
Por Marcelo Salles - salles@fazendomedia.com

Teorias da conspiração
31.10.2007 | 01h59 |
Glauco/FSP

Deve ser apenas uma dessas coincidências da vida. No dia 24 último, o governador do RJ, Sérgio Cabral, afirmou que as favelas são fábricas de produzir marginal. Dois dias depois, o Globo escreveu em texto editorial: "as camadas pobres da população converteram-se numa fábrica de reposição de mão-de-obra para o exército da criminalidade". Novamente um par de dias depois, 28 de outubro, tem início a série de reportagens, no mesmo jornalão, sobre as "mulheres no tráfico". Mas é óbvio que isso tudo não passa de uma teoria da conspiração de minha parte.
Assim como deve ser teoria da conspiração os fatos apresentados por Maurício Campos, membro da Rede Contra a Violência, em entrevista publicada no jornal A Nova Democracia. Maurício, que acaba de escrever excelente artigo, simplesmente lembrou que o mesmo governador, dias antes da Chacina do Alemão, declarou diante da principal assessora de Condoleezza Rice que o Complexo do Alemão é lugar de gente do mal.
Ainda navegando pela teoria da conspiração (que é sempre de esquerda, já percebeu?), cito o livro Planeta Favela, de Mike Davis, que "traz a história da expansão das metrópoles do Terceiro Mundo, analisando os paralelos entre as políticas econômicas e urbanas defendidas pelo FMI e pelo Banco Mundial e suas conseqüências desastrosas nas gecekondus de Istambul (Turquia), nas desakotas de Accra (Gana) ou nos barrios de Caracas (Venezuela), alguns dos nomes locais para as aproximadamente 200 mil favelas existentes no planeta".
Por último, mas não menos conspirativo, vale lembrar a recente invasão ao Haiti, protagonizada por nosso Exército, que topou fazer o jogo sub-imperialista e massacrar a população haitiana. À época, não faltou quem dissesse com clareza: "Estamos treinando para intervir nas favelas do Brasil". Conforme noticia do insuspeito Portal G1, das Organizações Globo, a Swatt, tropa de elite estadunidense, chega ao Brasil em novembro. Fazer o quê não se imagina... Aliás, imagino sim: deve ser só pra atiçar os lunáticos que vivem criando teorias da conspiração.
Mentiras sobre o tráfico
29.10.2007 | 01h59 |
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Cecília Coimbra não foi caluniada - sem direito de resposta - por um ex-policial e por um jornalão carioca à toa. Essa gente fica tremendamente incomodada com sua capacidade de análise, sempre dirigida contra a mesma injustiça social que alimenta seus detratores. Cecília sabe muito bem que a mídia, hoje, é uma das principais instituições de controle a serviço do poder. Sabe que a mídia é capaz de produzir modos de agir, pensar, sentir e viver. Sabe que a mídia não apenas reproduz, com isenção, a realidade que nos cerca. É muito mais que isso. A mídia produz realidade, seja via novelas, filmes, telejornais, desenhos animados, o que seja. E por isso lembrei de Cecília ao ver esta imagem publicada na capa de ontem do Extra e nas páginas internas de O Globo. Lembrei de Cecília e do delegado de Polícia Civil Orlando Zaccone.
"Hoje, a grande maioria dos presos no tráfico de drogas é formada pelos chamados “aviões”, “esticas”, “mulas”, verdadeiros “sacoleiros” das drogas, detidos com uma “carga” de substância proibida, através da qual visam obter lucros insignificantes em relação à totalidade do negócio. Estes “acionistas do nada”, na expressão de Nils Christie, são presos, na sua imensa maioria, sem portar sequer um revólver", registrou o delegado em seu livro "Acionistas do nada - quem são os traficantes de drogas". Zaccone, além de realizar uma extensa pesquisa, fala por experiência própria. Qual é o problema dessa imagem, que acompanha as reportagens lançadas ontem pela dupla Extra-Globo para promover o livro de MV Bill e Celso Athayde (Falcão, mulheres no tráfico)? O problema é que ela constrói a idéia, respaldada pelos textos, de que a maioria das mulheres envolvidas com o tráfico varejista portam armas e desenvolvem atividades violentas.
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Lembrei do delegado Zaccone porque no início desse ano ele havia me concedido uma entrevista para a Caros Amigos e, em dado momento, ele falou que apenas uma ínfima parcela das mulheres envolvidas com o tráfico portam armas. Novamente recorro a seu livro, no trecho em que cita a dissertação de mestrado de Patrícia Maria Dusek, intitulada A criminalização por drogas numa perspectiva de gênero. Em pesquisa de campo realizada no Complexo Penitenciário Frei Caneca, com base no relato de mulheres condenadas no tráfico de drogas, ela constatou: "100% das prisões apontam para a participação secundária das mesmas no tráfico de entorpecentes. Vale salientar, que algumas eram transportadoras, outras embaladoras ou vendedoras, mas nenhuma participava de qualquer atividade que necessitasse de violência". O que pretendem os jornalões ao falsearem tão grotescamente a realidade?
O delegado Orlando Zaccone declarou ao Fazendo Media: "Essas pesquisas, como o livro 'Falcão, mulheres no tráfico', prestam um desserviço à população favelada do Rio de Janeiro porque reforçam um estereótipo do relacionamento do tráfico com atividade violenta. A esmagadora maioria das mulheres envolvidas são 'mulas', que transportam a droga de um lado para o outro da cidade. Se você rodar todas as favelas do Rio de Janeiro, não junta um time de futebol".
A vontade de criminalizar a pobreza é tão grande que até as mulheres que vendem comida para os bandidos da favela entram na contabilidade. Engraçado... Será que os garçons do Senado ou de corporações como Enron, Xerox e WorldCom também podem ser considerados bandidos se levam um prato de comida a parlamentares e executivos corruptos?
Orlando Zaccone tem razão. Essa distorção da realidade promovida pelas corporações de mídia presta um desserviço à população: com o debate manipulado, fica difícil encontrar soluções para o problema. Leva vantagem quem lucra com ele.
"Declaração preconceituosa e fascista"
29.10.2007 | 01h44 |
Diversas organizações da sociedade civil, parlamentares e artistas estão organizando um ato político-cultural para denunciar e repudiar não apenas a declaração do governador do Rio de Janeiro ("favelas são fábricas de produzir marginal"), mas a política excludente que vem sendo implementada por Sérgio Cabral e seus assessores. Na ocasião será divulgado um documento de repúdio a este governo e à mídia que o sustenta. Segue abaixo o pronunciamento do deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL), na última quarta-feira dia 24, bastante afinado com a proposta dos manifestantes:
Para meu espanto o governador defendeu corajosamente a legalização do aborto como forma de redução da violência. Comparar taxas de natalidade da zona sul a países nórdicos e da periferia a países miseráveis da África é impressionante. É impressionante a irresponsabilidade dessa declaração. Sequer um estudante iniciante de violência jamais associaria pobreza à produção de violência. Declaração preconceituosa e fascista, de dar inveja aos governos da Itália na década de 20 e da Alemanha na década de 30.
