Por Marcelo Salles - salles@fazendomedia.com

O elogio do massacre
30.06.2007 | 15h02 |

Então é isso. A polícia invade o Complexo do Alemão, mata 19 pessoas num único dia (moradores falam em 30), não sofre nenhuma baixa e as corporações de mídia chamam isso de guerra.

Quem não se deixou levar pela irracionalidade percebeu o seguinte (usando apenas os dados oficiais, reproduzidos pelas corporações de mídia): foram 19 mortos e 14 armas apreendidas. 19 - 14 = 5. Ou seja, se cada morto portasse pelo menos uma arma, temos que 5 pessoas estavam desarmadas. Forte indício de que foram executadas. Repare você que ainda nem falei dos relatos de tortura, assassinados a facadas e outras agressões (estou preparando outro texto só sobre isso). Por enquanto, pretendo desconstruir o discurso oficial usando apenas as suas contradições implícitas e explícitas.

Além disso, as fotos divulgadas não deixam dúvidas: os supostos traficantes estavam de bermuda, sem camisa e descalços, enquanto as equipes de elite da polícia utilizam o mesmo equipamento dos militares estadunidenses. Chamar isso de guerra é brincadeira. Mas é uma brincadeira compreensível, pois pela posição de algumas fotografias dá pra ver que parte da imprensa invadiu junto com a polícia. Na foto da primeira página do "Globo" do dia 28, por exemplo, fica evidente que o fotógrafo já estava posicionado esperando a movimentação dos policiais.

A "Veja" desse final de semana publica matéria com o título "A guerra necessária" e avisa (estou citando de cabeça, pois me recuso a dar R$ 8,40 nessa revista): "não faltaram organizações que se pretendem defensoras dos direitos civis alegando que houve um massacre indiscriminado, mas o que essa gente quer é passar a mão na cabeça desses facínoras".

Em dois dias de cobertura (28 e 29), 16 das 17 cartas dos leitores selecionadas pelo "Globo" elogiavam a operação policial e 95% de suas matérias apoiavam a ação da polícia. Nos 5% restantes espremiam-se as denúncias da OAB, de moradores e de ONGs sobre violações de direitos humanos cometidas pelas polícias do governo do estado e do governo federal. Denúncias que eram sutilmente postas em dúvida pela reportagem através da estrutura lingüística utilizada (futuro do pretérito).

Para uma mídia que se estabeleceu apoiando uma ditadura que seqüestrou, torturou e assassinou milhares de brasileiros, é mesmo muito difícil compreender que no Brasil não existe pena de morte. Bandido tem que ser preso, não executado. Incluindo - e sobretudo - os bandidos que moram fora das favelas, como bandidos banqueiros, bandidos lobistas, bandidos diretores de multinacionais que roubam as riquezas do Brasil, bandidos empresários de mídia que distorcem a realidade do país e etc.

A capa do "Globo" do dia 29, elogiosa ao policial que fuma charutos após "trocas de tiros", consagra um modelo de cobertura que abandonou o jornalismo para se transformar em assessoria de imprensa da violência, da irracionalidade, do sofrimento, da morte. É a tragédia humana exibida com entusiasmo e requintes de crueldade, desde a opressão contra os que não têm voz até a defesa da barbárie pelos que se pretendem donos da opinião pública.

Registro necessário: Folha de S. Paulo e Estado de São Paulo ofereceram ao leitor uma cobertura mais equilibrada e com críticas à ação da polícia.

Correção: No 2º parágrafo, onde estava escrito "Foram executadas", substituí por "Forte indício de que foram executadas". Embora existam inúmeros relatos e evidências, apenas os laudos do IML poderiam confirmar as execuções. Há que se registrar que o advogado da OAB que acompanha o caso, João Tancredo, foi impedido pela Secretaria de Segurança Pública de acompanhar a feitura dos laudos no IML.

Jornalista tem lado
27.06.2007 | 02h35 |

Como jornalista, você tem de estar do lado da justiça, do equilíbrio, da decência, tem de se posicionar. O Oriente Médio não é um jogo, onde você dá tempo equivalente para cada time. Não é um julgamento público, é uma imensa tragédia humana. Se estivéssemos cobrindo o tráfico de escravos no Brasil, daríamos o mesmo espaço ao escravo e ao traficante?

- Robert Fisk, correspondente de guerra britânico do jornal The Independent, em entrevista concedida a Sérgio Dávila, da Folha de S. Paulo (25/06/07).

A opinião de Fisk traz de volta a eterna discussão sobre a imparcialidade jornalística. Há pelo menos quatro anos venho defendendo, aqui no Fazendo Media, uma posição muito clara: o texto jornalístico só poderá ser imparcial quando escrito por robôs. Pedir que um jornalista seja imparcial é o mesmo que exigir que ele deixe de amar, que abandone seus sentimentos, que se desumanize. O ser humano, enquanto humano, possui uma subjetividade, um histórico de vida que lhe confere um determinado vocabulário, este já repleto de significações e pontos de vista. No fundo, por mais que o jornalista ouça os dois ou mais lados de uma questão, ele tenderá a escrever "isso aconteceu, segundo fulano" quando acreditar no tal fulano, ou "isso teria acontecido, segundo beltrano", quando desconfiar do tal beltrano.

Há um outro aspecto extremamente relevante, porém nunca discutido com profundidade. Trata-se do modo como a estrutura da reportagem é construída. Muitas vezes, o contraponto apresentado não é o único ou o mais representativo. É preciso enfatizar que toda construção jornalística é pautada por subjetividades. E é justamente nesse ponto que a compreensão da história se faz notar, na mesma proporção em que a ignorância do jornalista se faz lamentar. De modo que é possível construir uma reportagem sobre um homem-bomba em Bagdá registrando apenas o número de mortos e ressaltando o fanatismo daquele sujeito que se matou, ou então esquadrinhar a questão de outra forma, perguntando, por exemplo, quais as razões que levam alguém a se explodir ou criticando a invasão do Iraque pelos EUA. A partir daí, tudo muda. As fontes ouvidas serão outras, título e subtítulo serão completamente diferentes e até o conjunto de palavras utilizado deverá variar. Por que o termo "terrorista" é usado para designar alguém que pega em armas para resistir à invasão estrangeira e não para intitular aqueles que invadem?

