
Por Marcelo Salles - salles@fazendomedia.com

Confissão ao vivo
29.06.2008 | 00h31 |
Noutro dia os ouvintes da CBN tiveram uma grata surpresa. Ouviram a presidente da Standard & Poors elogiar desbragadamente o economista-âncora Carlos Alberto Sardenberg: “Vocês são muito importantes, sempre divulgam informações importantes, muito parecidas com as que nós divulgamos”. Nada mal se considerarmos que essa e outras agências estrangeiras, auto-denominadas “medidoras de risco”, trabalham para manter o Brasil refém do capital financeiro internacional.
Que vagabundos, Cabral?
28.06.2008 | 03h11 |
Não é na resignação, mas na rebeldia em face das injustiças que nos afirmaremos
- Paulo Freire

Carlos Latuff em ação. Igreja Candelária, Rio de Janeiro, sexta-feira dia 27 de junho de 2008. Há exatamente um ano o governador Sérgio Cabral (PMDB) enviava 1.350 policiais ao Complexo do Alemão. Resultado: 19 mortos, muitos deles com sinais claros de execução. Um laudo da Secreteria Nacional de Direitos Humanos comprovou a execução sumária de pelo menos duas pessoas. No ano passado a polícia do Rio matou 1.330 pessoas, número recorde. O ano anterior também havia registrado recorde. Não consta que o cidadão esteja mais seguro hoje do que há dois anos.

Dentro da igreja as mães choraram a perda dos filhos. A política de extermínio implementada há pelo menos 3 governos seguidos no Rio de Janeiro, todos do PMDB, tem um nítido corte de classe. Quase todos os mortos pela polícia são negros, todos pobres. Essa é a essência da candidatura Eduardo Paes (PMDB) a prefeito do Rio. A polícia que mais mata é também a polícia que mais morre. Mães de policias também choram as mortes de seus filhos. E o que afirmam Cabral e seu secretário: "que a política de enfrentamento vai continuar". Dizem isso porque não são seus filhos que pagam com a vida. Quem é que ganha dinheiro com a venda de armas e drogas, Sérgio Cabral? É o vagabundo da favela ou o vagabundo do seu vizinho no Leblon?
Após a missa foi realizado um ato que reuniu cerca de 400 pessoas nas imediações da Candelária. Ao final foi lido um manifesto e velas foram espalhadas pelo chão. Missa e ato foram organizados por diversas entidades como MST, Grupo Tortura Nunca Mais, Rede Contra a Violência, Justiça Global, Mandato Deputado Federal Chico Alencar, Mandato Deputado Federal Marcelo Freixo e Mandato Vereador Eliomar Coelho, todos do PSOL, além de PSTU, Conlutas e Frente de Luta Popular. A propósito, os telejornais não citaram a presença dos parlamentares Chico Alencar, Marcelo Freixo, Eliomar Coelho e Alessandro Molon (PT), sendo que os dois primeiros e o último são integrantes das comissões de direitos humanos da Câmara dos Deputados e da Alerj. Por fim, cabe lembrar que Molon não assinou o manifesto contra as políticas de extermínio, divulgado em novembro do ano passado e assinado por dezenas de entidades e 200 pessoas.
Somos todos diabos sem-terra
26.06.2008 | 20h05 |

Os militantes sem-terra são demonizados não porque supostamente violentos, baderneiros e corruptos, como afirma a mídia hegemônica. Os militantes sem-terra são enquadrados dentro do arquétipo da maldade porque ousam dizer “não”.
Eis o grande crime do MST: dizer não ao sistema que tudo vê, tudo sabe, tudo pode. Pela rebeldia, enfrentará a fúria dos setores que lutam pela manutenção da exploração do povo brasileiro. Pela justeza de sua causa, receberá o apoio de milhões de brasileiros que ainda não perderam a capacidade de se indignar frente às injustiças. Seremos todos diabos sem-terra. Juntos, vamos lutar e vencer. Como disse outro diabo, o Santo Agostinho: “A esperança tem duas filhas lindas: a raiva e a coragem. A raiva do estado de coisas e a coragem para mudá-lo”.
Leia aqui a íntegra do artigo, publicado hoje na Carta Maior.
Obrigado, Latuff
25.06.2008 | 12h26 |

Confesso que sou privilegiado de ter um amigo como o cartunista Carlos Latuff. Publicado nos quatro cantos do mundo por pessoas e grupos que resistem ao imperialismo, monitorado pelos serviços de inteligência dos EUA, ameaçado de morte por setores israelenses ligados ao Likud, vigiado pela polícia do Rio de Janeiro e difamado pelas corporações brasileiras de mídia. Mas não só.
Carlos Latuff é um grande ser humano, desses que a gente conta nos dedos. Movido por uma profunda indignação contra a exploração capitalista, ele me deu a honra de ver e publicar este seu desenho em primeira mão. E será aqui que os jornalões tomarão conhecimento da ilustração que vai sacudir o Rio de Janeiro depois de amanhã, sexta-feira (27/6), num ato público que será divulgado no momento oportuno. Mais uma vez: primeiro no Fazendo Media, depois nas corporações de mídia, exatamente como aconteceu com uma informação sobre o Grupo Tortura Nunca Mais e sua presidente, Cecília Coimbra, primeiro noticiada aqui e três dias depois na coluna do Ancelmo Gois, no Globo.
