Por Marcelo Salles - salles@fazendomedia.com

A mídia de direita bate palma
28.02.2008 | 15h04 |

Até este momento o “Bilhete à esquerda”, publicado abaixo, já recebeu 34 comentários (embora o contador tenha falhado). Os primeiros ressaltavam a mensagem de fundo do texto, qual seja, a importância de a esquerda acordar para a luta pela democratização da mídia, pois só assim, mudando as instituições com maior poder de produzir subjetividades, teremos condições de mudar a estrutura que mantém o Brasil como um dos cinco países mais injustos do mundo, segundo estudo da ONU divulgado esta semana.

Do meio para o final, os comentários detiveram-se basicamente no filme que, a pretexto de contar uma história do ponto de vista de um policial, reforça o fascismo social que permeia nosso dia-a-dia e contribui para a manutenção da iniquidade que assola o país. Sobre estes comentários, gostaria de ressaltar dois pontos:

1) Analisando pelo ponto de vista de que se trata apenas de uma obra de arte, é preciso dizer que isto seria aceitável vivêssemos em tempos de elevação espiritual e pleno desenvolvimento humano;

2) À luz da realidade nua e crua que nos cerca, a coisa muda de figura. Já escrevi aqui alguns comentários a respeito, mas como o tema é atual, volto a ele. O diretor prefere ignorar os críticos e negar que seu filme legitima a tortura e o homicídio com um argumento pueril: “Tortura é crime. Vocês queriam o quê, que eu colocasse uma plaquinha explicando isso?”, perguntou num debate na PUC-Rio. Assim ele nega sua própria condição de cineasta, pois desconsidera a etapa de construção dos personagens, o jogo de luz, o ângulo em que posiciona as câmeras em cada cena e etc. Todas características essenciais para a transmissão da mensagem que pode, sim, justificar qualquer barbaridade. Basta lembrarmos dos filmes que exaltavam Hitler e, para não ir tão longe, da mídia brasileira que ficou toda animadinha com o genocídio cometido pelos EUA no Iraque.

Além disso, o diretor omite alguns pontos-chave do livro que originou o filme, como a ênfase no poder das corporações de mídia, o que pode ser verificado na página 51: "[o uso do BOPE é definido] pela política de propaganda do governo, que delega à mídia as decisões sobre nossas prioridades". Clique aqui para ler uma breve resenha sobre o livro Elite da Tropa. O resultado final dessa “seleção” é a despolitização da obra, já que temas fundamentais são simplesmente abandonados. Claro que é muito provável que tenha havido interferência dos produtores estrangeiros, que investiram R$ 5 milhões e são ligados a poderosos grupos internacionais de mídia.

Outro ponto-chave apresentado no livro é a preocupação dos autores com a corrupção dentro do BOPE. Isto foi radicalmente ignorado pelo diretor do filme, cuja mensagem ensina que existe uma polícia boa (a que mata e tortura) e outra ruim (a corrupta). Esta crítica foi feita pelo delegado de Polícia Civil Orlando Zaccone e por outros policiais. Não veio de intelectuais enfurnados em suas torres de marfim. São pessoas que vivem no seio da corporação, sabem que o mundo não é feito de preto e branco e apontam. Prova de que o diretor optou por ignorar uma realidade foram as denúncias públicas sobre a corrupção dentro do BOPE. O advogado João Tancredo, presidente do Instituto dos Defensores de Direitos Humanos, foi até a favela do Fumacê ouvir alguns moradores. Segundo seu relato, cinco pessoas ligadas ao tráfico varejista de drogas foram executadas a sangue frio porque não conseguiram arrecadar os R$ 2 mil exigidos pela tropa.

Pra quem ainda acha que o que vale é a arte pela arte, é preciso ressaltar que as recentes mudanças na polícia foram desencadeadas logo após o filme. É como se o filme tivesse sido usado para formatar corações e mentes. E foram mudanças no sentido de endurecer ainda mais a política do governo Sérgio Cabral, que com um comandante considerado próximo aos direitos humanos à frente, matou 1.260 pessoas no ano passado. Sendo que esses são dados parciais (sem a totalidade das delegacias), mas mesmo assim suficientemente elevados para colocar a polícia do Rio entre as que mais matam no mundo. E a mídia de direita, claro, bate palma.

CPI da Dívida: Chinaglia decidirá
26.02.2008 | 14h18 |

Acabo de conversar por telefone com o deputado federal Ivan Valente (PSOL-SP). É ele quem está puxando a CPI da Dívida Pública na Câmara dos Deputados. Acontece o seguinte: o requerimento foi protocolado na sexta-feira (22/2), como eu já havia divulgado aqui. A outra mídia está caladinha, finge que não acontece nada. Ivan explicou que há três CPIs em funcionamento na Casa e que a da Dívida é a terceira da fila, sendo que podem funcionar até cinco comissões simultaneamente. O parlamentar disse também que agora haverá uma fase de conferência das assinaturas e, depois disso, tudo vai depender de pressão. Pressão deles lá em Brasília e da gente nos milhares de municípios e estados do país. Mais do que nunca temos a obrigação de telefonar e escrever para nossos representantes e exigir que eles assinem e/ou mantenham as assinaturas. E mais: que eles cobrem diretamente do presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), a instalação imediata desta Comissão Parlamentar de Inquérito, que terá como objetivo investigar os contratos assumidos por diversos governos, identificar aqueles que são fajutos e encaminhar o resultado para o Ministério Público. Este, de acordo com o artigo 26 da Constituição, deverá brigar na Justiça para anular os contratos que foram fraudados. O Brasil perde mais de R$ 200 bilhões por ano apenas com o pagamento dos serviços dessa dívida, sem abater um tostão do montante total - que só o faz crescer. Enquanto isso, ficamos sem um atendimento médico público de qualidade, a educação está cada vez pior, além dos inúmeros problemas de habitação, transportes, energia e etc.