Gostaria de ver o governador defendendo a legalização do aborto, mas por entender que essa é uma escolha que cabe à mulher. Por entender que aquelas que têm dinheiro fazem aborto seguro em uma clínica clandestina, enquanto as mulheres pobres correm risco de vida e muitas vezes morrem. Gostaria de ver o governador defendendo a legalização do aborto por uma questão de saúde pública, por uma questão da escolha da mulher.
Essas declarações só reforçam a lógica desta política de Estado, de criminalização da pobreza, que joga suas forças de repressão nas periferias, que ressalta a idéia de guerra nas favelas e definitivamente não combate crime. Por que o crime não está na favela. Não só na favela. Ai do governador o dia em que a população da favela não descer. Vai ser pior que essa chuva de hoje. A cidade pára. Nada vai funcionar, essa Casa não vai funcionar.
De que lado estamos?
26.10.2007 | 16h47 |
O Analfabeto Político
O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais.
(Bertolt Brecht)
Por Adriana Facina (*)
Rodrigo Pimentel, co-autor do roteiro do filme Tropa de Elite, veio a público se contrapor não somente à iniciativa do Grupo Tortura Nunca Mais de denunciar a apologia à tortura presente na obra, mas a qualquer crítica ao filme. Nas suas palavras: “Existe uma preocupação excessiva de rotular o filme. Ele não é de esquerda nem de direita, não tem ideologia. É uma obra de arte, entretenimento. Obra de arte não se rotula." Curiosa idéia num mundo profundamente dividido por abismos sociais, no qual a suposta neutralidade só pode ser entendida como indiferença, o que necessariamente significa estar do lado dos opressores. Curiosa também a semelhança com a argumentação da grande cineasta nazista Leni Riefenstahl, que pôs seu imenso talento a serviço da propaganda racista dos nazis, mas que afirmou durante sua vida ter feito “apenas” arte. O que a fala de Pimentel exprime não é a defesa da livre expressão de idéias, mas sim a censura a qualquer forma de crítica.
O que Cecília Coimbra e o grupo que coordena apontam é para a responsabilidade de Tropa de Elite na naturalização da tortura e do desrespeito aos direitos humanos. São vários os países com regimes democráticos bem mais avançados que o nosso que possuem sistemas de controle do que é veiculado pela indústria cultural. Mesmo no Brasil temos legislação que impede veiculação de idéias racistas e de propaganda nazista. Hoje são muitos os grupos de extrema direita, inclusive filofascistas, que defendem, em nome da liberdade de expressão, que sejam liberados para publicação materiais com tais conteúdos. Afinal, eles são apenas uma versão da história, não é mesmo?
A irresponsabilidade dos realizadores do filme é ainda maior se pensarmos o contexto em que essa suposta obra de arte foi concebida e divulgada. Há uma forte disputa ideológica hoje na sociedade brasileira que gira em torno do diagnóstico das causas da violência e das formas de combatê-la. Se no período de fim da ditadura predominava uma perspectiva de denúncia da tortura e parecia clara a necessidade de impedir a repetição do regime de arbitrariedades cometidas pelo Estado, hoje, após anos de barbárie neoliberal e das tensões sociais derivadas do desemprego estrutural, essas idéias são relativizadas em nome da necessidade de manter a ordem, apesar da desordem econômica e social que condena milhões à despossessão.
O filme, portanto, tem um lado. Se isso era ou não intenção dos autores é problema a ser resolvido nas suas sessões de análise ou terapia. Quantas comunidades de defesa direitos humanos e denúncias das ações do BOPE o filme gerou no orkut? Qual foi o espaço que a mídia (Veja, Época, O Globo, TV Globo etc) destinou aos que não concordam com a atual política de insegurança do estado do Rio de Janeiro? Quantas passeatas e movimentos antitortura e abuso policial os entusiastas do filme organizaram desde sua estréia? O que se viu foi a desfaçatez da cobertura do extermínio na favela da Coréia, bem como do nosso (?) desgovernador abrindo a boca da ignorância para dizer que favela é fábrica de marginais. Tenho a impressão que, em outros tempos, essa gente teria agido com mais cautela.
Isso só serve pra nos mostrar o quanto a luta do Grupo Tortura Nunca Mais está mais viva do que nunca. Cecília Coimbra é parte fundamental dessa luta. Sua trajetória sempre teve um lado, o da defesa dos oprimidos, que nada mais é do que a defesa da vida humana. Para isso é imprescindível a denúncia cotidiana dos abusos estatais, oficiais ou não, que, para fazer calar os sonhos de um mundo mais justo e humano e defender a ordem do capital, não hesitam em infligir dor e desespero. Se esses abusos buscam legitimação na voz tosca dos políticos fascistóides como Sergio Cabral e Beltrame ou assumem a forma mais sofisticada, mas também mais eficaz, da “obra de arte” não importa. A tarefa da crítica, que tanto incomoda a Padilha, Pimentel e seus seguidores, é mostrar seu lado, que não é o nosso.
(*) Adriana Facina é professora do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense e Coordenadora do Curso Realidade Brasileira, uma parceria da UFF com o MST.
Uma imagem, por Ratão Diniz
24.10.2007 | 18h41 |

Depois dizem que não é fascismo
24.10.2007 | 17h47 |
O deputado federal Chico Alencar (PSOL-RJ) criticou duramente as declarações do governador do Rio Sérgio Cabral ao Portal G1. Para o governador, o alto índice de natalidade nos espaços populares é "uma fábrica de produzir marginal". De Brasília, Chico respondeu: “O governador não foi eleito para dizer essas sandices. Ao afirmar que crescimento da população pobre é "fábrica de marginal", o governador Cabral aproxima-se, perigosamente, do pensamento nazi-fascista e racista, eivado de eugenia. Opor "padrão Suécia" x "padrão Zâmbia" é eurocentrismo neocolonialista. Por fim, defender aborto como meio de controle da natalidade dos pobres, por serem estes potenciais criminosos, é justificar políticas de extermínio, inclusive na segurança pública. Além de ofensa às mulheres da Rocinha e de todas as comunidades pobres. Direito à saúde é direito à informação sobre contraceptivos, é direito ao planejamento familiar consciente, é direito à assistência pré-natal, é direito à maternidade, à creche, à educação infantil... a tudo o que os moradores do Leblon e da Suécia têm, e outros não - mas não pelo "crime" de terem nascido!. Portanto, isto é inaceitável! Nem só de dilúvio se afoga o meu Rio de Janeiro", concluiu o líder do PSOL na Câmara, numa referência à chuva torrencial que atinge o estado.