Vou adiantar algumas poucas informações, o suficiente para não comprometer previamente a segurança dos manifestantes: trata-se de uma crítica à política de segurança adotada no Rio de Janeiro por sucessivos governos, atualmente comandada por Sérgio Cabral (PMDB) e seu secretário José Mariano Beltrame. Uma política que faz a polícia do Rio ser a que mais mata e a que mais morre, sem que isto resulte na redução da criminalidade. Durante as reuniões de organização do ato, não se chegou a uma conclusão a respeito da frase que deveria acompanhar o desenho do Latuff. Algumas das propostas foram: "A guerra de Cabral"; "A política que mata"; "Pela vida, contra o extermínio"; "Providência, Alemão, Baixada... Até quando?". Apesar de que este desenho vá ser usado em camisas e adesivos sem texto, nada impede que versões futuras sejam impressas, até porque a proposta é divulgar outdoors e cartazes pela cidade. Portanto, se você tiver uma sugestão, fique à vontade, pois ela poderá ser estampada na arte acima.
Chico x Gabeira
23.06.2008 | 02h05 |
Os deputados federais Chico Alencar e Fernando Gabeira protagonizaram interessante debate na UNIRIO, quinta-feira passada. Os candidatos à Prefeitura do Rio conversaram durante duas horas com cerca de 100 estudantes e professores e expuseram suas propostas para administrar a cidade.
Entre os temas divergentes encontra-se o sistema de governo. Chico não acredita na possibilidade de implantar o socialismo em apenas uma cidade, mas promete fazer um governo socializante, em que a pressão popular seja determinante para a conquista dos avanços de que o Rio precisa. O candidato do PSOL quer o poder público nas rédeas da administração municipal.
Já Fernando Gabeira promete um choque de capitalismo. O candidato da coligação PV-PSDB-PPS disse que a única saída para o Rio é aproveitar a dinâmica do capitalismo e desenvolver a tecnologia, as comunicações, a ciência e etc.
O discurso sedutor de Gabeira não encontrou respaldo no público presente. Enquanto falava, uma das estudantes gritava: “Abaixo o capitalismo!”, ao que ele ignorava para logo em seguida depreciar a experiência cubana e os ídolos da Revolução de 1959. O candidato verde-tucano esquece que o capitalismo é violento em sua própria essência, pois é sustentado pela mais-valia, ou seja, pela exploração do trabalhador. E, convenhamos, se esse sistema funcionasse, a humanidade já teria resolvido seus problemas faz tempo.
Chico, por sua vez, reafirmou a importância de se democratizar os meios de comunicação. É até agora o único candidato a levantar essa bandeira, assim como nas eleições de 2006 para presidente Heloísa Helena, também do PSOL, foi a única candidata a tocar no assunto durante entrevista no Jornal Nacional.
Há pelo menos duas outras candidaturas que podem defender a democratização da mídia: Jandira Feghali (PCdoB) e Paulo Ramos (PDT). Crivella, Molon, Eduardo Paes, Solange e o próprio Gabeira estão engessados pelos acordos que seus partidos possuem com os oligopólios que controlam os meios de comunicação no país.
A partir de julho, com o início da campanha eleitoral, vamos acompanhar de perto as movimentações políticas, a cobertura das corporações de mídia e as manipulações que vem por aí. Aqui o leitor vai ficar sabendo dos fatos que foram publicados, outros que foram omitidos e também os que foram distorcidos.
CPI das Milícias
19.06.2008 | 14h52 |
Vale a leitura do artigo do deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL), presidente da CPI das Milícias, instalada hoje na Alerj com duas medidas aprovadas: 1) Criação do Disque-Milícia e 2) Conceituação do termo "milícia". Reparem na última frase do primeiro parágrafo, que pode ser entendida como uma crítica indireta aos meios de comunicação de massa. Enquanto nós da mídia popular e alternativa nos esgoelávamos para denunciar esse abusos, os bandos armados de direita sempre foram vistos como um mal menor pelas "autoridades" e pela outra imprensa. E há outros, amigos, muitos outros temas sobre os quais escrevemos e que são deixados em segundo plano pelas "autoridades" e pelas corporações de mídia (ou, por que não dizer, nesse caso, "milídias").
ESTADO PARALELO (*)
Rio - O debate sobre as milícias finalmente está colocado na pauta da cidade. Infelizmente, foi preciso que uma equipe de O DIA fosse torturada para que muitos revissem seus olhares. Enquanto a violência e o terror recaíam sobre os moradores das favelas, o que vimos foi silêncio e conivência.
A ação desses grupos passa por três eixos: controle de território exercido por agentes públicos vinculados à área de segurança, extorsão direta dos moradores através do controle de serviços e, finalmente, a formação de braços políticos com parlamentares, frutos da construção dos redutos eleitorais nesses espaços. É preciso deixar claro que não são justiceiros. O que desejam é lucro — obtido por meio de atividades ilícitas ocorridas no vácuo do poder público.
A mais inadequada defesa ideológica que se faz sobre milícias é a de que representam um mal menor e que, diante da falta de policiamento e da precariedade da segurança pública, seriam“melhor”que o tráfico de drogas. Esse foi o grande equívoco do poder público e a principal razão de seu crescimento por dentro do Estado, com cada vez mais força política nos parlamentos. É um debate sobre soberania! Não podemos abrir mão do Estado democrático de direito. É inaceitável que grande parcela da população viva sobre o terror imposto por traficantes ou por grupos paramilitares.
