Por Marcelo Salles - salles@fazendomedia.com

Polícias: Rio x Bolívia
30.01.2009 | 20h40 |

Deu no La Prensa, jornal boliviano, em 25 de janeiro de 2009: “Policiais protagonizam 7 mortes e 365 episódios de violência familiar”. Inicia o texto: “Desde 2007, efetivos da Polícia Nacional protagonizaram ao menos sete casos de homicídios e suicídios com arma de fogo em La Paz e Santa Cruz, e 365 episódios de violência intrafamiliar, ainda que esta última estatística só se refira à sede do Governo”.

Em dois anos a polícia boliviana esteve envolvida em 7 episódios que terminaram em morte. Já a do Rio de Janeiro, só em 2007 a polícia registrou 1.260 autos de resistência. Gente que morreu em supostas trocas de tiro. Em 2008 foram mais 1.330.

Na soma dos dois anos: polícia fluminense = 2.590 mortes. Polícias paceña e cruceña = 7 mortes. Em outras palavras, pode-se dizer também que a polícia do Rio é 370 vezes mais letal que essas polícias bolivianas. Certamente também deve ser 370 mais lucrativa para os poderes privados que representa, já que o povo que paga o soldo não ganha nada.

Repito: desde que cheguei em La Paz, há pouco mais de dois meses, ainda não ouvi um tiro sequer. Quando morava no Rio ouvia quase todo dia, e olha que eu vivia em Laranjeiras...

Globo no Fórum
30.01.2009 | 16h17 |

Em reportagem de hoje sobre o Fórum, O Globo discorda que Bush tenha cometido crimes de guerra: “Chávez chegou a propor um julgamento internacional do ex-presidente dos Estados Unidos George W. Bush, por seus supostos crimes contra a Humanidade”. Como classificar esse tipo de reportagem: cautelosa ou criteriosa?

Saudação ao MST
29.01.2009 | 17h11 |

Nesse momento em que o MST completa 25 anos, daqui de La Paz envio a seguinte mensagem aos trabalhadores rurais sem-terra:

Minha saudação àqueles que lutam por justiça quando dizem que já não adianta lutar. Minha admiração àqueles que enfrentam criminosos armados de pistola, de terno e de mídia. Minha gratidão aos companheiros e companheiras do MST, que com sua luta mostram ao mundo que é possível vencer os inimigos da vida.

Segue abaixo a carta do 13º Encontro Nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra:

1 - Nós, mais de 1.500 trabalhadores rurais sem terra, vindos de todas as regiões do Brasil, e delegações internacionais da América Latina, Europa e Ásia, nos reunimos de 20 a 24 de janeiro em Sarandi, no Rio Grande do Sul, para comemorar os 25 anos de lutas do MST. Avaliamos também nossa história e reafirmamos o compromisso com a luta pela Reforma agrária e pelas mudanças necessárias ao nosso País.
2 - Festejamos as conquistas do nosso povo ao longo desses anos, quando milhares de famílias tiveram acesso à terra; milhões de hectares foram recuperados do latifúndio; centenas de escolas foram construídas e, acima de tudo, milhões de explorados do campo recuperaram a dignidade, construíram uma nova consciência e hoje caminham com altivez.
3 - Reverenciamos nossos mártires que caíram nessa trajetória, abatidos pelo capital. E lembramos dos líderes do povo brasileiros que já partiram, mas deixaram um legado de coerência e de luta.
4 - Vimos como o capital, que hoje consolida num mesmo bloco as empresas industriais, comerciais e financeiras, pretende controlar nossa agricultura, nossas sementes, nossa água, a energia e a biodiversidade.
5 - Nos comprometemos em garantir à terra sua verdadeira função social, cuidar das sementes e produzir alimentos sadios, de modo a proteger a saúde humana, integrando homens e mulheres a um meio ambiente saudável e adequado a uma qualidade de vida cada vez melhor.
6 - Reafirmamos nossa disposição de continuar a luta, em aliança com todos os movimentos e organizações dos trabalhadores e do povo, contra o latifúndio, o agronegócio, o capital, a dominação do Estado burguês e o imperialismo.
7 - Defendemos a reforma agrária como uma necessidade popular, que valoriza o trabalho, a agro-ecocologia, a cooperação agrícola, a agro-indústria sob o controle dos trabalhadores, a educação e a cultura, medidas imprescindíveis para a conquista da igualdade e da solidariedade entre os seres humanos.
8 - Estamos convencidos de que somente a luta dos trabalhadores e do povo organizado pode levar às mudanças econômicas, sociais e políticas indispensáveis à efetiva emancipação dos explorados e oprimidos.
9 - Reafirmamos a solidariedade internacional e o direito dos povos à soberania e à autodeterminação. Por isso, manifestamos nosso apoio a todos que resistem e lutam contra as intervenções imperialistas, como faz hoje o povo afegão, cubano, haitiano, iraquiano e palestino.
10 - Cientes de nossas tarefas e enormes desafios que se colocam, reafirmamos a necessidade de construir alianças com as organizações e os movimentos populares e políticos em torno de bandeiras comuns, para que, unidos e solidários posamos construir um projeto popular, capaz de romper com a dependência e subordinação interna e externa ao capital e de construir uma sociedade igualitária e livre – uma sociedade socialista.

