
Por Marcelo Salles - salles@fazendomedia.com

Algumas relações entre mídia e poder
23.02.2009 | 14h29 |
Reproduzo abaixo artigo do jornalista Altamiro Borges, que sempre publica textos interessantes em seu blog:
Mainardi pedirá a cabeça de Jabor?
Karen Kupfer, da revista de fofocas Quem, da Rede Globo, publicou há poucos dias uma notinha reveladora sobre a relação promíscua entre jornalistas e políticos: “Para comemorar o sucesso do programa Saia Justa, Suzana Villas Boas abriu sua casa no Alto de Pinheiros para uma festança daquelas. A turma de convidados, que também era recebida por Arnaldo Jabor, marido de Suzana, reuniu políticos, artistas e jornalistas. O candidato José Serra, para quem Suzana presta assessoria, foi prestigiá-la. Ficou um pouco e trocou idéias com alguns jornalistas”. Luís Frias, presidente do Grupo Folha, também participou da festança, “que ferveu na pista até o sol raiar”.
No mesmo período, a colunista Hildegard Angel escreveu no Jornal do Brasil outra nota curiosa: “Elmar Moreira, irmão de Edmar Moreira [o deputado dos demos que ficou famoso pelo castelo construído no interior mineiro], é casado com Ana Leitão, irmã de Miriam Leitão” – a jornalista da TV Globo famosa por seus palpites furados sobre economia, pela adoração ao deus-mercado e pela oposição doentia ao governo Lula. O interessante neste caso é que a colunista global, metida a sabe-tudo, nunca descreveu aos seus telespectadores os detalhes do luxuoso castelo demo.
Artista global com Kassab
Para encerrar a série sobre as relações indecentes entre jornalistas e políticos da direita, a sempre atenta Mônica Bergamo, uma das raras exceções do jornal Folha de S.Paulo, revelou no início de fevereiro: “O marido de Ana Maria Braga [estrela da TV Globo e do finado movimento golpista ‘Cansei’] é o mais novo colaborador da administração Gilberto Kassab (DEM-SP). Candidato derrotado à Câmara Municipal, Marcelo Frisoni vai assumir um cargo de ‘coordenação’ na Secretaria de Modernização, Gestão e Desburocratização” da prefeitura paulistana.
Dias antes, Bergamo foi ameaçada pelo marido brigão da artista global, que o irônico José Simão batizou de “Ana Ameba Brega”. Frisoni se irritou com a pergunta sobre o pagamento da pensão alimentícia para os dois filhos do seu casamento anterior: “Publica o que quiser. No dia seguinte, vou à redação dessa bosta de jornal e encho essa Mônica Bergamo de porrada na frente de todo mundo... A única pessoa que tentou ferrar comigo foi o Madrulha [ex-marido da apresentadora da TV Globo] e eu acabei com ele. Hoje ele é secretário de cachorro e não consegue mais nada”.
Cadê o “tribunal macartista” de Mainardi?
Deixando de lado as baixarias dos “famosos”, o que chama a atenção nestas notinhas é a relação obscena entre figurões da TV Globo e políticos da direita demo-tucana do país. Outra estrela da poderosa emissora, o filhinho de papai Diogo Mainardi, criou no início do mandato de Lula o seu “tribunal macartista mainardiano”, no qual promoveu abjeta cruzada contra alguns profissionais da imprensa. “A minha maior diversão é tentar adivinhar a que corrente do lulismo pertence cada jornalista”, explicou o troglodita na sua coluna de estréia na revista Veja, em dezembro de 2005.
Aos poucos, Mainardi dedurou alguns colunistas mais independentes. “Tereza Cruvinel é lulista. Dessas que fazem campanha de rua. Paulo Henrique Amorim pertence à outra raça de lulistas. É da raça dos aloprados, dos lulistas bolivarianos. Acha que a primeira tarefa do lulismo é quebrar a Globo e a Veja”, atacou. O caso mais famoso desta cruzada fascista foi o do jornalista Franklin Martins, acusado levianamente de possuir uma “cota de nomeações pessoais no serviço público”. Após longo bate-boca, a TV Globo preferiu apoiar o delator direitista e demitiu Franklin Martins.
Perguntar não ofende: será que Mainardi, “difamador travestido de jornalista”, fará barulho agora contra seus amiguinhos da TV Globo que gozam das intimidades demo-tucanas. Pedirá a cabeça de Arnaldo Jabor, cuja esposa é assessora do presidenciável tucano José Serra, freqüentador de sua mansão? Criticará a “cota de nomeações pessoais no serviço público” da cansada Ana Maria Braga? Pedirá detalhes picantes do castelo dos demos à “ortodoxa” Miriam Porcão – ou melhor, Leitão? Ou todos juntos – Jabor, Leitão, Ana Maria Braga e o macartista Mainardi – fazem parte do esquemão montado pela TV Globo para viabilizar a vitória do tucano José Serra em 2010?
A ditadura da Folha
20.02.2009 | 20h47 |
Editorial da Folha de S. Paulo, 17 de fevereiro de 2009
Limites a Chávez
Apesar da vitória eleitoral do caudilho venezuelano, oposição ativa e crise do petróleo vão dificultar perpetuação no poder
O ROLO compressor do bonapartismo chavista destruiu mais um pilar do sistema de pesos e contrapesos que caracteriza a democracia. Na Venezuela, os governantes, a começar do presidente da República, estão autorizados a concorrer a quantas reeleições seguidas desejarem.
Hugo Chávez venceu o referendo de domingo, a segunda tentativa de dinamitar os limites a sua permanência no poder. Como na consulta do final de 2007, a votação de anteontem revelou um país dividido. Desta vez, contudo, a discreta maioria (54,9%) favoreceu o projeto presidencial de aproximar-se do recorde de mando do ditador Fidel Castro.
Outra diferença em relação ao referendo de 2007 é que Chávez, agora vitorioso, não está disposto a reapresentar a consulta popular. Agiria desse modo apenas em caso de nova derrota. Tamanha margem de arbítrio para manipular as regras do jogo é típica de regimes autoritários compelidos a satisfazer o público doméstico, e o externo, com certo nível de competição eleitoral.
Mas, se as chamadas "ditabrandas" -caso do Brasil entre 1964 e 1985- partiam de uma ruptura institucional e depois preservavam ou instituíam formas controladas de disputa política e acesso à Justiça-, o novo autoritarismo latino-americano, inaugurado por Alberto Fujimori no Peru, faz o caminho inverso. O líder eleito mina as instituições e os controles democráticos por dentro, paulatinamente.
Em dez anos de poder, Hugo Chávez submeteu, pouco a pouco, o Legislativo e o Judiciário aos desígnios da Presidência. Fechou o círculo de mando ao impor-se à PDVSA, a gigante estatal do petróleo.
A inabilidade inicial da oposição, que em 2002 patrocinou um golpe de Estado fracassado contra Chávez e depois boicotou eleições, abriu caminho para a marcha autoritária; as receitas extraordinárias do petróleo a impulsionaram. Como num populismo de manual, o dinheiro fluiu copiosamente para as ações sociais do presidente, garantindo-lhe a base de sustentação.
Nada de novo, porém, foi produzido na economia da Venezuela, tampouco na sua teia de instituições políticas; Chávez apenas a fragilizou ao concentrar poder. A política e a economia naquele país continuam simplórias -e expostas às oscilações cíclicas do preço do petróleo.
O parasitismo exercido por Chávez nas finanças do petróleo e do Estado foi tão profundo que a inflação disparou na Venezuela antes mesmo da vertiginosa inversão no preço do combustível. Com a reviravolta na cotação, restam ao governo populista poucos recursos para evitar uma queda sensível e rápida no nível de consumo dos venezuelanos.
Nesse contexto, e diante de uma oposição revigorada e ativa, é provável que o conforto de Hugo Chávez diminua bastante daqui para a frente, a despeito da vitória de domingo.
Cartas publicados no Painel do Leitor no dia seguinte. Atenção para as respostas do jornal:
Ditadura
"Golpe de Estado dado por militares derrubando um governo eleito democraticamente, cassação de representantes eleitos pelo povo, fechamento do Congresso, cancelamento de eleições, cassação e exílio de professores universitários, suspensão do instituto do habeas corpus, tortura e morte de dezenas, quiçá de centenas, de opositores que não se opunham ao regime pelas armas (Vladimir Herzog, Manuel Fiel Filho, por exemplo) e tantos outros muitos desmandos e violações do Estado de Direito.
Li no editorial da Folha de hoje que isso consta entre "as chamadas ditabrandas -caso do Brasil entre 1964 e 1985" (sic). Termo este que jamais havia visto ser usado.
A partir de que ponto uma "ditabranda", um neologismo detestável e inverídico, vira o que de fato é? Quantos mortos, quantos desaparecidos e quantos expatriados são necessários para uma "ditabranda" ser chamada de ditadura? O que acontece com este jornal?
É a "novilíngua"?
Lamentável, mas profundamente lamentável mesmo, especialmente para quem viveu e enterrou seus mortos naqueles anos de chumbo.
É um tapa na cara da história da nação e uma vergonha para este diário."
SERGIO PINHEIRO LOPES (São Paulo, SP)
Nota da Redação - Na comparação com outros regimes instalados na região no período, a ditadura brasileira apresentou níveis baixos de violência política e institucional.
