estão furtando mais e roubando mais. Além disso, caíram as apreensões de drogas e de armas. Em favor da polícia estão os números de homicídios, que diminuíram, embora continuem elevados.

Alguns números, na comparação entre janeiro e junho de 2006 com o mesmo período deste ano: Mortes causadas pela polícia (de 520 para 652). Homicídios (de 3.210 para 2.828); roubos (de 61.038 para 62.106); furtos (de 67.249 para 70.581); apreensões de drogas e armas (de 12.357 para 9.823).

A redução no número de homicídios é um ponto favorável para todos, sinal de que a polícia está cumprindo sua missão de proteger a vida dos cidadãos. Entretanto, há que se considerar que os dois meses que definiram a queda desse índice (maio e junho) correspondem ao período em que o Rio de Janeiro esteve fortemente policiado, com apoio de tropas federais, para a realização dos Jogos Pan-Americanos. Isso, sem contar com possíveis acordos do governo com os bandidos (tese reforçada pela queda brutal - cerca de 50% - nos números de apreensões de drogas e armas nesses dois meses). Resta saber se essa redução no índice de homicídios será mantida mesmo com o final do Pan-Americano. Eu duvido.

Portanto, cabe uma análise à parte dos índices de homicídio até abril. Nesse caso, em comparação com o ano passado verificamos um aumento de 2.187 para 2.224. Ou seja, o indivíduo fascista que bate palma pra polícia que mata bandido na verdade é um imbecil. Não percebe que está, indiretamente, tornando sua própria existência mais perigosa. O bandido que sabe que vai ser torturado ou morrer se for preso tende a se tornar mais violento, isso é óbvio, até porque ele não vai ter nada a perder.

Um último detalhe reforça a tese do professor: pelo que entendi quando estive no Complexo do Alemão, ali os bandidos não costumam pagar o "arrego".

Governo e Jornal Nacional
28.07.2007 | 15h29 |

Comentar com isenção partidária é tarefa complicada, meio como pedir pra ser atacado pelos dois lados. Entretanto, não vejo alternativa a não ser constatar que o governo negociou a divulgação, pelo Jornal nacional, da falta do reverso no avião da TAM. É fato que as corporações de mídia fizeram de tudo para culpar o governo pelo acidente? É. Mas não dá pra deixar de constatar que algum acordo houve entre governo e Jornal Nacional. Não vamos nos enganar: o telejornal não divulgaria uma informação como essa, que prejudica um grande anunciante, em nome do jornalismo. A gente sabe que jornalismo nunca foi o forte deles, apesar de existirem grandes jornalistas lá dentro.

Essa questão remete a setembro do ano passado, quando as corporações de mídia fizeram de tudo para levar as eleições para o segundo turno. E conseguiram. Na época, o PT pediu socorro à imprensa alternativa - que há muito se esgoelava pela democratização da mídia - e chegou a anunciar publicamente a necessidade de democratizar o setor. Lamentavelmente, ficaram apenas nos discursos. Até o Programa Setorial de Comunicação e Democracia do Governo, bastante progressista, foi retirado do endereço em que se encontrava no sítio do PT. Procurei em outro lugar, mas ele simplesmente sumiu. Se alguém aí achar, por favor me avise.

Ditadura do século XXI
28.07.2007 | 15h21 |

Lá do Blog do Bourdoukan:

Chamar de ditadura é pouco

Leiam e digam se há ditadura pior.

Transcrevo a nota da BBC: "Os ministros de Relações Exteriores da União Européia aprovaram um acordo que permite aos Estados Unidos ter acesso a uma série de informações pessoais de passageiros de vôos transatlânticos, incluindo orientação sexual, política e religiosa".

A nota continua: "Pelos termos do novo acordo, o Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos terá acesso a endereço, número de cartão de crédito, situação de saúde, eventual associação a sindicatos e origem étnica de todos os passageiros que queiram entrar no país provenientes da Europa, além de eventuais pedidos de refeição especial feitos às companhias aéreas".

Essa informação é tão assustadora que não há o que comentar. E ainda há quem creia que os Estados Unidos sejam uma democracia. Mas o pior mesmo é o silêncio da mídia sobre tão abominável fato.

Manchetes de um país distante
28.07.2007 | 14h39 |

- Deputados neoliberais investigam acidente causado pelo neoliberalismo
- Presidente da OAB afasta advogado que investigava chacina
- 57% dos trabalhadores da América Latina estão na informalidade
- Solução para crise provocada pela ganância de lucro é privatizar
- País com 2ª pior distribuição de renda se acha melhor que o Congo
- Governo apanha das corporações de mídia mas permite oligopólio no setor

Carlos Latuff, um grande ser humano
26.07.2007 | 01h20 |

Carlos Latuff. Anote esse nome. Porque ser humano como esse é coisa rara. Lembro de quando ele foi entrevistado por Raquel Junia e Gilka Resende para o Fazendo Media. Terminei de ler a entrevista e dois pensamentos logo surgiram: 1) uma pena não ter participado e 2) uma pena nosso impresso não ter mais espaço. Foi certamente uma das melhores entrevistas, senão a melhor, que publicamos nesses quatro anos de jornada. E olha que temos entrevistas com Luis Fernando Verissimo, Fausto Wolff, José Arbex Jr., Jânio de Freitas, Mino Carta, Marcelo Yuka e por aí vai...

Mas o pensamento de Latuff era completo, exemplar, contundente. Foi uma entrevista marcante (leia aqui), em que ele falou do início de seu trabalho artístico e de quando começou a se voltar para as causas sociais. Na ocasião ele também criticou duramente o sistema capitalista e as corporações de mídia, a quem não concede entrevistas.

A propósito, vale registrar que Latuff perdeu a confiança nessas corporações após o RJTV descontextualizar sua fala em 1999, ano em que foi intimado pela polícia pela primeria vez. "Desde aquele momento eu não dou mais entrevista para a grande imprensa", disse ao Fazendo Media.

Depois disso, Latuff foi intimado uma segunda vez, ano passado foi ameaçado de morte por um grupo ligado ao Likud (partido de extrema-direita israelense) e agora foi intimado pela terceira vez (ver abaixo nota intitulada "Santa democracia!"). Por ocasião dessa última, vários órgãos de imprensa o procuraram para entrevistas. Felipe Machado, repórter da revista Época, das Organizações Globo, escreveu-me a seguinte mensagem eletrônica:

Carlos Latuff - URGENTE. Olá Marcelo, vi sua reportagem sobre a intimação do Latuff na lista da Abraji e gostaria de dar esta história aqui na revista, na seção Primeiro Plano. Por favor, vc pode me passar os contatos dele? Aguardo retorno urgente, meu fechamento é amanhã... Abraços, Flavio Machado.

Respondi polidamente que não tinha autorização do Latuff para repassar seu contato e ressaltei que ele não concede entrevistas para as corporações de mídia. Em todo caso, avisei que havia encaminhado sua solicitação ao artista gráfico. O Latuff me respondeu: "Bela resposta. Eu mesmo não faria melhor".

Esse é o ponto onde queria chegar. Hoje, nessa sociedade de consumo, é tudo urgente. Nessa sociedade de aparências, fútil, onde todos querem aparecer na mídia, onde governadores e ministros alteram suas agendas em função das urgências do Jornal Nacional, deve mesmo ser muito estranho quando aparece alguém como o Latuff e diz: "Não, eu não quero". Não importa que você trabalhe numa organização que tenha uma considerável capacidade de ingerência sobre o governo; não importa que você tenha milhares de funcionários e milhões de reais de capital de giro. O dinheiro não compra tudo, como alguns gostam de repetir. E quando aparece alguém assim como o Latuff, alguém com princípios firmes, nem todo o poder do mundo pode quebrá-lo. As corporações de mídia podem conseguir outras entrevistas - certamente não faltarão candidatos - mas a entrevista com aquele artista respeitado no mundo árabe, aquele artista respeitado pelos zapatistas, aquele artista respeitado pela resistência popular carioca, aquele artista cujas imagens são reproduzidas por todos os povos que resistem à opressão capitalista... Não. Esta entrevista eles não conseguem.

Isso porque Latuff é um extra-terrestre? Não, muito pelo contrário. Isso porque Carlos Latuff é um ser humano extremamente humano, um cara que tem um pensamento que soa estranho a esse mundo de urgências - ditadas pelas relações capitalistas - em que vivemos. Por exemplo: Latuff é um sujeito que fica indignado - e não esconde de ninguém - que um lustre seja vendido a 15 mil reais dentro de uma loja e do lado de fora dessa mesma loja um menino não tenha o que comer. "A partir do momento em que o capital vale mais que o social, tudo vale. O social é o respeito à vida, respeito aos valores humanos. A partir do momento em que isso tem um papel terciário, o mais importante é ganhar dinheiro, é o lucro, acabou-se", disse numa entrevista concedida ao jornal A Nova Democracia.

Pra concluir, outro pequeno trecho do pensamento deste grande artista gráfico, extraído da entrevista concedida ao Fazendo Media: "A lógica capitalista é a grande responsável por isso, em que só o mercado importa. Em nome do capital, as pessoas matam. Em nome do capital, remédios são negados à população. Os direitos humanos são negados em nome do capital. Florestas são devastadas em nome do capital. Os rios são poluídos em nome do capital. Culturas são subjugadas em nome do capital. Enfim, fazem o que quiserem em nome do capital. Enquanto o capital falar mais alto que o social, o ser humano vai estar em risco. Enquanto o mercado dirigir a nossa vida, nós estaremos condenados".

Repercussão da entrevista com o delegado
26.07.2007 | 00h46 |

Acabo de receber o emeio abaixo a respeito da entrevista publicada na Caros Amigos deste mês (ver nota abaixo intitulada "Outro olhar sobre a criminalidade"). É o segundo:

Caro Marcelo, como costuma acontecer, a entrevista com o lúcido delegado da 52a., Orlando Zaccone, está excelente. Gostaria de, se for possível, obter o email dele. Sou juíza de direito em S.Paulo e faço parte da AJD, Associação Juízes para a Democracia (www.ajd.org.br) e gostaria de trocar idéias com o dr. Orlando. Imagino que você tenha esse contato e se puder me informar, lhe agradeço, de antemão. Valeu sua bem conduzida entrevista! Está translúcida, simples, consistente e efetiva, aliás, atributos esses que bem deveriam ter as leis penais deste nosso país (após um crivo necessário para acabar com inúmeras delas, claro!). Obrigada.

Tá chegando a hora...
25.07.2007 | 02h42 |

Caros amigos, tenho recebido muitos emeios depois que publiquei a nota informando que no dia 5 de outubro os parlamentares decidirão, em Brasília, pela renovação ou não das concessões públicas de radiodifusão. Isto é um bom sinal. Estou preparando um especial sobre renovações com o nome dos principais deputados da comissão responsável pela matéria. Vou publicar aqui em breve (podem cobrar) essa lista com nome, telefone, endereço físico e endereço eletrônico. Temos a obrigação cobrar deles que não renovem as concessões das corporações de mídia por alguns motivos muito simples: não cumprem as leis, não pagam impostos, constituem oligopólio (o que é contra a Constituição) e estão a serviço da exploração do povo brasileiro.