Segue abaixo a matéria do G1:
Cabral defende aborto contra violência no Rio de Janeiro
O governador Sérgio Cabral Filho (PMDB), 44 anos, propõe a legalização do aborto como forma de conter a violência no Rio de Janeiro.
Em entrevista ao G1 na última segunda (22), ele se valeu das teses dos autores de "Freakonomics", livro dos norte-americanos Steven Levitt e Stephen J. Dubner, que estabelece relação entre a legalização do aborto e a redução da violência nos EUA.
"Tem tudo a ver com violência. Você pega o número de filhos por mãe na Lagoa Rodrigo de Freitas, Tijuca, Méier e Copacabana, é padrão sueco. Agora, pega na Rocinha. É padrão Zâmbia, Gabão. Isso é uma fábrica de produzir marginal", declarou.
Para o governador, os confrontos com criminosos nas favelas do Rio só vão terminar "quando a ordem pública puder chegar através de várias maneiras, dentre elas com o policial podendo andar fardado em qualquer lugar".
"Enquanto isso não for realidade, continuará havendo confronto. Isso gera morte", declarou Cabral, na 16ª entrevista da série com governadores no G1.
Perguntas inconvenientes
24.10.2007 | 16h51 |
Segue abaixo emeio do leitor Osvaldo Cunha:
Prezado Marcelo,
Quem fará e quando será feito um filme sobre a participação do presidente da Colômbia no tráfico de cocaína? Quem fará e quando será feito um filme sobre a cúpula que controla o narcotráfico no Brasil e no mundo? (Não falo de Beira-Mar, Abadia ou Escobar). Todas as empresas sonegam Imposto de Renda e contribuem para caixa 2 em eleições. O consumidor, ao comprar qualquer produto oferecido por elas, está incentivando o crime?
O óbvio que espanta
24.10.2007 | 15h49 |
Não entendi o espanto das corporações de mídia com a frase do secretário de segurança José Mariano Beltrame. Fizeram um escândalo só porque ele disse o óbvio: "Um tiro em Copacabana não é a mesma coisa que um tiro na Coréia, no Alemão". O tiro pode até ser a mesma coisa pra quem é atingido. Aliás, nem para isso. Porque alguém atingido em Copacabana terá acesso a hospitais mais facilmente do que alguém atingido no Alemão. A questão é que os tiros acontecem com maior freqüência nos espaços populares do que na Zona Sul, por uma opção política de quem comanda as forças de segurança, mas as corporações de mídia se encarregam de disseminar, por igual, o medo entre todos. Numa recente edição de CartaCapital (10 de outubro de 2007), um pesquisador afirmou: "A visibilidade da violência tem atingido níveis altíssimos. Os veículos, que também precisam de público, fazem um determinado recorte da realidade. E os escândalos e a violência vendem. A taxa de homicídios de Copacabana é a mesma da Suíça, mas parece que em Copacabana você vive ameaçado", disse Michel Misse, do Núcleo de Estudos da Cidadania, Conflito e Violência Urbana, ligado à UFRJ.
De modo que não é casual o uso intensivo do jargão "Guerra do Rio", como traz O Globo em sua primeira página de hoje. Ao sustentar essa falácia, o jornalão afirma que existe um grupo armado que deseja tomar o poder do Estado, omitindo assim que a criminalidade maior encontra-se justamente dentro do aparelho estatal. Por isso é importante construir a idéia de que o inimigo mora na favela, é ameaçador e pode agir a qualquer instante. Difícil é entrar lá e ver de perto como funciona o tráfico varejista de drogas. Porque aí ficaria claro que aqueles bandidos favelados não passam de mão-de-obra barata dessa grande empresa capitalista chamada Narcotráfico, cujos sócios majoritários são ricos, não moram nos espaços populares e operam seus negócios em Wall Street. O vapor barato não vai assaltar em Copa se garantir o movimento na boca. Bandido é bandido, mas não é burro.
Nota pública do Grupo Tortura Nunca Mais
24.10.2007 | 12h58 |
Segue abaixo a íntegra da nota divulgada pelo Grupo Tortura Nunca Mais. O documento mostra desde a particição dos EUA no treinamento de civis e militares "no uso de técnicas brutais, humilhantes e degradantes contra os chamados inimigos internos". E afirma: "Esse mesmo modelo tem servido de exemplo para o treinamento de militares das forças armadas e de diferentes 'tropas de elite' como, por exemplo, o BOPE". A nota do Tortura Nunca Mais considera que algumas cenas de Tropa de Elite justificam a violência. "Tais cenas têm provocado na população em geral a visão de que não há outra saída: somente a tortura e o extermínio podem combater a barbárie. Esquecem que ao fazê-lo, equiparam-se, tornam-se tão bárbaros como aqueles que combatem. E pior, por serem representantes do Estado institucionalizam tais práticas". Sobre a ação da polícia na Favela da Coréia, no último dia 17, a nota registra: "assistimos estupefatos e indignados (...) as cenas de perseguição, aniquilamento e “justiçamento” de dois supostos criminosos, pardos e jovens. Cenas que mais se assemelhavam à continuidade do filme Tropa de Elite".
O Grupo Tortura Nunca Mais afirma que vai entrar "com outras entidades de direitos humanos junto ao Ministério Público com uma representação para apurar a responsabilidade sobre a política de segurança pública militarizada implementada pelo governo de nosso estado que vem apostando no confronto e na eliminação". Segue a íntegra da nota:
Contra a Banalização da Tortura: pela afirmação da Vida
“No Brasil, a difusão do medo, do caos e da desordem tem sempre servido para detonar estratégias de neutralização e disciplinamento planejado do povo brasileiro. Sociedades rigidamente hierarquizadas precisam do cerimonial da morte como espetáculo de lei e ordem. O medo é a porta de entrada para políticas genocidas de controle social”
(Vera Malaguti Batista)
Em 17 de outubro último, o Grupo Tortura Nunca Mais/RJ reuniu em sua sede militantes e vários intelectuais convidados para debater, em seu espaço mensal de cine-clube, o filme Tropa de Elite.
Nossa preocupação prende-se não somente aos efeitos que o filme vem provocando na sociedade brasileira, em especial entre a sua juventude, mas principalmente ao surgimento e funcionamento desta tropa dentro da Policia Militar do Rio de Janeiro, ainda no período de ditadura militar.
Segundo informações de O Globo (21/10/07), o BOPE originou-se, em janeiro de 1978, do NUCOE (Núcleo de Companhia de Operações Especiais) que tinha como símbolo um crânio com um punhal encravado de cima para baixo e duas pistolas. É importante lembrar que, na época, o chamado Esquadrão da Morte, grupo paramilitar que fazia justiça com as próprias mãos, tinha como símbolo uma caveira com duas tíbias entrelaçadas. Um de seus fundadores do NUCOE, hoje Coronel reformado da PM Paulo César Amêndola, foi também um dos idealizadores e o primeiro Superintendente da Guarda Municipal, criada em 1993, pelo então prefeito do Rio de Janeiro, César Maia. É bom lembrar que o citado coronel enquanto Coordenador da Guarda Municipal, militarizou-a, colocando-a para desempenhar funções que fugiam aos seus preceitos legais. Ou seja, foi durante o seu comando que a Guarda Municipal especializou-se em reprimir trabalhadores e movimentos sociais em nossa cidade.