Cartas publicados no dia 19:
Ditadura
"Lamentável o uso da palavra "ditabranda" no editorial "Limites a Chávez" (Opinião, 17/2) e vergonhosa a Nota da Redação à manifestação do leitor Sérgio Pinheiro Lopes ("Painel do Leitor", ontem). Quer dizer que a violência política e institucional da ditadura brasileira foi em nível "comparativamente baixo'? Que palhaçada é essa? Quanto de violência é admissível? No grande "Julgamento em Nuremberg" (1961), o personagem de Spencer Tracy diz ao juiz nazista que alegava que não sabia que o horror havia atingido o nível que atingira: "Isso aconteceu quando você condenou à morte o primeiro homem que você sabia que era inocente". A Folha deveria ter vergonha em relativizar a violência. Será que não é por isso que ela se manifesta de forma cada vez maior nos estádios, nas universidades e nas ruas?"
MAURICIO CIDADE BROGGIATO (Rio Grande, RS)
"Inacreditável. A Redação da Folha inventou um ditadômetro, que mede o grau de violência de um período de exceção. Funciona assim: se o redator foi ou teve vítimas envolvidas, será ditadura; se o contrário, será ditabranda. Nos dois casos, todos nós seremos burros."
LUIZ SERENINI PRADO (Goiânia, GO)
"Com certeza o leitor Sérgio Pinheiro Lopes não entendeu o neologismo "ditabranda", pois se referia ao regime militar que não colocou ninguém no "paredón" nem sacrificou com pena de morte intelectuais, artistas e políticos, como fazem as verdadeiras ditaduras. Quando muito, foram exilados e prosperaram no estrangeiro, socorridos por companheiros de esquerda ou por seus próprios méritos. Tivemos uma ditadura à brasileira, com troca de presidentes, que não vergaram uniforme e colocaram terno e gravata, alçando o país a ser a oitava economia do mundo, onde a violência não existia na rua, ameaçando a todos, indistintamente, como hoje. Só sofreu quem cometeu crimes contra o regime e contra a pessoa humana, por provocação, roubo, sequestro e justiçamentos. O senhor Pinheiro deveria agradecer aos militares e civis que salvaram a nação da outra ditadura, que não seria a "ditabranda"."
PAULO MARCOS G. LUSTOZA , capitão-de-mar-e-guerra reformado (Rio de Janeiro, RJ)
"Mas o que é isso? Que infâmia é essa de chamar os anos terríveis da repressão de "ditabranda'? Quando se trata de violação de direitos humanos, a medida é uma só: a dignidade de cada um e de todos, sem comparar "importâncias" e estatísticas. Pelo mesmo critério do editorial da Folha, poderíamos dizer que a escravidão no Brasil foi "doce" se comparada com a de outros países, porque aqui a casa-grande estabelecia laços íntimos com a senzala -que horror!"
MARIA VICTORIA DE MESQUITA BENEVIDES , professora da Faculdade de Educação da USP (São Paulo, SP)
"O leitor Sérgio Pinheiro Lopes tem carradas de razão. O autor do vergonhoso editorial de 17 de fevereiro, bem como o diretor que o aprovou, deveriam ser condenados a ficar de joelhos em praça pública e pedir perdão ao povo brasileiro, cuja dignidade foi descaradamente enxovalhada. Podemos brincar com tudo, menos com o respeito devido à pessoa humana."
FÁBIO KONDER COMPARATO , professor universitário aposentado e advogado (São Paulo, SP)
Nota da Redação - A Folha respeita a opinião de leitores que discordam da qualificação aplicada em editorial ao regime militar brasileiro e publica algumas dessas manifestações acima. Quanto aos professores Comparato e Benevides, figuras públicas que até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como aquela ainda vigente em Cuba, sua "indignação" é obviamente cínica e mentirosa.
Em defesa da comunicação comunitária
19.02.2009 | 11h58 |
Segue abaixo o excelente pronunciamento do deputado federal Ivan Valente (PSOL-RJ), realizado neste dia 18 de fevereiro de 2009, no Congresso Nacional:
Em defesa das rádios comunitárias
Sr. Presidente, sras e srs. Deputados,
A imprensa fez muito alarde, na semana passada, ao noticiar um projeto de lei encaminhado pela Presidência da República ao Congresso, descriminalizando a prática da radiodifusão comunitária. Os grandes donos da mídia, que se dizem defensores da liberdade de expressão, foram os primeiros a dizer que o PL estimularia a profusão de rádios chamadas por eles de piratas. Na verdade, o grande mérito do projeto de lei é dizer que praticar comunicação sem licença não é crime, não pode ser um assunto, portanto, tratado pela Polícia Federal, como há décadas acontece neste país.
Neste momento, é preciso lembrar que o Brasil vive uma das situações mais extremas de violação do direito à comunicação de suas comunidades. A lei que regula a radiodifusão comunitária no país é extremamente restritiva. Impõe limites de potência, altura de antena e área de cobertura que pouco dialogam com nossa estrutura geográfica. Da mesma forma, impede o funcionamento das emissoras em rede, bloqueando qualquer iniciativa coletiva em defesa do interesse público; e restringe as formas de financiamento dessas emissoras, fazendo com que muitas deixem de existir por total falta de recursos, apesar da dedicação e empenho das comunidades. A lei 9612/98, que regula o setor, ainda tem um problema sério: reserva apenas um canal para emissoras comunitárias por localidade, deixando todo o restante do espectro eletromagnético para a exploração de rádios comerciais. Tal situação leva a absurdos como o que acontecem em minha cidade, São Paulo. Lá, o dial FM tem 39 canais para rádios comerciais e apenas um para emissoras comunitárias.
Também é preciso lembrar, Sr. Presidente, que muitas dessas emissoras funcionam de forma irregular porque simplesmente não conseguem obter a autorização do Ministério das Comunicações para operarem. Além dos procedimentos serem altamente burocratizados, o próprio MiniCom já admitiu que não tem a estrutura necessária para responder à demanda por novas outorgas. O resultado é que há comunidades que esperam mais de sete, oito anos para obterem uma autorização de funcionamento. Enquanto isso, a liberdade de expressão dessas pessoas segue violada cotidianamente.
Neste sentido, o projeto de lei que descriminaliza a prática de radiodifusão não autorizada é muito bem vindo. Se aprovado, deixaremos de conviver com situações bárbaras como a constatada também na semana passada, quando policiais do BOPE foram chamados para fechar rádios no Rio de Janeiro. Que crime essas pessoas estariam cometendo? A prática da radiodifusão comunitária sem autorização não prejudica a ninguém, ao contrário, beneficia diversas comunidades que passam a ter veículos que dialogam com sua realidade.
Por outro lado, é preciso fazer uma crítica ao projeto enviado pela Presidência. Se por um lado ele retira a questão de um tratamento criminal, por outro ele aumenta fortemente as sanções administrativas. Pelo novo PL, "a execução do serviço de radiodifusão comunitária sem a devida autorização do Poder Concedente constitui infração gravíssima sancionada com a apreensão dos equipamentos, multa e a suspensão do processo de autorização de outorga ou a impossibilidade de se habilitar em novo certame até o devido pagamento da referida multa".
Além disso, segundo o novo texto, a veiculação de qualquer tipo de publicidade em desacordo com a lei 9.612 se torna penalizável com a revogação da autorização para funcionamento. Não há motivo para aumentar a punição por isso, já que este é um ponto cuja regulamentação é vaga e controversa e essa definição cria uma insegurança jurídica que pode inibir práticas legais pelas emissoras.
Outra questão que precisa ser aperfeiçoada no projeto é uma definição mais precisa de radiodifusão comunitária, cujo cumprimento possa ser verificado num momento de fiscalização. Do contrário, correremos o risco de tratar da mesma forma qualquer prática não autorizada de radiodifusão, sabendo que há diversas emissoras comerciais que funcionam ilegalmente com o único objetivo do lucro privado.
Por fim, Sr. Presidente, lembro que há outro projeto que trata da descriminalização das rádios comunitárias em tramitação na Casa. Trata-se do substitutivo do deputado Walter Pinheiro, aprovado em dezembro na Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática. Ele descriminaliza a prática, anistia aqueles que estão sendo processados criminalmente – o Código Brasileiro de Telecomunicações previa pena de detenção para toda transmissão sem autorização – e não aumenta nenhuma sanção administrativa. Nos parece, portanto, uma melhor abordagem legal para a questão.
Aqui, então, destaco minha concordância com o parecer do deputado, que afirma que “as rádios comunitárias verdadeiras, operando com ou sem outorga, não representam uma ameaça à radiodifusão comercial, à população ou ao sistema de controle do tráfego aéreo, como muitos querem fazer crer”. As rádios comunitárias, pelo seu caráter democratizante e por serem uma forma de exercício do direito à comunicação das comunidades brasileiras, não podem e não devem ser tratadas como qualquer serviço de radiodifusão. Devem ser protegidas, apoiadas e estimuladas, para que a mídia em nosso país possa, de fato, ser reflexo da nossa pluralidade e da nossa diversidade.
Promover e incentivar as rádios comunitárias é uma reivindicação histórica do movimento pela democratização da comunicação e uma promessa até hoje não cumprida pelo governo Lula, que até agora aplica para essas emissoras a mesma política de repressão desenvolvida nos governos de FHC.
Muito obrigado.
Ivan Valente
Deputado Federal - PSOL/SP
Viu?
17.02.2009 | 20h19 |
A revista Veja publicou na sua edição deste final de semana, uma "matéria" sobre o referendo na Venezuela. O subtítulo dizia: "Em uma década de governo, Chávez destruiu a economia e dividiu o país. Neste domingo, 15, o povo vai dizer se o quer para sempre".
Para o desgosto da revista, os masoquistas venceram...