Chegou a hora de pararmos de reclamar, vamos para a ação! É assim que funciona nas chamadas "democracias mais avançadas". Isso me lembrou um amigo que reclama, reclama, elogia a França, a Inglaterra, diz que no Brasil é tudo uma porcaria, mas não faz porra nenhuma além de reclamar. Ser cidadão não se restringe a votar no candidato; é, também, cobrar dos nossos representantes. É compreender que nós é que mandamos, porque somos nós que pagamos seus salários de 16 mil por mês, fora os benefícios. Aposto que na França e na Inglaterra os cidadãos participam muito mais da vida política do país.

Sei que existe uma grande superestrutura alienante, sustentada justamente pelas corporações de mídia, que diz ao brasileiro para não se envolver com política. E é esse o tamanho do nosso desafio: compreender que o imaginário comum é desenhado pela telenovela e pelo telejornal sensacionalista, vulgar, superficial. É por aí que entra o capital video-financeiro, como explicou o sociólogo Gilberto Felisberto Vasconcellos. E é por aí que ele deve ser combatido. Por isso, vamos começar a preparar nossas listas de discussão, vamos conversar com amigos e familiares. Nós aqui temos 2 mil leitores por dia. Carta Maior, Caros Amigos, Viomundo, Brasil de Fato, Revista Fórum, Cidadania, Desabafo Brasil e outras tantas publicações podem entrar nessa campanha. Aí teremos pelo menos 100 mil pessoas engajadas e dispostas a exigir que os deputados federais não renovem as concessões de radiodifusão. Se o MST entrar na jogada, teremos pelo menos mais 100 mil pessoas envolvidas. E se todas as organizações de Direitos Humanos também participarem, serão outras milhares de pessoas na linha de frente.

Volto ao assunto em breve, muito breve.

Santa democracia!
25.07.2007 | 00h20 |

Era só o que faltava. O artista gráfico Carlos Latuff foi intimado ontem pela delegada Valéria de Aragão Sádio, da Delegacia de Repressão aos Crimes Contra Propriedade Imaterial, "a fim de prestar esclarecimentos referente ao procedimento em epígrafe". Desconsiderando o atentado à gramática do texto assinado pela delegada (erro básico de concordância nominal), é preciso deixar claro aos amigos leitores que o Latuff está sendo intimado única e exclusivamente por usar sua habilidade para denunciar as violências cometidas pelo Estado em nome dos Jogos Pan-Americanos - com o acobertamento vergonhoso das corporações de mídia.

Clique aqui para ver a intimação na íntegra

Como o próprio Latuff ironizou: "Veja, Marcelo, pra você ver como é bom viver numa democracia onde a liberdade de expressão é garantida, especialmente quando você resolve fazer uma charge do mascote do Pan segurando um fuzil ao lado do Caveirão". Pior, pelo que fiquei sabendo, a Patrícia Oliveira, da Rede Contra a Violência, chegou a ser detida pela polícia enquanto vendia as camisetas na rua.

Recapitulando: 542 famílias que vivem no entorno da Vila Pan-Americana foram ameaçadas de expulsão pela Prefeitura de César Maia, o custo dos Jogos Pan-Americanos aumentou em 14 vezes (dinheiro meu e seu indo embora), inúmeras denúncias de contratos superfaturados (um deles detectado pelo TCU), Complexo do Alemão sitiado pela Força Nacional de Segurança e pela PM, pessoas em situação de rua expulsas para sabe-se lá Deus onde. Diante de todo esse descalabro, a polícia ainda vai em cima de quem exerce seu direito de expressão garantido pela Constituição Federal.

E ainda com uma alegação tosca, de apropriação da imagem oficial do Pan. Fosse isto verdade, o chargista Aroeira também deveria ter sido intimado, já que ele usou o mesmo mascote em pelo menos três ilustrações publicadas no jornal "O Dia". Como Aroeira não foi intimado, fica caracterizada a perseguição política a Carlos Latuff.

Eu gostaria de saber se a delegada Valéria, da Delegacia contra Crimes Imateriais, poderia expedir um mandado de intimação contra as corporações de mídia que seguidamente agridem a cultura brasileira, nossos hábitos e costumes, nossa história, nossos valores, nossa gente. Ou isso é imaterial demais?

Globo e Brasil
24.07.2007 | 11h29 |

Como Daniel Herz registra em sua obra-prima "A História Secreta da Rede Globo", esta nasceu a partir de uma associação fraudulenta com o grupo estadunidense Time-Life. Dois contratos assinados em 1962, em Nova Iorque, garantiram a Roberto Marinho US$ 6 milhões para iniciar a empreitada - valor 20 vezes superior ao capital investido na maior emissora de então, a TV Tupi, que havia sido construída com R$ 300 mil. O acordo violou a Constitução Federal e uma CPI foi instaurada, mas a Rede Globo seguiu funcionando e se tornou a principal empresa das Organizações Globo. Durante anos, um agente da CIA chamado Vernon Walters e um funcionário estadunidense chamado Joe Walach coordenavam o que ia ao ar na emissora.

Por que estou lembrando esta história? Muito simples: estou lembrando esta história devido ao prejuízo causado ao país pela Globo. Prejuízo que aumenta a cada dia, a cada vez que um governante se acovarda diante do poder da empresa. Como quantificar os danos causados aos moradores do Complexo do Alemão, por exemplo, após a invasão policial de 27 de junho? Além de sofrer a opressão do Estado (ameaças, violações de domicílios, danos materiais, furtos e extorsões), aquelas pessoas foram seguidamente agredidas por palavras e imagens distorcidas, por construções lingüisticas tendenciosas e pela propaganda sistemática que sugere que a região é um lugar do mal, onde só vivem bandidos - os quais devem ser exterminados.

Para justificar a matança do dia 27, o principal jornal das Organizações divulgou uma pesquisa informando que a "população aprova operação policial". Diz o texto que o Ibope ouviu mil pessoas, mas não diz onde essas pessoas foram ouvidas. Daí o "Globo" pega esse resultado e anota: "População aprova". Mas, é tempo de perguntar: que população? Que espécie de covardia é essa, que toma mil telefonemas sem endereço como representativos da população? Uma vergonha de matéria, mistura de covardia com arrogância - aliás, características típicas dessa classe dominante que não tem peito para assumir suas posições política e diz fazer tudo em nome do povo. Por isso no Brasil não existe direita, existem "democratas".

Assim trabalha a Globo. Uma emissora que sempre, desde seu nascimento - e sobretudo pela maneira como nasceu - trabalha a favor da exploração do povo brasileiro para benefício do capital estrangeiro. É uma empresa que fere a Constituição em seu artigo 220 (proíbe monopólios e oligopólios nos meios de comunicação social), deve mais de 50 milhões de reais ao povo do Rio de Janeiro em impostos e, segundo denúncia da ex-governadora, possui uma conta de US$ 100 milhões na Suíça. Além disso, segundo reportagem publicada pela Folha de S. Paulo há cerca de dois anos, sua dívida total alcança R$ 6 bilhões. Ainda assim, os governantes permitem que esta empresa siga agredindo o povo brasileiro e mantendo o país atrasado para que as classes dominantes roubem cada vez mais.

No próximo dia 5 de outubro, os parlamentares vão deliberar sobre a renovação das concessões públicas desta e de outras empresas de radiodifusão. São as principais concessões, pois são as concessões das emissoras que emitem os sinais para todas as retransmissoras país afora. Você PRECISA telefonar e começar a pressionar seu deputado e seu senador em Brasília desde já. Esta votação só acontece a cada 15 anos. As emissoras já possuem seus lobistas por lá. Não adianta a gente reclamar no barzinho. Temos que exercer a democracia, temos que ser cidadãos para além do voto. Telefone uma vez por semana a partir de agora e diariamente a partir de setembro. Se um sozinho telefonar, talvez não adiante. Mas se todos nós participarmos dessa campanha, temos grandes chances de vencer!

Os filhos da mídia
24.07.2007 | 10h37 |

Está lá no blog do Mino Carta, que narra a visita do governador do Paraná ao Palácio do Planalto e sua breve conversa com os jornalistas de plantão:

Requião tem sido um dos alvos preferidos dos ataques da mídia. Suas relações com os jornalistas são tensas, mas ele não hesita na provocação, e pergunta por que, em outros tempos, "vocês não falaram do filho de Fernando Henrique?" Outro rebento fora do matrimônio, como no caso de Renan Calheiros. A aventura de FHC, do conhecimento até do mundo mineral, é anterior à sua primeira eleição em 1994, e a jovem brindada pelos favores do príncipe dos sociólogos foi mais uma jornalista em atividade em Brasília, Miriam Dutra.

A pergunta de Requião deixa os credenciados do comitê entre atônitos e perplexos. Alguém balbucia que a comparação não cabe, os casos são diferentes. Impávido, o governador ergue o sobrolho e clama: "Por quê?" Logo explica: "Quem sustentou o filho do ex-presidente foi, desde o nascimento, uma empresa privada, a Globo da família Marinho".

A bem da tranqüilidade familiar de FHC, e do seu desempenho na Presidência, Miriam Dutra e seu filho foram enviados ao exterior, no resguardo. Consta que voltaram para o País faz pouco tempo. Fez-se o silêncio no comitê, e o governador se foi, a dar risadas.

Agora, sou eu quem pergunta: alguém leu, ou ouviu, relato desse episódio? E então, volto à carga: qual é o país do mundo que se diz democrático, e goza de liberdade de expressão, onde um governador de estado, ou qualquer figura pública importante, fala de um ex-presidente da República igual a Requião, diante de uma matilha de perdigueiros da informação, e a mídia fecha-se em copas? Não conheço outro, além do Brazil-zil-zil.

A "delegação de Fidel"
24.07.2007 | 01h59 |

O que dizer, ajude-me caro leitor, da apresentadora global que chama Fidel de ditador e se derrete todinha por Bush? Contextualizando: Dois atletas de Cuba sumiram da "delegação de Fidel", informa a senhorita. Não consigo imaginar ela dizendo o mesmo para outras equipes: "Larissa e Juliana, da delegação de Lula, ganharam o ouro no vôlei de praia". Ou: "Fulano de tal, da delegação de Bush, foi mandado embora porque disse que estava no Congo".

Os atletas cubanos somem e a culpa é do "ditador Fidel". Ainda não se sabe se isso foi coisa de algum dos (vários) serviços secretos que andam soltos pelo Rio de Janeiro, mas para a repórter global a culpa é do "ditador Fidel". Enquanto isso, assassinatos, estupros, torturas e saques seguem fazendo parte da rotina de agressões dos EUA no Iraque. Mas, para a apresentadora global o legal mesmo é bater em Fidel. E depois ela não entende, fica com cara de bunda, quando alguém queima uma bandeira ou explode uma embaixada dos EUA mundo afora: "Tão estranho esse sentimento anti-americano...". E ainda por cima faltou às aulas de geografia.

Atualização (10h19): a apresentadora ainda disse que, num artigo, Fidel teria acusado os atletas desaparecidos de traição, mas no último artigo do presidente cubano publicado em www.granma.cu não há qualquer trecho que lembre esta acusação. Por outro lado, há uma manifestação de pesar e solidariedade de Fidel com o povo brasileiro pelas vítimas do acidente com o avião da TAM - informação que, naturalmente, não passou pelos critérios de seleção jornalística da apresentadora.