Mais uma vez cabe lembrar que o nome de Amêndola aparece em duas listas do Projeto Brasil Nunca Mais, pesquisa coordenada pela Arquidiocese de São Paulo que microfilmou todos os processos que se encontram no Superior Tribunal Militar, no período de 1964 a 1978; trata-se, portanto, de documentação oficial que não pode ser rotulada de facciosa. Na primeira destas listas “Elementos envolvidos em diligências e investigações”, à pagina 113, do Tomo II, volume 3, “Os Funcionários”, seu nome é denunciado, em dezembro de 1970, como Capitão da Policia Militar do Rio de Janeiro e aparece no Processo n° 1599, da 2ª Auditoria da Aeronáutica, da 1ª RM/CJM.
Na segunda lista, a de “Membros dos Órgãos da Repressão” nos mesmos tomo e volume, também em dezembro de 1970, seu nome aparece no mesmo processo citado acima.
Além dessas informações que provam a estreita ligação de Amêndola com a repressão instituída pela ditadura militar, o GTNM/RJ, em 1993, quando apresentou o “Dossiê Paulo César Amêndola de Souza” teve informações do então deputado estadual Carlos Minc de que, quando esteve preso no Rio de Janeiro, no inicio de 1970, sabia do envolvimento deste coronel PM com a repressão.
Como o filme “Tropa de Elite” enfatiza, os treinamentos militares têm desempenhado uma importante função: a desumanização da tropa. Tal processo vem sendo utilizado, há décadas, na formação de “tropas de elite” no continente latino-americano. Em especial, a partir dos anos de 1950, com a criação da Escola das Américas que, funcionando nos Estados Unidos, treinava civis e militares de diversos governos ditatoriais no uso de técnicas brutais, humilhantes e degradantes contra os chamados inimigos internos. Esse mesmo modelo tem servido de exemplo para o treinamento de militares das forças armadas e de diferentes “tropas de elite” como, por exemplo, o BOPE. Que tipo de militar e/ou policial e que política de segurança pública podemos esperar de pessoas e corporações que são formadas dessa maneira?
Um aspecto a ser levantado sobre o filme “Tropa de Elite” é que a realidade apresentada mostra como hoje se banaliza e se justifica a tortura, o extermínio e a execução sumária como práticas normais e naturais na polícia e indispensáveis ao bom funcionamento da sociedade. Ou seja, como estas práticas, em alguns momentos, tornam-se necessárias tendo em vista fins “justos”. Tais cenas têm provocado na população em geral a visão de que não há outra saída: somente a tortura e o extermínio podem combater a barbárie. Esquecem que ao fazê-lo, equiparam-se, tornam-se tão bárbaros como aqueles que combatem. E pior, por serem representantes do Estado institucionalizam tais práticas.
Em alguns momentos, parece-nos que o fio condutor do filme prende-se à concepção de que estamos em guerra. Neste contexto, é necessária a utilização de medidas que ferem profundamente a vida, banalizando-a e tornando-a descartável.
Neste mesmo processo de desumanização dos agentes de (in)segurança pública de nosso estado, assistimos estupefatos e indignados - ao vivo e à cores – em 17 de outubro último, na favela da Coréia, em Senador Camará, as cenas de perseguição, aniquilamento e “justiçamento” de dois supostos criminosos, pardos e jovens. Cenas que mais se assemelhavam à continuidade do filme Tropa de Elite.
Diante disso, estamos entrando com outras entidades de direitos humanos junto ao Ministério Público com uma representação para apurar a responsabilidade sobre a política de segurança pública militarizada implementada pelo governo de nosso estado que vem apostando no confronto e na eliminação.
Da mesma forma, estamos lançando uma Campanha Nacional Contra a Banalização da Tortura. Em um abaixo assinado virtual, solicitamos que as pessoas além de assinarem, reproduzam o texto abaixo, divulgando-o o mais amplamente possível:
“Sou incondicionalmente contra a tortura. Para mim, não existe nenhum fato, nenhuma situação, não existe nada que justifique o uso da tortura”.
Pela Vida, Pela Paz, Tortura Nunca Mais!
Rio de Janeiro, 23 de outubro de 2007.
Grupo Tortura Nunca Mais/RJ
"Neoliberalismo incomoda mendigo"
24.10.2007 | 12h10 |
"Mendigos incomodam turistas". Esse foi o título que encontrei num jornalão da vida, perdido entre outras chamadas. Seu lugar na página não era de destaque, mas a opção do editor por este pequeno destaque revela a posição ideológica dos homens que dominam a comunicação no Brasil. Posição ideológica sim, é bom afirmar, sobretudo nesse momento em que alguns vêm a público dizer que suas "obras de arte" não possuem ideologia. A chamada do jornal revela também que a preocupação é com o turista, não com aquele brasileiro subalternizado que ali se encontra em condição de pedinte. Este virou um incômodo não apenas para o turista e para o jornalão, mas para todo o sistema neoliberal que produz a miséria que nos faz o segundo país mais desigual do mundo. Difícil pensar numa chamada como "Neoliberalismo incomoda turista" ou, radicalizando: "Neoliberalismo incomoda mendigo".
Rio de Cara Nova
22.10.2007 | 06h40 |
Acho muito difícil mudar a estrutura desigual do Brasil apenas pela disputa institucional. Creio, isto sim, na força dos movimentos sociais organizados. Para tanto, é indispensável a existência de parlamentares e demais funcionários da administração pública com sensibilidade social para levantar as bandeiras do povo no marco da institucionalidade.
Hoje à tarde, a partir das 18h30, o Partido Socialismo e Liberdade realiza um ato público na Lapa intitulado "Rio de Cara Nova". Heloisa Helena e Chico Alencar querem ouvir do povo carioca propostas alternativas para esta cidade tão desigual, dominada há quase duas décadas pelo governo elitista de César Maia - o homem que privatizou o Carnaval, que expulsa e ameaça quem é pobre e mora em áreas cobiçadas pela especulação imobiliária.
A atividade conta com a participação do cantor Lucio Sanfelippo e especialistas em questões urbanas e será entremeado por músicas e poemas a respeito do Rio. O endereço é: Associação Cristã de Moços, que fica na Rua da Lapa 86, 6º andar.