Entrevista ao Faixa Livre
28.01.2009 | 20h59 |

Amigos, só pra compartir com vocês: na segunda pela manhã dei entrevista ao programa de rádio Faixa Livre, do Rio de Janeiro, sobre o referendo boliviano e a situação do país. O áudio está no link: http://www.programafaixalivre.org.br/?id=441.

Na roda com Evo
28.01.2009 | 20h24 |


Evo durante a coletiva de hoje com a imprensa internacional, fotografado por Fernanda Chaves (Brasil de Fato)

Hoje pela manhã participei da Roda de Prensa com o presidente Evo Morales. E o que eu vou contar aqui, apesar de não surpreender, sempre assusta. Ainda mais quando a gente sente na pele. Pois bem. A coletiva estava marcada para as 11h, no Salão de Espelhos, que fica no Palácio de governo. Cheguei vinte minutos antes, sentei na primeira fila, tipo aqueles estudantes CDFs. De fato, só tinha imprensa internacional. A imprensa local, em sua maioria golpista, não foi convidada. Pois bem. Lá por volta de 11h20 – Evo ainda não tinha chegado – passou uma mulher perguntando quem iria fazer pergunta. Eu, achando que ela era do protocolo, levantei o dedo. Aí a distinta senhora quis saber de antemão o que eu perguntaria. “Você é do protocolo?”, perguntei. “Não, sou representante da associação de correspondentes estrangeiros”. Tá, achei estranho, mas falei que iria perguntar sobre os movimentos sociais. Aí ela continuou perguntando aos demais colegas, até que juntasse 5 nomes. Depois voltou e me disse: “Ah, disseram que só poderiam ser 3 perguntas. O que você vai perguntar mesmo?”. Respondi mais uma vez. Ela: “Ummm, isso me parece um tema muito ambíguo. Talvez possamos mudar essa sua pergunta”. Antes que eu pudesse responder ela se virou para um sujeito atrás de mim que abriu mão da pergunta dele. Outra mulher, atrás de mim, sugeriu que eu perguntasse sobre as “invasões de terra, que já começaram!”, bradou assustada, parecendo uma fazendeira improdutiva. Nem dei idéia, apesar de ter sentido vontade de xingar alguém. A Fernanda tentou me convencer a, em vez de mudar minha pergunta, incluir a solicitação da coleguinha sobre as invasões. Disse que não, não vou mudar minha pergunta e se os coleguinhas não gostarem, problema deles. Eu até toparia tentar conciliar uma pergunta pra ganhar outra, mas apenas se estivesse ladeado de jornalistas com uma linha mais ou menos parecida com a minha. O que não era o caso. Pensei em lembrá-los do nosso juramento profissional ("A Comunicação é uma missão social. Por isto, juro respeitar o público, combatendo todas as formas de preconceito e discriminação, valorizando os seres humanos em sua singularidade e na luta por sua dignidade"), mas nesse instante chegou o presidente da Bolívia. Evo fez uma pequena introdução e respondeu a primeira pergunta da agencia EFE. Não falou mais de 3 minutos. Em seguida chamou meu nome, e mandei: “Em primeiro lugar quero dizer que os movimentos sociais brasileiros, especialmente o MST, felicitou a vitória do SIM no domingo. A pergunta que tenho é a seguinte: segundo o sociólogo brasileiro Emir Sader, a América Latina é, hoje, a região do planeta com maior capacidade de resistir ao capitalismo neoliberal”…