O triste nisso tudo é que essa falácia da imparcialidade jornalística vem sendo utilizada para a legitimação de toda sorte de crime contra a humanidade, cujo exemplo mais chocante tem sido a cobertura do massacre estadunidense no Iraque a partir de jornalistas embutidos na tropa invasora. As corporações de mídia brasileiras exibem esse material - devidamente monitorado pelo Departamento de Defesa dos EUA - ao mesmo tempo em que seus editores concedem entrevistas sobre os valores nobres da imparcialidade jornalística e criticam a não renovação da concessão da RCTV em nome da liberdade de imprensa.

Por fim, cabe comentar a pergunta que Robert Fisk devolve a Sérgio Dávila. "Se estivéssemos cobrindo o tráfico de escravos no Brasil, daríamos o mesmo espaço ao escravo e ao traficante?". Fisk, como se sabe, vive no Oriente Médio há 40 anos e só esteve no Brasil em duas oportunidades. Porque se vivesse aqui certamente saberia que a resposta para sua pergunta é "claro que não". No Brasil, as corporações de mídia dariam muito mais espaço para os traficantes de escravos, do mesmo modo que deram para os torturadores de outrora e assim como dão para os assassinos de hoje.

Retratos da violência no Rio de Janeiro
26.06.2007 | 01h28 |

"A maioria dos moradores, inclusive eu, reclama da atitude da polícia, que costuma usar de covardia com os moradores. Covardia mesmo! Covardia mesmo! Coisas do arco-da-velha, se eu contar você nem acredita. Invadindo casa de morador, sacaneando morador, mexendo com filha dos outros. Teve uma vez que enfiaram uma chave de fenda nas costas de um morador. Estão fazendo coisas do mesmo nível dos bandidos. Rola até estupro, cara!".

O trecho acima faz parte da reportagem Retratos da Violência, publicada no jornal A Nova Democracia. Trata-se do depoimento de um morador do Complexo do Alemão, o fotógrafo Sadraque Santos, denunciando a brutalidade das operações policiais. Na mesma matéria, entrevistei Wanderley da Cunha, integrante da Rede Contra a Violência. São dois depoimentos chocantes, dois gritos desesperados que deveriam, no mínimo, fazer com que o governador Sérgio Cabral repensasse sua política de Segurança Pública: uma política baseada no confronto, que coloca em risco tanto a vida dos policiais quanto a de quem vive nas periferias.

Na mesma edição há uma excelente entrevista com a socióloga e professora de criminologia Vera Malaguti. Vale a leitura.

MST repudia chegada da Aracruz ao RJ
25.06.2007 | 23h26 |

O MST divulgou hoje moção de repúdio aos deputados fluminenses que no dia 12 de junho votaram a favor do PL 383/07, que facilita a entrada da Aracruz Celulose no Rio de Janeiro:

Repudiamos a decisão dos 39 parlamentares que apoiaram a proposta, votada a toque de caixa, a despeito dos pedidos de audiência encaminhados para ampliar o debate sobre o tema. Os 39 deputados estaduais que votaram a favor do projeto cometeram um ato criminoso contra o meio ambiente e a sociedade, que deixará seqüelas para futuras gerações.

Nós, do MST, faremos o que for possível para que nenhum novo monocultivo seja iniciado no estado do Rio de Janeiro. Não queremos, não podemos e não vamos aceitar este crime.

Leia aqui a matéria que publicamos sobre a aprovação do PL 383/07, de autoria do governador Sérgio Cabral.

TCM faz ressalvas às contas de César Maia
25.06.2007 | 23h15 |

O Tribunal de Contas do Município do Rio de Janeiro aprovou as contas do Executivo Municipal, em parecer divulgado no dia 20 de junho. Mas fez algumas ressalvas, como por exemplo:

- utilização de recursos incorretos para pagamento de merenda escolar;
- baixo percentual aplicado na concessão de incentivo à cultura;
- aplicação em educação abaixo dos 25% da receita com impostos, conforme obrigação constitucional;
- insuficiência de arrecadação de R$ 772 milhões;
- aumento real da Dívida Ativa do Município de 68,23%, entre 2002 e 2006.

Além disso, os conselheiros criticaram o descaso do executivo municipal com as recomendações feitas quando da aprovação das Contas de Gestão do exercício de 2005: 55,6% de suas recomendações não foram atendidas, 29,6% estão sendo implementadas, foram acatadas ou demandam análise futura e apenas 3,7% foram observadas.

Tiroteio em Vigário Geral
25.06.2007 | 23h05 |

Às 10h deste domingo, dia 24, cerca de 200 moradores da favela de Vigário Geral, que foram desalojados de suas casas devido a um forte tiroteio nesta madrugada, estão na Praça Catolê do Rocha, sem ter para onde ir e sem poder voltar para suas casas. A praça fica no centro de Vigário Geral, perto da sede do Afro Reggae.

As informações são da Rede Nacional de Jornalistas Populares (www.renajorp.net).

O fascismo e sua linguagem
25.06.2007 | 03h59 |

Sirley Dias de Carvalho Pinto, 32 anos, teve sua bolsa roubada e foi brutalmente espancanda por cinco pessoas nesta madrugada de sábado para domingo. Os golpes foram todos direcionados à sua cabeça.

Como as corporações de mídia identificaram os criminosos? "Jovens moradores de condomínios de classe média da Barra da Tijuca".

Agora imagine você, caro leitor e querida amiga, se os cinco indivíduos morassem em favelas e tivessem agredido um "classe média" da Barra. No mínimo, a identificação seria "cinco bandidos da favela tal assaltaram e espancaram uma jovem moradora da Barra da Tijuca".

É de uma falta de bom senso que assusta. E o pior é que nenhuma revolução seria desencadeada se as corporações de mídia abrissem mão de seu preconceito de classe.

Eis aí a relação dos acusados: o estudante de administração Felippe de Macedo Nery Neto, de 20 anos, o técnico de informática Leonardo Andrade, de 19, o estudante de gastronomia Júlio Junqueira, de 21, o estudante de turismo Rodrigo Bassalo, de 21 anos, e o estudante de direito Rubens Arruda, de 19.

Em sua defesa, alegaram que teriam confundido Sirley com uma prostituta. Não tem muito tempo os assassinos do índio Galdino alegaram terem-no confundido com um mendigo. O mais grave nisso tudo não é nem constatar a existência do fascismo em pleno século 21, mas saber que pessoas com essa mentalidade ocupam postos-chave na administração pública.