Moradores do Alemão reprovam invasões
23.07.2007 | 00h47 |

Marcelo Salles/fazendomedia.com

Daniele Marques, do Raízes em Movimento, entrevista morador da Grota

Você não perde por esperar: amanhã, neste fazendomedia.com, divulgaremos uma pesquisa inédita realizada pelo Grupo Raízes em Movimento em parceria com o jornal Fazendo Media. Das 787 pessoas ouvidas, 91% se manifestaram contra as invasões da polícia no Complexo do Alemão, como a mega-operação realizada no último dia 27 de junho. As entrevistas foram realizadas no dia 21 de julho, entre 11h30 e 13h30, nas favelas da Grota, Pedra do Sapo, Morro do Alemão e Morro dos Mineiros, todas integrantes do Complexo do Alemão.

O resultado desmente pesquisa do Ibope divulgada pelo jornal "O Globo" no dia 10 de julho. A partir dessa pesquisa, o "Globo" deu o seguinte título para a matéria: "População apóia operação da polícia". Acontece que o Ibope não informou onde foram feitas as entrevistas; disse apenas que foram ouvidas mil pessoas por telefone e que 83% apoiavam a invasão da polícia.

Marcelo Salles/fazendomedia.com

Cartaz afixado na subida do Morro do Alemão

Como disse Alan Brum, cientista social e coordenador-geral do Raízes em Movimento, uma pesquisa desta natureza deve ouvir as pessoas que sofreram diretamente a ação da polícia. "Nessa perspectiva, a gente julgou importante que tivesse um retorno da própria comunidade que sofre essa política direta de segurança pública implementada pelo governo do Estado. Então a gente desenvolveu um trabalho de pesquisa dentro do Complexo do Alemão para saber qual a aceitação dessa política de segurança pública de repressão nas favelas do Rio de Janeiro", afirmou.

Por isso a pesquisa realizada pelo Raízes em Movimento em parceria com o Fazendo Media foi ouvir a opinião dos moradores do Complexo do Alemão, in loco. Amanhã, publicamos o resultado completo do levantamento. Aguarde. Desde já quero agradecer a todos os dezesseis pesquisadores que saíram a campo nesta empreitada. Com certeza conseguiram um material essencial para comprovar a distorção do "Globo", que sugeriu que os entrevistados pelo Ibope representam a população inteira ao mesmo tempo em que negaram voz aos principais atingidos pela ação da polícia.

Outro olhar sobre a criminalidade
23.07.2007 | 00h59 |

Na edição deste mês da Caros Amigos há uma entrevista de três páginas que fiz com o delegado Orlando Zaccone, titular da 52ª DP (Nova Iguaçu, Rio de Janeiro). O policial desconstrói a visão de que "prender é a solução" e defende a descriminalização de diversas condutas. Zaccone fala ainda sobre a seletividade da pena, que não pune todos os que cometem delitos, mas apenas os mais vulneráveis (geralmente pobres, negros e favelados).

Na entrevista, o delegado afirma categoricamente: "Hoje, nenhum governo e nenhum chefe de polícia, secretário de segurança tem na prática um modelo de política criminal pra dar solução a esse aumento de criminalidade. Então, os discursos midiáticos passam a ser a maior solução para todos. Ou seja, se coloca na mídia a esperança de que maiores penas seriam a solução. Nós sabemos que não são, porque, depois que foi editada a lei dos crimes hediondos, eles aumentaram. Agora, é muito mais fácil colocar um discurso imediato, porque a política vive muito de discursos imediatos". A revista já está nas bancas, por R$ 8,90.

As violências do "Globo"
23.07.2007 | 00h47 |

Editorial do "Globo" de ontem, intitulado "Desfavelizar": "É essencial que sejam rigorosamente delimitados os territórios ocupados pelas favelas, freando o seu atual crescimento descontrolado"; "O ideal é que os projetos de reurbanização se destinem às grandes comunidades. As demais, menores, podem e devem ser removidas (...)". Em primeiro lugar, ressalte-se a violência do termo "remover", comumente utilizado em relação a objetos e não a pessoas. O grande medo do "Globo" é que as favelas cresçam, porque, dizem, a violência crescerá junto. Ao deixar transparecer esta visão, eles revelam, mais uma vez, sua veia fascista. A favela jamais pode ser associada à violência; quem fala isso é estúpido ou mal intencionado. A violência não está com o morador da favela, está com o Estado na ausência de escola, de hospitais, de saneamento básico para todos. Violência é a não regulamentação do artigo 153 da Constituição Federal, que determina a cobrança de impostos sobre grandes riquezas; violência é o descumprimento do artigo 220, que proíbe monopólio e oligopólio dos meios de comunicação. Violência é a polícia invadir o Complexo do Alemão com 1.350 homens, 3 Caveirões e um helicóptero e matar 19 pessoas com fortes indícios de execuções, atirar num estudante, saquear comércios e invadir residências de moradores. Mas essas violências são aplaudidas pelo "Globo".

O Levante
23.07.2007 | 00h12 |

Acabo de publicar entrevista com Mimil e Gas-PA, músicos do Coletivo LUTARMADA. Eles formam o grupo O Levante, que está lançando seu primeiro CD, intitulado "Temeremos mais a miséria do que a morte". Influenciados por Bertolt Brecht e Carlos Lamarca, eles falam sobre a ditadura, a violência policial e a atuação de ONGs em favelas, entre outros assuntos. Leia a íntegra aqui.

Jogos neoliberais
22.07.2007 | 16h15 |

Isso, vamos comemorar! Vamos dizer que somos brasileiros com muito orgulho e com muito amor! Afinal, estamos em terceiro lugar no quadro de medalhas. Ontem vencemos no vôlei de praia, com um show à parte de Larissa (nunca vou entender porque as cubanas sacaram do início ao fim nela se a brasileira virava todas). Hoje vecemos no vôlei de praia masculino e nosso melhor atleta pegou o microfone para repetir a torcida e levar Galvão Bueno ao delírio: "Hoje eu também tenho muito orgulho de ser brasileiro". Ninguém pensou em pegar esse microfone e, ao vivo, lembrar que o salário mínimo de R$ 380 é desumano? Ou que o monopólio da Rede Globo mantém o Brasil atrasado, autoritário e violento? Ou que o artigo 153 da nossa Constituição determina a cobrança de impostos sobre as grandes riquezas, mas nunca foi regulamentado? Ou que 50% das terras produtivas são controladas por 1%? Ou que o Brasil é vice-campeão mundial em má distribuição de renda?

João Saldanha foi o último grande esportista brasileiro de projeção nacional. Além de ter montado a invencível seleção de 1970, quando um repórter enfiava o microfone em sua boca após uma vitória ele dizia: "É, o Brasil venceu. Mas não podemos esquecer que no Brasil existe uma ditadura que seqüestra, tortura e mata nosso compatriotas". Isso é ser brasileiro, com muito orgulho e muito amor. O resto é conversa fiada, historinha pra engordar os cofres do capital multinacional e associado que lucra com a exploração e a ignorância do povo brasileiro.

ACM não morreu
21.07.2007 | 23h35 |

Antônio Carlos Magalhães pode até estar enterrado, mas só poderemos dizer que ele morreu no dia em que o país se livrar do voto de cabresto, do analfabetismo, da fome e, principalmente, dos oligopólios de mídia. Enquanto esse quadro persistir, ACM estará vivo. Comemorar a morte de um homem, por pior que ele seja, é desumano e não resolve nossos problemas. Vamos suspender as comemorações até que as práticas políticas consagradas pelo carlismo sejam extirpadas do país. E, não se engane, essas práticas hoje são muito mais refinadas e sutis. Por isso mesmo mais difíceis de detectar. Sugiro que todos peguem o telefone e pressionem seus deputados federais que, nesse instante, devem estar às voltas com as renovações das concessões públicas de radiodifusão. Organizar protestos nas ruas, distribuir mensagens eletrônicas e explicar aos amigos e familiares a importância dessa discussão também são medidas que incomodariam bastante o defunto.

Comentário rápido
21.07.2007 | 01h13 |

Na realidade, a direita não vê problemas com o gesto de Marco Aurélio Garcia. Até porque ela pratica seu significado com o povo brasileiro sem nenhum constrangimento. A direita quer a cabeça do chanceler por suas posições políticas, como a defesa da não renovação da concessão da RCTV e a necessidade da democratização da mídia no Brasil.

Mãos ao alto!
21.07.2007 | 01h01 |

Acabo de visitar um amigo que chegou dos EUA, onde está morando há dois anos. Ele e sua esposa têm um plano de telefonia celular da empresa T-Mobile. São dois aparelhos que dividem 700 minutos mensais para serem usados em ligações para aparelhos de outras operadoras em qualquer lugar do país, sem acréscimo de DDD ou deslocamento de chamada. Entre aparelhos da mesma operadora, ele fala de graça enquanto durar o plano. Paga 73 dólares por mês, o que dá menos de 20 centavos por minuto.

No meu caso, que vivo no Brasil, país com salário mínimo 5 vezes menor que o dos EUA, tenho um plano Super-Controle da Claro. Pago 55 reais por mês para falar por uma tarifa de 1,13 reais para outras operadoras e 0,50 para a mesma. Além disso, tenho um bônus de 25 reais para ser usado exclusivamente entre aparelhos da mesma operadora. Para fazer ligações para outros estados a tarifa é muito maior.

Aconselhar não é censurar
19.07.2007 | 11h40 |

CartaCapital publica excelente entrevista com Cecilia von Feilitzen, na edição do último final de semana. Ela é coordenadora científica da International Clearinghouse on Children, Youth and Media, criada em 1997 pela Unesco para monitorar o cumprimento da Convenção dos Direitos da Criança e do Adolescente no que diz respeito a programas de televisão, internet e jogos eletrônicos. Para Cecilia, "definir o que é aconselhável para crianças não tem nada a ver com cerceamento de liberdade".

Deixo aqui a primeira pergunta, feita por Ana Paula Sousa, e a resposta de Cecilia:

No último anuário da Clearinghouse, é citada uma pesquisa que mostra a relação entre os programas infantis e o aumento da obesidade e até diabetes do tipo 2 na infância. A mídia tornou-se um problema de saúde pública infantil?

Sem dúvida. A televisão tem também aspectos positivos, mas, em muitos países, pode ser considerada uma questão de saúde pública, pois determina certos padrões de comportamento das crianças e adolescentes. E não estamos falando apenas dos programas infantis. A partir dos 7 ou 8 anos, é comum que as crianças queiram ver o que os pais vêem, de reality shows a programas violentos e, pela televisão, comecem a conhecer o mundo. O problema é que eles são menos críticos e mais impressionáveis que os adultos.

Complexidades
19.07.2007 | 11h26 |

Anteontem escrevi que existe uma diferença fundamental entre o presidente da OAB/RJ, Wadih Damous, e o presidente da Comissão de Direitos Humanos, João Tancredo. Este esteve no Complexo do Alemão para ouvir as vítimas da violência policial, enquanto Wadih acompanhava os fatos pelas corporações de mídia. Pois bem. Ontem a página da OAB solta uma nota com o título "Presidente da OAB/RJ vai ao Complexo do Alemão. Na primeira página, o texto continua: "O presidente da OAB/RJ, Wadih Damous, encontrou nesta quarta membros da Associação dos Moradores da Vila Cruzeiro, próximo ao Complexo do Alemão. Wadih conversou com os moradores sobre a instalação de uma Casa da Cidadania da OAB/RJ para levar orientação aos cidadãos". Clicando na nota, o texto muda: "O presidente da Seccional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) do Rio de Janeiro, Wadih Damous, se encontrou com membros da Associação dos Moradores da Vila Cruzeiro, no Complexo da Penha, próximo ao Complexo do Alemão, zona norte do Rio de Janeiro".