Evo me interrompe: “Perdão, resistir a quê?”. Minha voz já é baixa e ainda estava sem microfone…

“Ao neoliberalismo, presidente. Quero saber se o novo texto constitucional aprovado poderá impulsionar esta resistência. E a segunda pergunta é se o senhor acredita que o novo texto também permitirá uma maior integração entre os povos boliviano e brasileiro e do resto da AL”.

Evo falou 30, 40 minutos. Só de introdução e respondendo a primeira pergunta. Quando a irritação dos coleguinhas já estava nas alturas, ele se vira para mim: “Qual a outra pergunta?”. Antes que eu completasse, seu porta-voz, Ivan Canelas, disse para ele que não havia outra pergunta. Mas Evo insistiu comigo, ficou sinalizando pra mim. Aí tomei a palavra e disse: “Senhor presidente, sim, eu estava perguntando se o senhor acredita que a nova Carta permitirá uma maior integração entre os povos latino-americanos. E por que?”.

O presidente falou mais, e mais, e mais… Falou da Operação Milagro, que já devolveu a visão a milhares de bolivianos. Falou da erradicação do analfabetismo, falou do bônus Juancito Pinto, da Renda Dignidade, da expansão do sistema de comunicação país afora, do projeto que inicia este ano de erradicação da extrema pobreza… “Este processo é irreversível!”, garantiu. E falou com o coração, falou de seus sonhos, de repente o semblante exausto (havia começado o dia as 6h, sem falar no desgaste da campanha) deu lugar a um sorriso contente – e contundente. “Sim, América Latina é uma esperança para a libertação dos povos do mundo”, disse.

Das outras quatro perguntas, só achei boa a de um cubano, não sei de que veículo, que quis saber da possibilidade de uma intervenção armada dos EUA. Evo acha que não, que Obama já mandou uma mensagem positiva ao decidir fechar Guantanamo. Aproveitou para ressaltar que a nova Constituição proíbe bases militares estrangeiras na Bolívia. “Isso se acabou”. As outras perguntas foram fuxicos do tipo “o governo vai tentar adiantar as eleições?”, coisa que ele já havia descartado ontem e anteontem. Levou 30 segundos pra reafirmar.

Bem, qualquer dia desses transcrevo a coletiva e jogo aqui no proto-blog.

Ah, aproveito para comunicar que o Brasil de Fato já está nas bancas com uma boa matéria sobre o referendo de domingo, assinada pela Fernanda Chaves. Outra boa notícia é que na Caros Amigos de fevereiro vai sair meu texto sobre o processo eleitoral boliviano. Também o jornal catalão La Directa publicou uma matéria que enviei sobre a aprovação da nova Constituição, que pode ser lida aqui: http://www.setmanaridirecta.info. Tá na página 19, com chamada na capa.

A Folha e a oposição "democrática"
28.01.2009 | 20h14 |

Matéria da Folha de hoje comenta o informe da União Européia sobre o referendo de domingo, que aprovou a nova Constituição. O texto considera a televisão golpista Unitel como “uma das mais importantes da Bolívia”.

Segue abaixo o trecho final da matéria:

Sobre a cobertura dos meios de comunicação, o informe diz que "a televisão estatal [TVB] e a estação Rádio Pátria Nova não conseguiram cumprir suas obrigações como meios de comunicação públicos e mostraram uma clara tendência em favor da campanha pelo "sim'".

Segundo um monitoramento feito desde 19 de dezembro, na TVB, 46% do espaço informativo sobre o referendo foi dedicado à campanha do "sim"; já o espaço para o "não" foi de 4%.