Escândalo discreto
24.06.2007 | 00h07 |

No Brasil, os escândalos são publicados com discrição. Exemplo recente foi oferecido pela Folha de S. Paulo, que divulgou a renda per capita brasileira a propósito de uma reportagem sobre a reunião do G-8: US$ 8,5 mil. Considerando o dólar a R$ 2,00, temos que nossa renda per capita é de R$ 17 mil. Ou seja, o PIB do Brasil dividido pelo número de habitantes é igual a R$ 17 mil.

Se dividirmos este valor por doze, chegamos a R$ 1.416,00. Em outras palavras, se as riquezas produzidas no país fossem igualmente divididas, cada cidadão teria uma renda mensal de R$ 1.416,00, incluindo as crianças. Numa família com quatro pessoas, por exemplo, a renda seria R$ 5.666,66 por mês. O suficiente para que todos vivessem com dignidade.

Em meados do ano passado, o IBGE divulgou uma ampla pesquisa sobre insegurança alimentar. Resultado: 72.163.886 brasileiros (34,8%) vivem nessa situação, que foi dividida em três níveis (leve, moderada e grave). Desses, 6,5%, ou 13.921.701 seres humanos, sofrem de insegurança alimentar grave. Em outras palavras: passam fome.

Acesse aqui a íntegra da pesquisa do IBGE sobre insegurança alimentar.

Nada justifica que um brasileiro passe fome. Na verdade, nada justifica que qualquer ser humano passe fome, visto que o planeta produz alimento suficiente para 12 bilhões de pessoas e nele vivem 6,5 bilhões, segundo a ONU. Mas o Brasil é um país extremamente rico, o que torna nossa situação especialmente dramática. "Pelos campos há fome em grandes plantações", cantou Geraldo Vandré. Temos quatro colheitas por ano, ouro, prata, minério de ferro, nióbio, bauxita, manganês, aço, um considerável parque industrial, uma das maiores empresas petrolíferas do mundo, uma grande empresa de aviação, grandes universidades e etc.

Por outro lado, para que tenhamos um salário mínimo de R$ 380,00 e 20 milhões de pessoas desempregadas, é preciso que muitos estejam recebendo - ou roubando - R$ 100 mil, R$ 500 mil ou milhões de reais por mês. Somos o segundo país mais desigual do mundo, atrás apenas de Serra Leoa!

Quando João Goulart tentou limitar a remessa de lucro para o exterior e implementar algumas outras medidas já consagradas em países capitalistas (incluindo a Reforma Agrária), foi derrubado sob acusação de tentar implantar uma "ditadura comunista" no Brasil.

Esse descalabro só continua, fundamentalmente, por uma razão: o sistema educacional e as corporações de mídia estão a serviço da exploração dos povos. Uma nação bem formada e bem informada jamais permitiria esse estado de coisas.

Marcelo Yuka, assinante do Fazendo Media
24.06.2007 | 00h01 |

Exemplo cristalino - 2
23.06.2007 | 00h44 |

Lendo uma matéria sobre os "sem-terrinha", as crianças do MST, lembrei de quando visitei um acampamento do Movimento em Santa Cruz, no Rio de Janeiro. Pra quem não sabe chegar: pegue um trem na Central e depois uma kombi pra Chatuba. De Niterói até lá deve dar umas três horas de viagem - com trânsito bom. Lá no acampamento, tive a oportunidade de conversar com um sem-terrinha. O menino devia ter uns 8 ou 9 anos, estava contente brincando com sua bicicleta. Lá pelas tantas perguntei onde ele estudava. Baixou a cabeça, fechou a expressão. "Num Ciep aqui perto". E você gosta de estudar lá? "Não. Porque os meus colegas me rejeitam porque eu sou sem-terra".

A despeito da responsabilidade da professora e da direção da escola, é preciso chamar a atenção para a irresponsabilidade das corporações de mídia. A criminalização que elas promovem dos movimentos sociais é a principal responsável por esse preconceito contra os sem-terrinha. A mídia, hoje, é a instituição com maior poder de produzir subjetividades, que determinam as formas de sentir, pensar, agir e viver de um indivíduo, grupo ou sociedade. Não sou psicanalista, mas está claro que o impacto psicológico dessa rejeição prejudicará o desenvolvimento dessa criança. E de muitas outras que se encontram na mesma situação.

Este é mais um exemplo cristalino da necessidade urgente de se democratizar o acesso à produção e divulgação de cultura no Brasil. O poder das corporações de mídia reside em seu oligopólio. Sem isso, elas não são nada. Por uma razão muito simples: no momento em que o cidadão toma conhecimento de uma outra versão, ele passa a questionar aquela outra. Se ele for conferir, vai ver que as corporações mentem. Nesse caso dos sem-terrinha, por exemplo, vai ver que os meninos não são vândalos, bandidos, invasores. Vai ver que são crianças como outras quaisquer, que brincam, correm, estudam e etc. De modo que quanto mais veículos alternativos existirem, menos poder as corporações de mídia terão. E mais democrática será a sociedade.

Leia aqui o "Exemplo Cristalino - 1".

Dois pesos e duas medidas
22.06.2007 | 01h59 |

- Até o mês passado a Polícia Federal estava sendo acusada de truculência e exagero quando prendeu criminosos de colarinho branco. Porém, os mesmos acusadores de outrora deleitam-se com o trabalho da PF no caso do senador Renan Calheiros.

- Vinte pessoas se juntam em frente ao prédio do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. Destaque, com foto colorida, na primeira página dos jornalões. Dezoito mil sem-terra se juntam durante cinco dias em Brasília. Nenhum destaque e poucas matérias, em sua maioria distorcidas.

Sem título
22.06.2007 | 00h44 |

Diz a repórter Ana Claudia Costa, no "Globo" desta quinta-feira (21), que o coronel da PM Mário Sérgio Duarte afirmou que o objetivo da ação policial no Complexo do Alemão e na Vila Cruzeiro, no Rio de Janeiro, é impedir "que traficantes saiam em comboios para praticar delitos como roubo de carros". A jornalista registra ainda que "o cerco vai continuar depois do Pan, já que, segundo o coronel, a intenção é sufocar totalmente o tráfico". O coronel Mário Sérgio Duarte é o coordenador da Subsecretaria Operacional da Secretaria de Segurança, que está à frente da operação.