Flamengo 2 x 1 Botafogo
26.02.2008 | 14h17 |

Em 1997, fiquei desencantado com o futebol. O Flamengo vendeu Sávio, que dava repetidas alegrias a sua torcida. Eu tinha 16 anos, vidrado em futebol, não lia outra coisa num jornal além das páginas de esporte. Sávio estava no auge de sua carreira; era sinônimo de oportunidade de gol, de lances cinematográficos, de dribles desconcertantes. Como esquecer as duas faltas seguidas cometidas por Ricardo Rocha, que provocaram sua expulsão em apenas 5 minutos de jogo? Era derrubar o Sávio ou buscar a bola no fundo da rede. Agora, 11 anos depois, voltei a me encantar com o futebol. Mas não o futebol da seleção vendida, muito menos dos clubes cujos cartolas só pensam em dinheiro. Voltei a torcer por causa da torcida do Flamengo que, sinceramente, emociona qualquer ser humano minimamente sensível. Por isso publiquei ontem uma croniquinha a respeito, que já motivou 10 comentários (alguns bastante calorosos). Leia aqui na íntegra e veja abaixo um trecho:

"Não deve ser nada fácil enfrentar uma multidão como essa. Uma multidão que agita bandeiras do Zico e outros ídolos do clube, mas também agita a imagem de Che Guevara, o mapa do Brasil e a bandeira do 26 de Julio, com fundo vermelho e negro a emoldurar a data em que foi tomado o Quartel de Moncada, em Cuba, ponto chave da Revolução. Uma multidão que exibe uma faixa de luto pela menina Ágata, morta aos 11 anos, “covardemente assassinada” de acordo com seus dizeres. Nenhuma dessas bandeiras e cartazes são vistos na mídia da direita, que hoje controla os meios de comunicação de massa no Brasil."

CPI da Dívida: PSOL consegue assinaturas
25.02.2008 | 18h51 |

O PSOL conseguiu protocolar o requerimento para criar a CPI da Dívida Pública. Foram recolhidas 182 assinaturas, 11 a mais que o necessário. Trata-se de um momento histórico. Se for pra frente, a CPI poderá cumprir o que determina o artigo 26 da Constituição e até mesmo anular os contratos em que forem detectadas fraudes. É a lei brasileira, que tem que ser respeitada. Não adianta a colunista vendida depois pedir o respeito aos contratos, porque o contrato maior, a Constituição, é quem foi primeiro desrespeitada. O Brasil perde mais de R$ 200 bilhões a cada ano com o pagamento só dos serviços dessa dívida, sem abater um tostão do montante total - que só o faz crescer. Enquanto isso, ficamos sem um atendimento médico público de qualidade, a educação está cada vez pior, além dos inúmeros problemas de habitação, transportes, energia e etc. Segue abaixo a notícia publicada pela Agência Câmara:

O deputado Ivan Valente (Psol-SP) protocolou na sexta-feira (22/2) requerimento para criar uma comissão parlamentar de inquérito (CPI) para investigar a dívida pública brasileira. “Há 20 anos, não há um pedido de investigação sobre o que aconteceu, quando a dívida era de apenas R$ 100 bilhões. Hoje, ela é de R$ 1,333 trilhão, e consome 38% do Orçamento da República”, argumenta o parlamentar. “Desse montante, a dívida pública mobiliária federal interna é de R$ 1,224 trilhão e a dívida externa é R$ 108,9 bilhões”, explica.

Segundo o deputado, de janeiro de 2003 (início do primeiro mandato do governo Lula) até agora, o Brasil destinou mais de R$ 851 bilhões para pagar juros nominais da dívida pública (interna e externa). “É como se cada um dos 186 milhões de brasileiros tivesse gasto, nesse período, R$ 4.570 com o pagamento da dívida.”

Ivan Valente lembra que, durante a gestão de Fernando Henrique Cardoso, o pagamento de juros e o esforço fiscal para viabilizá-lo foram condicionados à Lei de Responsabilidade Fiscal.

Com isso, acrescenta, estados e municípios passaram a dar prioridade para o pagamento de juros da dívida interna em detrimento de gastos sociais. “Essa escolha é o maior crime que se perpetra contra a população excluída, e quem ganha são os bancos e a especulação financeira”, denuncia.

A dívida pública e a sangria de recursos públicos destinados ao pagamento de juros foram muitas vezes postos em debate, avaliou Valente, “mas ainda não mereceram o tratamento adequado por parte do Congresso Nacional”. Segundo ele, uma CPI é o instrumento mais adequado e eficaz para investigar o assunto e suas conseqüências para o desenvolvimento do País. O deputado informou que coletou 182 assinaturas para a criação da CPI, são necessárias 171 adesões para criar a comissão.

Será que a mídia vai divulgar?
25.02.2008 | 18h23 |

Acabo de receber da Polícia Federal fotos e um arquivo explicando o funcionamento de uma quadrilha de lavagem de dinheiro que operava a partir dos EUA e do Brasil. Ao todo foram presas 17 pessoas (15 em SP e 2 em Miami) e apreendido cerca de R$ 1 milhão em dinheiro (entre dólares, reais e euros), além de computadores, 17 veículos e 17 armas. Como o emeio vem aberto, deu pra ver que a mídia inteira recebeu a informação. Vamos ver que veículos vão divulgar - e como. Segue abaixo um trecho do relatório:

A investigação, no que tange o mapeamento da rota do capital oriundo do crime praticado pela organização criminosa, detectou, no Brasil, dois grupos distintos que internalizam o dinheiro fruto da atividade ilícita e o integralizam na economia formal brasileira de diversas formas, principalmente no mercado imobiliário. A quadrilha se valia de alta tecnologia, forjando sites de falsas empresas de fusões e aquisições, agências reguladoras americanas e asiáticas e diversos contratos e documentos para ludibriar estrangeiros possuidores de ações com baixa liquidez. Acredita-se que a organização tenha auferido lucros acima de 50 milhões de dólares. Os crimes previstos em lei são estelionato, evasão de divisas, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha e soneagação fiscal. Os acusados podem ser condenados até 33 anos de prisão.

Nenhum desses crimes será suficiente para que as corporações de mídia identifiquem seus acusados com o termo "bandido", como geralmente fazem em relação a quem mora na favela. Interessante também é notar que é o mercado imobiliário quem se encarregava de lavar o dinheiro sujo. Não é à toa que em São Paulo e nas principais capitais brasileiras esse é um mercado em franca expansão.