Por outro lado, os meios privados fizeram uma cobertura claramente a favor do "não". A TV Unitel, uma das mais importantes da Bolívia, foi a mais tendenciosa, com 52% do seu espaço noticioso dedicado à campanha do "não", e apenas 4% para o "sim".

Com relacionamento cada vez mais difícil com os meios locais, Morales anunciou recentemente que só falaria com jornalistas estrangeiros e lançou um jornal estatal. Nos últimos dias, meios locais têm divulgado relatos de que o governo venezuelano, do aliado Hugo Chávez, está comprando a rede de canal ATB e o principal jornal do país, "La Razón". Com 87% dos votos apurados até ontem à noite, o "sim" à Constituição vencia com 61% dos votos, contra 39% do "não".

Bom, faltou dizer que esses “meios locais” também são golpistas. Faltou dizer também que enquanto as emissoras privadas faziam campanhas mentirosas pelo NÃO, as emissoras públicas tentavam promover debates, convidando inclusive parlamentares e dirigentes dessa direita golpista para dar suas versões ao vivo. Essa conduta da Folha só ajuda a transmitir a idéia de que a oposição de direita na Bolívia é democrática, no que se soma às corporações de mídia. Aliás, nesse ponto vale a pena mencionar o comentário do Blog do Mello, que analisa as manchetes de ontem de 3 jornalões brasileiros:

O Globo: Morales descarta negociar Carta boliviana
Folha: Morales rejeita revisão de Carta; regulamentação está indefinida
Estadão: Evo rejeita negociar texto da Carta
Manchete correta: Oposição golpista não aceita resultado das urnas na Bolívia

Coisa ridícula tratar com naturalidade a não aceitação de um referendo popular considerado democrático por OAE, Mercosul, Unasul, Ceela e demais organizações internacionais que observaram o referendo, além da própria Corte Nacional Eleitoral boliviana.

Outra mentira do Globo
26.01.2009 | 10h24 |

Não sei algum editor reescreveu o texto de hoje do coleguinha do Globo que está em La Paz, mas o fato é que seu primeiro parágrafo contém um erro grave. E logo na primeira frase: "Pesquisas de boca-de-urna divulgadas por meios de comunicação bolivianos após o fim da votação de ontem apontaram a aprovação da nova Constituição Política de Estado (CPE) elaborada pelo governo Evo Morales".

O Globo mente ao público brasileiro com esta afirmação, posto que o novo texto constitucional foi preparado por uma Assembléia Nacional Constituinte e não pelo governo Evo Morales.

Nos três parágrafos seguintes dá voz aos principais líderes da oposição, ajudando a posar de democrata quem, na verdade, adota práticas fascistas. É muita desinformação pra uma página só...

Bolivianos aprovam nova Constituição
26.01.2009 | 09h06 |

Amigos, aí vai apenas uma notinha desse momento histórico para a Bolívia e a nossa América. Depois vou enviando mais informações.

Em votação histórica, povo boliviano aprova neste domingo a Nova Constituição Política de Estado:

Fernanda Chaves/Brasil de Fato

Eleitora votando em San Pedro, La Paz

Por Fernanda Chaves (*) e Marcelo Salles

Apesar de na Bolívia o resultado oficial ser divulgado apenas dentro de 10 dias, após recontagem oficial, o povo boliviano já comemora a vitória do SIM no referendo constitucional deste domingo, 25 de janeiro.

As pesquisas de boca de urna realizadas por emissoras de rádio e televisão privadas e estatais apontam para uma votação de 65% x 35% em favor do SIM. Esta foi a primeira vez em 183 anos de vida republicana que os bolivianos são chamados a participar de um referendo sobre a Constituição.

Nestes quase dois séculos foram convocados apenas 5 referendos, sendo dois deles (40%) pelo governo do presidente Evo Morales Ayma, que completou no último dia 22 tres anos no Palácio Quemado. Todas as organizações internacionais, juntamente com a Corte Eleitoral Nacional, confirmaram a lisura do processo eleitoral.

Marcelo Salles/fazendomedia.com

Mais uma vez a Praça Murillo ficou pena para a festa que seguiu até a madrugada

Os observadores da OEA, Mercosul, Unasur e União Européia foram unânimes em afirmar que o referendo cumpriu com os padrões internacionais e as leis nacionais de maneira exitosa, tendo sido absolutamente respeitada a vontade do povo boliviano.