É difícil acreditar que todo esse aparato policial esteja mobilizado durante tanto tempo (52 dias) apenas para isso. Impedir que traficantes "saiam em comboios para praticar delitos" é função da polícia em qualquer circunstância, com ou sem policiamento ostensivo. Além disso, se o objetivo é esse, então a polícia deveria proceder da mesma maneira em todas as favelas onde existem traficantes varejistas. Provavelmente há algo mais. Algo que a Secretaria de Segurança não informa e as corporações de mídia não perguntam.

A propósito: há na favela pé de fuzil ou muda de cocaína? Quem são os traficantes atacadistas? E por onde andam as assim chamadas milícias, que sumiram do noticiário sem que tenham sido desarticuladas? [leia também a nota Policiais mortos e lavagem de dinheiro]

"Temeremos mais a miséria que a morte"
20.06.2007 | 00h34 |

A imagem acima foi enviada por Gas-PA, do movimento LUTARMADA [entrevista aqui]. O cantor e compositor acaba de lançar - com todas as dificuldades de quem enfrenta o sistema sem fazer média - seu primeiro disco, intitulado Temeremos mais a miséria do que a morte. Vamos publicar uma nova entrevista com ele nos próximos dias, dando seqüência ao quadro "Música para revolução".

Por enquanto tomo a liberdade de adiantar um trecho da primeira faixa, retirado de um poema do dramaturgo alemão Bertolt Bretch: "Considerando nossa fraqueza, os senhores forjaram suas leis para nos escravizar. As leis não mais serão respeitadas, considerando que não queremos mais ser escravos. Considerando que os senhores nos ameaçam com fuzis e com canhões, nós decidimos: de agora em diante, temeremos mais a miséria do que a morte".

Ainda o "Globo" de domingo
18.06.2007 | 23h43 |

Ainda sobre o "Globo" de ontem, é preciso registrar a boa reportagem de Alessandro Soler publicada na página 22. Ele foi à Vila Cruzeiro e ao Complexo do Alemão ouvir os moradores. Infelizmente o título "Vivendo sob fogo cruzado numa zona de guerra" não respeita a realidade e o tom das declarações, assim como o subtítulo "Moradores da Vila Cruzeiro relatam a rotina de medo em meio aos confrontos entre policiais e bandidos". Em primeiro lugar, o termo "guerra" está mal empregado. "Guerra" pressupõe o conflito entre dois exércitos regulares, bem treinados e com forças equivalentes. Embora os bandidos pobres adotem um léxico militar ("soldados do tráfico", por exemplo), isto é pura ilusão. Não dá para comparar um camarada de bermuda, chinelo e sem camisa com um policial do Bope, fortemente treinado, que entra na favela protegido por colete à prova de bala, equipe tática e o respaldo do Estado. No mais, é sempre mais fácil justificar toda e qualquer morte quando se está em guerra.

Em segundo lugar, pelos depoimentos recolhidos por Alessandro e pelos que eu mesmo consegui (ainda inéditos), dá pra perceber que o maior problema é a ação da polícia, o que de forma alguma exime os varejistas do tráfico de responsabilidade. Por fim, registre-se ainda que não é o repórter quem escolhe título e subtítulo. O responsável por essa parte é o editor.

A lógica da boquinha da panela
18.06.2007 | 23h32 |

André Skaf, filho do presidente da FIESP (Paulo Skaf), concedeu entrevista à Revista O Globo de domingo e falou de suas visitas a favelas e prisões para fomentar "trabalhos sociais". O rapaz de 26 anos é idealizador do grupo Jovens Líderes Empresariais e foi apontado pela revista Veja SP como um dos 20 maiores partidos da cidade. A primeira pergunta: "Por que visitar favelas e prisões?". Resposta, na íntegra: "Para entender qual a necessidade real dessas populações e construir uma frente de mudanças. Fui a convite do José Júnior, do AfroReggae. As favelas e prisões se parecem muito com panelas de pressão, prontas a explodir. O trabalho de entidades como Unesco, Cufa e AfroReggae é como o da boquinha da panela, que tira um pouco da pressão".

Lembrei do antigo discurso de MV Bill, algo como "em vez de apontar as armas contra os irmãos, apontem para o lugar certo". Hoje, ele está mais para "a pobreza precisa da riqueza". Acho que é isso que Ferréz e Mano Brown dizem: em vez de aliviar a pressão, a idéia é usá-la para a revolução. Porque mesmo que a boquinha da panela alivie o lado de alguns, a grande maioria continua esmagada pelo modelo político-econômico que aí está. E não adianta que projeto social nenhum vai resolver a parada. Pode remediar, mas resolver, não. O lucro das indústrias filiadas à FIESP reside na exploração de seus trabalhadores. Por que diabos um sistema financiaria sua própria destruição? Por isso a lógica da boquinha da panela é importante.

Criminalização das favelas
17.06.2007 | 07h37 |

Pena que uma bela foto como essa, da lavra de Custódio Coimbra, seja utilizada para criminalizar os moradores de conjuntos habitacionais de baixa renda. Ela se encontra na primeira página do "Globo" de hoje, ocupando 25% do espaço, com a sugestiva legenda: "Um canal poluído de esgoto separa a extensa Favela do Anil dos prédios da Vila Pan-Americana, onde ficarão alojados atletas que disputarão os jogos". Na página 19 há outras quatro fotografias, uma reportagem principal e duas de apoio. O título da principal é "A poluição no território do Pan". O repórter Cláudio Motta inicia o texto assim: "As principais instalações dos Jogos Pan-Americanos convivem com a poluição. Lixões clandestinos, assoreamento de rios e lagoas, despejo de esgoto sem tratamento nos corpos hídricos e crescimento desordenado de favelas foram observados por uma equipe do GLOBO (...)".

No parágrafo seguinte, o jornalista registra: "Vista de cima, a Vila Pan-Americana, na Barra da Tijuca, é um condomínio cercado por canais poluídos e vizinho de duas favelas: Canal do Anil e Rio das Pedras. Uma das maiores preocupações será evitar que as oito mil pessoas que ficarão na vila sintam o cheiro dos gases sulfídrico e metano". Quer dizer que os atletas não podem sentir cheiro ruim durante 15 dias, mas os 8.000 moradores do Canal do Anil, que ali estão há 45 anos, podem?