Como se sabe, Complexo do Alemão e Complexo da Penha são dois lugares diferentes. Se alguém visita um e diz que visitou outro cometeu um engano. Se a jornalista que redigiu a nota escreveu no título que o presidente da OAB/RJ visitou o Complexo do Alemão e, lá dentro, escreve que ele visitou o Complexo da Penha, "próximo ao Complexo do Alemão", este jornalista comete um erro grave (para não dizer que foi antiético). Entretanto, para quem se informa exclusivamente pelas corporações de mídia, é tudo a mesma coisa. É tudo um bando de "pobre carente".

Na mesma hora em que li a nota telefonei para minha fonte no Alemão e ele confirmou: "O presidente da OAB foi à Penha, não veio aqui".

Deutschen Waffen-und Munitionsfabriken
18.07.2007 | 23h20 |

Esse é o nome da fábrica onde foi produzida a cápsula de uma bala de 9mm Luger que encontrei no Morro do Alemão. O nome do inventor é Georg Luger, que introduziu a novidade na Alemanha em 1902. De lá pra cá, os modelos foram sendo melhorados. Mas, a pergunta é: quem ajudou o senhor Luger a vender sua invenção para o Brasil? Será que o Secretário de Segurança Pública do Rio ou alguém da Polícia Federal saberia responder?

OAB exonera João Tancredo; cabe recurso
18.07.2007 | 13h30 |

Como este blog havia adiantado ontem, o presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB/RJ, João Tancredo, acaba de receber (11h55), por fax, a carta de exoneração. O documento está assinado por toda a diretoria: Wadih Damous (presidente), Lauro Mário Perdigão Schuch (vice-presidente), Marcos Luis oliveira de Souza (sec. geral), Marcelo Feijó Chalreo (sec. adjunto) e Sergio Eduardo Fisher (tesoureiro).

Entretanto, João Tancredo afirma que o artigo 96 do regimento interno - no qual a exoneração está fundamentada - determina que os conselheiros só podem ser destituídos pelo Conselho Seccional. Ele vai entrar com um recurso para anular a exoneração.

A carta de exoneração:

O presidente da OAB-RJ resolve, no uso das atribuições previstas nos artigos 45 (inciso 25) e 96 do regimento interno dessa seccional, após ouvir a diretoria, exonerar o advogado João Tancredo da presidência da Comissão de Direitos Humanos.

Enquete sobre o acidente da TAM
17.07.2007 | 21h44 |

Assumindo que o problema tenha sido mesmo com a pista de pouso, ainda inacabada, pergunto: de quem é a responsabilidade?

A) Da Infraero, por ter liberado o uso da pista;
B) Das companhias aéreas, por terem pressionado para que a pista fosse liberada e seus lucros não fossem sacrificados.

PS: Recomendo a leitura do artigo de Laerte Braga, que conseguiu produzir com agilidade uma análise ampla a partir do acidente com o avião da TAM.

PS: Não entendi a consternação de William Wack, no Jornal da Globo. Ele e outros jornalistas batem o quanto podem nos controladores de vôo e vivem defendendo os lucros da iniciativa privada acima de qualquer coisa (inclusive da segurança), e agora cobram as autoridades públicas? O mesmo acontece com relação à classificação indicativa. Ao atacar a medida ao ponto de inviabilizá-la, estão colaborando para a formação de uma nova geração de psicopatas, como esses bandidos que agrediram a empregada doméstica. A relação é clara como as chamas de uma explosão; só não vê quem não quer. Isso pra não falar do absurdo da existência do aeroporto de Congonhas naquela localidade, cercado de prédios por todos os lados.

PS: Também recomendo o texto de Luiz Carlos Azenha a respeito.

OAB quer exonerar João Tancredo
17.07.2007 | 19h30 |

Acabo de conversar com João Tancredo, presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB/RJ. Ao que tudo indica, a diretoria da entidade vai exonerá-lo do cargo na quinta-feira (19). João tem sofrido uma série de pressões desde que passou a investigar a fundo a Chacina do Alemão. Ele me disse não ter dúvidas de que houve execuções da polícia. Primeiro, sofreu ameaças anônimas por telefone e e-mail. Depois, sua sala de trabalho foi invadida e alguém acessou sua senha no computador sem a sua autorização. Agora a OAB quer removê-lo da Comissão de Direitos Humanos, pela única razão de estar fazendo seu trabalho.

Talvez porque a Ordem estivesse há anos distante do povo, alguns estejam estranhando o excelente trabalho desenvolvido por esta Comissão de Direitos Humanos. Comissão que, aliás, é uma das mais plurais de todos os tempos, com 108 integrantes de diversas organizações como MST e Grupo Tortura Nunca Mais.

O presidente da OAB/RJ, Wadih Damous, divulgou nota na semana passada desautorizando a Comissão de Direitos Humanos. Acontece que Wadih não visitou o Complexo do Alemão depois da matança, ao contrário de João Tancredo. Wadih está comentando os fatos a partir do que lê na imprensa e, apenas por isso, não é razoável supor que ele disponha das mesmas informações de quem esteve lá. Por qual seja a razão, o presidente da OAB recebeu uma página bastante elogiosa no "Globo" de sexta-feira passada, a propósito de um debate sobre impunidade (quanta ironia!).

Acontece que a cobertura da imprensa carioca da Chacina do Alemão foi "vergonhosa", nas palavras de Vera Malaguti, socióloga e professora de criminologia: "vai ficar para a história, e a história é cruel porque a verdade sempre aparece", completou. Nos três dias seguintes à Chacina, o "Globo" usou 95% do espaço destinado ao assunto para justificar e até elogiar a matança. No primeiro momento, o discurso do governador Sérgio Cabral era "Não houve execuções". Após a divulgação dos laudos (depois de muita pressão de João Tancredo), o discurso mudou. Agora que havia fortes indícios de execuções, o governador falava: "Eram todos bandidos", o que contradizia a lista da própria Polícia Civil. Ainda que fossem todos bandidos, trata-se de um discurso claramente fascista!

A última movimentação da Comissão de Direitos Humanos foi solicitar ao Ministério Público que investigasse a destruição de provas por parte da polícia (desmonte do local e destruição das roupas dos mortos) e requerer que a Organização dos Estados Americanos enviasse um representante para acompanhar as investigações.

João Tancredo está mexendo com muitos interesses, e ele sabe disso. Este advogado vai entrar para a história do país, seja qual for o desfecho desse vergonhoso episódio, dessa Chacina que mancha a já combalida democracia brasileira. E ele já disse que mesmo sendo afastado vai continuar a investigação até o final. A Comissão de Direitos Humanos da OAB estuda ainda uma renúncia coletiva, caso a intolerância, o autoritarismo e a agressividade da atual diretoria prevaleçam. Para exonerar alguém, a direção não precisa de justificativas. Por isso, o objetivo dos integrantes da Comissão é fazer o maior barulho possível, para mostrar quem está ao lado da transparência nas investigações e quem está ao lado da omissão, do obscurantismo e do acobertamento promovido pelo governo do Estado com o apoio descarado das Organizações Globo.

Se você é leitor do Fazendo Media e realmente se importa com o futuro deste país, envie essa mensagem para seus amigos e suas listas de discussão. Telefone para o Ministério Público e incentive os outros a fazerem o mesmo. O telefone é (21) 3266-9000 ou 3266-9300. Pergunte como andam as investigações. Diga que é um brasileiro preocupado com o futuro do país. Telefone para a OAB/RJ, o telefone é (21) 2272-2002. Manifeste seu apoio a João Tancredo e à Comissão de Direitos Humanos e repudie a exoneração desse grande brasileiro. Mesmo que eles não mudem de idéia, cada telefonema fará uma enorme diferença.

Assim que tiver novas informações volto ao assunto. Aos que telefonarem, peço a gentileza de enviarem as informações obtidas para salles@fazendomedia.com.

***

Atualização (18/7 - 14h26): Estou suprimindo o relato da breve entrevista que fiz com o presidente da OAB/RJ, Wadih Damous. Como eu anunciei que estava fazendo uma matéria para a Caros Amigos (como de fato estou), a assessoria de imprensa da Ordem alegou que é direito do entrevistado saber para que veículo ele está falando. Expliquei à assessoria que, no momento da entrevista, não tinha intenção de publicar esta informação neste espaço, mas em razão dos últimos acontecimentos, achei conveniente dar a matéria o quanto antes, já que a próxima Caros Amigos só será publicada em agosto. Como a carta de exoneração saiu hoje, os fatos comprovaram que a decisão de publicar a informação ontem foi acertada. É uma forma de garantir aos leitores o direito à informação. Como prova de boa vontade de minha parte, e em consideração ao telefonema da Ordem dos Advogados do Brasil, estou retirando o breve relato do presidente Wadih Damous. E deixo claro que este espaço está aberto para suas futuras manifestações, caso assim o deseje.

Do Complexo do Alemão ao Leblon
17.07.2007 | 07h19 |

Mesmo correndo o risco de não ser mais convidado para tomar vinho francês, sinto-me na obrigação de contar essa história. É o seguinte: tive um final de semana atípico. Neste domingo, amanheci no Morro do Alemão, com pessoas agradabilíssimas, e jantei num refinado espaço no Leblon, com tudo pago pelo dono da casa (até porque, se não fosse, eu não teria grana para pagar). No mesmo dia, fui do menor ao maior IDH do Rio de Janeiro. Lá pelas tantas, sua jovem esposa contou, indignada, que um vendedor queria cobrar R$ 4,00 num item (água, cerveja ou refrigerante, agora não lembro) enquanto em sua camisa estava escrito R$ 3,50. Pelo que entendi, eles estavam assistindo a algum jogo do Pan. Seu marido interrompe e avisa, igualmente indignado: "fui atrás do cara. Ele contou a mesma história. Aí falei com ele: hoje é o primeiro dia e você está começando mal. Vou te entregar lá na frente. Claro que não fiz isso, porque seria muita confusão, mas agora ele não faz mais isso, não. Não faz mesmo!".

Eu sei lá em quantas rolhas francesas cabem R$ 0,50. Mas sei que aquele vendedor provavelmente mora num espaço popular como o Morro do Alemão e enfrenta as dificuldades típicas desses lugares. Dificuldades, por exemplo, como a desse trabalhador da foto aí embaixo, que muitas vezes tem que subir e descer o morro com um botijão de gás nas costas. Eis aí um retrato do Brasil que muitos não querem enxergar. Não apenas o fato de algumas garrafas de vinho apreciadas no Leblon custarem o preço de uma casa na favela. Chama a atenção essa mentalidade dos mais abastados, que reclama cinqüenta centavos, mas também apóia as matanças em favelas, apóia a redução da maioridade penal, apóia o boicote à classificação indicativa e depois diz que o país está desse jeito por causa do povo.

Por dentro das eleições da Fenaj
17.07.2007 | 06h20 |

Ontem, por força das circunstâncias, acabei presenciando uma reunião entre as duas chapas que disputam as eleições da Federação Nacional dos Jornalistas, a Fenaj. De um lado, pela Chapa 1, Beth Costa. Ela é editora de internacional do Jornal Nacional e integrante da atual gestão da Federação. De outro, pela oposição, Cláudia de Abreu e Mário Augusto Jakobskind.