Logo após os resultados da boca de urna, os partidários do SIM lotaram a Praça Murillo para comemorar. Da sacada do Palácio, o presidente Evo Morales se dirigiu à multidão e afirmou: "Aqui termina o Estado colonial. Acabou o colonialismo interno e externo. Aqui também terminou o neoliberalismo, assim como as riquezas naturais da Bolívia não serão mais propriedade de alguns senhores, mas de todo o povo boliviano".

Em Santa Cruz, a oposição tomou a Praça 24 de Setembro para comemorar a vitória do NAO e alguns afirmam que não aceitarão a implantação do novo texto constitucional neste departamento.

(*) Fernanda Chaves é correspondente do jornal Brasil de Fato em La Paz (Bolívia).

Mais manipulações sobre a Bolívia
24.01.2009 | 03h39 |

Título do Estadão deste dia 23: "Bolívia: Nova Carta dividirá o país, afirma estudo". Fiquei intrigado. Será que antes os bolivianos não eram divididos e eu não percebi nada? Também leio que coleguinhas da Folha e do Globo chegaram à Bolívia, mais uma vez enviados de pára-quedas para cobrir um processo eleitoral. Num dos textos publicados hoje, o Globo desinforma que o último ato de campanha de Evo ocorreu em Chochabamba, quando na realidade foi em La Paz, na Praça Murillo, onde fiquei até o final (por volta da meia-noite). Em Cochabamba ele havia ido mais cedo. No parágrafo seguinte o jornal da família Marinho induz o leitor a acreditar que as mobilizações dos partidários do NÃO levaram duas vezes mais pessoas às ruas do que a turma do SIM. Duvido muito. Qualquer pessoa que caminhe pelas principais capitais bolivianas vai perceber que as maiores mobilizações são favoráveis à aprovação do novo texto constitucional, inclusive em algumas cidades da meia lua, onde a direita acredita exercer o poder por direito divino; em La Paz fui às duas maiores: a da oposição, na Praça Avaroa, levou entre 500 e 1.000 pessoas. A dos partidários do SIM, por sua vez, lotou a Praça Murillo com pelo menos 10.000 pessoas. Num cálculo conservador, a proporção é de 10 pra 1. Ao final do texto o Globo ainda anota que o maior interesse da nova constituição é que Evo se perpetue eternamente no poder, "nos moldes" de Chávez. A matéria ainda arranja tempo para cair em contradição: diz que o SIM deve vencer por margem apertada. Ué, mas o NÃO não tinha mais gente na rua?

Abaixo seguem 4 fotos, duas de cada manifestação, e a íntegra da matéria do Globo comentada acima. Para uma informação mais condizente com a realidade boliviana, sugiro que leiam o Brasil de Fato que vai às bancas na próxima quinta-feira, dia 29, ou a edição de março da revista Caros Amigos. E, espero, também aqui no Fazendo Media.

Marcelo Salles/fazendomedia.com

Encerramento da campanha pelo SIM na Praça Murillo, La Paz (lado do Palácio)

Marcelo Salles/fazendomedia.com

Encerramento da campanha pelo SIM na Praça Murillo, La Paz (lado do Congresso)

Fernanda Chaves/Brasil de Fato

Encerramento da campanha pelo NÃO na Praça Avaroa (La Paz)

Fernanda Chaves/Brasil de Fato

Encerramento da campanha pelo NÃO na Praça Avaroa (La Paz)

Matéria publicada no jornal O Globo, em 23 de janeiro de 2009:

Bolivianos se preparam para votar Constituição

Em relativa tranquilidade, país encerra campanha do referendo que pode instituir reeleição

Janaína Figueiredo e Ricardo Galhardo*

BUENOS AIRES e LA PAZ*. Depois de mais de um ano de confrontos que resultaram em dezenas de mortes e na divisão política do país, os bolivianos encerraram ontem a campanha pelo referendo que vai decidir o destino do projeto de Constituição Política do Estado (CPE). Partidários do "sim", liderados pelo presidente Evo Morales, e do "não", representados pelos governadores dos departamentos da chamada Meia Lua (Santa Cruz, Beni, Pando e Tarija), encerraram a campanha com grandes comícios nas principais cidades do país.