Na matéria de apoio, o repórter Daniel Engelbrecht escreve sobre o crescimento das favelas. O título: "Expansão de favelas ameaça mais que a natureza na cidade". Subtítulo: "População dos morros cresceu 6 vezes mais que a do asfalto em 10 anos". Desconsiderando essa lógica binária idiota (morro x asfalto, que o próprio Canal do Anil desconstrói por ser favela na planície), ainda é preciso registrar que o "Globo" tenta responsabilizar os moradores de áreas pobres por tudo de ruim que aconteça. O que não é verdade.

Eu estive no Canal do Anil no final do mês passado (não, não sobrevoei a área. Fui lá dentro), conversei com moradores e apurei algumas de suas denúncias. Por exemplo: o governo federal disponibilizou R$ 26 milhões para a urbanização do entorno da Vila Pan-Americana. Em vez de as corporações de mídia perguntarem onde foi parar o dinheiro, preferem alugar um helicóptero e, lá de cima, afirmam que a culpa é dos pobres. O que não deixa de ser uma metáfora da superficialidade com que tratam questões relevantes a respeito da administração do prefeito César Maia (PFL) - há quatro mandatos à frente da Prefeitura do Rio.

Há mais: das 1.500 casas, 542 foram numeradas com tinta azul em suas fachadas pela Prefeitura no início do ano. Pouco depois, os moradores começaram a receber telefonemas. Para urbanizar? Não. Para que fossem à Prefeitura pegar os cheques (entre R$ 2,8 mil e R$ 16 mil) e abandonar as suas casas. O mesmo aconteceu no Arroio Pavuna e no Canal do Cortado, este com cobertura do Fazendo Media. Basta pronunciar o nome Maria Helena Salomão para os moradores fazerem o sinal da cruz. Ela é a responsável pelo programa "Morar Sem Risco" da Prefeitura, esse que chega na favela, diz que está ali para melhorar as condições do barraco, mas que na verdade está preparando o terreno para a expulsão dos moradores. Para a glória das construtoras e dos novos ricos da Barra da Tijuca.

A área à esquerda do canal, que não aparece na foto acima, teria sido comprada pela empreiteira Carvalho Hosken, de acordo com o presidente da Associação dos Moradores do Canal do Anil, Francisco Alberto dos Santos. Foi essa empresa quem assinou os cheques que financiaram a expulsão dos moradores do Arroio Pavuna, num flagrante desrespeito à lei. A Carvalho Hosken foi uma das maiores doadoras de campanha do prefeito César Maia (PFL).

Grandes doadoras de campanha costumam ser também grandes anunciantes. O que, para o jornalismo neoliberal, as transforma em empresas acima de qualquer suspeita. Quando estive no Canal do Anil, disse aos moradores: "A pressão vai aumentar cada vez mais. Podem aguardar reportagens no 'Globo' esculhambando vocês". Não deu outra.

Globo x Renan
17.06.2007 | 03h59 |

A TV Globo bate, a revista Época bate, o jornal O Globo bate, a CBN bate. Ou seja, as Organizações Globo parecem ter sido contrariadas por alguma decisão de Renan Calheiros, o presidente do Senado Federal. Sempre tiveram uma relação profícua, mas agora a coisa desandou. Não, não estou dizendo que Renan seja um santo. Nem mesmo estou dizendo que suas relações com lobistas devem ser esquecidas. Minha questão é de outra ordem: por que só agora isso veio à tona? Ou alguém acha que só agora foram descobertas as relações de Renan com Mônica e desses com o lobista? Teria alguma coisa a ver com o período de renovações de concessões de radiodifusão? Pergunta-se aos caríssimos leitores: qual será o pomo da discórdia?

Zapatistas escrevem ao MST
17.06.2007 | 03h31 |

"Sabemos que este seu Quinto Congresso tem o lema: "Reforma Agrária: Por Justiça Social e Soberania Popular". Quanta verdade há nessas palavras! Porque nenhuma nação pode se chamar verdadeiramente livre e soberana se a terra não é de quem trabalha nela, e não pode haver justiça social enquanto se continuar produzindo para o estrangeiro ladrão e não para o povo trabalhador".

Leia aqui a íntegra da mensagem enviada pelo Exército Zapatista de Libertação Nacional ao MST.

Enquete
17.06.2007 | 03h24 |

"Você acha que o I Fórum de TVs Públicas é um passo importante para a democratização da mídia?" Até agora, os 103 votantes se dividem da seguinte forma: 48,54% responderam "Sim. É um passo fundamental para garantir a pluralidade na mídia". Outros 41,75% disseram "Não. Esse governo está ao lado dos radiodifusores". E 9,71% acham que "Em termos. Os ministérios envolvidos não são tão expressivos assim". A pesquisa está na primeira página, à direita.

Na enquete anterior, perguntamos: "Você acredita que no segundo mandato o governo Lula cumprirá as promessas para a democratização da mídia?". Dos 598 votos, 76% responderam "Não" e 24% disseram que "Sim".

Que este exemplo se multiplique!
15.06.2007 | 12h11 |

Acabou de chegar em minha caixa postal:

Caro Marcelo,

Primeiramente, quero me apresentar. Meu nome é Leonardo Betti, sou aluno do 2º ano de Jornalismo da PUC-Campinas (PUCC), estagiário do jornal Terceira Visão de Valinhos-SP, colaborador do DACom e leitor assíduo do portal Fazendo Media.

Escrevo este e-mail para contar um "case", como dizem as revistas elitistas de empreendedorismo. Tenho uma matéria chamada Teoria da Opinião Pública, ministrada por um professor tucano neoliberal conservador. Temos que desenvolver, ao longo de seis meses, um projeto experimental de manipulação da opinião pública em um agrupamento de pessoas - seja numa van, num prédio, numa classe, enfim.

Utilizando o documentário A Revolução Não Será Televisionada, optamos por direcionar nossas intervenções numa sala do curso de Administração da PUCC em relação ao governo de Hugo Chávez. Nas primeiras pesquisas, detectamos que o senso comum imperava na classe, que respondia as alternativas "falastrão", "populista" e "ditador". Depois de 4 intervenções (uma audiovisual e três impressos direcionados) para atingir os pilares de convicção e formação de opinião da classe, conseguimos alterar o quadro em relação ao governo chavista. Na próxima semana, finalizamos o trabalho e concluímos o relatório com a última pesquisa.