As duas chapas não chegavam a um acordo quanto à indicação dos mesários. A Chapa 1 não aceitava que a Chapa 2 suspeitasse de que os mesários poderiam interferir a favor da situação. Já se passava das 15h (o pleito começou pela manhã no Brasil todo) e nada de acordo. Quando tudo parecia perdido, fiz uma proposta: "bem, já que o problema é o argumento, por que vocês não mudam o argumento? Pelo que entendi esse é o único problema". Beth, Cláudia e Mário concordaram. Eleição que segue.

Já no final da tarde, fui convidado para ser mesário e acompanhar uma urna até a TVE, na Rua Gomes Freire. Com o único intuito de colaborar com o andamento das eleições, que já estavam atrasadas no Rio, aceitei. Como chovia, solicitei dinheiro para o táxi. A Sônia negou, disse que era pertinho e que bastava pegar um ônibus ou ir andando. Descemos eu e o outro mesário. Como chovia intensamente, disse a ele que não seguiria. Até porque já estava começando a ficar com febre e acho que a contratante do serviço deveria se responsabilizar pelo deslocamento da urna e dos mesários. Voltei e expliquei a situação. A Sônia, enfim, deu-me R$ 20,00 e a sentença: "Pega o recibo para prestar contas".

Chegamos à TVE e fomos instruídos a procurar Renata. Ela foi a única a votar, numa Redação com cerca de 20 pessoas. Enquanto olhava a cédula, perguntou ao outro mesário: "É na Chapa 1 que eu tenho que votar, né? A nossa é a Chapa 1, certo?". O mesário ficou constrangido: "Não sei, não posso me meter".

***

Quando estive no Ministério Público do Trabalho, há cerca de dois meses, fiquei sabendo pela procuradora Ericka Duarte que o Sindicato dos Jornalista do Rio se omitiu, em pelo menos uma ocasião, quando um funcionário da TV Globo processou a empresa. A única maneira de seguir com a ação, explicou Ericka, era pelo Sindicato, hoje composto pelo pessoal afinado com a Fenaj.

***

Beth Costa é uma pessoa simpática e tem uma conversa agradável. Contou que William Bonner freqüentemente se refere a ela como "a comunista" e que enfrenta várias situações adversas na Redação do JN. Numa delas, conta, pediu que as matérias sobre Hugo Chávez fossem passadas para outro editor porque ela não concordava com o que estavam fazendo. Também contou do lobista da Globo em Brasília, o Evandro Guimarães, que exerce grande influência junto a parlamentares (sobretudo do PFL). Beth contou também que teve problemas e ficou oito anos afastada da Globo após seu depoimento para o documentário Muito Além do Cidadão Kane. Ao fim e ao cabo, prometeu-me uma entrevista. De todo modo, quero deixar registrado: não vejo coerência em ser, ao mesmo tempo, editor (cargo de confiança) e dirigente sindical. Não dá pra servir a dois senhores ao mesmo tempo.

Visto assim do alto...
16.07.2007 | 00h49 |

Dessa vez suei um pouco menos até encontrar essa vista, no Morro do Alemão. Devo estar ficando acostumado. Fiz a foto no sábado (14), bem perto da entrada da nova sede do Grupo Raízes em Movimento.

O grafitteiro Bidu dá um descanso para as latinhas e pinta o cartaz de boas vindas do Raízes.

O Raízes em Movimento abriu no sábado (14) as inscrições para as oficinas de violão, tecelagem e fotografia. Na foto acima você vê o instrutor de fotografia, Sadraque Santos, mostrando seu trabalho à Jéssica Vosburgh, uma simpática estudante estadunidense de ciências sociais (Brown University), que será voluntária do Raízes.

Em primeiro plano, Daniele Marques faz uma demonstração com a máquina de tear. Ela vai coordenar a oficina de tecelagem. Ao fundo, a turma da oficina de violão.

Nessa foto, um trabalhador carrega um botijão de gás nas costas. Um trabalhador como 99,8% dos caras do local, ou 249.550 pessoas (já que a polícia divulgou que são 450 traficantes varejistas no Complexo do Alemão). Do pé ao topo do morro são 138 metros, sendo que alguns trechos são bastante íngremes. E eu achando minha mochila pesada...

Sol quadrado na Folha
16.07.2007 | 00h33 |

Excelente reportagem de Márcia Brasil, publicada na Folha de S. Paulo deste domingo (página C4), a respeito do excelente trabalho desenvolvido pelo delegado Orlando Zaccone na 52ª DP (Nova Iguaçu/RJ). A matéria só não ficou completa porque, assim como O Dia, esquece de citar todos os integrantes do jornal Sol Quadrado - Também Brilha. Além disso, ao contrário do que foi publicado, a primeira edição não teve participação dos detentos. Nosso objetivo é que as próximas edições sejam divididas entre textos de quem está fora com textos e/ou desenhos de quem está dentro. Entretanto, nada disso compromete a bela reportagem da Márcia.

Iluminado seja o Rio de Janeiro
13.07.2007 | 22h27 |

Ao fundo, a tropa de choque protege a entrada principal da Prefeitura do Rio de Janeiro. Em primeiro plano, o solzinho sinistro representa um lado do Pan que as Organizações Globo, a Prefeitura e os governos estadual e federal querem esconder. Bati essa foto hoje à tarde, durante o protesto que passo a narrar abaixo.


O prefeito se enganou nas contas

No início da década de 1990, César Maia disse que se vestiria de baiana e rodopiaria pela comunidade caso não conseguisse despejar as famílias que vivem na Vila Autódromo, em Jacarepaguá. De lá pra cá foram ao menos três tentativas frustradas. A Prefeitura mobilizou desde tratores a advogados, passando pela grana das empreiteiras, mas a Vila Autódromo segue firme, de pé. Nem com o pretexto do Jogos Pan-Americanos os homens do prefeito lograram êxito. Quando visitei este pequeno conjunto habitacional de aproximadamente 500 famílias, ouvi dos mais velhos a justa cobrança: "Estamos esperando a baiana Maia desfilar".


Tropas de choque

Nesta quinta-feira (12), o prefeito do Rio de Janeiro foi perguntado a respeito da manifestação organizada para hoje, que tinha o objetivo de criticar a violência contra os trabalhadores e os gastos bilionários com o Pan. E assim respondeu César Maia: "É um besteirol que não juntará mais de 300 pessoas. São os mesmos de sempre, que têm até firma reconhecida de ´passeateiros´. A mobilização demonstrará se eles têm apoio ou se são os militantes profissionais de sempre".


Camponeses relembram os companheiros assassinados

Pois é. O besteirol juntou cerca de mil pessoas em frente à Prefeitura, ali no prédio da Av. Presidente Vargas, conhecido como Piranhão. A concentração começou às 11h e até as 14h foi juntando gente. Vinham de todos os lados, eram de todo tipo: sem-terra, sem-teto, sindicalistas, professores, estudantes, servidores públicos em geral e até palhaços. Esses protagonizaram um show à parte. Auto-intitulado "Exército de palhaços", o grupo apitava, cantava, pulava... Um palhaço perguntava, diante da polícia: "Hoje tem caveirão?". Os outros, em coro: "Teeeeem". Hoje tem violência policial? "Teeeeem". Hoje tem invasão no Complexo do Alemão? "Teeeeem". E hoje tem almoço? "Nããããão". E no auge da apresentação, atiraram uma esquadrilha de aviõezinhos de papel em direção à tropa de choque, para em seguida caírem (literalmente) em gargalhadas deles mesmos.


Um pouco de hip-hop com o coletivo LUTARMADA

Enquanto isso, parlamentares, sindicalistas e representantes de movimentos sociais dividiam o palco com músicos. Em uma das apresentações, Gas-PA e Mimiu, do coletivo LUTARMADA, cantaram os versos que sintetizaram o sentimento dos manifestantes: só mesmo uma revolução para colocar o Brasil nos eixos.

Era isso. Até ali o ato servira para mostrar que parte expressiva da sociedade não tinha motivos para comemorar os Jogos Pan-Americanos. Gente que sabe das falcatruas e das agressões da Prefeitura e dos governos estadual e federal contra os trabalhadores (caveirão, salário mínimo de R$ 380,00, desemprego e sub-emprego, entre outras formas de opressão). Gente que sabe como funciona a atual política econômica, que favorece banqueiros e especuladores em detrimento dos verdadeiros responsáveis pela produção das riquezas. Gente que conhece o papel das corporações de mídia, essencial para manter o povo desinformado e alienado de sua própria condição.


Tropa de choque

Ali perto, no Maracanã, a organização dos Jogos cuidava dos últimos preparativos. A TV Globo, sócia do evento, escalou Fátima Bernardes e Galvão Bueno para ancorar a festança. Tanto era o entusiasmo que o narrador chegou a cogitar que a interpretação do hino nacional por Elza Soares teria sido a melhor de todos os tempos. E na hora de elogiar a belíssima atleta argentina, que portava a bandeira de seu país, o sapientíssimo Galvão se embaralhou todo para pronunciar "bela" em espanhol. Deve ser a emoção causada pelo magnânimo evento, cujos organizadores se esmeram ao infinito no cuidado com as aparências. Até o cabelinho do Arnaldo Antunes estava comportado.


E os manifestantes? Sim, os manifestantes. Pouco depois das 14h, alguém anunciou no microfone que a passeata teria início. Esse alguém, que atende pelo nome de Cyro Garcia, informou que "após uma reunião rápida a direção decidiu ir em direção à Candelária". Causou indignação. Muitos queriam ir para o Maracanã. Vaias. "Nós avaliamos que não temos correlação de forças para ir para o Maracanã", informou Cyro. Em resposta, palavras de ordem: "Se esse ato é contra o Pan, a gente tem que ir pro Maracanã". Num piscar de olhos, pancadaria. Eu devia estar a dois metros do centro da confusão. O Samuca, fotógrafo sindical, acabou levando uma pernada e caiu. E o movimento, que tinha começado tão bem, elogiado por todos por sua unidade, acabou dividido. O carro de som foi para a Cinelândia e um grupo ficou para decidir se tomava o caminho do Maracanã - o que, agora, seria extremamente arriscado pelo reduzido número de pessoas.


Vista da passarela

Houve quem classificasse como golpe a decisão de não ir para o Maracanã. De fato, o itinerário não foi decidido coletivamente. E conforme íamos caminhando pela Av. Presidente Vargas, dava para ver que estava tudo armado. A polícia fechava uma pista para os manifestantes, agora acusados de pelegos, passarem.


O Exército de Palhaços marcou presença

A decisão de tomar o caminho oposto ao Maracanã não tira o mérito do ato; seu sentido político está preservado. Mas é muito difícil compreender por que um protesto contra as violências implementadas com o pretexto do Pan não tomou o rumo da festa de inauguração. Não com o objetivo de enfrentar a polícia, mas para mostrar aos atletas, aos turistas e à imprensa estrangeira que nem todos os cidadãos cariocas concordam com a maneira como o Pan foi organizado. Eu, se fosse o prefeito, o governador ou o presidente, ficaria muito contente com o afastamento dos manifestantes.


Tropa de choque


Que entrevista! Repórter da TV Record em ação

As verdadeiras rádios piratas
13.07.2007 | 01h59 |

Aproveitando a campanha das corporações de mídia contra as rádios comunitárias e livres, pejorativamente chamadas de "piratas", quero deixar registrado que as seguintes emissoras comerciais encontram-se com suas outorgas vencidas: Empresa Fluminense de Comunicação LTDA (BandNews no RJ), Rádio Excelsior Ltda, Rádio Gaúcha S.A., Rádio e Televisão Record S/A, Rádio e Televisão Bandeirantes LTDA e Rádio Cultura de Campinas (freqüência utilizada pela CBN, empresa das Organizações Globo).