Cabral aprofunda política de extermínio
23.02.2008 | 14h08 |

O governo Cabral demitiu ontem à noite a presidente do Instituto de Segurança Pública (ISP), a antropóloga Ana Paula Miranda. Em seu lugar foi nomeado o tenente-coronel Mário Sérgio Duarte. Em nota, o secretário de Segurança Pública José Mariano Beltrame afirmou que a substituição foi uma “adequação gerencial”. Entretanto, a mudança pode ter ocorrido devido à divulgação dos números do ISP, sobretudo os autos de resistência – que colocam a polícia do Rio como a que mais mata no mundo (1.260 óbitos em 2007, número ainda parcial sem a totalização de todas as delegacias)”. Conversei com um funcionário da Secretaria, que pediu anonimato e revelou. “O Beltrame sempre pedia pra gente não divulgar os números”. Não posso publicar o nome dessa fonte porque não fui autorizado a fazê-lo, mas posso garantir ao leitor que se trata de pessoa séria e que sempre me ajudou quando precisei recorrer a esta instituição, que é pública.

Na nota, Beltrame fala muito em manter a transparência da polícia. Diz também que não foi nada pessoal contra a Ana Paula. Sua negação indica o oposto. Ninguém perguntou nada, é uma nota oficial. Ele publicaria o que quisesse, mas escolheu dizer “não” para duas questões essenciais que, num caso real de adequação gerencial, não precisariam ser abordadas. Nada mais revelador.

A mudança promovida ontem no ISP tem origem na reestruturação geral que vem sendo promovida no aparato policial do Rio de Janeiro, que vai no sentido de aprofundar a política de extermínio. No dia 30 de janeiro foi demitido o comandante-geral da PM, coronel Ubiratan Ângelo. Que do meu ponto de vista não fez uma boa administração, visto que a polícia matou ainda mais que no ano anterior, além de a corrupção dentro da corporação, aparentemente, não ter sido abalada. Só que em seu lugar entrou o coronel Gilson Pitta, anteriormente chefe do Serviço Reservado. E o comandante do 16o Batalhão, coronel Marcus Jardim, foi promovido a comandante do 1o Comando de Policiamento de Área (responsável por treze batalhões na capital). Os dois são da chamada linha-dura.

Lembro que nesse 30 de janeiro telefonei para o ISP, preocupado. Imaginei que Ana Paula seria demitida, mas fui informado que isso não iria acontecer porque o ISP é ligado à Secretaria e as mudanças na PM não o afetariam. Infelizmente, 22 dias depois os fatos me deram razão.

O leitor deste blog está acostumado a ler de vez em quando os números do ISP. A análise, mês após mês, vinha comprovando a ineficiência da política de enfrentamento do governo Cabral. Os números de mortes causadas por policiais cresciam enquanto os roubos e furtos também aumentavam; ao mesmo tempo, o número de apreensão de armas e drogas caía. Basta olhar para esse dado e comprovar matar bandido favelado não diminui a criminalidade. Isso numa análise crua, que pode ser feita por qualquer um independente de sua ideologia ou vínculo político. Indo além, posso dizer que trata-se de uma estratégia burra, que expõe desnecessariamente a vida do policial e a do cidadão comum. Perde a vida, ganham as empresas privadas que vendem armas, munições e drogas.

PS: Não sei o que acontece com o contador de comentários. Hoje a nota abaixo tinha 12 comentários, mas ainda estava marcando 0.

Bilhete à esquerda
21.02.2008 | 00h01 |

Lá está o diretor com sua touca laranja a comemorar o prêmio. Lá está o ator principal a dizer que o prêmio cala a boca dos críticos. Lá está a atriz a beijar o troféu, conquistado em cima do sangue daqueles que tombam pelas mãos das tropas das elites.

Lá estão os principais responsáveis pela obra que deixou extasiados os comandantes das tropas das elites mundo afora. Lá está o deputado que tenta elevar o símbolo da morte à patrimônio cultural.

Lá estão as corporações de mídia a aplaudir o enredo macabro, seja nas páginas policiais ou segundos cadernos, internacional, economia ou política.

E onde estão os aliados da vida? Quando vão começar a articular uma rede de comunicação suficientemente grande para construir um novo discurso e, assim, enfrentar a barbárie? A esses dirijo esta breve mensagem. Caso ela os alcance, por gentileza respondam: que avanços conseguimos na luta pela vida nas últimas décadas? A vida tem sido mais respeitada hoje? E os milhões de seres humanos que são vitimados pelo sistema neoliberal? E os 14 milhões de brasileiros que passam fome, segundo o IBGE, num país rico e repleto de terras férteis? Não amigos, não estamos avançando. E estou convencido de que o inimigo se impõe justamente porque não dispomos dos meios de comunicação de massa que eles possuem.

Vocês, defensores dos direitos humanos, que estão nessa luta há mais tempo que eu, expliquem: como é que a direita pode estar no poder desde que eu me entendo por gente? Como, se é a direita quem mantém essa situação de exploração; se é ela quem sucateia os serviços públicos de qualidade; se é ela quem entrega a saúde, a educação, a própria vida dos seres humanos à cobiça das empresas privadas? Vocês podem me explicar como isso é possível? Sim, a direita tem dinheiro. E dinheiro compra belos slogans e propagandas publicitárias, cabos eleitorais e panfletos. Mas será que o dinheiro também não compra mídia?

Pra quem acha que estou falando de matéria paga, permita-me elevar o debate. Embora as reportagens encomendadas existam – e aos píncaros – a esquerda precisa atentar para algo maior: o sentido político da mensagem transmitida. Como as empresas que oligopolizam a mídia no Brasil defendem os interesses da direita, a subjetividade veiculada estará a serviço desses interesses. Em outras palavras, o que chegará à população são estímulos a formas conservadoras/reacionárias de agir, pensar e sentir. De modo que a esquerda não pode se limitar à crítica do consumismo irrefletido; ela terá que buscar suas causas. Também a esquerda não poderá restringir-se à crítica das políticas fascistas de segurança pública; é sua obrigação denunciar os veículos de comunicação que sustentam este discurso. E assim por diante.