Na manhã de ontem, utilizamos o último Correio Fazendo Media ("Dia Histórico Para a Humanidade") como a última intervenção do grupo para alterar os dados coletados na primeira pesquisa sobre a não renovação da concessão pública da RCTV. Pegamos o logotipo do Fazendo Media e ampliamos, xerocamos 70 cópias e distribuímos na sala. Infelizmente, não tivemos tempo ábil para pedir a autorização do coletivo para expor e divulgar o artigo.

Queria agradecer ao Fazendo Media pela ajuda. Aposto na ação desses coletivos libertários, que juntos podem desenvolver um trabalho de mídia alternativa/ação direta para libertar a comunidade dos "barões da mídia".

Abraços,
Leonardo

Prezado Leonardo, vocês estão de parabéns pela iniciativa. Conseguiram mostrar o outro lado da história para que as pessas pudessem fazer seu próprio julgamento. Fizeram aquilo que as corporações de mídia deixaram de fazer em razão de seus interesses políticos e econômicos. Espero que este exemplo se multiplique Brasil afora, não apenas com textos do Fazendo Media, mas também com informações de outras publicações alternativas. Uma vez desconstruída a forma de produção de notícias das corporações, elas perdem para sempre a credibilidade.

Esteja à vontade para usar qualquer material publicado aqui, somos adeptos do copyleft (a reprodução é permitida desde que citados fonte e autor).

Um grande abraço,
Marcelo

A Conquista do Estado
15.06.2007 | 02h52 |

Acabo de publicar na seção de Cultura o resumo do quinto capítulo do livro 1964: A Conquista do Estado, de René Dreifuss. Este capítulo é particularmente interessante porque o autor lista as corporações que participaram do Golpe Civil-Militar de 1964, a maioria delas em pleno funcionamento e remetendo seus lucros ilimitadamente para as matrizes no exterior. Vale a pena ler. Aos professores que acompanham o Fazendo Media, sugiro que façam uma apostila com os cinco capítulos publicados até aqui e distribuam para seus alunos. Não importa a série. O importante é que conheçam aspectos importantes desse período de nossa História recente. Caso contrário, dificilmente o presente será compreendido. E aí, nada de transformações sociais.

Duas do Azenha
15.06.2007 | 02h25 |

O jornalista Luiz Carlos Azenha publicou um comentário interessante a respeito da classificação indicativa. Diz ele: "O Brasil é um país tão atrasado que a ABERT - associação dos barões da mídia - quer atropelar o Estatuto da Criança e do Adolescente e banir a classificação indicativa. Usa para isso porta-vozes de aluguel, como o Jô Soares, que copiou o formato do Johnny Carson mas acha que descobriu o talk show". Leia a íntegra aqui.

No segundo comentário, ele mostra que o litro da gasolina nos EUA está R$ 1,50 (no Brasil é R$ 2,50) e relata a "coincidência" de os países malvados do mundo (Venezuela, Irã e Rússia) serem também donos de grandes reservas de petróleo, mas não serem controlados politicamente pelos EUA. Íntegra aqui.

Trem-maravilha
15.06.2007 | 02h21 |

Era um dia chuvoso, início de maio. Atravessava a Ponte Rio-Niterói e lá pelos idos do Vão Central começa a chover pesado... dentro do ônibus. Tudo fechado, mas a água entrava com vontade. A senhora que estava ao meu lado ficou toda ensopada e me contou que o mesmo acontecia com o novo trem da Supervia (concessionária privada que controla os trilhos que ligam o subúrbio ao Centro). Aí me lembrei de uma palestra para estudantes da Universidade Cândido Mendes, em outubro passado. Antes de mim falou a assessora de imprensa da Supervia. Disse maravilhas de um tal novo trem coreano que chegaria em alguns meses. Pois bem. O trem-maravilha, novinho em folha, não segura os dias de chuva.

Marcha contra a violência no Jacarezinho
15.06.2007 | 01h17 |

Recebi a nota abaixo da Rede Contra a Violência, uma organização séria que luta contra as agressões cometidas nas favelas, sobretudo pela polícia:

Nesta segunda-feira, dia 18 de junho, às 11h30, a Associação de Moradores do Jacarezinho, Centro Cultural, Escola de Samba, Célula Urbana do Jacarezinho, Ongs, Igrejas, comerciantes locais e outras, estaremos realizando uma MARCHA para protestar contra a ação violenta que a polícia tem feito no Jacarezinho. Já são aqui no Jacarezinho dezenas de pessoas mortas neste ano por esta ação assassina que o Estado tem imposto à nossa comunidade; pedimos a todos da Rede Contra a Violência que nos ajude a divulgar este ato pacífico que iremos realizar e que vocês também venham participar. No dia da marcha estamos pedindo que todos venham de trajes brancos. Obrigado a todos!

Grandes coisas
14.06.2007 | 00h49 |

A grande desgraça da História recente do Brasil não foi o golpe de 1964 em si, mas o sistema de comunicação que o sustentou durante 21 anos (ou seria até hoje?). Do mesmo modo que o grande erro não foi a eleição de Collor em 1989, mas a não eleição de Leonel Brizola naquele ano. Nossa esquerda não avança - ou avança muito devagar - porque não sabe ler a História. E pra quem pensou em me chamar de "viúva do Brizola", sugiro que procure um curso de alfabetização.

Completando: a grande greve brasileira ainda está para acontecer. Será quando caminhoneiros e portuários se unirem para impedir que nossas riquezas sejam exportadas antes de termos resolvido os problemas básicos do país.

Esperando a 1001 na Presidente Vargas
14.06.2007 | 00h01 |

Tenho um vizinho que adora tudo que é privado. Adora, não. Venera. Na lógica binária dele, tudo que é público é ruim e tudo que é privado é bom, desde que o governo não se meta. Como esse meu vizinho, há muitas pessoas. Desde já, faço um convite público a estas: acompanhem-me até a Av. Presidente Vargas, no centro do Rio de Janeiro. Esperem junto comigo por um ônibus da linha Itaipu ou Charitas da Viação 1001, uma empresa privada. Outro dia fiquei 1h30 comendo poeira no ponto, mochila pesada nas costas, sendo que três ônibus daquela linha passaram sem parar. Hoje, felizmente consegui chegar à casa mais cedo e atualizar o blog com mais calma. Ocorreu que o ônibus parou de primeira, numa das raras vezes em que o motorista não vinha apressado cortando os demais veículos pela pista da esquerda.