Segurança pública não se resolve com polícia, mas com política. Precisamos de uma polícia bem preparada e formada na cultura de defesa dos direitos, bem remunerada, controlada por uma ouvidoria independente e com autonomia. Nas favelas, é urgente um novo conceito de segurança, que inclua a escola pública de qualidade, o atendimento digno nos postos de saúde, o primeiro emprego e acesso à cultura.
(*) Artigo publicado no jornal O DIA, 19 de junho de 2008.
Os demais integrantes da CPI das Milícias são Gilberto Palmares (PT), relator, Paulo Ramos (PDT), eleito vice-presidente, Paulo Melo (PMDB), João Pedro (DEM) e André Corrêa (PPS).
As vaias sumiram!
18.06.2008 | 22h10 |
Maurício Campos, da Rede Contra a Violência, esteve no Morro da Providência ontem, durante a visita do ministro da Defesa, o tucano Nelson Jobim. Ao contrário do que foi divulgado pelas corporações de mídia, Jobim não foi bem recebido pelos moradores. Saiu debaixo de vaias. Segundo Maurício, o Exército também foi muito vaiado. Os moradores exigiram a retirada imediata da tropa. Mas quem se informou exclusivamente pela mídia grande não teve essa impressão. Ficou parecendo que Jobim foi muito bem recebido, sobretudo pela exploração da imagem em que ele abraça a mãe de um dos garotos entregue à morte por militares. Como disse, com muita propriedade, o leitor Diego Bevilacqua, a imprensa capitalista não está sincronizada com a realidade.
No capitalismo, tudo está à venda
17.06.2008 | 16h14 |

Carlos Latuff consegue, em poucas palavras, esclarecer o que as corporações de mídia omitem em meio a baldes de tinta e rolos de imagens:
A recente tragédia envolvendo, mais uma vez, residentes de comunidades carentes no Rio, onde militares do Exército Brasileiro entregaram três jovens do morro da Providência nas mãos de traficantes de uma outra favela para serem torturados e executados, revela que há muito caiu por terra o mito da incorruptibilidade das forças armadas. Claro, haverá aqueles que se apressam em afirmar que se trata de um "caso isolado", aliás, argumento esse o preferido pelas autoridades e pela mídia burguesa toda vez que surgem denúncias de envolvimento de policiais em crimes, numa tentativa de proteger as sacrossantas instituições da repressão. O que vemos, no entanto, é que, constantemente, vem à tona notícias dando conta do apoio logístico de militares brasileiros ao tráfico de drogas. E a frequência destes incidentes nos faz pensar que estão longe de ser exceções à regra. A corrupção é a maior, a mais vigorosa e consolidada de todas as instituições brasileiras, e nem todo o rigoroso treinamento e a hierarquia da caserna poderá livrar soldados ou generais de suas armadilhas, porque no sistema capitalista tudo está a venda, inclusive a honra.
Vale lembrar que os abusos dos militares no Morro da Providência foram denunciados em primeira mão pelo jornal A Nova Democracia, em sua edição de janeiro deste ano. Ou seja, há cinco meses já foi tornado público o que agora as corporações de mídia parecem ter descoberto. “Invasão de domicílio, revistas indiscriminadas até em crianças, perda de privacidade e queda no movimento do comércio local são as queixas mais recorrentes”, escrevo logo no início da reportagem. Confira a íntegra aqui. O editor deixou claro logo no subtítulo a natureza política da intervenção: “Uma articulação entre os governos federal, estadual e municipal promove o aumento das ações violentas contras os espaços populares no Rio de Janeiro”. Precisava esperar morrer alguém para que os “grandes” jornais da cidade entrassem na pauta? Devemos acreditar na súbita sensibilidade das empresas capitalistas de imprensa ou será que um ou mais veículos estaria aproveitando a proximidade das eleições para atacar o candidato que não lhes agrada, por suposto o mesmo que patrocina ocupação do Exército?
Sejam quais forem as respostas, uma coisa é certa: os leitores da mídia alternativa ficaram sabendo primeiro.
Corrupção no governo tucano
14.06.2008 | 00h08 |
O Ministério Público Federal no Rio Grande do Sul reconheceu a participação de órgãos de imprensa e agências de publicidade na proteção da imagem do grupo acusado de atuar dentro do governo Yeda Crusius (PSDB-RS) e desviar R$ 44 milhões dos cofres públicos. “Os denunciados integrantes da quadrilha não descuidavam da imagem dos grupos familiares e empresariais, bem assim da vinculação com a imprensa. O grupo investia não apenas na imagem de seus integrantes, mas também na própria formação de uma opinião pública favorável aos seus interesses, ou seja, aos projetos que objetivavam desenvolver. A busca de proximidade com jornais estaduais, aportes financeiros destinados a controlar jornais de interesse regional, freqüentes contratações de agências de publicidade e mesmo a formação de empresas destinadas à publicidade são comportamentos periféricos adotados pela quadrilha para enuviar a opinião pública, dificultar o controle social e lhes conferir aparente imagem de lisura e idoneidade”. Leia aqui a íntegra da matéria publicada na seção de Política.
Caveirão sem freio
13.06.2008 | 18h25 |
Leio no jornal que “quatro moradores foram atropelados pelo caveirão no Morro da Mangueira”. O “acidente” aconteceu ontem, durante mais uma “operação” da polícia numa região de baixa renda do Rio de Janeiro. Ainda segundo o jornal, o policial que dirigia o blindado perdeu o controle numa ladeira, o freio não funcionou e ele bateu num carro, que foi arremessado dentro de um bar, atingindo uma mulher, que fraturou a perna. Em seguida, o caveirão bateu numa picape que feriu três pedestres.