(continua)

STJ julga a Globo
20.02.2008 | 17h07 |

A notícia abaixo foi publicada na página do Superior Tribunal de Justiça. Na época da negociação, Roméro Machado e a Tribuna da Imprensa denunciaram que a Globo havia utilizado documentos falsificados para a aquisição da emissora de São Paulo. Mas o assunto foi enterrado. Agora a Justiça traz o assunto de volta à pauta. Claro que as corporações de mídia devem omitir, mas trata-se de um assunto que pode ter muitos desdobramentos. Leia a íntegra aqui.

Será examinado pela Quarta Turma do Superior Tribunal de Justiça o recurso especial contra o espólio do empresário Roberto Marinho no qual a família Ortiz Monteiro protesta contra a decisão do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro que julgou prescrita a ação por meio da qual a família pretende retomar o controle acionário da TV Globo de São Paulo (ex-Rádio e Televisão Paulista S/A). O ministro João Otávio de Noronha deu provimento ao agravo de instrumento interposto pela defesa, determinando a subida do recurso especial.

Na ação declaratória de inexistência de ato jurídico interposta pela representante do espólio de um dos fundadores, Regina Marietta Junqueira Ortiz Monteiro, a defesa alega que a transferência do controle acionário para o empresário Roberto Marinho foi realizada por meio de documentos considerados enganosos pelos herdeiros dos antigos controladores da então Rádio e Televisão Paulista S/A. Afirma, ainda, que a transferência foi obtida por US$ 35 dólares, conforme constaria de recibo com o valor equivalente è época.

Ameaça velada
20.02.2008 | 09h58 |

Durante a sessão de ontem em que foi votada a MP da TV Pública, o presidente da Câmara Arlindo Chinaglia disse, por volta das 21h: “Hoje um jornalista procurou meu assessor de imprensa e queria uma entrevista sobre os gastos da Câmara. Não há nenhuma outra instância do poder público que seja tão transparente quanto a Câmara. Como eu, assim como outros líderes de partido, disse que não iria dar a entrevista para não servir como suporte para uma matéria como essa, o jornalista virou-se para meu assessor e disse: ‘Se ele não responder pode acabar virando o personagem principal da reportagem’. Como a ineficácia da ameaça é óbvia, eu prefiro dizer que não entendi. Mas faço questão de relatar este fato a meus pares”. Chinaglia não disse o nome do jornalista e nem para que veículo de comunicação trabalha.

Telespectador, mãos ao alto!
18.02.2008 | 18h47 |

Chega a ser constrangedora a forma como o Jornal da Globo apresentou ao telespectador a empresa estadunidense Halliburton: “Uma empresa que presta serviços no mundo inteiro”. E ponto. Só que a Halliburton não é apenas isso. Alguns pontos omitidos ou divulgados apenas em notas de rodapé:

1) Trata-se da maior corporação do mundo no ramo de prestação de serviço para companhias de petróleo, presente em mais de 100 países;

2) Apenas a título de “reconstrução” do Iraque, a Halliburton recebeu US$ 10 bilhões em contratos do governo dos EUA;

3) Durante muito tempo o vice-presidente dos EUA, Dick Cheney, foi acionista da empresa.

Ou seja, a Halliburton tem tudo para ser um braço do serviço de inteligência dos EUA. Atua com desenvoltura em países invadidos e lucra com a tortura, o seqüestro e os assassinatos perpetrados pelo governo Bush. Os fatos permitem esta suposição, e certamente a mídia alternativa – nacional e internacional – vai investigar.

Além disso, é preciso deixar claro que as informações roubadas sobre o mega-campo de Tupi não representam a primeira vez em que a Petrobrás teve informações sigilosas roubadas. Fernando Fortes, engenheiro aposentado da empresa, afirmou que durante o governo FHC o prédio da Av. Chile, no Rio de Janeiro, foi escancarado para executivos estrangeiros. Era possível entrar ali e acessar dados estratégicos da Petrobrás, muitos deles utilizados nos leilões que viriam a ser promovidos pela ANP, agência criada pelo governo neoliberal para entregar nosso petróleo e gás para empresas estrangeiras.

As corporações de mídia começam a ventilar a hipótese de este roubo ter sido forjado pela direção da Petrobrás para legitimar a retirada de algumas áreas do próximo leilão, mas até que as fontes sejam apresentadas a informação carece de credibilidade. Pode ser coisa de testas-de-ferro preocupados com a capacidade de mobilização do povo brasileiro que, organizado, conseguiu barrar a oitava rodada de licitações, em 2006.

De todo modo, o governo não deve poupar esforços para investigar e punir os responsáveis. Todos os envolvidos devem ser ouvidos. E até que se chegue a uma conclusão, todos os contratos com a Halliburton deveriam ser imediatamente suspensos, já que as informações foram transportadas num container de sua responsabilidade. É o mínimo que se espera de um governo que preza pela soberania nacional.

Notícias transgênicas e subservientes
18.02.2008 | 11h56 |

Dois eventos ocorridos na semana passada nos são bastante úteis para analisar os meios de comunicação de massa e seus critérios jornalísticos. O primeiro é o embargo da carne brasileira pela União Européia, que exige maior controle de qualidade da carne exportada aos países que compõem o bloco. E o segundo foi a liberação, pelo governo Lula, do plantio e comercialização de duas variedades de milho transgênico; um produzido pela Monsanto e outro pela Bayer.

No caso da carne, a mídia brasileira oscilou entre os interesses dos fazendeiros e a subserviência explícita aos países da UE. Posição complicada, e nem sempre sustentável. Mas o que salta aos olhos é a absoluta falta de respeito com os próprios brasileiros, que a julgar pela cobertura das corporações de mídia podem consumir carne de baixa qualidade sem mais problemas.

No caso do milho, a marca da cobertura foi a omissão de informações fundamentais para a compreensão da questão. Não foi divulgado pelos veículos corporativos que a União Européia havia proibido essas duas variedades transgênicas. Também não disseram que as multinacionais não apresentaram estudos satisfatórios que comprovassem que o consumo deste alimento é seguro. Não reportaram a ameaça à segurança alimentar que representa o controle de uma semente utilizada na base da alimentação de um país e muito menos divulgam que multinacionais desse porte estão envolvidas em crimes contra o meio-ambiente e até assassinatos contra camponeses (lembremos do caso de Keno, assassinado por gente paga pela Syngenta e da Aracruz Celulose, que agrediu povos indígenas e quilombolas no Espírito Santo).