A pergunta que não quer calar
17.02.2009 | 17h35 |
MC Leonardo ficou indignado com uma matéria do Jornal da Globo sobre o tráfico de drogas no Rio de Janeiro. Com razão. Mais uma vez o telejornal da família Marinho, que desde a ditadura se locupleta com dinheiro público e sem nenhuma responsabilidade social, manipula um tema bastante delicado para criminalizar quem vive nas favelas. MC Leonardo sabe bem o que está falando quando critica a reportagem; ele nasceu e foi criado na Rocinha, uma das maiores favelas do Rio. Com conhecimento de causa, aponta o dedo para a pergunta que não quer calar: por que não há reportagens sobre como drogas e armas chegam nas favelas? Por que não há interesse em saber quem são os grandes tubarões deste rentável e mortífero negócio? Seguem abaixo as reflexões de MC Leonardo:
Vergonhosa
Foi exatamente assim que eu classifiquei a matéria do "jornal da globo" terça-feira dia 10/02.
A matéria perguntava quantos chefões do tráfico a polícia ainda precisava prender, já que a grande maioria dos chefões do trafico já estaria preso segundo as declarações da própria polícia.
Um delegado de polícia fala o seguinte: "NA FAVELA EXISTE PRIMEIRO, SEGUNDO, TERCEIRO E QUARTO ESCALÃO; NA VERDADE NA FAVELA EXISTE TODA UMA HIERARQUIA MONTADA, ISSO JUSTAMETE PRA SE UM TRAFICANTE FOR PRESO JÁ EXISTIR IMEDIATAMENTE OUTRO QUE VAI ASSUMIR O0 LUGAR DELE".
E fazendo uma espécie de mapeamento do tráfico a reportagem segue concluindo o que segundo eles corresponde a tal hierarquia.
Grandes chefões do tráfico que estão presos dão ordem de dentro das cadeias para jovens de dentro das mais de 600 favelas, divididas em 3 facções. Através de advogados e parentes essas ordens chegam na favela para ser cumpridas por outros traficantes, e quem tem a responsabilidade do cumprimento da ordem é outro chefão que está no comando da favela.
O mapeamento do tráfico continua, dizendo como os chefões trabalham.
Eles têm os gerentes, que abaixo deles tem uns soldados, que depois vem os endoladores...
Enquanto a mídia, a polícia, a política de segurança desse país, estiverem tratando o combate ao trafico de drogas dizendo ter chefões nas favelas e cadeias vai resultar somente o seguinte: mortes da população favelada, desinformação de quem vive longe do problema e o efeito colateral que é produzir criminosos. Por que a mesma reportagem não faz o mapeamento de como as drogas chegam nas favelas (que são os verdadeiros tráficos, pois são toneladas passeando pra lá e pra cá pelo céu, terra e mar) e de como as armas (muitas delas das forças armadas de vários países inclusive do Brasil), conseguem chegar nas mãos de jovens e crianças que sequer um dia saíram de um ambiente totalmente ilusório criado por sucessíveis governos?
Não podemos mais deixar que falem do problema da vendas de drogas no nosso país com tanta falta de conhecimento, ou de compromisso com a sociedade.
Bom debate
15.02.2009 | 19h55 |
PC Guimarães foi meu professor enquanto estudei na Facha (depois fiz prova de transferência para a UFF e me classifiquei em segundo lugar, das quatro vagas disponíveis). Enviei pra ele a reflexão abaixo, intitulada "Jornalistas e jornalistas", e ele a publicou em seu blog (http://blogdoprofessorpc.blogspot.com) com a seguinte introdução:
Marcelo Salles foi mais um dos meus alunos que se tornaram profissionais brilhantes. E publicar um artigo inédito dele, direto de La Paz, é uma honra. Boa reflexão. Mas não concordo plenamente com o Marcelo. Trabalhei na Grande Imprensa e conheço grandes profissionais na Grande Imprensa que "vendem" seu trabalho com dignidade. Tem espaço para todo mundo. Não é crime trabalhar na Grande Imprensa. Também tem muito canalha entre aqueles "que escolheram um caminho diferente".
Respondo a ele, por emeio, que concordo plenamente com a segunda parte de sua observação: há excelentes profissionais nas corporações de mídia, não é crime trabalhar nela e existem muitos canalhas fora da imprensa grande. Reitero ainda que esse tema suscita um bom debate, bastante saudável à prática do jornalismo.
Nesse sentido, continuo a reflexão com a seguinte afirmação: não é crime trabalhar nas corporações de mídia, mas sua linha editorial é criminosa. E é criminosa em vários aspectos, sendo que todos convergem para a defesa do sistema capitalista e a esculhambação do socialismo. O sistema capitalista, como ensinou Marx, está baseado na exploração da classe trabalhadora. O lucro do capitalista vem da mais-valia extraída dos funcionários que não possuem os meios de produção e vendem sua força de trabalho. Existem derivações possíveis daí, como a mais-valia videofinanceira de que fala Gilberto Vasconcellos e outras formas de explorar o trabalho alheio.
Dou outros exemplos que comprovam o caráter criminoso da linha editorial das corporações de mídia. Em 2003, todos os jornalões, rádios e televisões brasileiras toparam promover a invasão dos EUA ao Iraque, que deixou milhares de mortos e feridos, em sua maioria civis. O mesmo se vê diante de todas as outras invasões com motivações capitalistas. No Rio de Janeiro, as corporações de mídia apóiam descaradamente a matança da população civil por forças policiais, na ordem de 1.330 pessoas por ano. O salário mínimo miserável não é motivo de reportagens indignadas, assim como os despejos violentos contra a população mais pobre - estes, ao contrário, são motivo de reportagens que trabalham o imaginário coletivo para aceitar tamanha violência.
Por isso concordo com o professor. É perfeitamente natural que um jornalista venda sua força de trabalho às corporações de mídia, mas ele deve saber onde está pisando.
Construindo o socialismo
15.02.2009 | 15h05 |
Hoje os venezuelanos decidem pela continuidade, ou não, da revolução bolivariana. Entre as maiores conquistas do novo processo, eu destacaria a erradicação do analfabetismo (2005) e os projetos na área da saúde, que pela primeira vez levam atendimento gratuito e com qualidade a quem não pode pagar por esta necessidade básica do ser humano. Alguns números impressionam: desde que Chávez chegou ao poder, em 1997, o salário mínimo passou de 47 dólares para 371 dólares. No mesmo período, a pobreza extrema foi reduzida de 42,5% da população para 9,5%.
O governo venezuelano promove, sem esconder de ninguém, uma guinada do país ao socialismo. Chávez já se manifestou diversas vezes neste sentido, de "que o sistema capitalista está destruindo o planeta e a alternativa é o socialismo". É só por isso que a direita mundial, liderada pelos EUA, ataca o presidente venezuelano e a proposta de mudança na Constituição, que está sendo votada neste momento no país vizinho. A possibilidade de reeleição indefinida para presidente e demais cargos eletivos, com o voto do povo, é uma garantia de continuidade das transformações rumo ao socialismo. Por isso o chamam de ditador que quer se eternizar no poder. Entretanto, uma consulta rápida mostra que seus detratores de hoje (no Brasil, TV Globo à frente) nunca se incomodaram, por exemplo, com os 17 anos de Pinochet, que sequestrou, torturou e assassinou milhares de chilenos. Ou com os 21 anos de ditadura civil-militar no Brasil e etc. Um pouquinho de coerência não faz mal a ninguém (sobretudo para um detalhe chamado credibilidade).
Quem mandou?
14.02.2009 | 22h29 |
Se metade do que escreve o Rui Martins neste artigo for verdade, acrescento apenas duas perguntas às autoridades brasileiras: quem mandou acreditar em quem não tem credibilidade? Quem mandou não investir na criação de veículos de comunicação preocupados em fazer Jornalismo e que tenham o mesmo alcance dos comerciais?
Jornalistas e jornalistas
14.02.2009 | 21h26 |
O jornalista deve ser um combatente, não um expectador
- José Carlos Mariátegui
Glória, RJ, sede da rádio CBN, segundo semestre de 2008. A emissora das Organizações Globo convida todas as assessorias dos candidatos à Prefeitura do Rio para discutir as regras e a ordem das entrevistas e a cobertura. Oswaldo Maneschy, representando o PDT, questiona a opção da CBN de utilizar as pesquisas de opinião como critério para definir a ordem das entrevistas. Ele sabe que essas pesquisas já foram utilizadas para fraudar eleições, como ficou claro no escândalo do Pró-Consult. Marisa Tavares, diretora de jornalismo, acaba aceitando sortear a ordem. Mas sobre o tempo de cobertura, ela sentencia: “Não vou perder tempo cobrindo partido pequeno”. Ao que Maneschy responde: “Nos últimos 20 anos elegemos três governadores no Rio de Janeiro. Isso é partido pequeno, Marisa?”. Ela não respondeu, mas quando o representante do PDT saiu da sala, Marisa comentou: “Maneschy abraçou uma causa... Ele parou nos anos 80”.
Conto essa história porque sinto uma onda reacionária de jornalistas que atualmente vendem sua força de trabalho às corporações de mídia contra aqueles profissionais que escolheram um caminho diferente. Isto fica bastante visível no menosprezo da diretora da CBN em relação ao Oswaldo Maneschy. Para se posicionarem desta forma, esses jornalistas acreditam piamente no mito da imparcialidade. Acham que basta ouvir os dois lados, mas aparentemente não percebem que a vida não é feita em preto e branco. Ou, mais além, parecem não saber que as empresas onde trabalham estão a serviço de um determinado projeto político. Nesse sentido, pode-se dizer sem medo de errar que todo jornalista abraça uma causa, tanto os que escolhem militar num partido político, ONG ou movimento social, quanto aqueles que suam a blusinha para ingressar numa das poucas corporações de mídia. A diferença é o que cada um defende.