Pergunto ao caro leitor: o que aconteceria se o caveirão perdesse o controle na Vieira Souto, no Leblon, e atropelasse “quatro moradores”, sendo que um deles tivesse a perna fraturada? Arrisco um palpite com relação à cobertura da imprensa: esses “quatro moradores” ganhariam as primeiras páginas e, certamente, teriam nome, sobrenome e profissão. Gostaria de saber em que momento da nossa História os seres humanos que moram em favelas receberam o rótulo de “morador de comunidade”, enquanto aqueles que vivem nas áreas nobres são tratados com a mais fina distinção.
Crime, capitalismo e imprensa
13.06.2008 | 00h27 |
No dia 25 de fevereiro deste ano a Suprema Corte da Colômbia ordenou a prisão de quatro parlamentares por entender que havia indícios de vínculos com grupos paramilitares de direita, mais conhecidos como "Autodefesas Unidas da Colômbia". Os senadores Ciro Ramirez e Luiz Fernando Almario, do Partido Conservador Colombiano, e os deputados Dixon Tabasco e Pompillo Avedaño, do Partido Liberal Colombiano, se juntaram a outros 14 congressistas na Penitenciária La Picota, em Bogotá, todos acusados de envolvimento com grupos paramilitares, que controlam determinadas comunidades, tiranizam a população local e negociam votos em períodos eleitorais. No total, são 63 congressistas envolvidos no escândalo da “para-política”. A maioria desses políticos pertence à base de sustentação do presidente Álvaro Uribe.
No Brasil, não faltam “autoridades” para respaldar o modelo colombiano – que como sabemos sofre forte influência de Washington via agências como DEA e CIA. Em março do ano passado, o governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral visitou a Colômbia para conhecer o modelo de segurança do país vizinho. Levou com ele o secretário da pasta correspondente, José Mariano Beltrame. Segundo a reportagem do jornal O Globo, em 23 de março de 2007, “A Colômbia, que chegou a ser um dos países mais violentos da América Latina, é considerada hoje modelo de como diminuir índices de criminalidade”. O texto, não assinado, afirma que Sérgio Cabral ficou animado com a visita: “Disse que pretende investir na área social em favelas do Rio, como o Conjunto do Alemão e Manguinhos. Para ele, a união ideal para reduzir a violência é policiamento maciço e investimento nas áreas mais pobres”. Leia a íntegra aqui.
A imprensa brasileira, de modo geral, omite a realidade colombiana ou então a inverte por completo. Um exemplo. A repórter Ruth Aquino assina matéria de capa na revista Época, em 19 de fevereiro de 2007, intitulada “As lições da Colômbia para o Brasil”. Em vez de listar alguns dos crimes citados acima, a jornalista passa a elogiar o modelo de segurança militarizado (“nas ruas da capital colombiana, o ambiente é de Primeiro Mundo (...) Praticamente não há mendigos”) sem considerar que por trás dele se sustentam as relações políticas que permitiram a constituição de milícias de direita que assassinaram inúmeros colombianos, geralmente camponeses pobres. Clique aqui para ler a íntegra da reportagem.
Em sua próxima edição, o jornal A Nova Democracia publica essa história na íntegra. Como o Estado capitalista alimenta o crime organizado, as ramificações políticas, as mal chamadas milícias e a responsabilidade das corporações de mídia na manutenção do sistema que sequestra, tortura e mata milhares de pessoas.
Apagão das milícias no "Globo"
10.06.2008 | 15h27 |
Todos os jornais do Rio de Janeiro, à exceção do "Globo", deram hoje matéria sobre a votação, na Assembléia Legislativa do RJ, que vai decidir pela criação - ou não - de CPI para investigar a ação das mal chamadas milícias. O que é mais estranho: a cúpula do jornalismo da TV Globo tentava, depois das 22h de ontem, saber se o presidente da Alerj, Jorge Picciani (PMDB), iria se reunir com o provável presidente da CPI, Marcelo Freixo (PSOL), antes da votação. Como se sabe, o diretor de jornalismo da TV Globo, Ali Kamel, possui grande ingerência no "Globo".
Agora é conferir o caminhar da votação - e da cobertura das corporações de mídia - para tentar descobrir o motivo desse apagão do "Globo".
Simples desatenção?
10.06.2008 | 12h22 |

O sempre atento Luiz Guilherme foi em cima: o título dessa matéria do Jornal do Brasil deste domingo (8/6) não corresponde à realidade. A acusação de corrução, no mundo real, é contra o governo tucano de Yeda Crusius, mas quem só leu o título - e não sabe a que partido pertence a governadora do Rio Grande do Sul, ou seja, a maioria - vai ficar pensando que se trata de um escândalo de corrupção do PT.
A violência que a mídia não vê
07.06.2008 | 22h15 |
Clique aqui para assistir ao vídeo que retrata a repressão policial contra 900 mulheres da Via Campesina. Segundo texto publicado na página do MST, em 4 de março deste ano as camponesas ocuparam uma fazenda ilegal da empresa Stora Enso, no Rio Grande do Sul. As trabalhadoras protestavam contra o monocultivo de eucalipto praticado nas instalações da transnacional, localizadas em zona de fronteira. Durante a ação, as mulheres plantaram árvores nativas no lugar dos eucaliptos. A ação fez parte da Jornada de Lutas das Mulheres Sem Terra. Às vésperas do Dia Internacional da Mulher, 60 camponesas tiveram seus corpos marcados por ferimentos causados pelas tropas da Brigada Militar e duas foram presas.