80% das balas perdidas atingem homens
21.10.2007 | 19h04 |
É fundamental a leitura da última pesquisa divulgada pelo Instituto de Segurança Pública do Rio (ISP). Trata-se de uma meticulosa análise dos casos de bala perdida no estado, cujo resultado parcial eu já havia publicado aqui neste espaço. Em todo o ano passado foram 224 ocorrências e só no primeiro semestre deste ano foram 170 vítimas de bala perdida. Ou seja, se fizermos uma projeção para o ano inteiro, teríamos 340 pessoas feridas ou mortas por "balas perdidas", cerca de 75% a mais que em 2006. Mais a curiosidade vem agora: se a bala é perdida, ou seja, sem alvo certo, a proporção de acerto deveria respeitar a divisão de gênero que existe na sociedade. De acordo com o IBGE, a população fluminense se divide entre 48% de homens e 52% de mulheres. Mas o estudo da ISP revela que as "balas perdidas", que não têm assessoria de imprensa para se defender, atingem mais os homens do que as mulheres. E numa proporção que suscita desconfiança: cerca de 80% desses tiros atingem homens. O estudo do ISP pode ser lido neste endereço: http://www.isp.rj.gov.br/Documentos/BalaPerdida.pdf.
PS: Furei o Ancelmo Gois. Publiquei aqui no dia 18, logo abaixo, que o Tortura Nunca Mais estuda pedir ao Ministério Público para acionar os responsáveis pelo filme Tropa de Elite por apologia à tortura e à execução sumária. A coluna mais lida do Brasil só deu a informação hoje.
Também vai pegar você!
21.10.2007 | 04h10 |
- Mesmo na ilegalidade, bilhões e bilhões de dólares são lavados todos os dias por bancos e corretoras. Neste contexto, o município do Rio de Janeiro, dentre outros, foi transfomado em rota e depósito da cocaína que gira o mundo. Dentro deste contexto, policiais matam traficantes de droga que ameaçam matá-los. Tudo dentro dos conformes! Eu, como não sou cheirador de cocaína e nem traficante e nem capitalista que lava o dinheiro das drogas, pouco me importo se fizerem a "limpa" nestes porcos capitalistas vendedores do "ouro branco".
O comentário acima é assinado por Guilherme Meirelles, que o fez a propósito da nota abaixo. Antes de entrar no mérito, quero dizer o seguinte: como seria bom se a mídia brasileira fosse democrática e tivéssemos o mesmo espaço para as diferentes opiniões. O país seria infinitamente melhor se em vez de apenas 7 emissoras de televisão aberta, ideologicamente afinadas, houvesse outras 7 em que a programação não estivesse a serviço da exploração do povo brasileiro.
Caro Guilherme, eu o conheci e acredito que você possa estar brincando. Mas confesso que não ficarei surpreso se você disser que está falando sério, que "pouco se importa se fizerem a limpa nos porcos capitalistas vendedores do outro branco" - que são os bandidos favelados, pelo que entendi. Não sei se esse desejo de vingança se traduz em alguma melhora em sua vida, mas o fato é que não adianta matar bandido. Matar bandido não reduz o índice de violência. Já escrevi aqui algumas vezes, mas não custa repetir: se compararmos os 4 meses deste ano com os do ano passado, temos um aumento de bandidos mortos pela polícia sem que se verificasse diminuição dos homicídios dolosos, nem dos roubos e muito menos dos furtos. Também a polícia não melhorou seu índice de captura de drogas e armas. Veja você mesmo: www.isp.rj.gov.br. É o próprio governo do estado quem diz isso. E pelo andar da carruagem, a coisa tende a piorar (e com piorar quero dizer: mais bandidos serão executados e mais homicídios dolosos serão cometidos pela cidade, assim como roubos e furtos. Por um motivo muito simples: essa política genocida de Sérgio Cabral não funciona).
Na sexta-feira, após um debate na PUC-Rio que classifico como esquizofrênico (com José Padilha, Rodrigo Pimentel, André Baptista e Marcelo Freixo) - depois explico o porquê - a colega Renata Souza, jornalista que dignifica a profissão, emprestou-me um interessante livro: "Mídia e violência" é seu título, sendo a organização de Silvia Ramos e Anabela Paiva. Lá na página 43 está reproduzida a capa do jornal O DIA de 18 de maio de 2003 (há 4 anos e 5 meses, portanto). O fotógrafo Carlos Moraes captou a cena de duas execuções no Morro da Providência. Policiais da CORE assassinaram duas pessoas que estavam rendidas, deitadas e indefesas. A manchete: "Providência: execução derruba seis policiais". Subtítulo: "Violência da ação choca ministro da Justiça; Luto do tráfico fecha comércio na região".
O que impressiona é constatar que a execução sumária de duas pessoas pela mesma CORE, na Favela da Coréia, quarta-feira, não chocou o ministro da Justiça. Nenhum policial foi afastado. O presidente da Comissão de Direitos Humanos da Alerj, deputado Alessandro Molon (PT), calou-se. Sem falar na narração da reportagem, que enxergou uma troca de tiros enquanto as imagens mostravam dois sujeitos despencando ladeira abaixo sem qualquer possibilidade de reação contra o helicóptero que avançava sobre eles. 4 anos e 5 meses foram suficientes para anestesiar ainda mais a sociedade, a começar por seus representantes. A Globo não veiculou as imagens dos assassinatos à toa: ela está esgarçando cada vez mais a capacidade de indignação do brasileiro, como faz todos os dias. Só num país muito fascista para uma cena como essa não derrubar o governador.
No dia seguinte à Chacina da Coréia, Cecília Coimbra, presidente do Grupo Tortura Nunca Mais, disse que essa ação já é uma conseqüência do filme Tropa de Elite. Vera Malaguti, secretária-geral do Instituto Carioca de Criminologia, também criticou muito a ação da polícia e afirmou que os efeitos do filme já se fazem sentir. "Só na onda do filme e do perverso livro Elite da Tropa uma operação como essa não choca. Do ponto de vista humano ela é chocante, do ponto de vista policial é um desastre".
Para Cecília, Tropa de Elite é um desdobramento de "Notícias de uma Guerra Particular". Neste último, em que um dos personagens principais é o Rodrigo Pimentel, então capitão do BOPE, havia uma classe média assustada, ainda sem saber o que fazer ou como se posicionar. Agora, com Tropa de Elite, é o fascismo puro e simples. Está decidido que o novo inimigo da sociedade está na favela. Cecília lembra ainda que os dois filmes buscam disseminar a falsa idéia de que o Rio está em guerra, fato habilmente utilizado para justificar crimes bárbaros como tortura e execuções sumárias. Aproveitando-se da manipulação da realidade elaborada pelas corporações de mídia, o governador pode simplesmente alegar que os mortos "eram bandidos" e fica por isso mesmo.