Num país capitalista, autoritário, machista, racista e brutalmente desigual como o Brasil, as corporações de mídia cumprem um papel fundamental para a manutenção do sistema. Enquanto equipamento de controle social, seu objetivo é reduzir a resistência diante de todas essas formas de opressão. Resistência que geralmente se manifesta através dos movimentos sociais, criminalizados pela mídia corporativa e defendidos pela outra imprensa.
Muitas vezes os jornalistas que abraçam a mídia grande não se dão conta deste processo. Como cada vez mais a pauta chega pronta – desde quem pode ser ouvido até o que o ouvido deve dizer, passando pelo fato não desprezível da criteriosa escolha de quem é o “outro lado” autorizado a ser ouvido – esses jornalistas se transformam em autômatos. Toda a formação acadêmica, sobretudo nas áreas de sociologia, filosofia e semiologia vão por água abaixo. Daí William Bonner ter dito que forma uma jornalista em seis meses (melhor teria sido falar em “adestramento”). Diante desta alienação, voluntária ou não, o resultado é que passam a vida como meros expectadores, incapazes de refletir sobre sua própria profissão e sua missão social. O máximo que conseguem é levantar a voz contra os jornalistas que escolheram caminhos diferentes.
Saudades de Niterói
14.02.2009 | 20h59 |
Hoje tomei o café da manhã num dos lugares mais aprazíveis de La Paz. No bairro de Sopocachi há um Café encostado num jardim repleto de plantas, flores e pássaros. A harmonia do ambiente me lembrou muito a casa onde fui criado, em Itaipu (Niterói-RJ). A saudade, essa palavrinha que só nós temos, veio em forma de lágrimas, ainda mais depois de lembrar os versos do Cartola citados no blog do Rodrigo Vianna. A Fernanda tenta, em vão, me consolar. Veio a imagem do meu pai tocando violão – Cartola é um dos seus autores preferidos. Meu pai me ensinou a tocar violão, a jogar futebol e tênis, e me obrigou a aprender datilografia. Foi ele quem me passou as primeiras noções de humildade e de justiça, que ninguém deve ser explorado, muito antes que eu começasse a ler Che, Marx ou Lênin. Lembro dos cachorros correndo pelo quintal, eu e minha irmã crianças, brincando como se estivéssemos no paraíso. Também recordo da nossa mãe, que sempre nos dedicou toda a atenção do mundo e o amor indispensável à formação revolucionária, segundo o Che. Então percebo que no fundo, no fundo, minhas lembranças são apenas daquilo que me trouxe aqui.
Ameaça contra o povo
14.02.2009 | 20h56 |
A Rede Contra a Violência distribuiu a nota abaixo, assinada por Maurício Campos:
Uma equipe da prefeitura esteve hoje (12/02) na Ocupação Zumbi dos Palmares (Av. Venezuela, 53 - Centro do Rio) e entregou aos moradores uma notificação de interdição do prédio. O pretexto é o suposto risco de queda da marquise frontal do prédio, o que colocaria transeuntes em risco. A marquise não apresenta nenhum sinal de dano estrutural e o único incidente observado nos quase quatro anos de ocupação (que começou em 25/04/2005) foi o desprendimento de pequenos pedaços de revestimento (emboço), que não causaram dano a ninguém e a nada.
Tudo indica, portanto, que a notificação é apenas um subterfúgio para aplicar o "Choque de Ordem" de Eduardo Paes e Cia. contra a ocupação, onde uma grande parte de moradores (cerca de 130 famílias) são camelôs que trabalham no centro do Rio.
Os moradores já começaram a se mobilizar, amanhã participarão de uma entrevista na rádio Bandeirantes (1360 kHz AM, programa Faixa Livre do jornalista Paulo Passarinho) e estão agora à noite realizando uma assembléia geral extraordinária. Toda solidariedade é importante neste momento, trata-se não apenas da manutenção da conquista da moradia para as famílias da Zumbi, mas também de enfrentar esta ofensiva da prefeitura que é fascista até no nome: "Choque de Ordem".
Mais informações com Juvenal (9646-5974) e Valentim (9863-6411), moradores da Zumbi.
Hora de nos unirmos - II
11.02.2009 | 13h09 |
Esta imagem está no topo da primeira página do jornal O Globo de 10 de fevereiro de 2009. Clique aqui para ampliá-la

Não tenho muito a acrescentar em relação ao artigo abaixo, publicado pelo João Paulo Malerba. Quero apenas destacar o sexto parágrafo da matéria do Globo, um dos muitos abertos à opinião do capitão do Bope Ivan Blaz: "Desde o início da nossa ocupação, fizemos várias apreensões, sempre com a ajuda dos moradores, que estão indignados com a ação do tráfico na comunidade".
Eu acho que isso é motivo suficiente para que o jornal perca a licença para funcionar. E quem assina o texto deveria ter o diploma cassado. Veja bem: no meio de uma matéria sobre fechamento de rádios comunitárias publica-se uma declaração contra "a ação do tráfico". O que tem a ver as rádios comunitárias com o tráfico? Quem financia o tráfico são as empresas capitalistas amigas do jornal! Qual o sentido político desse parágrafo se não a criminalização, nua e crua, da comunicação popular? Tá certo que o Globo já perdeu os últimos resquícios de credibilidade, mas agir dessa forma é descambar para o banditismo puro e simples. Onde está o Ministério Público?
Ah, e antes que eu me esqueça: piratas são os que se criaram com a ditadura, como as Organizações Globo! Pirata é quem vive atrás de dinheiro, nem que para isso tenha que ser conivente com um regime que sequestrou, torturou e matou inúmeros brasileiros! Pirata é quem defende um sistema que coloca o lucro acima da vida!
Segue abaixo o belíssimo artigo de João Paulo Malerba:
Jornalismo de mentira
Hoje (10/02/2009) os leitores do Jornal O Globo foram surpreendidos com uma notícia de primeira página sobre rádios comunitárias. Ops, corrigindo: as (pseudo)jornalistas dO Globo não sabem o que isso significa: só conseguem repetir em coro uníssono o velho bordão: "rádios piratas". Em nenhum momento da chamada na primeira capa e da matéria interna (praticamente de página inteira) há a menção da expressão "rádios comunitárias". Mesmo no final, bem no finalzinho, quando as (pseudo)jornalistas Ana Cláudia Costa e Carla Rocha mencionam o projeto de lei que prevê a descriminalização das rádios comunitárias, o texto insiste em "rádios piratas", um termo cunhado para deslegitimar o trabalho de milhares de brasileiros e brasileiras que lutam pela democratização da comunicação em todo o Brasil. As (pseudo)jornalistas parecem desconhecer (ou terem sido orientadas para tal) que o Estado Brasileiro reconhece legalmente o trabalho das rádios comunitárias, através da lei 9.612/98. Talvez as (pseudo)jornalistas não tenham aprendido uma lição básica do jornalismo (ou foram orientadas a não fazê-lo): consultar fontes. Uma olhadinha rápida no site do Ministério das Comunicações (o endereço é http://www.mc.gov.br/, no Google é fácil achar, viu?) revelaria que o Estado desconhece o termo "rádio pirata" que a matéria insiste em usar. As rádios comunitárias, reconhece institucionalmente o Ministério, "é um tipo especial de emissora de rádio FM (...) criada para proporcionar informação, cultura, entretenimento e lazer a pequenas comunidades." Bem, as (pseudo)jornalistas só conseguem enxergar ilegalidade quando o assunto é rádios comunitárias.
A matéria toda é um show de jornalismo tendencioso e, o pior, mal feito. Porque há muito tempo já foi desmistificada a idéia de imparcialidade no jornalismo: todo discurso exige tomada de posição e com o jornalismo não é diferente. As grandes corporações de mídia (com as organizações Globo no carro de frente) sempre atacaram descaradamente as rádios comunitárias e não esperaríamos algo diferente agora. Mas se as (pseudo)jornalistas tinham que fazer o trabalho sujo (afinal, trabalhar na Globo exige que o jornalista coloque sua ética na gaveta antes de ir para o escritório), pelo menos poderiam tê-lo feito com mais cuidado. É que assim fica feio demais...
A matéria fala do fechamento de "cinco rádios clandestinas" na Cidade de Deus. Detalhe: cinqüenta PMs do Batalhão de Operações Especiais (isso mesmo!) foram escalados para a operação. As fotos revelam a real necessidade para tudo isso: homens fortemente armados ao redor de umas casinhas simples, sem qualquer indício de resistência por parte dos "criminosos" comunicadores populares. Bem, a justificativa é que uma rádio "estaria interferindo na comunicação do Aeroporto de Jacarepaguá". As (pseudo)jornalistas não devem saber disso (ou foram orientadas para não sabê-lo), mas o movimento de rádios comunitárias já emitiu diversos pareceres provando a improbabilidade de que rádios de baixa potência (25 watts) interfiram na comunicação pública. A própria assessora técnica da Secretaria de Assuntos Legislativos do Ministério da Justiça, Maria Gabriela, em entrevista para o RadioTube (http://www.radiotube.org.br/icox.php?mdl=nucleo_duro&op=comentar&id=1293&usuario=23&from=audio) admitiu isso.