Ao omitir as agressões contra as camponesas da Via Campesina, as corporações de mídia contribuem para a continuidade da violência contra a classe trabalhadora. Desse modo, reforçam a criminalização da pobreza - que pode ser agredida impunemente - e passam atestado de eficiência às empresas privadas, que se sentirão à vontade para contratar jagunços (fardados ou não) para reprimir os trabalhadores.
Proeza do SBT
06.06.2008 | 22h25 |
Matéria do SBT Brasil desta sexta-feira (6/6), que acaba de ser veiculada, sobre o ato na OAB-RJ contra a ação das milícias, conseguiu a proeza de não informar a presença do presidente da CPI para investigar essas quadrilhas, o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL). Em seu lugar, falou a vereadora Andréa Gouveia (PSDB), que não tem atuação conhecida na área de Direitos Humanos ou de Segurança Pública.
Lins e Cabral, tudo a ver
06.06.2008 | 02h44 |

(1) Governador do RJ, Sérgio Cabral (PMDB-RJ); (2) Senador Francisco Dornelles (PP-RJ); (3) Deputado estadual Álvaro Lins (PMDB-RJ) e (4) Deputado federal Marcelo Itagiba (PMDB-RJ). Unidos, foram eleitos
A imagem acima foi retirada de um vídeo utilizado como prova pela Polícia Federal de que o deputado estadual Álvaro Lins (PMDB) teria comprado votos nas eleições de 2006. Mas o RJTV de terça-feira (3/6) não mostrou esta imagem. O editor selecionou apenas imagens em que Lins aparece sozinho. Pergunta-se: a presença do governador do estado não é um fato jornalisticamente relevante? Até porque, em determinado momento, Sérgio Cabral (PMDB) diz aos concursados excedentes da polícia: “Esse é meu compromisso, de convocar todos vocês. Vamos preencher todas as duas mil vagas. E vamos continuar fazendo concurso público”. Isto não poderia ser interpretado como compra de voto?
Sobre Álvaro Lins, o governador é bastante enfático: “Ter na Assembléia Legislativa um deputado com a inteligência, a vibração, a energia, o caráter de Álvaro Lins para mim é fundamental como governador do estado do Rio de Janeiro. Fundamental, Álvaro. Fundamental”. Leia a matéria na íntegra aqui. Você, leitor do Fazendo Media, vai ficar sabendo até onde chega o esquema de formação de quadrilha, lavagem de dinheiro, corrupção ativa e facilitação de contrabando. Já os leitores dos jornalões vão acreditar que tudo pára em Álvaro Lins.
PMDB, DEM, milícias e a mídia
03.06.2008 | 13h59 |
As relações entre os chefões da imprensa e os partidos PMDB e DEM devem ser muito profícuas. Essa é a única explicação para que essas siglas ainda não tenha ido parar nas manchetes. Há denúncias formalizadas pelo Ministério Público e investigações da Polícia Federal que comprovam a participação vereadores, deputados estaduais, um prefeito e um ex-governador (e presidente do PMDB no RJ) dessas duas siglas em esquemas de lavagem de dinheiro, facilitação de contrabando, evasão de divisas, corrupção ativa e formação de quadrilha armada. Um deles responde até pelo assassinato do inspetor de polícia Félix dos Santos Tostes, acusado de chefiar milícia em Rio das Pedras.
Anthony Garotinho, ex-governador e presidente do PMDB no Rio de Janeiro;
Álvaro Lins, deputado estadual (PMDB);
Jerônimo Guimarães, o Jerominho (vereador, PMDB);
Núbia Cozzolino (prefeita de Magé, RJ, PMDB);
Nadinho de Rio das Pedras (vereador, DEM);
Natalino Guimarães (deputado estadual, DEM).
Na quinta-feira (29/5), o ex-governador do Rio, Antonhy Garotinho, foi denunciado pelo Ministério Público e o ex-chefe da Polícia Civil, Álvaro Lins, foi preso pela Polícia Federal. São acusados de lavagem de dinheiro e formação de quadrilha armada. Garotinho é presidente do PMDB no estado e Lins é deputado estadual pelo mesmo partido. O Globo dedicou 6 páginas ao tema e destacou 25 repórteres para a cobertura. Entretanto... Em nenhum dos 11 títulos nas seis páginas aparece a sigla PMDB. E em apenas um dos 14 subtítulos, o da última página da série de matérias, vemos a legenda. No dia seguinte foram 9 títulos e 12 subtítulos, sem que a sigla PMDB aparecesse em nenhum deles.
Notas esparsas nos jornais de hoje sinalizam com o aumento desta lista. De acordo com a coluna do Ancelmo Góis, “autoridades do Rio identificaram dois políticos cariocas – um vereador e um deputado – que têm ligações com a milícia que domina a Favela do Batan, aquela onde dois repórteres de “O Dia” foram torturados”. Na coluna de Merval Pereira é citado o deputado federal Leonardo Picciani (PMDB), que estaria envolvido com o esquema de Álvaro Lins. Essas duas colunas são publicadas pelo jornal O Globo. No JB, a coluna da Anna Ramalho anota frase do deputado federal Marcelo Itagiba, também do PMDB fluminense: “As milícias são uma boa idéia... que não deram certo”.