Pelos fatos acima expostos, reafirmo: o cidadão bem informado não acredita no que essas empresas de mídia divulgam. Até porque o cidadão só poderá ser bem informado se procurar fontes alternativas de informação. E aí, de duas uma (ou duas): ele vai ter acesso a uma informação completamente diferente da que foi divulgada pelas corporações ou ele vai ler notas como esta, que revelam os interesses por trás da notícia.

Uma notícia boa e outra ruim
13.02.2008 | 18h18 |

A boa é que a Telesul acaba de anunciar que vai dar início às transmissões em português. Num primeiro momento, o noticiário terá apenas 25 minutos e será veiculado de segunda a sexta, às 20h, pela TV Educativa do Paraná. Quem mora no estado pode captar pelo sinal aberto; já os forasteiros podem sintonizar pelo canal 25 da parabólica ou então via telesurtv.net. A equipe inicial terá apenas sete jornalistas, brasileiros em sua maioria, todos sediados em Caracas. Torço muito para que a empreitada dê certo, até porque fui um dos jornalistas convidados para compor a primeira equipe. Infelizmente não foi possível aceitar o convite do diretor da rede aqui no Brasil, Beto Almeida, por motivos pessoais. Mas quem sabe numa outra ocasião.

A notícia ruim é que a CNTBio aprovou ontem por 7 x 4 a liberação do milho transgênico, uma solicitação das multinacionais Monsanto e Bayer. Votaram contra os ministérios do Desenvolvimento Agrário, Meio Ambiente, Saúde e a Secretaria de Pesca. Posicionaram-se a favor os ministérios da Agricultura, Desenvolvimento, Relações Exteriores, Ciência e Tecnologia, Defesa, Justiça e Casa Civil. As corporações de mídia, coitadas, não dão o verdadeiro tom da tragédia. Amordaçadas que estão, seja pelos anúncios fartos ou pela afinidade ideológica, escondem os danos à saúde provocados por essas substâncias, não publicam que países europeus proibiram essas mesmas variedades de milho (Liberty Link e MON 810) ou que as multinacionais não apresentaram estudos sérios sobre a toxidade e a alergenicidade.

Essa CPI a mídia não vê
13.02.2008 | 01h46 |

Você leu, viu ou ouviu em algum veículo das corporações de mídia sobre a CPI da Dívida Pública? Não, não estou falando daquela CPI da Câmara dos Vereadores de São Paulo que investigou Maluf em 2001. Falo da iniciativa do deputado federal Ivan Valente (PSOL-SP), que começou a recolher as assinaturas no Congresso Nacional nesta segunda-feira, dia 11 de fevereiro de 2008.

Enquanto essa mídia se esbalda com a fortuna de 8 reais gasta numa tapioca e paga com o tal cartão corporativo, que dá nome ao escândalo da vez, passam despercebidos os trocados que o país perde com os serviços da dívida; só durante o governo Lula foram destinados R$ 851 bilhões para o pagamento de juros. Durante o governo FHC foi ainda pior, pois sua equipe econômica garantiu para o país que a privatização do patrimônio público serviria para liquidar essa dívida. Nossas empresas foram vendidas e a dívida só fez aumentar. O PSDB ainda não explicou onde foram parar os R$ 70 bilhões arrecadados com os leilões que entregaram as riquezas nacionais.

“Enquanto isso, as políticas sociais foram abandonadas. O país gasta apenas 4% do PIB com educação e a saúde pública está sucateada. Esta escolha é o maior crime que se perpetra contra a população excluída, e quem ganha são os bancos e a especulação financeira. Cinicamente, coloca-se para a opinião pública que a única opção é pagar religiosamente os juros da dívida pública, enquanto outros países encontraram alternativas a este modelo”, declarou Ivan Valente à página da Liderança do PSOL.

Além disso, é preciso lembrar que o artigo 26 da Constituição Federal determina o seguinte: “No prazo de um ano a contar da promulgação da Constituição, o Congresso Nacional promoverá, através de Comissão mista, exame analítico e pericial dos atos e fatos geradores do endividamento externo brasileiro. § 1º - A Comissão terá a força legal de Comissão parlamentar de inquérito para os fins de requisição e convocação, e atuará com o auxílio do Tribunal de Contas da União. § 2º - Apurada irregularidade, o Congresso Nacional proporá ao Poder Executivo a declaração de nulidade do ato e encaminhará o processo ao Ministério Público Federal, que formalizará, no prazo de sessenta dias, a ação cabível”.

A lei maior brasileira, só nesse ponto, vem sendo descumprida há 20 anos. Será uma grande vergonha para o Congresso Nacional caso não seja conseguido o número suficiente de assinaturas para instalar a CPI. O já desgastado parlamento ainda tem chance de mostrar a que veio. Por outro lado, a ausência desta informação nos noticiários revela mais uma vez as intenções das corporações de mídia.

Genocídio fora de foco
13.02.2008 | 01h42 |

Acabamos de publicar excelente reportagem de Gustavo Barreto. Ele mostra a relação entre o genocídio no Congo negligenciado pela mídia e a exploração das riquezas desse país por corporações multinacionais, que alimentam a violência e ficam com os lucros. Segue um trecho: "Relatório do International Rescue Committee aponta a situação na República Democrática do Congo como a “pior crise humanitária desde a Segunda Guerra Mundial”, com 5,4 milhões de vítimas desde 1998. Conflito é provocado pela espoliação dos recursos naturais por parte de corporações multinacionais e instituições multilaterais. Enquanto exploração de minérios rende lucros privados estratosféricos, 80% da população sobrevive com 30 centavos de dólares ou menos por dia". Leia a íntegra aqui.