Este levantamento, todo baseado em informações da própria Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), será publicado em breve aqui no fazendomedia.com ou em nosso jornal impresso. Há casos em que a rádio está com a outorga vencida há 17 anos.

Enquanto a Anatel e a Polícia Federal agem com truculência contra as rádios de baixa potência, as comerciais seguem impunes. Acontece exatamente como descrito no livro "Piratas & Imperadores", de Noam Chomsky: se você está um pouquinho fora do regulamento, então o senso comum diz "pirata". Por outro lado, se você está muito fora do regulamento, mas detém o poder, então você passa de "pirata" a "imperador" e ninguém incomoda.

Unesco critica Sete Maravilhas
13.07.2007 | 01h34 |

A Unesco lembra que essa campanha foi lançada há sete anos pela iniciativa privada de Bernard Weber e assinala: "Não podemos comparar a campanha midiatizada do Sr. Weber e o trabalho educacional e científico que são conseqüência da inscrição de sítios na Lista do Patrimônio Mundial da UNESCO". Para saber mais sobre essa "farsa em escala global" (El Mundo), visite o blog do Azenha.

Dia distorcido e ensolarado
13.07.2007 | 01h23 |

Ativistas da Rede Contra a Violência denunciaram, nesta quinta-feira (12), que o jornal "O Dia" distorceu as declarações de Joel Valentim a respeito dos desenhos do Cauê, mascote do Pan, com fuzil a tira-colo. A reportagem do diário carioca afirma que ele é o autor da ilustração, a tal que irritou o "Globo" de anteontem (ver nota abaixo). A Rede Contra a Violência avisa ainda que o texto pode ser usado como suporte para ações arbitrárias da polícia: "Ontem circulavam boatos de que a Polícia Federal estava 'caçando' grafiteiros".

Em nota enviada ontem ao jornal, a Rede afirma: "O companheiro Joel Valentim, a companheira Antônia Ferreira dos Santos e vários outros moradores e moradoras da Ocupação Zumbi dos Palmares, afirmam que 'em nenhum momento deram qualquer declaração ao jornal admitindo a autoria dos grafites executados no Maracanã e outras partes da cidade', conforme informa falsamente a matéria".

Falando no "Dia", esse mesmo jornal registrou domingo (8) o surgimento do jornal Sol Quadrado - Também Brilha, idealizado pelo delegado da 52ª DP (Nova Iguaçu) Orlando Zaccone. Nesta quinta-feira (12), O Dia voltou a divulgar o Sol, dessa vez na página 2, com um texto maior e ilustrado. Acontece que O Dia omitiu alguns nomes da equipe inicial do jornal. Melhor pra mim, que fico incógnito. Bem diferente fez o jornalista Fernando Torres, da Secretaria de Segurança Pública. Ele escreveu uma bela reportagem sobre essa iniciativa do Zaccone - um delegado que merece aplausos por tudo o que vem realizando.

PS: Na edição desse mês da Caros Amigos há uma entrevista de 3 páginas com o delegado Orlando Zaccone, concedida a mim. Crítico do discurso punitivo, o titular da 52ª DP fala sobre a injustiça na aplicação da pena, comenta suas iniciativas de redução de danos no cárcere e avisa: "O que está sendo feito hoje na área de segurança são discursos que tentam levar a sensação para a população de que é possível ser feito algo sem se alterar a estrutura econômica e social que foi montada".

A face oculta dos Jogos Pan-Americanos
12.07.2007 | 00h01 |

O "Globo" de ontem (11/7) estava furioso com a intervenção artística em frente ao Maracanã. É que nem todo mundo no Rio de Janeiro é massa de manobra, para desgosto da família Marinho. Tem gente que sabe muito bem qual é o esquema dos Jogos Pan-Americanos. Gente que sabe das ameaças de despejo, dos desvios de dinheiro público, do terrorismo da polícia contra quem mora em favelas. Aí um grupo resolveu pintar o Cauê, mascote do Pan, com um fuzil na mão. Nada mais apropriado, nada mais fiel à atual conjuntura da cidade. Em nome do Pan, massacram a maioria para que uma minoria se divirta.

Mas para o "Globo" de ontem, tratou-se de ato de vandalismo. Além de um grande destaque na primeira, rendeu matéria na página 13 quase toda e quatro repórteres destacados para a cobertura. Título: "Símbolo do Pan na mira de Vândalos". Ao que parece, a "ocorrência" será registrada como "dano ao patrimônio público".

Tudo isso porque Cauê, o simpático solzinho estampado em inúmeras peças publicitárias e objetos de consumo, finalmente assumiu sua verdadeira face. O artista de rua fez o traço perfeito. Rosto zangado, fuzil a tira-colo, o solzinho abandona sua simpatia e mostra aos atletas e espectadores dos jogos o que acontece do outro lado da cidade. Lá onde os holofotes não chegam, um lugar que esses administradores, com apoio irrestrito do Sistema Globo, fazem de tudo para esconder. Do alto de sua desfaçatez, os pretensos donos da cidade não podem permitir que o verdadeiro Cauê apareça para o grande público, para a mídia estrangeira e para os atletas.

São muito machos na hora de oprimir os fracos, mas não passam de covardes quando têm seus métodos expostos.

PS: Confira as medalhas que o Brasil já conquistou antes mesmo do início dos Jogos: http://www.youtube.com/watch?v=N3_5TyJlQ4w.

Jovem é assassinado no Jacarezinho
11.07.2007 | 23h30 |

Leandro Silva Davi, de 16 anos, foi assassinado na manhã desta quarta-feira, dia 11, quando preparava o café da manhã dentro da sua casa. A bala que o matou atravessou a janela da residência que dá para a Praça da Concórdia, de onde partiam os tiros da operação policial.

O jovem era estudante e treinava futebol no clube do São Cristóvão. O tiro atingiu a região do coração.

"Por volta das 6 horas escutei os tiros. Era uma operação policial. Às 8 horas eles voltaram e entraram atirando. A minha casa fica a cem metros da casa do rapaz", relatou uma moradora à Rede Nacional de Jornalistas Populares. "A família do rapaz está inconformada de ver o Leandro ser tratado como traficante pelos meios de comunicação e aceita conversar com a imprensa", disse. O rapaz foi levado para o hospital pela tia Maria Teresa Monteiro.

As informações são da Rede Nacional de Jornalistas Populares (www.renajorp.net).

Grupo de discussão dos assinantes do FM
11.07.2007 | 04h35 |

A partir de agora os assinantes do Fazendo Media podem participar de um grupo de discussão sobre mídia e política com os integrantes do jornal. Nesse espaço, vamos aceitar sugestões de pauta e traçar coletivamente estratégias e diretrizes a serem seguidas, além de promover a integração entre assinantes e membros da equipe. Para mais informações, clique aqui.

Uma conversa distraída e 2 perguntas
11.07.2007 | 01h57 |

Durante minha ida ao Morro do Alemão, presenciei uma conversa distraída entre três moradores. Eles riam de reportagens sobre a favela, um sorriso espontâneo, sem deboche, e comentavam: "pôxa, tem uns que escrevem 'tiroteio no alto da Grota'. Mas a Grota é uma favela plana, como o próprio nome sugere". O outro retruca: "Pois é, às vezes acontece alguma coisa aqui embaixo e eles escrevem que é no Complexo da Penha; ou então tá na Vila Cruzeiro e diz que é Complexo do Alemão".

Esse pequeno detalhe revela o desconhecimento da grande maioria dos jornalistas acerca do que escrevem. E isso tem um efeito multiplicador extremamente danoso à sociedade, que será mal informada e passará a formar opiniões deturpadas.

Pior, os problemas decorrentes dessa ignorância jornalística vão além do contexto geográfico. A maneira como é construído o discurso a respeito das favelas associa o morador dos espaços populares a bandidos e estes a monstros que devem ser eliminados. Isso explica, por exemplo, o que ouvi de um amigo quando mostrei as fotos abaixo: "Ué, não roubaram a sua câmera? Mas na favela só tem bandido...". E isso explica também o discurso do governador do Estado, Sérgio Cabral, ao se ver diante dos laudos que comprovam execuções sumárias e tortura: "Eram todos bandidos".

O governador, ao proferir este discurso, contraria a versão de sua própria polícia, que divulgou a lista de 19 mortos separadas em três categorias: "menores", "com antecedentes" e "sem antecedentes". Eram 11 com antecedentes. Se eu for usar as versões dos moradores do Alemão (que até agora possuem a versão mais plausível), a coisa fica ainda pior: seriam apenas 8 bandidos. Mas vamos ficar com os números oficiais, por ora.

Sendo assim, eu gostaria de fazer duas perguntas, em público, ao governador (já que não adianta pedir entrevista - na semana passada foram cinco pedidos à Secretaria de Segurança, todos ignorados): 1) Senhor governador, desde quando, num Estado Democrático de Direito, o Poder Executivo está apto a julgar o cidadão? Não caberia ao Poder Judiciário resolver, após garantir amplo direito de defesa, quem é e quem não é bandido? 2) Senhor Sérgio Cabral, pode-se inferir de vossa fala que o Poder Executivo Estadual do RJ concorda com a tortura e a execução de bandidos?

* * *

Em tempo: sugiro a leitura do artigo do advogado Fábio de Oliveira Ribeiro.

O manual de guerrilha do "Globo"
10.07.2007 | 09h55 |

Dia de domingo, vendagem ampliada, o "Globo" estampa no coração da primeira página ilustrações toscas de táticas de combate, acompanhadas da manchete: "Alemão usa manual de guerrilha feito por militar". Na manhã do dia seguinte, ontem, o secretário de Segurança Pública anunciou que o "manual" apreendido pela polícia comprovava a necessidade das investidas policiais contra o Complexo do Alemão.

Taí, não deixa de ser uma metáfora curiosa. Justifica-se a matança promovida pela polícia a partir de rabiscos rudimentares, que lembram o traçado de uma criança. Uma explicação infantil. Assim como infantil é esse joguinho feito entre Globo e governo do Estado, justo no momento em que os laudos comprovam que pessoas foram torturadas e executadas a sangue frio, inclusive com tiros pelas costas, no dia 27 de junho. Interessante...

Isso prova que os moradores, em quem o "Globo" nunca acredita, estavam falando a verdade. E a polícia estava mentindo. E o governo do Estado e seus burocratas estavam mentindo. Mas o "Globo" deu 95% do espaço para sustentar essas mentiras, nos dias seguintes à matança. E os outros 5% eram coisas do tipo: "moradores afirmam que teriam...", assim, sempre no futuro do pretérito, que é o jeito do jornal publicar uma informação em que não acredita ou que deseja desqualificar. Mas de repente os laudos com provas gravíssimas saem de cena e entra esse "manual de guerrilha".