Houvesse jornalismo de verdade no Rio de Janeiro, o público já teria sido informado, com o devido destaque, que o partido do prefeito da cidade, César Maia (DEM), e o partido do governador do estado, Sérgio Cabral (PMDB), estão implicados em crimes da maior gravidade. César Maia, vale lembrar, sempre considerou que as “milícias” eram um mal menor. Chegou a chamá-las de “autodefesas comunitárias”, num elogio ao modelo de segurança colombiano, que por sua vez é bastante enaltecido pela imprensa brasileira. Os telejornais têm evitado mencionar esses partidos e os jornais não os levam para as manchetes. Quem estudou comunicação sabe que a maioria dos leitores de jornal só lê os títulos e os subtítulos e, quando muito, o primeiro parágrafo. É importante registrar que, em 2005, por muito menos o PT foi esculhambado em manchetes de jornal e em fartas reportagens de rádio e televisão. As corporações de mídia destacaram seus melhores repórteres para investigar cada detalhe do partido, que foi rotulado de “mensaleiro” pra baixo. O mesmo PT que ainda não teve coragem de enfrentar o oligopólio que controla os meios de comunicação no país.
Com esse tipo de divulgação restrita, as corporações de mídia matam dois coelhos com uma canetada só: preservam seus interesses político-financeiros (incluindo a verba publicitária), e agridem a imagem do setor público como um todo, ao fazer parecer que todos os políticos são iguais. Assim, reforçam a falsa idéia de que “público é ruim, atrasado, corrupto” e “privado é bom, moderno, dinâmico”.
Realinhamento da cobertura – O Jornal Nacional desta segunda-feira (2/6) divulgou com entusiasmo a operação cinematográfica da polícia na favela da Rocinha. Segundo a Secretaria de Segurança, foram apreendidas 2,5 toneladas de maconha, retiradas por um helicóptero, “que fez várias viagens” até remover toda a erva. Ao tratar do crime cometido contra a equipe do jornal O DIA, o telejornal evitou o termo “tortura”, substituído por “agressão”, e preferiu creditar os espancamentos, choques elétricos e sufocamentos com saco plástico a “milicianos”, embora a própria SeSeg tenha admitido que policiais participaram da ação criminosa. Só no final da matéria um texto explicativa surgia explicando que as “milícias” são compostas por policiais e ex-policiais.
Desse modo, nota-se um realinhamento gradual da cobertura segundo os parâmetros do governo estadual. Embora nunca tenha abandonado completamente este eixo, a cobertura da TV Globo, assim como a dos demais veículos da mídia hegemônica, adotaram por 48h uma incomum postura crítica em relação à violência policial. Os jornais de hoje mostram que apenas O DIA mantém essa posição firme, enquanto os demais a atenuam bastante.
É fundamental registrar que geralmente as denúncias de violência policial são ignoradas pelas corporações de mídia, que parecem só ter despertado para sua existência após a sessão de tortura contra uma repórter, um fotógrafo e um motorista do diário carioca. Quando o repórter alternativo Brad Will foi assassinado pela polícia mexicana, em Oaxaca, 2006, a imprensa não registrou, o que denota a existência de duas categorias de jornalista na avaliação das corporações. Quando brasileiros pobres, moradores de favelas, denunciam tapas na cara, espancamentos, e execuções sumárias cometidas por policiais, os diretores dos jornais não levam a sério e oferecem apenas notinhas de rodapé, quando muito, pois a regra é a omissão, o que revela a existência de duas categorias de seres humanos, novamente na avaliação das empresas capitalistas.
Lembro quando dezenas de entidades e duas centenas de pessoas assinaram, em novembro passado, o manifesto contra as políticas de extermínio do governador Sérgio Cabral. O Globo deu a notícia no final do primeiro caderno, escondida entre os obituários, sem nenhuma chamada na capa. Se a cobertura jornalística desse conta da verdadeira dimensão do envolvimento de policiais com a criminalidade no Rio, talvez os índices de violência em nosso estado não fossem tão assustadoramente elevados.
Jamais desistirei da democratização da mídia
03.06.2008 | 08h47 |
Prezados amigos, bom dia. Hoje trago boas notícias a respeito do Fazendo Media. Nessas duas primeiras semanas de campanha para manter nossa sede, no centro do Rio de Janeiro, conseguimos arrecadar, entre assinaturas e doações, o suficiente para seguirmos firmes até pelo menos o final do ano - uma grande vitória para quem teria que entregar as chaves em dois meses. Durante este período será prioridade do grupo investir na consolidação deste projeto de jornalismo alternativo, cujo foco principal é a democratização dos meios de comunicação e, por extensão, a democratização do próprio país em que vivemos.
Além das assinaturas e doações, fechei um contrato de anúncio por um ano, que vai nos garantir mais alguns meses de manutenção do aluguel. Se tudo der certo, a partir da semana que vem já terei aqui o banner desse novo parceiro, que ficou sensibilizado com nossa situação e resolveu ajudar. Pedirei a gentileza de todos para clicarem e conhecerem o projeto que vai nos apoiar.
Aproveito para renovar o agradecimento a todos os meios de comunicação amigos que nos deram espaço, como Carta Maior, Caros Amigos e os blogs de Eduardo Guimarães, Mello e Pirata, além da página do MST. E abraçar, sobretudo, a todos os leitores que escreveram de diversos estados do país prestando sua solidariedade e deixando mensagens de incentivo, mesmo quando não podiam contribuir financeiramente.