Pão-de-Açúcar fora da validade
11.02.2008 | 13h54 |

E pra quem diz que só criticamos, aí vai o reconhecimento do trabalho da Polícia Civil. A nota que segue abaixo bateu no meu correio eletrônico às 12h40 de hoje e foi enviada pelo próprio delegado titular da 13ª DP (Ipanema). Parece coincidência, mas havia acabado de publicar um comentário sobre o artigo do Fausto Wolff de ontem, em que ele cita justamente o exemplo de produtos sendo vendidos fora do prazo de validade em supermercados da zona sul carioca. Vamos observar como se comportam as corporações de mídia que, assim como eu, receberam a informação da assessoria de imprensa da Polícia Civil; divulgarão o nome do supermercado? E que tal a polícia ir além e bater na porta dos donos da empresa que estava vendendo comida estragada? Aliás, seria bom dar uma conferida na validade dos produtos comercializados pelas outras redes (Carrefour e Wall Mart) que monopolizam o setor.

Em trabalho de inteligência e investigação, Policiais Civis da 13ª DP – Ipanema, sob o comando do Delegado Titular, Dr. André Drumond, em operação denominada “COPACABANA SEGURA”, prenderam hoje em flagrante PAULO ALVES DE FREITAS, 38 anos, como incurso no artigo 7º, IX, da Lei nº 8.137/90 (crime contra as relações de consumo).

A prisão ocorreu na Rede de Supermercados PÃO DE AÇUCAR, na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, 1162, Copacabana, por volta de 17:00. PAULO é o gerente da loja – supermercado PÃO DE AÇUCAR – e no interior do mercado foram encontradas inúmeras mercadorias com prazo de validade vencido, produtos com aspectos de impróprios para consumo e produtos sem data de validade, dentre elas carnes bovinas, carnes de frango, vários tipos de queijos, camarão descascado.

Segundo o gerente PAULO, ao ser perguntado sobre a explicação para os produtos frango rica e camarão costa sul, ambos com prazo de validade vencido, estarem juntos na câmara frigorífica junto com os demais produtos próprios para consumo, esclareceu que devido à câmara frigorífica não ter divisão, ficam juntos os produtos próprios e impróprios para consumo. Acrescentou que houve falha nos setores de frios, de laticínios e no setor de açougue, pelo menos.

A vigilância sanitária e a perícia do ICCE foram chamadas para o local para as demais medidas legais.

A fiança arbitrada foi no valor de R$ 7.600,00 (sete mil e seiscentos reais) e foi paga após a lavratura do flagrante.

Difícil acreditar no PT
11.02.2008 | 01h59 |

O PT divulgou neste sábado (9/2) que fará uma Conferência Nacional de Comunicação no final de abril. Segundo informa sua página eletrônica, "o PT deve discutir os processos de comunicação interna e com a sociedade, as estratégias para as eleições deste ano e os temas relativos à democratização das comunicações no país". Infelizmente fica difícil acreditar que o encontro se constituirá num passo importante para a democratização da mídia no país. Isso porque o mesmo PT retirou de sua página o excelente Programa Setorial de Comunicação e Democracia do Governo, que publiquei e elogiei aqui neste espaço assim que ele foi divulgado (na época da campanha de reeleição do Lula). Agora, ninguém sabe onde foi parar o texto. Já escrevi para o diretório do partido, mas não tive resposta. A impressão que eu tenho é que a direção do PT usa os melhores quadros da área para formular e implementar políticas públicas de democratização dos meios de comunicação exatamente nos momentos em que as corporações de mídia batem muito no partido. Aí, depois que a coisa alivia (sabe-se lá Deus como), a turma é recolhida.

Contra as corporações
11.02.2008 | 01h27 |

"O neoliberalismo é cruel e imoral, pois pede que o homem abdique do caráter pelo dinheiro" (Fausto Wolff, Jornal do Brasil, 10/02/08).

No artigo, Fausto cita o exemplo de uma fabricante de patês que produz demais e joga o excedente nos supermercados com a validade quase vencida. Os supermercados fazem uma promoção, mas não conseguem vender tudo. Para não perder dinheiro, eles escondem a data de validade, subornam o fiscal e jogam o produto vencido na casa do consumidor final. Lembrei do filme "O informante", com Al Pacino e Russel Crowe. O primeiro interpreta Lowell Bergman, produtor do 60 Minutes que atualmente trabalha como professor da Universidade de Berkeley, para onde uma amiga novaiorquina tenta há um ano me mandar para fazer mestrado (não fui ainda porque não estou afim de correr o risco de ser submetido a "interrogatórios" num aeroporto estadunidense). Já Crowe faz o papel de um pesquisador da área de tabaco. Num diálogo entre os dois, este conta entusiasmado o episódio de quando um medicamento estava sendo vendido irregularmente. O diretor da empresa simplesmente retirou o lote inteiro que estava com problema, sem nem esperar pela notificação do governo, garantindo assim a preservação da saúde dos consumidores.

Antes os capitalistas de hoje fossem como esse diretor. Hoje em dia, com o aprofundamento da concentração do capital em poucas mãos - principalmente no setor financeiro e especulativo, em detrimento do produtivo - e sobretudo em países sem um Estado forte que possa fazer frente a esse tipo de crime corporativo, o cidadão está bastante desprotegido. A única lei respeitada pelos ladrões engravatados é a do lucro rápido e fácil; pouco importa se estão distribuindo leite com soda cáustica. O que importa é o valor das ações na Bolsa. Por isso, é muito importante que movimentos sociais, entidades representativas da sociedade e partidos de esquerda entendam que a luta de hoje não se dá contra o Estado, e sim pelo Estado, embora este possa estar ocupado por testas-de-ferro desses grupos mafiosos. A grande luta é contra as corporações privadas, que lotearam o Estado e controlam a máquina pública em benefício próprio.

Recomendo o filme A Corporação (http://www.thecorporation.com) sobre este mesmo assunto. E a respeito dos cartões corporativos e desse baluarte da moralidade pública chamada mídia grande, recomendo o último artigo do jornalista Luiz Carlos Azenha, que mostra que o ex-presidente FHC já custou aos cofres públicos 5.539 tapiocas. Isso depois de aposentado.

Sobre critério e credibilidade
10.02.2008 | 14h45 |

Segundo cálculo realizado pelo Dieese, com base no valor da cesta básica paulistana de dezembro último, o salário mínimo deveria corresponder a R$ 1.803,11 para suprir as despesas básicas de um trabalhador e sua família, dentro do que diz a Constituição. O valor é quase cinco vezes maior que os atuais R$ 380,00. Mas, para a mídia das grandes empresas, é muito mais importante bater boca sobre o cartão corporativo.