Ao contrário de todo o processo de elaboração do projeto constitucional, o clima ontem era de relativa tranquilidade. Morales escolheu a cidade de Cochabamba, capital do departamento homônimo, para o último ato da campanha pelo "sim". Já os partidários do "não" se reuniram num comício em Santa Cruz de la Sierra, cidade mais rica do país e bastião da oposição a Morales. Eram esperadas 100 mil pessoas na manifestação.

Ainda em La Paz, Morales elencou por quase quatro horas seus feitos no governo em informe ao Congresso. Já em Cochabamba, 50 mil pessoas acompanharam o discurso em que ele atacou adversários, especialmente a cúpula da Igreja Católica, e desmentiu boatos espalhados pela oposição de que acabariam os direitos de propriedade privada e de herança.

No próximo domingo, cerca de 3,8 milhões de bolivianos irão às urnas para decidir o futuro do projeto de Constituição aprovado pela Assembléia Legislativa do país em dezembro de 2007. Trata-se de uma consulta popular crucial para o governo boliviano, que este mês completa três anos de gestão. Embora o novo texto constitucional estabeleça a possibilidade de apenas uma reeleição presidencial (proibida pela atual Constituição), Morales disse, recentemente, que o Movimento ao Socialismo (MAS) chegou ao Palácio Quemado para ficar, e afirmou estar preparado para governar a Bolívia "o resto da minha vida".

- Temos de comemorar, o referendo já pode ser considerado aprovado. Para mim, já foi vencido - declarou o presidente boliviano, durante um ato político na cidade de Oruro.

Carta poderá ser modificada depois de aprovada

Morales afirmou que "o passo seguinte para completar a transição do neoliberalismo para um país plurinacional é a aprovação do projeto da nova CPE". Segundo recentes pesquisas divulgadas pela imprensa local, o mais provável é que o governo, de fato, consiga derrotar seus adversários. No entanto, alertaram analistas bolivianos ao GLOBO, Morales triunfaria com pouco mais de 50% dos votos, o que confirmaria que a Bolívia continua sendo um país rachado.

- Este referendo não resolverá os problemas políticos de nosso país, pelo contrário, eles ficarão ainda mais graves - disse Ximena Costa, da Universidade Maior de San Andrés.

Segundo ela, este ano a Bolívia será, mais uma vez, cenário de delicados conflitos entre o governo e seus inimigos, que poderiam gerar violência no país.

- A nova CPE será promulgada no próximo mês de fevereiro, mas só poderá entrar em vigência após a aprovação do texto na nova Assembléia Legislativa, que assumirá em 2010 (após a eleição de dezembro deste ano). Ou seja, este ano não teremos Parlamento e Morales governará por decreto - explicou Costa.

O projeto do MAS prevê mais poder às comunidades indígenas, limita o latifúndio, propõe um regime de autonomias departamentais que não satisfaz os governadores da Meia Lua e reforça o perfil estatal e socialista da economia boliviana.

- A nova Constituição introduz três modificações centrais: o reconhecimento dos direitos indígenas, a criação de um regime de autonomias que não satisfaz as expectativas de grupos opositores, mas que é bastante revolucionário, e a aplicação de normas econômicas com tendência estatal, sobretudo no que diz respeito aos recursos naturais do país - afirmou o analista Roger Cortez Hurtado.

Os opositores de Morales dizem que o próprio presidente e seus colaboradores já admitiram que a nova CPE sofrerá modificações, após sua eventual aprovação no referendo. Uma delas seria a inclusão de um artigo sobre a reeleição indefinida do chefe de Estado, nos moldes do projeto de emenda constitucional defendido pelo governo do presidente da Venezuela, Hugo Chávez.