Quero ressaltar o apoio muito especial do Rogério Goulart, que é nosso assinante desde que começamos a fazer assinaturas. Já se vão uns 4 anos. Talvez ele seja um de nossos leitores mais fiéis, pois nunca nos abandonou. E nesse momento de dificuldade por que passamos, Rogério soube compreender quando atrasamos a entrega do seu jornal e, mesmo assim, enviou-nos generosa doação. Pode ter certeza, meu amigo, que não iremos decepcioná-lo.
Ao iniciar esta campanha para manter a sede do Fazendo Media, pensamos num cronograma de curto, médio e longo prazo. Trata-se de um planejamento que precisa ser assumido por cada um que compõe o nosso jornal para podermos avançar em nossos objetivos. Assim, no curto prazo, ou seja, até o final do ano, nossa meta era arrecadar o suficiente para alcançar o fim do ano. Felizmente esta etapa já foi superada, com grande antecedência, o que nos alivia o sufoco e permite, inclusive, que trabalhemos melhor, sem o garrote no pescoço.
No médio prazo, nosso objetivo é conquistar uma arrecadação fixa de modo que consigamos, em 2009, manter o aluguel da sala e um jornalista trabalhando em meio período. Isto seria um enorme passo para o jornal, que nunca teve condições de remunerar ninguém. Uma pessoa destacada para esta função ampliaria consideravelmente o alcance da nossa mensagem, tanto pelas reportagens exclusivas a que se poderia dedicar quanto pela organização das tarefas administrativas, que consomem um tempo de trabalho considerável.
No longo prazo, ou seja, de 2010 em diante, a proposta é consolidar a estrutura e ampliá-la para dois jornalistas e um secretário - claro que sempre avaliando regularmente a conjuntura e avançando conforme as possibilidades. Para tanto, nós contamos com 3 fontes de arrecadação: assinaturas, doações e anúncios. Como somos um veículo marginal, à margem do sistema de comunicação dominante, nós contamos muito, mas muito, com a divulgação dos leitores. Aliás, em vocês reside nossa força. Não temos grana para anunciar o Fazendo Media em lugar nenhum e mal temos pernas para distribuir o impresso nas bancas, livrarias, escolas, universidades, cursos pré-vestibular, centros comerciais e culturais, etc. Além disso, as corporações de mídia jamais publicarão reportagem sobre nosso trabalho (compreensivelmente).
Portanto, amigos, recorro a todos vocês e peço que mantenham o esforço de divulgação do Fazendo Media. Se ainda não assinaram, façam uma assinatura. Se conhecem alguém que possa vir a anunciar por aqui, digam que a cada dia temos 2 mil visitantes únicos e 5 mil page/views, além, é claro, de ressaltar o apoio ao projeto político que defendemos. E se conhecem alguém que pode fazer uma doação de qualquer valor, informem o número de nossa conta na Caixa Econômica Federal.
De uma coisa vocês podem ter certeza. Eu, Marcelo Salles, jamais desistirei. Não há nada nesse mundo que me faça abandonar a luta pela democratização da mídia no Brasil, pois estou convencido de que o país só experimentará uma democracia plena quando os diversos setores da sociedade possuírem oportunidades iguais de expressão.
Apesar de já ter identificado os criminosos, Beltrame afirmou que ainda não tem provas para prendê-los. “Identificar é fácil, o difícil é constituir prova. O policial, quando encontrado à paisana numa comunidade e inquirido, sempre alega que está visitando familiares”.
A coletiva foi realizada no quarto andar do prédio da Secretaria de Segurança, na Central do Brasil. Estava marcada para 18h, mas começou às 18h30. Estendeu-se até as 19h02, incluindo explanação inicial do secretário (cerca de 10 minutos), as perguntas dos jornalistas + respostas (15 minutos) e o atendimento às TVs (breves 7 minutos). Havia cerca de 30 jornalistas, no total.
Na explanação inicial, Beltrame repetiu que o que aconteceu com a equipe do jornal O DIA é inaceitável e agride a liberdade de imprensa, que isso não será tolerado e que as investigações estão em curso. Ele enfatizou a importância do trabalho da imprensa, "olhos e ouvidos da sociedade" e disse que eles do governo necessitam do trabalho da imprensa, “do trabalho dos senhores”. “A imprensa teve, tem e terá um papel determinante para mudar a sociedade”. Em dado momento ele deixou escapar algo como “Se aqueles jornalistas realmente passaram por aquela situação”. Imediatamente eu e um colega perguntamos se havia alguma dúvida da SeSeg a respeito da veracidade da denúncia publicada no DIA. Ele respondeu que não, e ofereceu um exemplo: há uma “diferença entre a denúncia do roubo de uma moto até a conclusão do inquérito”. Ele disse ainda que não tem os exames de corpo de delito como prova e depois voltou a dizer que não duvida do que foi publicado e prova disso seria toda a mobilização que está sendo realizada em torno dela, inclusive esta coletiva.