No meio da reportagem há dois parágrafos aparentemente deslocados: não têm absolutamente nada a ver com a matéria. O capitão Ivan Blaz fala de umas apreensões "sempre com a ajuda de moradores, que estão indignados com a ação do tráfico na comunidade". Ué? Mas não era uma matéria sobre rádios comunit...ops, digo, piratas?!? O que essa informação está fazendo aí? É aí que entra um truque discursivo que as (pseudo)jornalistas souberam usar muito bem: mensagens implícitas. A operação do Bope (eles que são pagos com dinheiro público para realizar operações de grande complexidade) para o fechamento de rádios comunitárias não tinha nada a ver com tráfico de drogas, mas, bem... Estamos falando sobre comunidades, né? Por que não encaixar mais uma informação para sujar a imagem das rádios comunitárias? Jornalismo de mentira serve pra isso mesmo...
Outra regrinha simples, daquelas que a gente aprende no primeiro período da faculdade de jornalismo: procurar ouvir todas as partes. As (pseudo)jornalistas só conhecem representantes da Abert (a associação que trabalha a serviço das empresas de comunicação do Brasil), só eles estão autorizados a falar sobre radiodifusão em nosso país. Não procuraram saber de uma associação que pudesse falar pelas rádios comunitárias. Uma olhadinha rápida no Google já indicaria que são muitas: ABRAÇO (Associação Brasileira de Rádios Comunitárias), AMARC (Associação Mundial de Rádios Comunitárias), FARC (Federação das Associações de Rádios Comunitárias do Rio de Janeiro) etc. Será que é porque elas colocaram "rádio pirata" como critério de busca? E quanto aos comunicadores que foram indiciados? Esses não merecem ser ouvidos: nem uma só palavra para eles.
Compreensível, né? Afinal, não se deve esperar muito de (pseudo)jornalistas, não é mesmo?
João Paulo Malerba, jornalista da ONG Criar Brasil (www.criarbrasil.org.br)
Hora de nos unirmos
10.02.2009 | 12h30 |
Muito bem observado, Fernando. Quais seriam os significados da ação do Batalhão de Operações Especiais (Bope), geralmente mobilizado contra traficantes varejistas fortemente armados, contra rádios comunitárias na Cidade de Deus? A tropa da elite fluminense, muito bem preparada, foi designada para a repressão da comunicação popular. Isto, por si só, deveria ser motivo de reuniões em sindicatos, associações, coletivos e quaisquer grupos minimamente preocupados com o tema da comunicação - até porque conheço muitos que se omitiam diante das barbaridades cometidas pelo Bope nas favelas, imaginando que isso não tinha nada a ver com eles e saindo-se com afirmações grosseiras, do tipo: "Vou ser contra o Caveirão quando ele entrar e sair da favela sem tomar um tiro". Não que os agentes da Polícia Federal sejam menos truculentos, mas é o caso de perguntarmos: por que teriam sido substituídos nesta ação? Penso que mais importante que as respostas sejam as reflexões dos militantes da democratização da mídia e dos trabalhadores e comunicadores que vivem nas favelas. A repressão já se uniu contra eles. Não seria a hora de nos unirmos também? Volto ao assunto em breve.
Ajude-nos a fazer Jornalismo
09.02.2009 | 21h54 |
Caros e queridas, serei direto: nós temos 829 reais em caixa e nossa despesa mensal para manter a micro-sede é de 400 reais. Nós não temos publicidade ou patrocínio de ONG, nosso jornal não é vendido nas bancas e as assinaturas são insuficientes. Ajude a manter nosso Jornalismo, faça uma doação: Caixa Econômica (agência 0222, conta 3131-2, operação 013, em nome de Mariana Vidal Ramos Freitas). Em troca, oferecemos a garantia de jamais vender nossa linha editorial e de manter o juramento profissional: "A Comunicação é uma missão social. Por isto, juro respeitar o público, combatendo todas as formas de preconceito e discriminação, valorizando os seres humanos em sua singularidade e na luta por sua dignidade".
"Estamos no ocaso do imperialismo"
09.02.2009 | 16h36 |
Acabo de entrevistar o jornalista Gustavo Guzmán, ex embaixador boliviano em Washington. Ele foi declarado persona non grata nos EUA um dia após Evo ter expulsado Philip Goldberg, o embaixador estadunidense que conspirava abertamente com a direita para derrubar o governo. Guzmán garante que a inclusao da Bolívia na lista dos países que nao colaboram com a luta contra o narcotráfico foi motivada pela expulsao de Goldberg, já que os relatórios publicados em 2006 e 2007 pelo Departamento de Estado nao indicavam esta tendencia. O diplomata boliviano acredita que os EUA nao se deram conta de que a América Latina mudou e a maior parte dos países já nao aceita a ingerencia estrangeira. “Estamos no ocaso do imperialismo”, disse. Quanto pergunto sobre quais os reais intereses dos EUA na Bolívia, simbólicos e concretos, ele faz uma analogia: “Basta comparar o tamanho das embaixadas. A quantidade de cimento investida na embaixada aqui é bastante significativa (localizada em Sopocachi, bairro de classe média de La Paz, a embaixada estadunidense ocupa um quarteirao inteiro e parece ter 10 andares, com uma antena parabólica gigantesca no topo). Os EUA sempre souberam que o povo boliviano é capaz de promover mudanças transcendentais”, explica Guzmán, concluindo que a localizaçao geográfica da Bolívia é a razao maior do interesse estadunidense. “As trocas comerciais sao muito baixas se comparadas com outros países”, afirma.
A entrevista completa, em breve por aqui ou na Caros Amigos.
Golpe da direita pode
08.02.2009 | 14h22 |
A Folha não considera a Bolívia tão importante a ponto de ter retirado seu correspondente do país - que vem a ser o mesmo cidadão que outro dia esculhambou Chávez - antes da promulgação da nova Constituição, realizada ontem, em El Alto, diante de milhares de pessoas "e não como antes, entre quatro paredes e longe do povo", como disse o presidente Evo Morales Ayma. Aí saiu-se hoje com a nota abaixo, recolhida de "agências internacionais" (depois da nota volto a comentar):
Da Redação - BOLÍVIA
O presidente boliviano, Evo Morales, celebrou com milhares de simpatizantes a entrada em vigor, ontem, da nova Constituição. "Esta é a segunda independência, a verdadeira libertação da Bolívia", disse Morales, sob aplausos.
A nova Carta, primeira aprovada por referendo no país, instaura um "socialismo comunitário", segundo Morales. "Podem me tirar do palácio, me matar, [mas] foi cumprida a missão de refundar uma Bolívia unida", afirmou.
O documento resulta de um tumultuado processo político. O confronto entre La Paz e os departamentos governados pela oposição levou o país à convulsão social e só arrefeceu em outubro, com o acordo que modificou o projeto, contemplando parcialmente a demanda da oposição por autonomia regional.
A Carta teve apoio de 61% dos bolivianos, mas o "não" prevaleceu em quatro departamentos, cujos dirigentes reclamam um pacto nacional para revisar o texto.
Com agências internacionais
É evidente que essas linhas não dão conta da grandeza do ato de promulgação da Nova Constitição Política de Estado. Só pra vocês terem uma idéia, começou a chegar gente às sete da manhã e o povo só foi embora de madrugada. Nem a granizada que caiu no início da tarde foi suficiente para espantar a alegria da multidão. Evo chegou ao meio-dia, seu discurso durou exatos 51 minutos (assim que der vou publicar aqui os principais trechos). A escolha de El Alto não foi casual. Aqui a votação pelo SIM chegou a quase 90%. Além disso, essa cidade de aproximadamente um milhão de habitantes foi central para a derrubada do governo neoliberal de Gonzálo Sanchez de Lozada. O povo, organizado, fechou La Paz por 3 semanas. Não entrava nem saía nada. Isso durou 17 dias. O presidente tentou usar a força para dissuadir as manifestações. Atirou as Forças Armadas contra a população, 67 pessoas foram assassinadas. Mas em vez de recuarem, os manifestantes avançavam cada vez mais, até que Lozada se viu obrigado a fugir para Miami.
Quando a nota da Folha diz, ao final, que os dirigentes da direita "reclamam um pacto nacional para revisar o texto", deveria ter o bom senso jornalístico de anotar o verdadeiro nome disso: GOLPE. Como assim querer mudar um texto aprovado pela maioria do povo, numa eleição limpa e com comparecimento recorde de 90% dos eleitores?
E o que dizer de outros jornalões, que nada publicaram sobre o ato histórico no país vizinho, no centro da América Latina?
Choque de desordem
08.02.2009 | 01h15 |
Mensagem enviada pela defensora pública Maria Lúcia Pontes sobre a escalada da violência promovida pelo dueto mídia corporativa-Prefeitura do Rio, Globo e Eduardo Paes à frente:
Aproveito para informar que o Núcleo de Terras da Defensoria Pública está convidando as comunidades que atende, e outras, para que relatem as ameaças ou violações sofridas no direito de morar pela nova política do Município, denominada Choque de ordem, no dia 16/02 (segunda-feira) às 18h na Sede da Defensoria, na Av. Marechal Câmara, 314, auditório do 2o andar (Centro do Rio).
Boa análise
06.02.2009 | 21h50 |
O sociólogo Eduardo Paz Rada, professor da Universidade Mayor de San Andrés, fez boa análise sobre a conjuntura boliviana. Abaixo segue um trecho, íntegra aqui. Aliás, vale a pena conhecer a revista eletrônica Pátria Grande (www.patriagrande.org.bo), da qual participa também o ex-ministro de Hidrocarburos boliviano, Andrés Soliz Rada.
Con los resultados de la consulta popular “comienza un Estado con una Nación”, dijo el Presidente. Se trata de una definición de fondo frente al propio texto de la Constitución que establece la formación de un Estado formado por Varias Naciones. No solamente se trata de un tema de debate teórico de la relación Estado-Nación y sus variantes o de la Cuestión Nacional y el Imperialismo y su resolución o de la formación e importancia del Estado Nacional en la Semicolonia, sino también de las condiciones históricas en que se presenta y se define el problema.