Para completar o serviço, o "Globo" publica mais uma chamada na primeira página, onde se anuncia com espanto: "O manual 'ensina até como monitorar as frequencias de rádio da polícia'". Ora, ora, quanta hipocrisia... Qualquer foca sabe que os jornalões monitoram a freqüência da polícia. A ordem é ter sempre alguém na "escuta" e quando ouvir um "triplo uno", que significa homicídio, telefonar para a polícia, mentir dizendo que alguém ligou fazendo a denúncia, e pegar mais informações. Então que grande escândalo é esse? Vamos brincar de sensacionalismo também: "Jornalões monitoram freqüência da polícia". Aí na seqüência alguém telefone para a polícia federal, anuncia o "furo" e pergunta: "Ei, vocês não vão fazer nada?" Que tal?

No jornal de hoje, o tal manual de guerrilha continua rendendo. Manual, aliás, que a polícia já conhecia há dois anos. Mas de repente virou novidade pro "Globo". Hoje a chamada de capa, assustadíssima, avisa que o "chefe" do tráfico tem mais seguranças (38) que o presidente da República e quase o mesmo número de agentes (40) que protegem o maior tirano da história, George Bush.

Até quando o "Globo" vai usar esse manual? Até a polícia promover um novo massacre na favela, matando e ferindo pessoas que não tem nada a ver com o tráfico varejista? Se você aí quiser telefonar para o "Globo" para comunicar seu descontentamento com essa incitação ao crime, o telefone é (21) 2534-5000. Deixe um recado para Rodolfo Fernandes, o editor-chefe.

Paisagens do Rio de Janeiro
09.07.2007 | 04h25 |

Uma das vistas do topo do Morro do Alemão, que compensou a caminhada de uns 40 minutos, passo apertado. Cheguei suando aos píncaros, mas valeu a pena. No alto, a Igreja da Penha registrada por minha pequena Olympus.

Diálogo e Comunicação da Favela
09.07.2007 | 04h07 |

Esse graffiti está no Morro do Alemão e foi fotografado por Sadraque Santos. Repare na criatividade do artista: o cano de água virou a boca do boneco do meio e o portão virou um cartaz. Junto a outras 52 intervenções artísticas, este graffiti faz parte da "Galeria de Graffiti a Céu Aberto do Morro do Alemão", uma das atividades realizadas pelo Grupo Raízes em Movimento.

Raízes em Movimento
09.07.2007 | 04h03 |

Alan Brum Pinheiro, que é cientista social e coordenador do Grupo Raízes em Movimento, sediado no Morro do Alemão. A foto é de Sadraque Santos. Quando a barra aliviar aqui, transcrevo a entrevista e jogo no ar. Por enquanto, um trecho: "Estamos numa lógica de mercado em que nós temos um exército de reserva. O que existe é uma arena que coloca as pessoas para se digladiarem por uma quantidade de emprego irrisória, em que não cabe todo mundo. Então qual é a alternativa? A alternativa é trabalhar com as potencialidades das pessoas, fortalecer geração de renda para além do mercado de trabalho, com as habilidades das pessoas e tentar discutir um pouco o que se denomina "mercado". Me parece que hoje o discurso oficial é que estamos submetidos ao mercado, temos que atender ao que o mercado diz. Mas o que é o mercado? Se a gente for olhar na origem dele, nada mais é do que aonde se colocam as demandas e as ofertas para uma sociedade viver bem. E não induzir uma necessidade ou uma demanda que não existe, mas é construída ficticiamente. E as pessoas ficam dependentes desse mercado. Acho que o mercado é que tem que servir à sociedade, e não a sociedade ao mercado".

A sede do Raízes
09.07.2007 | 04h25 |

Eis aí a fotografia da sede do Grupo Raízes em Movimento, crédito para Sadraque Santos. Foi aí dentro que fiz a entrevista com o Alan.

A pauta do ano
09.07.2007 | 04h01 |

Essa nenhum jornalista pode perder: vive no Morro do Alemão a única galinha brasileira que põe ovo verde, fotografada por mim. Vou me inscrever no Prêmio Esso.

Paisagens do Rio de Janeiro - 2
09.07.2007 | 03h55 |

Mais uma vista do alto do Morro do Alemão: dessa vez, ampla visão da Zona Norte ao fundo; em primeiro plano, os meninos aproveitam o sábado para empinar pipas. Crédito da foto: Marcelo Salles.

Paisagens do Rio de Janeiro - 3
09.07.2007 | 03h50 |

Outra vista do Morro do Alemão, com a Baía de Guanabara ao fundo. Depois da água, ali onde não dá pra enxergar, está minha cidade, Niterói, fotografada por mim.

Bala perdida
09.07.2007 | 03h29 |

Eis aí a nova instituição da República, a bala perdida. Como o departamento é novo, ainda não tem assessoria de imprensa. Fotografei esse graffiti ali na Zona da Leopoldina, no centro do Rio de Janeiro. Merecido registro do artista, que teve a sacação de pintar um alvo na camisa do cidadão.

Prostituta acusa atores da Globo
06.07.2007 | 01h14 |

Mais espancadores de mulheres nas ruas do Rio de Janeiro. Dessa vez, atores da TV Globo são os acusados pela brutalidade. Foi capa de quase todos os jornais daqui, sobretudo os ditos populares. No Extra, das Organizações Globo, deu apenas que "galãs de novela agridem prostituta". Já na Tribuna da Imprensa, a informação, nas páginas internas, veio completa: dois atores da TV Globo, um de Malhação e outro de Belíssima, foram acusados de terem agredido e roubado a bolsa de uma prostituta na Barra da Tijuca. Detalhe, que com certeza o Palmério Dória não vai deixar passar em branco: as agressões teriam sido cometidas após os três (atores e prostituta) curtissem 40 longos minutos dentro de um quarto de motel... com mais dois travestis. Nada contra o amor livre, mas fica a curiosidade: será que os meninos da Globo estão conseguindo sentar direitinho?

Fofoqueiras do Jó
05.07.2007 | 10h39 |

Nas madrugadas de segunda à sexta há um programa que pretende aliar show e entrevistas. Imitação de um talk-show importado. Às quartas-feiras, de vez em quando, o programa assume novo formato. Em vez da entrevista tradicional (único caso em que entrevistador aparece mais que o entrevistado), reúnem-se quatro pseudo-jornalistas para fofocar sobre a política nacional. Compreensivelmente, essas quatro possuem grande espaço nas corporações de mídia: ocupam rádio, tv e jornal com uma superficialidade notável. Falam, feito tagarelas, sempre a mesma coisa. Regurgitam uma idéia ou fato que seus chefes querem manter em pauta.

No programa de ontem, passaram boa parte do tempo criticando a suposta furada de fila do ex-ministro Palocci. Realmente, trata-se de um fato grave: furar fila no aeroporto, coisa feia. Só porque é político... As quatro peruas, assim como as corporações que lhes pagam o salário, acreditam que Palocci deve ser criticado por furar uma fila no aeroporto, e não por implementar uma política econômica extremamente lesiva aos interesses nacionais.

Na semana passada, ficaram um bloco inteiro criticando a classificação indicativa do Ministério da Justiça. Uma das fofoqueiras se exaltou e disse em tom de discurso, dirigindo-se à platéia com pompa e circunstância: "Eu venho de uma geração que lutou contra a ditadura. Talvez os mais novos não saibam o que é uma ditadura". Uma outra completou: "Qualquer critério é censura. E se é censura nós somos contra". Aplausos dos universitários presentes, cuja maioria leu até 3 livros não didáticos na vida.

"Qualquer critério é censura". É de um refino intelectual de dar inveja... Obedecer a um troço chamado Constituição nem passa pela cabecinha dessas pseudo-jornalistas, que certamente não se envergonham de ter feito o juramento abaixo em vão.

Além das fofocas sobre política, arriscam comentários sobre economia. Tudo num nível muito rasteiro e vulgar. Se perguntarem como se define o câmbio, que elementos são responsáveis pela valorização de uma moeda, o que causa uma crise, ninguém sabe responder.

São as Mainardis de calcinha. Oscilam entre o deboche barato e a indignação moralista.

No final do programa de ontem, passaram a comentar a matança no Complexo do Alemão. Alguns argumentos foram: "Todo mundo fala que nossa polícia é violenta, mas ninguém fala da polícia da França, que bate pra valer, nem da Coréia, aquela que vai andando com escudos na frente batendo em estudantes". Outro argumento: "Trata-se de uma guerra, não tem jeito. Vai morrer gente". E ainda: "Tem que intimidar bandido" e "Não é um problema de classe devido à topografia do Rio. Morre gente de classe média também de bala perdida". E o Jó concluiu, afinadíssimo com o presidente da República: "O governador Sérgio Cabral está sendo impecável".

Juramento da Comunicação Social
04.07.2007 | 17h46 |

A Comunicação é uma missão social. Por isto, juro respeitar o público, combatendo todas as formas de preconceito e discriminação, valorizando os seres humanos em sua singularidade e na luta por sua dignidade.

A Comunicação é um compromisso com a Verdade. Por isto, juro ser fiel à verdade, jamais contentando-me com as primeiras versões dos fatos ou sujeitando-me a interesses que não a expressem.

A Comunicação pressupõe a Liberdade. Por isto, juro defender incondicionalmente a liberdade de expressão, de opinião e de afirmação dos seres humanos, opondo-me a qualquer sedução ou imposição autoritárias.

A Comunicação é uma atividade criadora. Por isto, juro promover, em minha vida e em minha coletividade, tudo que estimule e garanta a imaginação, a arte e a invenção.

Só para deixar registrado: todo jornalista tem que fazer esse juramento para ser diplomado.

Executivo e Legislativo; Judiciário, não
03.07.2007 | 11h59 |

Trecho do depoimento do lobista Antônio Marcos, dono da Umbelino Lobo Consultores e Assessores, de Brasília, em reportagem de Marcos Zibordi, na Caros Amigos de junho:

"Nosso negócio é Brasília. A gente explica para os clientes como funciona o poder Executivo e o Legislativo, a gente não lida com o Judiciário".

Agora leia o post abaixo "Os lobistas da mídia" e veja se ficou mais fácil compreender a série de reportagens do "Globo" sobre as impunidades que eles selecionaram como impunidades.

Já são 156 assinaturas contra Cabral
03.07.2007 | 07h51 |

Já são 156 assinaturas no abaixo-assinado contra a política de segurança pública do governador do RJ, Sérgio Cabral, que foi sustentada ontem, publicamente, pelo presidente da República. Lula anunciou investimentos em favelas do Rio, durante evento realizado numa casa de shows da Zona Sul, o Canecão. Tudo nesse governo é um espetáculo... Para saber mais, leia o post adiante "Abaixo-assinado contra ação da polícia" e acesse a página da Rede Contra a Violência, que reúne todas as assinaturas e faz a denúncia do massacre também em inglês, junto a organizações internacionais.

Os lobistas da mídia
03.07.2007 | 07h00 |

"Sabe onde existe um grande lobby no Brasil? Na imprensa. Muitos jornalistas agem, na verdade, como lobistas. Você tem meia dúzia de grandes jornalistas que mais parecem lobistas, conscientes ou não. Há certos comentários econômicos que a gente ouve e percebe que, por trás, há um interesse envolvido. Em nome de quem estão fazendo esses comentários? Se houvesse, hoje, uma grande operação Mãos Limpas teria que quebrar, também, o sigilo bancário e fiscal de uns 10 ou 20 jornalistas".

"Quando cheguei aqui há vinte anos, muitos jornalistas tinham mais de 45 anos, eram pessoas experientes, que discutiam, praticavam jornalismo investigativo. Hoje, principalmente na televisão, tem uma meninada, que entre aqui e quer saber aquilo que o editor pediu, 'Quero saber isso'. Hoje, você corre o risco de não ter uma leitura de verdade. A visão de Brasil real, a gente perdeu. A imprensa cuida de levar a população ao diversionismo. Não é só a gente conhecer como funciona o lobby, há lobby dentro da imprensa, fazendo a gente não conhecer, também, quem está escondido lá atrás".