O artigo 153 da Constituição Federal determina a cobrança de impostos sobre grandes fortunas; o artigo 54 proíbe que parlamentares controlem veículos de comunicação; o artigo 220 veda monopólio ou oligopólio nos meios de comunicação social. O descumprimento contínuo desses trechos da nossa lei maior, entretanto, não parece ser um fato jornalístico digno de ser publicado. O legal agora é falar sobre o cartão corporativo, que representa menos de 1% dos gastos do poder executivo, mas ganhou quase a metade das páginas (8 em 18) do primeiro caderno do Globo desta sexta-feira (8/2). O jornalão carioca mantém o assunto em manchete a quase uma semana, sendo que a partir desse domingo até a editoria de arte entrou na jogada ao construir uma vinheta específica para o "escândalos dos cartões corporativos".

A ausência de uma lei bem definida sobre a remessa de lucros para o exterior sangra o país em bilhões de dólares todos os anos. Apenas 1% dos proprietários detém 48% das terras agricultáveis do Brasil, um monopólio que gera perdas gigantescas para a nação. Mas as corporações de mídia consideram a tapioca comprada com o cartão do governo um escândalo maior.

É por isso que o cidadão bem informado não leva mais essa mídia a sério. Não é por causa de um governo ou de outro, de um partido ou de outro, de uma ideologia ou de outra. É simplesmente porque isso que fazem não pode mais ser chamado de jornalismo.

O machão na Sapucaí
07.02.2008 | 02h14 |

Não faz muito tempo que a revista Veja disse que o Secretário de Segurança Pública do RJ, José Mariano Beltrame, foi ovacionado durante um show da Marisa Monte, numa casa de luxo carioca. Não duvido. Já ouvi no Leblon elogios do tipo: “Sim, ele é um cara durão. Ele sim vai dar jeito na bandidagem”. Pois é. Como informou a jornalista Ana Ramalho, em sua coluna do Jornal do Brasil, o machão do Cabral esteve no mesmo camarote da Sapucaí onde foram consumidas substâncias ilícitas por artistas bacanas, mas saiu de lá sem ver nada. As corporações de mídia não viram ali um fato jornalístico que pudesse ocupar as primeiras páginas, muito embora a filosofia do capitão Nascimento esteja impregnada até nas paredes do prédio da Central do Brasil. Só que no filme ele não se mistura com viciado e nem com vagabundo, de acordo com um dos “aspiras”.

Um crime contra a saúde pública
07.02.2008 | 02h14 |

A jornalista Conceição Lemes trabalha há 25 anos com reportagens sobre saúde. Já venceu 22 prêmios. É quase um por ano. A pedido do colega Luiz Carlos Azenha, ela redigiu uma reportagem sobre o tratamento irresponsável das corporações de mídia a respeito da febre amarela. "Fim de dezembro de 2007. Surge o primeiro caso suspeito de febre amarela deste verão. Rapidamente, o assunto domina o noticiário. A mídia, por conta própria, decreta: a febre amarela voltou. O auge foi conclamar a população a se vacinar em massa. "Um verdadeiro crime contra a saúde pública brasileira", condena o médico epidemiologista Euclides Castilho, professor titular do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP". Leia a íntegra aqui.

Fé cega
07.02.2008 | 02h14 |

Com ar de surpresa os apresentadores do Jornal do SBT de ontem informaram que o Exército dos EUA “descobriu” (as aspas são minhas) uma fita de vídeo com um treinamento da Al-Qaeda para crianças e adolescentes. Vai ver um soldado tropeçou na fita enquanto fazia a patrulha. Claro está que ninguém procurou confirmar a autenticidade das imagens – fartamente exibidas, naturalmente depois de compradas de uma agência vinculado à Casa Branca -, ainda que a este governo dos EUA não reste vestígio de credibilidade. É incrível a fé cega que a mídia corporativa brasileira deposita no regime Bush.

4 anos fazendo mídia!
07.02.2008 | 02h14 |

Esta versão eletrônica do Fazendo Media completou 4 anos mês passado. Publicamos aqui um resumo de nossas atividades no período.

A culpa é da chuva
04.02.2008 | 16h14 |

Para as corporações de mídia a grande responsável pelas 9 mortes em Itaipava (RJ) é a chuva. Pelo que informam não fica claro que todo mundo que levou uma gota na cabeça morreu. Segundo nos ensinam, as condições precárias em que viviam aquelas pessoas, que morreram soterradas, nada tem a ver com o descaso político e muito menos com o sistema capitalista, que garante a moradia para uns e deixa outros abandonados. É mais fácil pôr a culpa na chuva, que não tem assessoria de imprensa e nem verba para publicidade.

Piratas e Imperadores
04.02.2008 | 14h59 |

"A intromissão de uma exigência muita específica, na licitação para as obras de quase R$ 1 bilhão no PAC das favelas cariocas -como publicou o repórter Italo Nogueira na Folha-, é para lá de suspeita. Reproduz, com pequena diferença, a licitação que exigia a "comprovação técnica" de que o concorrente já instalara ao menos 20 mil metros quadrados de piso interno de granito. Quem sabe instalar 10 metros, sabe instalar 20 mil ou mais. Mas a empreiteira Andrade Gutierrez era a única com a dimensão de 20 mil comprovável, que foi o piso do aeroporto mineiro de Confins". (Jânio de Freitas, Folha de S. Paulo, 01/02/08).

Como assinalou Noam Chomsky, há piratas e imperadores (título de um de seus livros). Pirata é o sujeito que comete pequenos delitos; é execrado em público, preso ou mesmo assassinado. Entretanto, quando os crimes são de grande monta, a mídia das grandes corporações omite ou relativiza. Vamos observar a repercussão dessa notícia (divulgada por um jornalão) no restante da mídia impressa e nos veículos de comunicação de massa (rádio e tv).