Por fim, voltando ao debate na PUC-Rio. Disse que foi esquizofrênico porque os responsáveis pelo filme se disseram contrários à mensagem do filme. O Padilha, diretor de Tropa de Elite, continua se sentindo muito perseguido, chegou a citar uma pendenga de Flaubert com o governo francês para se defender. Ele disse que seu filme não tem ideologia e que se trata de uma simplificação, não abarcando toda a realidade. Ao ser acusado de ter legitimado a tortura, disse: "Óbvio que não glorifiquei a tortura. A tortura é um crime bárbaro. Como se faz isso? Coloca em primeiro plano? Tem que colocar um aviso ao público dizendo que tortura é ruim?". Parei de levar a sério o que Padilha dizia quando afirmou que a faculdade retratada não era a PUC e que o personagem de André Matias não fora inspirado no André Baptista.
Outros raciocínios curiosos do diretor mais badalado da temporada: "O filme não diz que o consumidor de drogas é responsável por toda a violência. Nascimento é claramente um maníaco. Só ele diz que o consumidor é responsável pela violência". Outro: "... um menino pobre que por causa de sua vida se torna traficante de drogas". "O filme retrata a realidade; se a realidade é assim, não posso fazer nada". "O filme é o ponto de vista do capitão Nascimento. Se as pessoas o consideram um herói, a culpa não é minha".
Então é isso. Ninguém mais é responsável pelo que faz. Leni Riefenstahl, cineasta de Hitler, sempre negou defender o nazismo. Seu compromisso, segundo ela, era com a arte. Foi considerada por muitos a melhor diretora da história do cinema. Guilherme Navarro: não se trata de comparar O Poderoso Chefão e A Queda com Tropa de Elite, e sim de analisar este último diante da realidade que vivemos no Rio de Janeiro. A máfia italiana ficou no início do século passado e o nazismo foi derrotado pelo Exército Vermelho. E está evidente que as crianças foram apenas um exemplo, preocupante exemplo, que se verifica em todo o tecido social. Quem bate palma para essa propaganda do BOPE não deve se esquecer que se um dia cair na mão dele, talvez não saia vivo para contar a história. A não ser que o sujeito seja otário o suficiente para achar que essa brutalidade ficará restrita às favelas para sempre. Como diz o refrão final do filme: "Tropa de Elite/Osso duro de roer/Pega um, pega geral/Também vai pegar você".
MATA-mídia-MATA
18.10.2007 | 02h20 |
O comentário de João Martins na nota "Ainda a Tropa de Elite", logo abaixo, jogou luz sobre a política de repressão contra os espaços populares. Vejam o que ele disse:
Marcelo, aqui no condomínio onde moro, crianças que antes brincavam de bola na quadra agora estão brincando de pelotão do Bope gritando aquelas palavras de ordem: "homem de preto, qual é sua missão? É entrar na favela e deixar corpo no chão". Estou aguardando o momento em que aparecerão crinças brincando com um caveirinha e enterrando corpos de favelados em covas coletivas. Tudo distribuido como brinquedos educativos, porque o povo "quer", e não porque há uma indução semiótica sistemática, do senso comum, para reivindicar no Rio de Janeiro a guerra falsa contra as drogas feita pela DEA/CIA, e a extensão para cá do já desmoralizado PLANO COLÔMBIA com sua narco-parapolítica e narco-paramilitarismo genocida como plano de "segurança democrática". Tudo isso está sendo feito para "libertar" os brasileiros que ainda vivem sob a ditadura: a versão local da globalização da guerra preventiva contra os "inimigos" da "democracia" tal qual é feito no Iraque e na Palestina. Tudo está enfiado num mesmo saco, e de um modo espetacular no fluxo alucinante das imagens que entorpecem o espectador desatento aos conteúdos de banalização do mau que são introduzidos na mente dos espectadores, desinformando e desumanizando sistematicamente.
Daí você explica a série de reportagens publicada pelo Globo sobre "os brasileiros que ainda vivem sob a ditadura". Na lógica do jornalão, esses que ainda vivem na ditadura são os que vivem nos espaços populares. E por viverem sob esta condição devem ser "libertados". Como? Pelas técnicas do Bope. É bom deixar claro que os jornalistas que fizeram a matéria estão de parabéns, como já escrevi aqui, por emplacar a série que, mal ou bem, deu outro tratamento para a questão da violência policial na cidade. Entretanto, não dá pra ser ingênuo de acreditar que o dono do jornal ficou bonzinho da noite para o dia. Não. É claro que ele tem seus interesses, e o comentário do João aí em cima enseja um bom exemplo.
Aproveitando o tema, quero dizer que hoje participei de um debate sobre o filme Tropa de Elite, promovido pelo Grupo Tortura Nunca Mais. Cecília Coimbra, atual presidente da entidade, disse o seguinte: "Não me interessa saber quais foram as intenções dos autores, e sim os efeitos que estão causando. E os efeitos, como as brincadeiras que as crianças estão fazendo de torturar os colegas e os aplausos de grande parcela da população, mostra que a maioria está apoiando a tortura e a execução sumária". Cecília também criticou muito o fato de o filme trabalhar para a naturalizar a existência de uma guerra no Rio de Janeiro. "Assim se justifica tudo", afirmou a professora de psicologia da UFF, que também sublinhou que Tropa de Elite não é apenas reprodutor de uma realidade dada, mas é também um produtor de realidade. E, por fim, disse: "É um filme a favor da morte". O Tortura Nunca Mais estuda entrar com representação no Ministério Público por considerar que Tropa de Elite faz apologia ao crime, à tortura e à execução sumária.
Tive a sorte de retornar a Niterói ao lado da professora de história da UFF e nossa colunista Adriana Facina, ocasião em que pudemos desenvolver um pouco mais a discussão (o tempo de viagem do Rio a Niterói é de aproximadamente 40 minutos). Ela lembrou que, hoje, o sistema neoliberal precisa encontrar formas de lidar com uma parcela da população que não se enquadra mais no tradicional exército de reserva. Estamos falando de uma população excedente, que precisa ser controlada de alguma forma. Assim, como essa classe dominante não consegue impor seus consensos de forma absoluta - pois sempre há linhas de fuga, mesmo frente à homogeneização da cultura e da mídia - ela lança mão de estratégias de terror, justamente contra a população que mais sofre os efeitos perversos do neoliberalismo (notadamente a negligência do Estado nas áreas de saúde e educação, entre outras, mas sobretudo os salários de fome).
Nesse sentido, o jurista argentino Raúl Zaffaroni afirma que esse sistema "vende a ilusão de que se obterá mais segurança urbana contra o delito comum sancionando leis que reprimam acima de qualquer medida os raros vulneráveis e marginalizados tomados individualmente e aumentando a arbitrariedade policial, legitimando direta ou indiretamente todo gênero de violência". E o professor continua, num raciocínio que bate com aquilo que venho dizendo há muito tempo (que as corporações de mídia estimulam a violência): "Com isso, não apenas se magnifica a insegurança como também, ao proclamar a existência de uma pretensa impunidade ou leniência generalizada, lança-se uma metamensagem que incita publicamente os excluídos ao delito, assumindo o efeito de uma profecia auto-realizada; a mensagem, longe de ser indiferente à criminalidade comum, em tempos de desemprego, exclusão social e carência de projetos existenciais, passa a ter claros efeitos reprodutores". O fotógrafo Oliviero Toscani diz a mesma coisa de modo mais simples: "A mídia estimula a delinqüência porque cria objetos de desejo e os divulga para todos, embora apenas uma pequena parte possa comprá-los". Daí a se matar e morrer por um Nike - ou um Rolex.