Dois caminhos
22.01.2009 | 21h27 |

Mais um recorde: um mês e um dia sem escrever aqui. Às vezes tenho a impressão de que esse espaço está se transformando num blog fantasma... Obrigado aos queridos Georges, Carlos Henrique, Rodrigo Junqueira e Renata Moraes pelo cuidado e atenção de me escrever perguntando se estava tudo bem. Gracias também a Leandro Alves e MIGUEL pela cobrança aqui nos comentários, afinal de contas a única razão para que eu continue escrevendo por aqui é essa troca com quem está lendo meus escritos.

Aqui em La Paz só se fala do referendo do dia 25. O país inteiro está mobilizado, a maioria pela aprovação do novo texto constitucional. Pelo que tenho visto nas corporações brasileiras de mídia, o processo boliviano tem sido ignorado. Ontem houve festas e debates de encerramento nos departamentos e hoje a festa será em La Paz e El Alto, daqui a pouco estou indo para o evento de encerramento na capital. A turma do SIM procura divulgar ao máximo o novo texto em debates e panfletagens e propagandas de rádio e tv. O pessoal do NÃO se limita a criticar o texto, muitas vezes inventando mentiras terríveis para convencer na marra o eleitorado. Coisas como "Evo vai roubar sua casa se você tem duas ou mais" ou "Não negue Deus, vote NÃO", apesar de a propriedade privada urbana e a liberdade religiosa estarem garantidas no projeto.

Mas nesse momento me parece que existem outras coisas que também merecem ser comentadas. Acredito que três fatos históricos aconteceram num espaço de quinze dias. Três fatos que contém todos os elementos para que possamos analisar o ano de 2008 no mundo e prever o que pode ser de 2009 em diante. São eles: o fim do analfabetismo na Bolívia, os 50 anos da Revolução Cubana e o massacre promovido por Israel em Gaza. Tudo isso aconteceu entre 20 de dezembro e primeiro de janeiro, sendo que o massacre se estendeu até meados deste mês. Antes de continuar explico que não incluo a posse de Obama, como certamente o fazem as corporações de mídia, porque não vejo ali nenhuma alteração substancial no Estado imperialista estadunidense. As aparências, nesse caso, não me enganam. Mesmo porque Obama manteve o controle das Forças Armadas com os Republicanos, seu chefe de gabinete (primeira nomeação) é um sionista e sua secretária de Estado já fez a seguinte declaração sobre nossa América Latina: "Deveremos ter uma agenda positiva no hemisfério como resposta ao tráfico de temor propagado por Chávez e Evo Morales". Nesse sentido, a posse do primeiro presidente negro dos EUA definitivamente não se encaixa na categoria de fato histórico.

O fim do analfabetismo de um povo, isto sim constitui um marco no desenvolvimento de uma nação. Com a ajuda de Venezuela e Cuba, Bolívia passou a ser o terceiro país latino-americano livre da escuridão. Os 50 anos de Revolução Cubana também merecem destaque, já que a data sublinha a vitória de um movimento que já permitiu, pelo método Yo, Sí puedo", alfabetizar 2,2 milhões de pessoas em mais de 20 países do mundo inteiro; graças à Revolução Cubana milhões de pessoas que não podem pagar têm atendimento médico gratuito em todo o mundo, numa demonstração de infinita solidariedade. Por outro lado, o recente massacre israelense em Gaza deixou mais de 1.200 pessoas mortas e 5 mil pessoas feridas. A maior parte de civis: crianças, mulheres e idosos. Com apoio decidido dos EUA, que enviam a Israel cerca de US$ 5 bilhões anuais em armas e equipamentos de guerra, o mundo assistiu a uma demonstração de violência desmedida, uma barbaridade explícita movida em nome do capitalismo - seja para a conquista de território, seja para a renovação das máquinas de matar. Bolívia erradicou o analfabetismo com R$ 39 milhões, valor correspondente a dois dias da grana que os EUA enviam a Israel. Seria oportuna a pergunta: quantas pessoas foram alfabetizadas ou tiveram atendimento médico gratuito em ações promovidas pela maior potência econômica do mundo?

É isso, meus caros e minhas queridas. Acredito que desses três fatos históricos a gente possa extrair as lições desejadas. Se queremos um mundo solidário ou um mundo violento. Os exemplos existem nos dois lados, resta saber o que os povos e governos vão escolher.


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