Os dois trechos acima fazem parte do depoimento contundente de um funcionário do Senado Federal. O homem já trabalhou em Ministérios, Secretarias de Estado e autarquias federais e resolveu falar com o repórter João de Barros, que assina mais uma excelente reportagem - dessa vez sobre os lobbies privados junto ao poder público - intitulada "A ante-sala da corrupção" e publicada na revista Caros Amigos de junho. Alguém aí identifica esses tais jornalistas que estão a serviço de interesses escusos? Interesses, por exemplo, que podem ir desde a Reforma da Previdência, para favorecer bancos privados, até a defesa da matança no Complexo do Alemão. Quem dá o primeiro palpite?

Ilustração de Carlos Latuff
03.07.2007 | 06h45 |

Acabo de saber que o artista gráfico Carlos Latuff ilustrou, com a imagem abaixo, a reportagem que fiz sobre a perseguição política na TV Globo. Este texto, que pode ser lido aqui, está em nosso Especial Globo - que já recebeu exatos 246 comentários de pessoas interessadas em conhecer a verdadeira história da Rede Globo. Para saber mais sobre o trabalho de Carlos Latuff, acesse: http://latuff2.deviantart.com.

Psicólogos pela democratização da mídia
03.07.2007 | 05h33 |

Com esta nota, os psicólogos brasileiros sacramentam sua entrada na luta pela democratização dos meios e comunicação. A entrada dessa categoria profissional para o movimento é um grande avanço, sobretudo porque é ali, no âmbito da psicologia e da psicanálise, que encontramos farto material para o estudo da produção de subjetividades que determinam as formas de agir, sentir, pensar e viver dos indivíduos e, conseqüentemente, da sociedade na qual ele está inserido. Segue a carta, com a esperança que outras categorias profissionais compreendam a importância da democratização da mídia e passem a discutir o tema em suas associações, sindicatos e representações em geral:

O atual estado de controle sobre os meios de comunicação de massa no Brasil consiste em verdadeiro obstáculo para que o Brasil se reconheça enquanto nação plural. Hoje, cinco famílias brasileiras controlam cerca de 95% dos meios de comunicação de todo o território nacional. No ano de 2006, em meio ao pleito presidencial, todo o Brasil pôde constatar o potencial risco de os meios de comunicação adotarem o comportamento de interferência sectária na definição do futuro político do país. É a usurpação do direito de um povo escolher os rumos que quer tomar.

Como aprendemos com Perseu Abramo, no livro Padrões de Manipulação na Grande Imprensa, são demasiados os modos de manipulação utilizados pelos meios de comunicação. E essa influência torna-se ainda mais forte e prejudicial no atual ambiente de monopólio da comunicação no país. E isso não pode passar despercebido.

Diante desse quadro, várias entidades que reúnem psicólogos profissionais, pesquisadores e estudantes de Psicologia do Brasil começaram a definir linhas de conduta para a luta pela democratização da comunicação no país. Dentre tais condutas, encontra-se a defesa intransigente do acesso à geração e difusão de informação por parte de grupos tratados como minoritários pela população brasileira (tais como representantes de diferentes orientações sexuais, de diferentes origens étnicas, de diferentes classes sociais e de diferentes níveis de formação escolar). Nessas condutas encontra-se também a defesa perene a um tratamento condigno às diferentes formas de expressão cultural existentes no país, que prescinde da presença e do respeito, nos meios de comunicação, aos diferentes aspectos das culturas típicas das diversas regiões brasileiras, expressas nos diferentes modos de falar, nos diferentes hábitos alimentares, nas diferentes histórias regionais e na diversidade do povo brasileiro.

Defendemos também, como linha de conduta, o combate intransigente às ações homogeneizantes dos meios de comunicação, e, ainda, defendemos a produção de uma contribuição efetiva do conhecimento psicológico para a luta pela construção de processos de comunicação que ajudem o Brasil a se compreender em sua totalidade e a se desenvolver enquanto uma nação de muitos rostos, muitas vozes.

Por isso é que nós, psicólogos, estudantes, professores e pesquisadores de Psicologia de todo o Brasil queremos uma Conferência Nacional de Comunicação Social.

Queremos uma conferência que nasça nos municípios, com a cara e as necessidades do povo brasileiro, e que represente todo o território nacional, em toda a sua diversidade. Queremos uma conferência não verticalizada, imposta com encaminhamentos definidos por grupos minoritários e que nos chegue de cima pra baixo, feita às pressas.

Queremos uma Conferência que seja construída com ampla discussão social e com a participação de todas as visões presentes na sociedade; queremos uma Conferência Nacional de Comunicação na qual participem todos os atores envolvidos no processo de comunicação (que participem os movimentos sociais; o empresariado; os profissionais de todas as áreas, incluindo a Psicologia; que participem as rádios e TVs comunitárias; os professores e profissionais das áreas de Comunicação; que participem os professores, os gestores, os interessados no tema).

Para construir esta Conferência Nacional de Comunicação Social, nós, professores, estudantes, pesquisadores de Psicologia e os psicólogos, dispomo-nos a atuar militantemente na produção do debate social sobre o tema. E convidamos todos os cidadãos brasileiros a este diálogo.

Vamos utilizar os instrumentos produzidos pelo Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação para promover debates com nossos grupos de trabalho, grupos de estudo e com as nossas famílias.

Convidamos a todos para se engajarem nesta luta: a hora é agora!

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ENSINO DE PSICOLOGIA
FORUM NACIONAL PELA DEMOCRATIZAÇÃO NA COMUNICAÇÃO
FORUM DE ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA

Conheça o Psicologia On-Line: www.pol.org.br.

OAB vai tentar exumação de corpos
02.07.2007 | 10h10 |

O presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB, João Tancredo, me disse ontem à noite que duas famílias de vítimas da ação policial do dia 27 de junho no Complexo do Alemão já concordaram em proceder com a exumação dos corpos de seus parentes. Como a Secretaria de Segurança Pública não permitiu que um médico legista independente acompanhasse a necrópsia no IML, os familiares vão recorrer à exumação para tentar provar, a partir da análise das características dos ferimentos, que houve execução.

Pergunto se a OAB costuma solicitar o acompanhamento de autópsias. Ele diz que esse tipo de solicitação não é freqüente, mas não se lembra de ter sido impedido anteriormente. João Tancredo cita, como exemplo, o caso dos bebês que morreram após ingerir soro contaminado. "Na ocasião, houve total cooperação", ele diz.

O presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB disse ainda que a maioria das guias médicas apresentava características que sugerem execução, como tiros apenas no tórax e na cabeça. "Numa troca de tiros, o mais provável é que existam ferimentos no corpo todo". João Tancredo também descartou a possibilidade de que os relatos dos moradores poderiam ser falsos: "Os depoimentos foram unânimes. Não houve contradição. Num momento, o [deputado estadual Alessandro] Molon até forçou um pouco, senti que ele estava forçando, mas o garoto não se confundiu".

Crítica ao elogio do massacre
01.07.2007 | 14h53 |

Trecho da matéria sobre como a mídia cobriu a invasão do Complexo do Alemão, que será publicada no Fazendo Media impresso nº 54 e seguirá para os assinantes na semana que vem:

Um dos resultados dessa cobertura artificial é o estímulo à sede de vingança em parte da população. Cecília Coimbra, vice-presidente do Grupo Tortura Nunca Mais, ressalta o poder da mídia em moldar percepções e forjar consensos. "A classe média se torna fascista. Com sua subjetividade envenenada pelos meios de comunicação de massa, ela acredita que essa política de extermínio é necessária para resguardar sua segurança", disse a professora de psicologia da UFF.

Entretanto, basta olhar as estatísticas para constatar que matanças como a de 27 de junho não reduzem a criminalidade. De acordo com o Instituto de Segurança Pública, vinculado à Secretaria de Segurança, os números de apreensões de drogas e armas caíram entre janeiro e abril deste ano, em comparação com o mesmo período do ano anterior. Além disso, no mesmo período de análise há mais homicídios (saltaram de 2.187 para 2.224), roubos (39.761 para 45.616), furtos (44.707 para 52.359) e autos de resistência (mortes causadas por policiais em confronto, que passaram de 329 para 449). Sublinhe-se que esses números não incluem as mortes por "bala perdida", freqüentemente atribuídas por moradores a disparos de policiais.

Durante dois dias tentei entrar em contato com a Secretaria de Segurança Pública. Solicitei uma entrevista com o secretário, mas não obtive resposta. Perguntei à assessoria de imprensa qual era o objetivo dessa ação no Complexo do Alemão. "Combate ao tráfico", disseram. A socióloga Vera Malaguti, do Instituto Carioca de Criminologia, questiona esse discurso. "Não diminui o crime, nem o consumo de drogas. Então, qual o sentido disso? O que está em jogo agora é matar por matar, porque os indicadores não mostram melhora. A eficácia é a truculência por si só", afirmou.

Abaixo-assinado contra ação da polícia
01.07.2007 | 14h44 |

Segue nota divulgada pela Rede Contra a Violência, aberta para asssinaturas e já firmada por professores universitários, pesquisadores e acadêmicos em geral:

Nós, abaixo-assinados, consideramos inaceitável a política encaminhada pelo governo do estado no Morro do Alemão nos últimos dois meses com vistas a combater o tráfico de drogas. Esta política, que recentemente produziu mais de vinte mortes de homens, mulheres e crianças, desconsidera os direitos elementares da população. Desconsidera a obrigação de se respeitar a presunção de inocência daqueles que são alvos de tiros dados para matar. Desconsidera que não há pena de morte no nosso país.

Esta ausência de proteção aos moradores das regiões da cidade mais afetados pelo tráfico implica uma política de extermínio de uma população desarmada. Somos solidários a esta população que reclama paz porque quer viver em segurança: nem sob o despotismo do tráfico, nem sob a violência da polícia. Se se tratasse de uma guerra, como declaram frequentemente as autoridades estaduais, esta deveria, ao menos, obedecer à Convenção de Genebra, fazendo uma diferenciação clara entre alvos militares e a população civil. Portanto, mesmo nesta absurda hipótese, o ataque indiscriminado a alvos mal especificados num espaço densamente habitado configura uma ação ilegal e criminosa contra seus habitantes.

Queremos afirmar a nossa indignação e a nossa revolta diante desta modalidade de combate ao crime posta em prática pelo atual governo. Sua eleição não lhe faculta determinar pela força das armas quem pode viver ou morrer nas favelas e periferias urbanas. Protestamos veementemente e exigimos que o governo do estado suspenda o que entendemos como a oficialização de uma política de extermínio no Rio de Janeiro. Quanto ao que já ocorreu, exigimos transparência: que sejam fornecidos dados sobre as vítimas e investigadas as responsabilidades pelas mortes e ferimentos ocasionados pelas "operações" policiais. Admitimos que a proximidade do PAN pode exigir planos de segurança especiais para a cidade. O que no entanto não justifica o que parecem ser, cada vez mais, massacres organizados.

Luiz Antonio Machado da Silva (Iuperj/UFRJ)
Márcia Pereira Leite (Uerj)
Patricia Birman (Uerj)


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