É disso que estamos falando. De um sistema extremamente perverso e muito bem articulado entre Estado neoliberal e corporações privadas (a mídia em primeiro lugar) a serviço da manutenção de uma ordem que violenta os trabalhadores em nome do luxo de uma meia dúzia.
PS: Chego, ligo a televisão no Jornal da Globo e vejo imagens estarrecedoras. A repórter, como sempre, se esforça para justificar a matança. Mas dessa vez a situação é tão absurda, mas tão absurda, quem nem o reacionaríssimo JG consegue esconder o constrangimento - fica latente nas entrelinhas. As imagens são brutais: um helicóptero da polícia persegue dois rapazes, sem qualquer chance de reação, que correm ladeira abaixo tentando se esquivar de um verdadeiro fuzilamento a céu aberto. Parece uma cena de guerra, com a diferença de que NÃO estamos em guerra. Além dos dois rapazes, outras dez pessoas foram assassinadas durante uma operação da CORE (O Bope da Polícia Civil) ontem na favela da Coréia, em Senador Camará, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Veja a matéria do JG aqui.
Ao pessoal do Orkut
18.10.2007 | 02h14 |
Depois de um mês sem acessar o Orkut, volto lá e encontro vários recados. Agradeço muito os elogios pela reportagem no Complexo do Alemão e a curiosidade em conhecer o Fazendo Media que, segundo a ENjoyce, passou de uma boa idéia a uma boa iniciativa. E o Igor, que me pergunta o que estou achando do caso Renan Calheiros. Sobre esse assunto, recomendo a reportagem do João de Barros, capa da Caros Amigos de agosto. Meu palpite: acho muito provável que o senador seja culpado das acusações, mas está muito claro que se trata de uma manobra da oposição para atacar o governo Lula. Só que aí fica no superficialismo, porque na política econômica eles se entendem - e muito bem.
Rede denuncia ameaça do Bope
17.10.2007 | 16h52 |
Acabo de receber a mensagem abaixo da Rede Contra a Violência:
Agora há pouco, a companheira Patrícia de Oliveira foi ameaçada pelo PM Camelo em frente à entrada da Secretaria de Segurança Pública do RJ, na Central do Brasil. Patrícia, outr@s militantes da Rede, diversos moradores da comunidade e a imprensa haviam acabado de chegar à Central quando se depararam com um grande número de policiais e viaturas. Um funcionário da Secretaria que não se identificou disse que não poderia haver manifestação e os policiais passaram a hostilizar os manifestantes.
O PM Camelo, com o símbolo do Bope (caveira) na farda, dirigiu-se a Patrícia dizendo "sai!", ao que ela respondeu pedindo que lhe mostrasse a lei que não permite manifestação pública. O PM então disse que "era com ela que ele ia começar a desentortar". Patrícia está no momento registrando queixa contra o policial na 4ª DP.
ONU: tortura é rotina no Iraque
14.10.2007 | 13h26 |
A ONU, que não aprovou a invasão estadunidense ao Iraque em 2003, divulgou relatório sobre alguns crimes contra a humanidade cometidos pelo governo Bush: há 44.325 presos no Iraque, muitos deles detidos durante meses sem qualquer acusação formal. "Além de espancamentos rotineiros com mangueiras, cabos e outros instrumentos, os métodos citados incluem suspensão prolongada pelas mãos ou pés em posições que causam dor, algumas vezes resultando em deslocamento das juntas; fratura de ossos; a colocação de detidos sobre objetos pontiagudos, causando ferimentos graves e aumentando o risco de infecção; e queimaduras sérias em partes do corpo através da aplicação de objetos aquecidos", diz o texto da ONU.
E que países são as grandes ameaças para o mundo civilizado, segundo nos informam as corporações de mídia? Irã, Venezuela e Cuba, o próprio eixo do mal. Talvez China, Bolívia e o próprio Iraque também. Até o Brasil aparece de vez em quando, não porque suas forças de segurança chacinam e torturam pessoas em favelas (isso a mídia apóia), mas por supostamente abrigar "células terroristas" na Amazônia. E depois quem monta teorias de conspiração é a esquerda...
O exemplo cubano
13.10.2007 | 22h09 |
Na semana passada, quando as pessoas que não se informam exclusivamente pelas corporações de mídia relembravam e debatiam a vida e a obra de Che Guevara, li uma notícia no jornal cubano Granma, depois repetida por agências noticiosas de todo o mundo: médicos cubanos devolveram a visão ao sargento boliviano que tirou a vida do Che, cumprindo ordens da CIA. A notícia é chocante e mereceria laudas e laudas de comentários. Entretanto, fico com apenas um: foi a melhor resposta que Cuba poderia dar ao imperialismo. Digna dos mais altos valores da Revolução, como honra, coragem e respeito à vida humana. Justamente o oposto do que os EUA espalham pelo mundo: genocídio, terror e miséria.
Rélp
13.10.2007 | 21h54 |
Al Gore e ONU recebem o Nobel da Paz. EUA investem pesado em biocombustíveis. Magnatas compram áreas imensas no Brasil para plantar cana-de-açúcar. Crédito de carbono vira commodity e é negociado na Bolsa.
Sim, sim. O objetivo é salvar o mundo...
Sem-Mídia realizam 1ª assembléia
13.10.2007 | 21h52 |

Em assembléia realizada hoje, foi oficialmente fundado, em São Paulo, o Movimento dos Sem-Mídia (MSM). São 40 os sócios fundadores da ONG (e mais de 700 colaboradores), que já marcou data e local de sua próxima manifestação: TV Globo de São Paulo, dia 10 de novembro, às 10h. A primeira manifestação do MSM foi em frente à sede da Folha de S. Paulo, ocasião em que cerca de 100 pessoas protestaram contra o oligopólio da mídia no Brasil. Leia mais informações em http://edu.guim.blog.uol.com.br.
O foco da notícia
10.10.2007 | 18h07 |
Amiga minha, jornalista, mora na Maré. Anteontem, quando a polícia invadiu a favela e iniciou um tiroteio com bandidos, ela não pôde voltar para casa. Teve que dormir na casa de uma colega. Minha amiga ficou extremamente preocupada com seus familiares e vice-versa. E a notícia nos jornalões de ontem saiu assim: “Linha Vermelha: motoristas ficam assustados com o tiroteio e bláblábláblá”.