Ratzinger volta à carga
05.02.2009 | 18h29 |
Mais um comentário interessante no blog do Rodrigo Vianna, que é ex-repórter da Globo e conhece bem seu funcionamento. Segue abaixo um trecho, íntegra em www.rodrigovianna.com.br.
Leitores escrevem para confirmar: o “Jornal Nacional” de terça-feira, mais uma vez, divorciou-se da notícia. A “Globo” não deu a pesquisa CNT/Sensus, em que Lula -apesar da crise econômica - bate recorde de popularidade (84%).
Isso é notícia em qualquer lugar do mundo. Menos na Globo.
Confirmei o fato, também, com algumas boas fontes que mantenho na Redação da TV Globo. Uma dessas pessoas disse-me que é escancarada a intenção de favorecer Serra, especialmente na cobertura dos telejornais locais em São Paulo.
Como escrevi há pouco, nada mais me espanta nas atitudes de Ratzinger – o agente das sombras do jornalismo global.
Ele deve ter baixado uma espécie de bula papal, proibindo a divulgação da pesquisa nas Organizações(!) Globo. Aos editores, coube apenas curvar-se, em silêncio obsequioso.
O “Jornal da Globo” (aquele que vai ao ar no começo da madrugada) também não publicou nada. E o jornal “O Globo” trouxe uma pequena referência à pesquisa CNT/Sensus, na capa desta quarta-feira (04/02/2008), mas em vez de destacar a popularidade de Lula, preferiu manchetar: “Dilma sobe e Serra lidera”.
O fato é estranho, mesmo para os padrões jornalísticos de Ratzinger.
Talvez haja algo se movendo nos bastidores das comunicações do país.
Se a idéia fosse apenas esconder a notícia, o “normal” seria a “TV Globo” dar uma nota, discreta, sobre a pesquisa lá pelo meio do JN. Mas, ao ignorar a notícia solenemente, talvez tenha mandado um recado ao Palácio do Planalto.
Na Bolívia, a democracia é participativa
04.02.2009 | 18h33 |
A Bolívia vive um momento extraordinário. Os movimentos sociais, no campo e na cidade, crescem como nunca. Desde as marchas indígenas da década de 1990 até a eleição de Evo Morales, em 2005, e a aprovação da nova Constituição, este ano, o aspecto em comum, sem dúvida, é o protagonismo do povo organizado.
“Antes os partidos da direita compravam meu voto por comida. Agora isso acabou”. É muito comum ouvir isso pelas ruas de La Paz. E além de isso ter acabado, o fato é que o povo boliviano, de maioria indígena, encontrou seu próprio partido, o MAS (Movimento ao Socialismo), e seu próprio líder político, Evo Morales Ayma.
O presidente costuma dizer ao povo que está lá para obedecê-lo. Não é mentira, o que por vias tortas pode ser comprovado pela oposição. São freqüentes as reclamações da direita, expressadas pelas corporações de mídia daqui, de que “movimentos sociais participam de reuniões com ministros”. O ar é de incredulidade. O povo, os índios, ocuparam o Palácio de Governo e não pretendem sair de lá tão cedo. Além do presidente, hoje são ministros, vice-ministros, parlamentares, chefes de empresas públicas e etc. “Este processo é irreversível”, costuma dizer Evo.
A medida do crescimento do movimento popular organizado tem no MAS sua melhor explicação. Este partido está no centro das recentes transformações vividas pelo povo boliviano. Fundado em 1994, era constituído por quatro organizações apenas: Confederação Sindical de Trabalhadores Rurais, Confederação dos Povos Indígenas, Confederação de Mulheres “Bartolina Sisa” e Confederação de Colonizadores. E o nome do MAS era outro: Instrumento Político para a Soberania dos Povos (IPSP). Mudou de nome simplesmente porque impediram o registro eleitoral como IPSP, enquanto a sigla MAS, já registrada, foi entregue aos futuros condutores da revolução democrática e cultural.
Apenas três anos após sua fundação, em 1997, os povos originários elegem Evo Morales para o Congresso, junto com outros três companheiros. Dois anos depois já eram 35 os deputados masistas, enquanto que em 2005 esse número duplicou. No mesmo ano Evo Morales era eleito o primeiro índio presidente da Bolívia.
Uma característica da democracia participativa é a convocação do povo a instâncias de decisão coletiva, como por exemplo a figura do referendo. Das cinco consultas deste tipo realizadas desde a Independência, em 1825, três delas (60%) ocorreram após a fundação do MAS (sendo dois durante seu governo). Em 2004 o povo foi chamado a opinar sobre as regras da exportação de gás, em 2008 para decidir sobre a revogação do mandato do presidente e dos governadores, e em 2009 para aprovar a Constituição Política de Estado.
No período anterior aos referendos do século XXI, entretanto, o movimento indígena não esteve parado. Até que chegasse à vitória no referendo de 25 de janeiro de 2009, foram anos de luta. Pelo menos duas datas ficaram marcadas, tanto pela gravidade dos conflitos quanto por sua importância. Em Cochabamba (2000), para impedir a privatização da água, e em La Paz (2003), para derrubar o governo neoliberal de Gonzalo Sanchéz de Lozada, o Goni, hoje acusado de ser o principal responsável pela morte de 67 manifestantes.
Hoje é muito comum encontrar cartazes com a foto de Goni espalhados por muros, postes e sindicatos, acompanhada da inscrição “Assassino! Extradição já!”, pois o ex-presidente vive em Miami. Segundo se conta por aqui, Goni esteve envolvido em fraudes milionárias. De acordo com o ex-ministro de Hidrocarburos, o escritor Andrés Soliz Rada, Goni é membro da “Society of the Americas”, organizada por David Rockefeler e mais conhecida como “governo mundial”; é dono da Compañía Minera del Sur em sociedade com o Banco Mundial; e sócio da gigante inglesa Rio Tinto Zinc, maior distribuidora de cobre do mundo, as duas com interesses na Bolívia. De acordo com a declaração oficial de bens, em apenas um ano (2002 a 2003) Goni teve sua conta bancária aumentada em 9 milhões de dólares. (Essas informações estão no livro “La Fortuna del Presidente”, de Andrés Soliz Rada, publicado em La Paz, 2004).
No último Congresso do MAS, o sétimo, realizado mês passado em Oruro, seis novas organizações se uniram ao partido. Entre elas a poderosa Central Obrera Regional de El Alto, que sempre manteve postura crítica – pela esquerda – ao governo Morales, e a Fecomin, federação de trabalhadores mineiros que congrega nada menos que 40 mil filiados.
As últimas mobilizações de massa na Bolívia ocorreram em outubro do ano passado, com o objetivo de pressionar o Congresso pela aprovação do referendo da nova Constituição. Centenas de milhares de pessoas marcharam desde Oruro até La Paz, numa caminhada de 199 km que a apresentadora do canal estatal classificou como uma “interminável coluna humana”. Quando chegaram na Praça Murillo disseram: “Só saímos daqui quando os deputados aprovarem a convocação do referendo. Se não aprovarem, tomamos o Congresso”. Os parlamentares realizaram sessões extraordinárias no sábado e domingo e a lei do referendo que estava estancada há vários meses foi aprovada em 24h. Durante a campanha, novas manifestações reuniram multidões e conduziram à aprovação da nova Constituição, que nas palavras de Evo é “anti-colonial, anti-neoliberal e anti-imperialista”.
Sobre as recentes mobilizações na Bolívia, um dirigente-fundador do MAS ressalta que foi o movimento indígena quem ofereceu a oportunidade histórica para a esquerda tradicional. Ivan Iporre hoje é chefe da Secretaria Nacional de Administração de Pessoal. Quando chegou, o número de funcionários públicos formados em diversos cursos era de 2.600. Hoje, três anos depois, é de 13.200. Vem gente do mundo todo, especialistas como a argentina Isabel Rauber, para ministrar cursos de visão estratégica, formação política e administração pública. Até parlamentares participam. Sob a administração de Ivan, a filosofia que rege todo o processo é a “interculturalidade”, cujo objetivo é conhecer a si próprio, ao outro, e assim caminhar rumo à descolonização interna – já que anos de opressão colonial terminam por alterar a percepção que o cidadão tem dele mesmo.
Nesse sentido pode-se dizer que a Bolívia vive uma krisis, palavra grega que significa “mudança”. Não sei se Evo Morales pensou nisso quando cunhou o termo “processo de cambio” (processo de mudança), mas o fato é que para além da derrota imposta aos neoliberais, estamos assistindo a um país que rapidamente modifica suas estruturas de poder, passando de uma democracia representativa – onde a participação popular se resumia ao voto de tempos em tempos – para uma democracia participativa, em que o povo não mais aceita viver com essas migalhas. Ele agora participa das principais decisões políticas do Estado, que refletem suas convicções, como o respeito à Pachamama e aos princípios de dignidade, solidariedade, complementariedade e harmonia, bem como a garantia de acesso universal aos direitos básicos (água, energia e saneamento) e a nacionalização dos recursos estratégicos e riquezas naturais. A classe trabalhadora boliviana (indígenas, mineiros, operários e etc.) não quer impor ao antigo senhor a mesma condição violenta a que foi submetida. Mas já deixou bem claro que está disposta a lutar até a morte diante do menor sinal de retorno à dominação capitalista.