Chapolin Colorado
13.06.2007 | 01h22 |

É um formigueiro humano? Não... É um bando de zumbis seguindo um ditador? Não... É uma multidão fantasma? Não... É o Chapolin Colorado!

As manifestações contra Chávez, motivadas pela não renovação da concessão da RCTV, foram noticiadas à exaustão pelas corporações de mídia. Mas as manifestações a favor da decisão do governo Chávez foram omitidas. A foto acima não saiu nos jornalões, o que prova que a regrinha básica do "ouvir o outro lado" (ou "mostrar o outro lado") nem sempre é seguida pelas corporações de mídia. Veja aqui o vídeo do discurso do presidente da Venezuela para essa multidão, na Av. Bolívar (Caracas), em 2 de junho.

Ainda sobre a Venezuela: a FIESP divulgou e as corporações de mídia deram grande destaque para o fato de que empresas venezuelanas devem US$ 100 milhões ao Brasil. A FIESP sugeriu ainda que isso se trata de uma política do governo Chávez. Ou seja, outra entidade interessada em estimular o conflito entre os países latino-americanos. Mas a resposta veio logo. Recebi, por emeio, um documento de 12 páginas da Câmara Venezuelana-Brasileira de Comércio e Indústria. Além de questionar o valor apresentado pela FIESP, dois pontos me chamaram a atenção. 1) o volume de negócios entre Brasil e Venezuela cresceu 486% nos últimos três anos; 2) só em 2006 o Brasil exportou US$ 3,565 bilhões àquele país. Pergunta se as corporações de mídia publicaram este contraponto. Quem fica na mão é o leitor/telespectador, que paga para ser mau informado.

Não deveria ser surpresa
13.06.2007 | 01h10 |

Eliane Cantanhêde sempre defendeu o modelo EUA-Israel e as políticas genocidas que exportam mundo afora, desde a violência policial contra determinadas pessoas até o neoliberalismo, que mata milhões de fome e de doença todos os anos. Mas aí, quando deu de cara com o bicho, desmaiou. Em sua "pensata" de hoje [leia aqui] ela conta a história de como foi humilhada em aeroportos dos EUA e de Israel até perder a consciência.

O anúncio aí de cima
12.06.2007 | 00h09 |

Prezados amigos e queridas leitoras, devo dizer que o anúncio aí em cima faz parte de uma tentativa de ampliar o trabalho jornalístico do Fazendo Media. Explico: como sabem, o jornal se mantém através das assinaturas do impresso e de um caixinha composto por contribuições dos próprios integrantes. Como temos apenas 30 assinantes, fica evidente que pagamos para trabalhar. Dessa forma, sempre que aparecer um serviço extra (frila, no jargão jornalístico) a tendência é que a gente desvie a atenção e, consequentemente, o trabalho aqui fica prejudicado.

Qual é a idéia do anúncio? Capitalizar o jornal, claro. Mas essa modalidade de anúncio é daquelas que o anunciante paga por clique recebido. Quanto mais cliques, mais recursos teremos. Quanto mais recursos, mais tempo poderemos dedicar a reportagens e pesquisas. Porém, como o regulamento proíbe que a gente peça aos internautas para clicar nos anúncios, não vou fazer isso. Mas é claro que o leitor do Fazendo Media saberá o que fazer.

Sobre os anúncios (acho que isso posso falar): são sempre de empresas que possuem convênio com o Google e vão aparecer aqui aleatoriamente. Esse aí de cima, quando vi, era de uma página japonesa. Tudo bem, não dá pra entender nada. Mas o sistema do Google garante que em 48h aparecerão "anúncios relevantes". Pelo que entendi, esse será o tempo necessário para o Google fazer uma triagem e selecionar os anúncios que têm mais a ver com o tipo de informação publicada aqui. O que dá pra garantir é que os anúncios levam sempre a páginas seguras, sem vírus ou cookies.

Quem sabe dá certo...

2.081 visitas
09.06.2007 | 05h21 |

No dia 30 de maio, o fazendomedia.com registrou 2.081 visitas únicas. Isso significa que pelo menos 2.081 pessoas visitaram o jornal num único dia, sendo que esse número pode ser maior caso mais pessoas tenham acessado a página a partir do mesmo IP. Em todo caso, 2.081 é um número bastante expressivo, sobretudo se considerarmos que nosso investimento total em divulgação foi de R$ 0,00. Ou seja, só chegamos a essa visitação devido à divulgação boca-a-boca (ou emeio-a-emeio) dos leitores que por algum motivo acharam que vale a pena repassar as informações encontradas aqui.

Lembro do início, quando buscava incentivar os colegas. Não importava que fossem apenas 150, 180 visitantes por dia. Eu dizia: "Estão vendo, já estamos falando para um número de pessoas três vezes maior do que uma aula de nossos professores". Eu insistia nesse ponto porque em vez de 150, 180 pessoas, poderia não haver nenhuma. Bastava que nós fizéssemos como a esmagadora maioria dos estudantes de jornalismo: concluísse a faculdade e lutasse com todas as forças para entrar num dos veículos das corporações de mídia, onde o espaço para a prática do verdadeiro jornalismo é quase inexistente.

De lá pra cá, muita coisa mudou. O fazendomedia.com sofreu 3 modificações em seu desenho, sendo que a última foi realizada por uma profissional, a Mariana Simões. O conteúdo, inicialmente focado na análise de mídia, foi ampliado com as seções de política, movimentos sociais, educação, internacional, esportes e cultura. Cada uma delas tem um editor, que deve garantir ao menos uma atualização semanal. Além de ser um espaço de informação livre de interesses político-econômicos, as novas seções permitiram uma maior experimentação na estrutura dos textos. O resultado foi um significativo aumento no número de visitas.

Além disso, houve uma importante parceria com estudantes de Porto Alegre. Encabeçada por Eduardo Lorea, que conhecemos durante o Fórum Social de 2005, conseguimos até organizar um núcleo no sul. Hoje, a Thaís Fernandes, nossa editora de política, é quem segura a peteca por lá.