Governo opaco
04.02.2008 | 00h22 |

O trecho abaixo foi publicado pelo coronel da PM Paulo Ricardo Paúl, em seu blog. O oficial foi exonerado na semana passada do comando da corregedoria interna da corporação. Leia a íntegra aqui.

Os factóides midiáticos – o jogo para a platéia – devem ser combatidos com rigor e os responsáveis pelo mau uso das verbas públicas devem ser responsabilizados, tendo em vista que no Brasil crianças ainda morrem de fome todos os dias e famílias vivem embaixo de marquises.

No Rio de Janeiro, se anunciou a compra de um helicóptero blindado para a Polícia Civil, que possui como missão precípua a investigação criminal. Pergunta-se qual a utilidade desse helicóptero nas investigações criminais?

A grande questão que deve ser levada é quanto custa ao Governo do Estado do Rio de Janeiro a Secretaria de Segurança Pública?

Essa pergunta deve ser feita por todos nós – os patrocinadores desse estado – e a mídia deve ser o interlocutor.

Ilmo. Sr. Governador quanto custa a Secretaria de Segurança Pública aos cofres públicos? Por favor, informe a todos nós.

Revele o custo em uma entrevista coletiva.

Os recursos humanos desviados de outros órgãos, principalmente da Polícia Militar, da Polícia Civil e da Polícia Federal?

Na Polícia Militar eles estão fazendo uma falta enorme.

As excelentes gratificações?

As viaturas?

Os equipamentos?

Por exemplo, quanto se gasta em telefonia celular na Secretaria de Segurança Pública?

520 canais iguais
04.02.2008 | 00h13 |

A atendente da tv a cabo informa que são mais de 200 canais à minha disposição, com tudo o que eu posso imaginar: filmes, desenhos, seriados, documentários, noticiários e etc. Verifico que no indicador da televisão os canais vão de 01 a 520. Perco um bom tempo, mas faço questão de sintonizar um por um. E concluo que todos eles transmitem a mesma coisa, se é que você me entende.

Jornal Imperial
02.02.2008 | 21h36 |

"Recriando a realidade à sua maneira e de acordo com os seus interesses político-partidários, os órgãos de comunicação aprisionam os seus leitores nesse círculo de ferro da realidade irreal, e sobre ele exercem todo o seu poder" (Perseu Abramo, em 1988, em texto publicado no livro Padrões de manipulação na grande imprensa - Editora Fundação Perseu Abramo).

Era terça-feira, dia 29 de janeiro. O Jornal Nacional veiculou três reportagens consecutivas: 1) "Crise nos EUA", com o viés estritamente econômico, como isso pode se alastra no mundo e etc., sem questionar o modo de produção capitalista em nenhum momento; 2) "Como é ruim viver em Cuba". Imagens de pessoas tentando chegar de barco aos EUA e depoimento dos 'sortudos' que conseguiram dizendo coisas do tipo (sem exagero): "Cuba é um inferno, aqui (EUA) é a terra da liberdade"; 3) "Assalto a banco na Venezuela". Sim, sim. Isso mesmo. Um assalto a banco na Venezuela virou notícia no JN, que é onde o Bonner diz transmitir em 30 minutos o que de mais importante aconteceu no Brasil e no mundo. E se fosse no Nepal?

De Fidel para Lula
02.02.2008 | 20h59 |

"O Brasil, comento-lhe, é por outro lado o maior exportador de café do mundo. Ao Brasil pagam por este produto a mesma quantidade que custava uma tonelada no ano 1959: por volta de US$2.500 atuais. Nesse país uma xícara de café custava antes 10 centavos, hoje US$5 ou mais uma xícara olorosa de café expresso, um estilo italiano de fazê-lo. Isso é PIB nos Estados Unidos". O trecho faz parte do terceiro artigo de Fidel sobre a recente visita de Lula a Cuba. Leia a íntegra aqui.

Pré-conceitos forjados
02.02.2008 | 01h11 |

Negra, 47 anos, nascida em São Fidélis, interior do estado do RJ, onde passou sua infância e juventude. Depois vai morar numa pequena comunidade em São Gonçalo. Trabalhou a vida toda em Niterói, como empregada doméstica. Esta semana, após trabalhar no Rio de Janeiro pela primeira vez, declarou: "Esperava ver um povo assustado nas ruas, mas até que achei tranquilo". Esperava por quê? "Ué, toda hora dá no jornal que tem tiro, confusão, tráfico. Pensei que fosse assim o tempo todo".

Quem escreve a História?
01.02.2008 | 19h47 |

Mais uma ilustração do genial Carlos Latuff, que me honra com sua amizade e defende os trabalhadores de todo o mundo como poucos artistas o fazem. Original no Mídia Independente.

Uma cobertura comovente
01.02.2008 | 16h59 |

Tanto fizeram que conseguiram: caiu a ministra Matilde Ribeiro, da Secretaria de Igualdade Racial. Segundo a mídia puritana, o motivo foi o uso indevido do cartão corporativo, que causou o enorme prejuízo de R$ 171 mil aos cofres públicos durante todo o de 2007. Um dos almoços da ministra, inclusive, custou a pequena fortuna de R$ 43,23. Matilde assumiu que errou ao utilizar o cartão para pagar despesas pessoais, o que talvez conforte bons corações como o de Ali Kamel. Mas não é isso que me intriga. O que realmente me chamou a atenção foi o espírito público das corporações de mídia. É nesses momentos que a gente deve estufar o peito e se orgulhar do trabalho jornalístico dos meios de comunicação de massa que temos. De um zelo exemplar, quase maternal. Um primor! Escândalos como o desvio de R$ 5 milhões do combate à dengue para outros fins, ocorrido na prefeitura do Rio, ou o sumiço de bilhões de reais durante o processo de privatização demo-tucano são café pequeno. Não merecem cobertura, tampouco derrubam ministros de Estado.


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Leituras indicadas:

> Programa Setorial de Comunicação e Democracia do Governo.

> "É preciso incentivar a mídia alternativa", entrevista com Ciro Gomes.

> Abaixo-assinado frustrado da TV Globo.

> TV Globo, o delegado e outros assuntos capitais.

> Um espectro ronda a democracia.

> O direito de criticar a imprensa.

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> Subcomandante Marcos fala sobre a democratização da mídia


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