Empresa estatal x multinacional
04.02.2009 | 18h22 |
Por que uma empresa pertencente ao Estado tem maiores condições de atender às necessidades do povo do que uma empresa multinacional? Simples. De modo geral, as multinacionais visam ao lucro de poucos acionistas, enquanto as empresas estatais têm por obrigação o cumprimento de objetivos sociais. Por isso a Petrobrás deveria voltar a ser 100% brasileira. Aqui na Bolívia, depois das nacionalizações das empresas de gás e petróleo, cerca de 1 bilhão de dólares foi redistribuído entre prefeituras, governos estaduais, governo nacional e universidades. Um exemplo do resultado: em 2008, cerca de 800 mil idosos (quase 10% da população) receberam mensalmente o benefício chamado Renda Dignidade, um complemento orçamentário equivalente à metade do salário mínimo. Os recursos provenientes das nacionalizações também permitiram a ativação de projetos ligados à distribuição de alimentos por preços abaixo do de mercado, novos cursos nas universidades e programas voltados para a criação de empregos e desenvolvimento da economia comunitária (sobretudo em El Alto e La Paz, onde pequenas e médias empresas, muitas delas familiares, conseguem crédito sem juros para desenvolver a produção). E isso tudo aconteceu sem que as empresas estrangeiras fugissem do país, como apregoam os teóricos do apocalipse (ou da chantagem capitalista, como preferirem).
Bolívia na Rádio Educativa do PR
03.02.2009 | 19h33 |
Amigos, nesta quarta-feira (4/2/9), 7h30 aí no horário de Brasília (5h30 aqui em La Paz), a Rádio Educativa do Paraná vai dar uma nota, algo entre 3 e 5 minutos, sobre o processo boliviano.
Pra tentar educar o que a mídia grande deseduca.
Acabam de gravar minha participação, que poderá ser ouvida em http://www.pr.gov.br/rtve. Outra opção é jogar no Real Player o endereço: rtsp://200.189.113.201:554/broadcast/livefm.rpm.
Programa suspenso
02.02.2009 | 20h53 |
Amigos, acabo de falar por telefone com o Rodrigo Vianna, apresentador do programa Entrevista Record - Mundo. Ele informou que o programa de hoje foi suspenso porque ele teve que ser hospitalizado de última hora. Felizmente foi só um susto e já está tudo bem. A produção examina a possibilidade de tentar novamente na segunda-feira que vem. Eu aviso.
Por outro lado, correu tudo bem com a participação na Rádio Petroleira. A ligação caiu apenas uma vez e no total foram 40 minutos de conversa sobre o processo boliviano com os jornalistas Cláudia de Abreu e Nato Kandall. Clique aqui para ouvir.
Sobre o processo boliviano
02.02.2009 | 12h33 |
Caros e queridas,
Hoje participo de mais dois programas aí do Brasil para falar sobre o processo boliviano. O primeiro, às 18h, será na Rádio Petroleira, que pode ser ouvida em http://www.radiopetroleira.org.br. O segundo, às 22h, na RecordNews (canal 42 UHF, 93 da NET ou 20 da TVA), durante o programa Entrevista Record - Mundo, apresentado pelo jornalista Rodrigo Vianna.
Aproveito para comunicar que a próxima edição da Caros Amigos, fevereiro/09, publicará reportagem que enviei sobre o referendo aqui na Bolívia.
E para saber mais sobre o processo boliviano recomendo ainda a leitura do jornal Brasil de Fato e, claro, do nosso querido www.fazendomedia.com.
Um grande abraço, desde La Paz,
Marcelo
A mídia corporativa já morreu
02.02.2009 | 11h27 |
Numa outra postagem, Rodrigo Vianna analisa a crise das corporaçoes de mídia: "Há uma crise de objetividade, de credibilidade. A mídia perdeu a aura de neutralidade. Caiu esse mito. Com ele, caiu também a autoridade dos meios para ditar o que as pessoas devem pensar", diz Pascoal Serrano, do site espanhol "Rebelión". A postagem completa esté em www.rodrigovianna.com.br.
Permito-me transcrever, a este respeito, artigo que publiquei em 2004 no Correio Caros Amigos. Há cinco anos eu já achava possível fazer essa análise, registrada pela página do Sintrafesc: http://www.sintrafesc.org.br/view_artigo.php?id=342
O Jornalismo da Mídia Colombina está Morto - por Marcelo Salles
Não vou cair na besteira de afirmar que o jornalismo brasileiro vive um momento lamentável. Explico: quem vive um momento lamentável, detestável e abominável é o jornalismo brasileiro praticado pela mídia grande.
Essa mídia colombina está imersa numa crise de credibilidade sem precedentes. A crise financeira é uma mera conseqüência - ajudada, é claro, pela administração irresponsável de quem sempre soube que podia contar com os homens do governo para um eventual socorro. Mas isso os donos da mídia não querem admitir. Ao longo dos anos, tanto mentiram, distorceram fatos e manipularam percepções, que hoje em dia só os mais
incautos ainda crêem - e o verbo é este - em suas imagens e palavras sem questioná-las. Mais da metade da população brasileira perdeu a confiança nos meios de comunicação
de massa, segundo pesquisa realizada pelo Ibope este ano.
É verdade que existem bons jornalistas nos jornalões, revistões e televisões? Claro que sim. Só que, infelizmente, aqueles parecem apenas confirmar esta regra chamada mediocridade: quanto mais demitem, mais o saco do chefe é puxado. Quanto mais exploram, mais pra baixo se volta o olhar. Onde é que pensam que vão chegar assim? Que tipo de profissional é este que se humilha e se vende e assim aceita iludir quem recebe sua mensagem?
O jornalismo brasileiro da mídia colombina. Este sim é deprimente. Não restam esperanças para ele. Está morto. E seus donos estariam presos se existisse no Brasil o Ministério do Bom Senso. Presos por cometerem todo tipo de crime que o bom senso sente, mas a justiça minúscula não consegue sentir, pois tem seus bolsos devidamente manipulados.
Boas novas
Felizmente, nem todas as notícias são ruins. É bom prestarmos atenção num outro tipo de jornalismo, feito por grupos independentes que, embora apareçam pouco e a despeito de todas as dificuldades, ganham espaço a cada dia, numa caminhada tão silenciosa quanto sólida e constante. O escritor uruguaio Eduardo Galeano lembrou durante a Roda de Leitura realizada no Centro Cultural Banco do Brasil, em março deste ano, que “hoje em
dia, encontramos as criações realmente interessantes nesses pequenos espaços”.
Esses grupos conseguem fazer verdadeiros milagres. Estão em rádios e jornais alternativos, TVs comunitárias e universitárias e páginas na rede. Cobrem os eventos
mais importantes, possuem equipes interessadas e ainda propõem uma ruptura com o senso comum gerador de miséria e desigualdade. Não atingem a grande massa sozinhos, é verdade, mas se muitos grupos atingem um certo número de pessoas, então há um equilíbrio de forças. Além disso, conseguem produzir um material tecnicamente semelhante com qualidade editorial infinitamente superior. A criação, o novo, aquilo que é diferente e contribui para a elevação espiritual do ser humano está cada vez mais nos pequenos espaços. E isso com todas as condições adversas: pouco ou nenhum dinheiro, infra-estrutura inexistente e espaço de divulgação reduzidíssimo.
Por tudo isso, faço um apelo a todos os produtores independentes: mantenham-se fortes! E vivos! As dificuldades são muitas e não são poucas as vezes em que temos vontade de desistir. Acontece que é isso mesmo que os defuntos midiáticos querem. Esses mortos-vivos querem te ver no chão, bem perto de suas sepulturas, para vampirizá-lo. Nesse momento, mais do que nunca, você precisa resistir sem jamais sucumbir ao canto maldito.
E assim mostrar pra eles que existe jornalismo além dessas aberrações coloridas que vendem no horário nobre.
A cobertura do Fórum Social Mundial
02.02.2009 | 11h25 |
Rodrigo Vianna, para quem nao sabe, é o jornalista que teve peito para escrever uma carta pública (leia aqui: http://www.fazendomedia.com/diaadia/nota211206b.htm) denunciando a manipulaçao da cobertura da TV Globo durante as eleiçoes presidenciais de 2006. Fizemos uma entrevista com ele (http://www.fazendomedia.com/novas/entrevista120407.htm ). Vejam abaixo o comentário que ele publicou em seu blog (http://www.rodrigovianna.com.br) sobre a cobertura da mídia grande a respeito do Fórum Social Mundial:
Não chega a ser novidade, mas é sempre irritante quando isso acontece: a imprensa corporativa brasileira (com raríssimas exceções) não consegue cobrir o "Fórum Social Mundial" de outra forma que não seja "folclorizando" o que se passa por lá.
Na primeira página desta sexta-feira, a "Folha" traz a fotografia de Hugo Chavez cantando ao lado da filha de Che Guevara, sob o título: "Karaokê no Fórum Munidial". Não há nenhuma informação sobre o que se discutiu no histórico encontro dos presidentes, que reuniu Chavez, Morales, Lugo Correa e Lula.
Na página interna, entre os milhares de participantes do Fórum, a "Folha" escolheu (para ilustrar a "reportagem") um rapaz deitado na grama, de frente pro rio.
Claro que nada disso é mentira. Chavez cantou e o rapaz deitou na grama (aliás, a vista para o rio - a partir da Universidade Federal do Pará - é belíssima; o rapaz tem toda razão em aproveitar a rica paisagem paraense).
As escolhas são sintomáticas. Passam a imagem de que tudo, em Belém, não passa de deboche e descompromisso. É o oposto do que vi por lá. Passei por Belém no início da semana. Vi centenas de pessoas reunidas em escolas, ginásios, auditórios, debatendo formas de superar a barbárie neo-liberal. Ou, simplesmente, se articulando para batalhas futuras.
Nada disso está nos jornais.