Eu não sei. Sou suspeito para falar. Mas os entendidos do assunto me garantem que 2.081 visitas diárias é um número expressivo. Deve ser. Outro dia o Emir Sader disse que seu blog chegou a ter dez mil, sendo que o Emir tem décadas de estrada e hospeda seu blog na Carta Maior, agência de notícias conhecida por qualquer pessoa bem informada. Em recente pesquisa dessa agência, o fazendomedia.com foi o veículo alternativo mais recomendado pelos leitores. Além disso, o jornal é elogiado por grandes nomes como Marcelo Yuka, Fausto Wolff, Jânio de Freitas, Georges Bourdoukan, Sérgio de Souza, Luiz Carlos Azenha, Gilson Caroni Filho, Alessandro Tarso, Gustavo Gindre e Gilberto Felisberto Vasconcellos, entre outros.

No fundo, todos aqueles que lutam pela democratização dos meios de comunicação querem uma sociedade mais justa. Nós já percebemos que a mídia, hoje, é a instituição com maior poder de produção de subjetividades. Isso significa que ela exerce grande influência nas formas de sentir, pensar e agir das pessoas. E uma sociedade funciona de acordo com as formas de viver da maioria. Se a maior parte da população acredita, por exemplo, que não pode fazer nada para mudar a situação do país (exatamente a visão conformista divulgada pelas corporações de mídia), tudo vai continuar como está. Do contrário, transformações profundas podem acontecer. Basta olhar para países vizinhos, onde não existem oligopólios de mídia, como no Brasil - ou, quando existem, são enfrentados pelo governo e pelo povo organizado.

Daí o terror que se abateu sobre as corporações de mídia em todo o mundo após a não renovação da concessão da RCTV pelo governo venezuelano. Porque qualquer avanço nessa área representa um avanço em todas as outras (sem-terra, sem-teto, educação, saúde, habitação, saneamento, movimento negro, movimento das mulheres, tudo). Democratizar a comunicação é democratizar a vida. Muito obrigado aos 2.081 visitantes e a todos aqueles que nos ajudam distribuindo nossos textos para suas listas de contato ou assinando nosso jornal impresso. Um grande abraço!

Nos EUA e na Inglaterra também
05.06.2007 | 00h34 |

A Administração Federal de Comunicações (FCC, na sigla em inglês), um órgão do governo dos Estados Unidos, fechou 141 concessionárias de rádio e TV entre 1934 e 1987. Em 40 desses casos, a FCC nem esperou que acabasse o prazo da concessão. Os dados foram levantados por Ernesto Carmona, presidente do Colégio de Jornalistas do Chile.

Reino Unido: a autoridade estatal decretou, em março de 1999, o fechamento temporário do MED TV, canal 22; em agosto de 2006, revogou a licença da ONE TV; em janeiro de 2004, a licença da Look 4 Love 2; em novembro de 2006, a da StarDate TV 24; e em dezembro de 2006 revogou o canal de televendas Auctionworld. Leia mais aqui.

Exemplo cristalino
04.06.2007 | 00h09 |

Não poderia ter melhor procedência. É do Supremo Tribunal Federal, a mais alta corte brasileira, que chega este exemplo cristalino daquilo que venho escrevendo neste Fazendo Media há quatro anos.

Ocorreu que o ministro Eros Grau concordou em extraditar, a pedido do governo boliviano, o cidadão John Axel Rivero Antero por tráfico de substâncias controladas, formação de quadrilha e confabulação. Porém, antes que a decisão fosse executada, outro ministro, Gilmar Mendes, suspendeu o processo, com a seguinte explicação: "A minha dúvida hoje é sobre a possibilidade de se extraditar alguém para a Bolívia, tendo em vista os padrões do Estado de Direito naquele país. Há notícias na imprensa internacional da prisão de membros do Tribunal Constitucional, razão pela qual peço vista dos autos".

Não me interessa entrar no mérito da questão. Saber se o cidadão é culpado ou inocente não importa. O que me interessa destacar é a justificativa do ministro Gilmar Mendes, mais precisamente o trecho "há notícias na imprensa internacional de prisão de membros do Tribunal Constitucional".

Aí está a manifestação de uma subjetividade adquirida a partir das corporações de mídia. A forma de agir do ministro foi pautada em "notícias da imprensa internacional", sem que o meritíssimo fizesse qualquer comentário acerca dessa imprensa. Desta forma, o magistrado outorga à referida imprensa poder de verdade incontestável, o que está longe da realidade. O ministro Gilmar Mendes não é um cidadão comum. Deve ter estudado bastante para chegar onde chegou, e por isso mesmo não tem o direito de ignorar que essa "imprensa internacional" a que se refere está a serviço de corporações privadas ou mesmo de governos, sobretudo o dos Estados Unidos. Isto já foi demonstrado em documentários como Control Room (Jehane Noujaim, Egito-EUA, 2004) ou The Corporation (Mark Achbar, Jennifer Abbott e Joel Bakan, Canadá, 2004).

Para esta "imprensa internacional", que reflete a opinião dessas corporações e governos que sobrevivem à base de guerras e invasões, é evidente que não existe Estado de Direito na Bolívia. Da mesma forma que Chávez e Fidel são ditadores. Para esta mesma "imprensa internacional", o governo dos Estados Unidos foi eleito democraticamente e o genocídio que empreende no Iraque tem o nobre propósito de levar a democracia àquela região do planeta. Assim como a legalização da tortura nos EUA, no final do ano passado, não faz desse país uma ditadura e o Estado de Direito não é posto em dúvida.

Ao mesmo tempo em que exemplifica os efeitos da produção de subjetividade pela mídia, o ministro Gilmar Mendes oferece uma demonstração pública da importância da democratização dos meios de comunicação.


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"Entre os melhores sites jornalísticos encontra-se o Fazendo Media, de Marcelo Salles" - Fausto Wolff, no Jornal do Brasil (27/07/06)

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Leituras indicadas:

> Programa Setorial de Comunicação e Democracia do Governo.

> "É preciso incentivar a mídia alternativa", entrevista com Ciro Gomes.

> Abaixo-assinado frustrado da TV Globo.

> TV Globo, o delegado e outros assuntos capitais.

> Um espectro ronda a democracia.

> O direito de criticar a imprensa.

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Vídeos recomendados:

> Muito Além do Cidadão Kane.

> Brizola responde aos ataques da Globo.

> Roberto Requião enfrenta a Globo.

> Midiatrix - Homer encontra Bonner.

> Subcomandante Marcos fala sobre a democratização da mídia


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