Entre as perguntas, gostei da do Jaime, do JB Online, que quis saber em que medida os comandantes de batalhões podem ser responsabilizados pelo envolvimento de policiais nessas atividades ilícitas, as mal chamadas milícias (para saber porque digo mal chamadas, consultar dicionário e verificar os significados do termo “milícia” – na minha opinião ele atenua uma situação gravíssima, funcionando como eufemismo, conforme pode ser visto numa matéria publicada no Fazendo Media ainda em 2006, quando ninguém imaginava que jornalistas poderiam ser torturados por esses bandos armados. Na época as milícias eram abertamente defendidas por autoridades como o prefeito César Maia, que usava o termo “auto-defesa comunitária” como forma de legitimar o serviço sujo). Beltrame respondeu vagamente que eles podem ser responsabilizados na medida em que tomam conhecimento dessas atividades e não atuam para coibi-la; assim estariam prevaricando. E mais não disse.
Outro colega perguntou se aqueles e outros jornalistas do DIA correm risco de vida. Eu e um colega emendamos: “gostaria de estender a preocupação a todos os jornalistas, seja de que veículo for”. Beltrame foi taxativo: “Todos correm risco sim, após a publicação da matéria”.
O secretário alegou facilidade para identificar os policiais envolvidos com milícias, mas dificuldade em constituir provas. “Uma coisa é a denúncia, outra é sua comprovação”. Durante a entrevista Beltrame procurou valorizar seu trabalho: “Pegamos a secretaria com 120 favelas dominadas por milícias, hoje são menos de cem”.
Há cerca de um ano, o Secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, concedeu entrevista coletiva sobre o esquema de patrulhamento durante o Jogos Pan-Americanos. A imprensa inteira estava lá. Lembro que os coleguinhas perguntaram bastante sobre os corredores viários que seriam monitorados, a composição de cada equipe da PM, a estratégia geral e etc. Quando chegou minha vez, perguntei: "E o que o senhor está fazendo para combater as milícias?". Beltrame deu uma resposta rápida. Em linhas gerais, disse apenas que estavam investigando. O secretário recebeu uma ajuda providencial de um repórter do Globo, que parece ter notado seu incômodo ao tratar do assunto e logo tratou de alternar a pauta: "Agora o senhor pode voltar a falar do patrulhamento?". o que foi feito, naturalmente.
Existe outro aspecto que precisamos reafirmar: a forma como as corporações de mídia trabalham é uma das principais causas da violência nas grandes cidades. Posso provar isto de inúmeras maneiras, a começar pela brutal concentração que existe no setor, que viola o artigo 220 da Constituição Federal e, portanto, configura uma violência contra o povo brasileiro, que é mantido refém de uma meia dúzia de conglomerados midiáticos. Também poderia ir pelo lado da publicidade capitalista, que sem dúvida é uma das maiores fomentadoras da delinqüencia que existe por aí. Isso fica claro quando vemos um produto ser transformado em objeto de desejo a ponto de um jovem matar outro para se apossar de um tênis. Mas vamos ficar com o exemplo das mal chamadas milícias, que não são outra coisa que não o crime organizado operando a partir da polícia, órgão subordinado à Secretaria de Segurança Pública (SeSeg). Quem vive no Rio de Janeiro e/ou acompanha a imprensa carioca sabe que as mal chamadas milícias sempre foram tratadas como um mal menor. Este é exatamente o mesmo olhar da SeSeg. Para as corporações de mídia e a SeSeg, o grande mal, o diabo na Terra, sempre foram os traficantes varejistas (aqueles que recebem o rótulo de "bandido" e, no coletivo, "tráfico", como se o tráfico também não operasse fora das favelas).
Também é preciso sublinhar que a cobertura da mídia voltada para a criminalização da pobreza compromete a segurança dos repórteres. Se os jornais associam favela à violência, é evidente que os moradores das favelas não pensarão duas vezes em entregar o trabalhador da notícia. Matemática pura: "Se você me agride com sua notícia, vou revidar". O pior é que o sujeito não sabe que quem define o tipo de cobertura não é o repórter, que geralmente procura desempenhar um bom trabalho, mas os donos das empresas, que muitas vezes nem jornalistas são. Claro que há repórteres que topam fazer o jogo do capitalista, mas esses, coitados, são meros reprodutores de imbecilidades.
Quem vive no Rio de Janeiro ouve denúncias, muitas delas, de que a polícia defende o Terceiro Comando e ataca o Comando Vermelho. Foi o que aconteceu em Vigário Geral, onde um morador me disse que a polícia chegou a alugar, por R$ 50 mil, um caveirão para os adversários do Comando Vermelho. É o que está acontecendo no Leme, nos morros Chapéu Mangueira e Babilônia, apesar de o sentido das reportagens a esse respeito ser outro. Quem vive no Rio de Janeiro também sabe muito bem que as mal chamadas milícias ocupam até algumas cadeiras na Assembléia Legislativa. E na Câmara de Vereadores. É tudo tão evidente que no ano passado dois parlamentares (um do DEM e outro do PMDB) foram presos debaixo de acusações de formação de quadrilha, homicídio e daí pra baixo. Ora, até que um sujeito consiga ser eleito com voto de redutos milicianos é preciso algum tempo. Não se criam tais condições da noite para o dia. Há pelo menos 3 anos as mal chamadas milícias não são novidade no Rio, quando o jornal O Globo publicou matéria a respeito. Ora, será que a SeSeg ainda não teve tempo para desarticular os quadrilheiros? E o governador Sérgio Cabral (PMDB), será que não sabia?
Infelizmente, fica parecendo que as autoridades competentes não podem ou não querem combater o crime dentro da polícia. É daí que nascem políticos corruptos e narcodeputados, que movimentam junto ao mercado privado o esquema de compra e venda das drogas e das armas que serão utilizadas para torturar ou matar nas favelas e esquinas do Rio de Janeiro.