Ao fazer esse tipo de cobertura, a "Folha" talvez imagine que esteja ajudando a esvaziar o Fórum. A "grande imprensa" não percebeu que ocorre justamente o contrário: é a imprensa que se esvazia, ao tratar de forma canhestra um evento que reúne no Brasil quase cem mil pessoas de todas as partes do mundo.
Para ler sobre o Fórum, e sobre o encontro dos presidentes em Belém, já sei que é preciso buscar em outro lugar. Não nos nosso jornais.
Sugiro o bom artigo de Gilberto Maringoni, na "Carta Maior".
Http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=15548
Abaixo, alguns trechos do Maringoni:
"O que leva chefes de executivo a abrirem espaço em suas agendas para comparecerem a um encontro dessa natureza? Certamente votos é o que não vêm buscar. Mas procuram solidificar ou recompor vínculos objetivos e simbólicos com setores da sociedade que alicerçaram suas trajetórias e, em última análise, sustentam suas administrações. O caminho não é de mão única. O encontro ganha peso e densidade política internacional com isso.
(...)
Nem tudo é tranquilo, no entanto. As duas atividades desta quinta com os chefes de Estado envolveram uma disputa, estabelecida entre o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) e o governo Lula. Descontentes com o que avaliam serem os poucos avanços da reforma agrária, os dirigentes do movimento decidiram não convidar o presidente brasileiro para a atividade do período da tarde.
(...)
Em um diálogo inédito, os quatro mandatários ouviram previamente demandas de representantes dos movimentos, o que levou Morales a lembrar que "somos presidentes originários das lutas sociais continentais". O líder boliviano era o mais entusiasmado de todos. Acabara de vencer o plebiscito que aprovou por larga maioria a nova constituição do país, reduzindo o espaço institucional da oposição de direita.
(...)
Nos tórridos dias de Belém, muitos se queixam de falhas na organização. É natural, mas tudo acaba se articulando. Davos, por sua vez, aparenta funcionar com a precisão dos outrora famosos relógios suíços. Mas a desorganização que suas diretrizes provocaram no mundo tem poucos paralelos na história recente..."
Agora, volto eu.
Não é só a "Folha". Ouvia , há pouco, a rádio Bandeirantes de São Paulo. No ar, mais uma vez, a tentativa de "folclorizar" o encontro de Belém. Um jovem jornalista reproduziu trecho do discurso de Chavez , em que o venezuelano dizia que milhares de empregos se perderão graças à crise mundial, e que a Venezuela sofreria menos porque lá se constrói o socialismo.
O jovem jornalista, em tom irônico, debochou.
"Esse foi o Chavez, que estava acompanhado de uma tropa em Belém, hem! Sabe quem estava ao lado dele? O "companheiro" Evo..."
Não era o "presidente" Evo Morales. O jornalista queria deixar claro que se tratava de um "companheiro", como a demarcar o campo: é da turma dos petistas, índios, chavistas. Não é da nossa laia.
Joelmir Betting, que estava no estúdio, pareceu encampar o deboche, lembrando: "... e o presidente da Colômbia não estava lá em Belém."
O jovem jornalista adorou: "ah, não, Uribe deve ter mais o que fazer, está preocupado com as FARC".
Aí, Joelmir completou: "não, não, é que o Uribe preferiu ir a Davos, na Suiça"
O jovem jornalista caiu do cavalo: "ah, então não é preocupação com as FARC".
E eu fiquei a rir sozinho no carro... Joelmir pode ser o que for. Mas não briga com os fatos.
Os novos-ricos do jornalismo - esses garotos criados lendo só a "Folha" e "O Globo" - não conseguem nem fazer ironia. Eles, sim, são folclóricos.
A caminho do socialismo indo-americano
02.02.2009 | 00h40 |
O referendo de 25 de janeiro de 2009 é um marco histórico na vida dos bolivianos. Pela primeira vez em 183 anos de vida republicana o povo é chamado a decidir sobre sua própria Constituição, a lei maior do país. E mais: nesses quase duzentos anos foram convocados apenas cinco referendos, sendo dois deles (40%) durante o governo Evo Morales Ayma, que tem apenas 3 anos à frente da administração pública.
A Constituição recém-aprovada contém muitos avanços, como a incorporação dos direitos dos povos originários, a eleição direta para juízes e o respeito à liberdade religiosa – antes a Bolívia era constitucionalmente considerada um Estado católico. Além disso, toda atividade econômica será dirigida e regulamentada pelo Estado, que também terá controle sobre os recursos naturais. Outro avanço é que pela primeira vez em sua história os bolivianos elegerão assembléias estaduais e os meios de comunicação ficam proibidos de constituir monopólios ou oligopólios. Ademais, fica proibida constitucionalmente a instalação de qualquer base militar estrangeira em território boliviano. 62% dos bolivianos votaram por este texto.
Nesse sentido, e por estar a Bolívia no centro da América Latina, pode-se dizer que foi dado um grande passo rumo ao que José Carlos Mariátegui chamou de "Socialismo Indo-Americano" - referência lembrada por Hugo Chávez durante o Fórum Social Mundial, em Belém.
Durante a campanha, era visível o esforço dos partidários do SIM em divulgar ao máximo o novo texto constitucional. Réplicas da Constituição eram panfletadas nas praças e pequenos comércios vendiam o texto a preços simbólicos (1 ou 2 reais, dependendo do tipo de encadernação). Por outro lado, a direita fez uma campanha suja e mentirosa. Dizia que se vencesse o SIM o governo iria tomar a casa de quem tinha duas ou mais casas – apesar de o artigo 57 garantir que as propriedades urbanas não estão sujeitas a expropriação. Um taxista me disse que votaria pelo NÃO porque a nova Constituição tomaria sua segunda casa, que ele pretendia alugar depois que se aposentasse. Também havia peças publicitárias afirmando que a nova Constituição não defende Deus e confrontando o presidente Evo Morales com Jesus Cristo. Ao final a mensagem afirmava: “Não seja cúmplice do pecado, vote NÃO”.
Com a entrada do presidente da República na campanha, o componente maior do referendo passou a ser a aprovação ou não do governo Morales. De um lado, o governo que erradicou o analfabetismo na Bolívia. De outro, o mesmo governo do ministro Juan Ramón Quintana, mantido no cargo ainda que diante das acusações gravíssimas de facilitação de contrabando. A direita, por sua vez, foi bastante identificada com os mandantes do massacre de Pando e com o episódio racista de humilhação contra indígenas em Sucre.
As análises que tenho lido nos jornais da direita se esforçam em afirmar que o país continua dividido. Que o NÃO venceu em 4 dos 9 estados (Santa Cruz, Beni, Pando e Tarija). Que o governo perdeu votos em todo o país em comparação com o referendo revogatório do ano passado, quando Evo teve 67,4% de apoio popular.
No entanto, vale lembrar que o SIM venceu em outros quatro estados (La Paz, Potosí, Cochabamba e Oruro – houve empate em Chuquisaca), sendo que na região onde venceu estão 70% dos eleitores bolivianos. Houve também um nítido corte de classe: o SIM venceu entre os mais pobres e nas áreas rurais, enquanto o NÃO obteve mais votos entre os mais ricos e nas áreas urbanas. O país continua dividido, é verdade – ao contrário do que disse o Estadão: “Bolívia: Nova Carta dividirá o país, afirma estudo”, dois dias antes do referendo. Mas não considero justa a comparação com o referendo revogatório do ano passado. Uma coisa é votar pela manutenção de um presidente, outra completamente diferente é votar por uma Constituição com 411 artigos, sendo que mais de cem foram revisados 17 vezes. Por outro lado, se voltarmos a 2005 (eleições presidenciais) e 2006 (assembléia constituinte), quando o MAS teve 54% e 52%, respectivamente, pode-se dizer que houve um crescimento do apoio a Evo Morales.
Agora, por aqui todos parecem concordar em um ponto: a nova Constituição não vai impedir novos conflitos. O tema relativo à terra, por exemplo. No mesmo dia 25 de janeiro de 2009 os bolivianos votaram no tamanho máximo que deve ter a propriedade rural. Entre 10 mil hectares e 5 mil hectares, este venceu com 80,66% dos votos. Um claro sinal de que a maioria dos cidadãos está contra o latifúndio. Apesar disso, vale lembrar, este foi um tema em que a esquerda cedeu. A direita conseguiu garantir a manutenção da posse das terras adquiridas antes da entrada em vigor do novo texto constitucional, mas a partir de agora deverá garantir a função econômica e social para que não sejam expropriadas com fins de Reforma Agrária.
Na semana posterior ao referendo foram noticiados conflitos em duas regiões de Santa Cruz: Guaraios e San Julián. Ainda não dá pra saber exatamente o teor desses conflitos, além de que se trata de um embate entre camponeses sem-terra e latifundiários, mas o fato é que se somam à tomada por grupos sem-teto de imóveis da empresa nacionalizada Transredes, na zona urbana do mesmo estado. O governador de Santa Cruz, Rubén Costas, anunciou a “formação de um Comitê Interinstitucional de Segurança Cidadã, para evitar mais invasões no estado”.
Neste domingo, 1 de fevereiro de 2009, a oposição celebra mais um escândalo envolvendo o governo. Santos Ramírez, um dos principais dirigentes do MAS, muito próximo a Evo, foi demitido da presidência da YFPB, a estatal petroleira boliviana. Contra ele pesa a acusação de ser destinatário de uma propina de 450 mil dólares, apreendidos com um empresário de Tarija. Apesar de Ramírez ter ido a público negar a acusação, Evo decidiu demiti-lo afirmando que seu governo não vai tolerar corrupção, “caia quem caia”.
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