Ainda o capitão Huck
09.10.2007 | 17h40 |
Dois comentários sobre o texto de Luciano Huck na Folha (01/10/07) chamaram minha atenção. O primeiro o defendia, alegando que ele não era o responsável por resolver todos os problemas sociais do país. Outro o criticava, afirmando que por sua condição financeira e posição social ele poderia fazer muito mais do que faz com seu programa, com o qual Luciano acredita estar transformando esse país num “lugar mais bacana”.
Acho que os dois estão certos, embora suas considerações possam parecer contraditórias. É verdade que o animador de auditório Luciano não é o responsável por todos os problemas sociais deste país, mas também está correto dizer que ele poderia fazer muito mais do que faz com seu “caldeirão”.
Só que a questão é outra, e infinitamente mais profunda. A realidade de Luciano é a realidade de 1% da população, só que sem a sensibilidade suficiente para enxergar o que acontece com os outros 99%. Não que sensibilidade apenas bastasse, mas pelo menos o salvaria desse mico em forma de artigo.
As pessoas ainda não compreenderam que uma das princiapais razões da violência no Brasil é a sua desigualdade. E o que faz o Brasil tão desigual? A estrutura sócio-econômica e política da qual Luciano se beneficia e a qual ele jamais contestará. Essa mesma estrutura é defendida a ferro e fogo pelas corporações de mídia, pois dela também se beneficiam. Achar que o problema da violência será resolvido com mais repressão é burrice, pura e simples. É só pegar os números do próprio governo e constatar: a repressão aumentou nos últimos dez anos, mas a violência aumentou junto.
Fala, Che
09.10.2007 | 16h57 |
"O socialismo econômico sem a moral comunista não me interessa. Lutamos contra a miséria, mas ao mesmo tempo contra a alienação. (...)Se o comunismo ignora os fatos da consciência, poderá ser um método de repartição, mas não uma moral revolucionária" (Che Guevara, em entrevista ao jornalista Jean Daniel, em julho de 1963).
"A ação revolucionária é inseparável de certos valores éticos. Um dos exemplos é o trato dos prisioneiros de uma guerrilha: 'Uma clemência a mais absoluta possível com os soldados que vão combater cumprindo, ou crendo cumprir, seu dever militar. (...) Os sobreviventes devem ser deixados em liberdade. Os feridos devem ser cuidados com todos os recursos possíveis'. Um incidente da batalha de Santa Clara ilustra o comportamento de Che: a um companheiro que propõe que se execute um tenente do exército feito prisioneiro, o comandante Guevara contesta: 'Crês que somos como eles?'" (Trecho do artigo 'O Marxismo do Che', de Michael Löwy, lido hoje na Câmara dos Deputados pelo deputado federal Chico Alencar, PSOL-RJ).
A esquerda punitiva
09.10.2007 | 02h05 |
“Sendo a pena, em essência, pura e simples manifestação de poder – e, no que nos diz respeito, poder de classe do Estado capitalista – é necessária e prioritariamente dirigida aos excluídos, aos desprovidos deste poder”
“Perdendo sua antiga visão crítica sobre a ´imprensa burguesa´, setores da esquerda reproduzem literalmente o que dizem os órgãos massivos de informação quanto a um aumento descontrolado da criminalidade”
(Maria Lúcia Karam, na primeira edição do livro Discursos Sediciosos, publicação do Instituto Carioca de Criminologia)
Teve um sindicato de esquerda que se recusou a publicar a história da Chacina do Alemão como ela aconteceu, porque isto seria "apologia ao crime". E teve uma entidade representativa de advogados, onde a esquerda havia conquistado o poder depois de 15 anos, que exonerou o representante da comissão de direitos humanos para que as denúncias da mesma chacina não fossem levadas adiante. Isso sob o discurso do "sabe como é esse papo de morador de comunidade, né"?
Ao mesmo tempo, outra parte da esquerda ainda não se deu conta da importância de enfrentar a luta pela democratização da mídia. Prefere ficar dando murro em ponta da faca e pleitear uma conquista aqui, outra ali. O que vier é lucro. Enquanto isso, movem-se todos os recursos disponíveis para lutar por dezenas de questões, todas muito justas. Mas se esquecem de que cada passo no sentido da democratização da mídia representa, automaticamente, um gigantesco avanço em todas essas questões muito justas.
Ainda a Tropa da Elite
06.10.2007 | 15h58 |
CartaCapital dessa semana traz matéria de capa sobre Tropa de Elite. A autora é Ana Paula Sousa, uma das juradas que escolheu "O ano em que meus pais saíram de férias" para representar o Brasil no Oscar. Assim como o Hector Babenco havia feito, ela também denuncia a pressão que sofreu para votar em Tropa de Elite.
Isso tudo é vergonhoso. Primeiro, fazer um filme fascista, de apologia ao crime, que está ajudando a transformar o Brasil num lugar ainda mais violento devido à forma elogiosa com que trata a tortura e o assassinato em nome da lei. Em segundo lugar, o aplauso das corporações de mídia. Em terceiro, a pressão para que fosse o escolhido. Em quarto lugar, sua derrota (mesmo com tanta pressão). E o pior de tudo são os responsáveis pelo filme, que deveriam estar respondendo a processo por apologia ao crime, posarem de indignados quando alguém fala o óbvio: seu filme é fascista.
O discurso do Wagner Moura é pueril: "O filme é feito pelos olhos do capitão Nacimento. Se as pessoas elegeram esses olhos como salvadores, não é responsabilidade nossa". É sim, Wagner. Há diversas maneiras de apresentar um olhar ao público e, francamente, é estarrecedor saber que uma pessoa que trabalha com comunicação de massa não saiba disso. Mas talvez o pior mesmo seja a covardia. É como abrir aspas para dez sujeitos de direita e dizer que o resultado é plural porque ouviu dez pessoas. E depois declarar: "Não fui eu quem disse isso, foram os entrevistados".
Pela democracia
06.10.2007 | 15h41 |
Imagens da manifestação pela democratização dos meios de comunicação em Porto Alegre. Legenda possível: "os porcos atiram os cavalos contra o povo". Veja mais fotos aqui.


DCE da Cândido: obrigado, de novo
04.10.2007 | 19h33 |
Agradeço ao DCE da Universidade Cândido Mendes, unidade Niterói, pelo convite para falar sobre a reportagem que fiz no Complexo do Alemão (publicada na edição de agosto da Caros Amigos). Agradeço também ao professor Denílson Botelho, tão generoso em seus comentários acerca da matéria e tão competente ao pontuar os temas que nos afligem nesses dias neoliberais. Parabenizo a organização do evento, que conseguiu lotar o auditório, e também os participantes, pela paciência de me ouvir até depois das 22h.
Tá explicado
03.10.2007 | 11h24 |
Vejam aí se não é uma boa explicação para o macarthismo que se apossou das corporações de mídia. O jornalista Luiz Carlos Azenha conta que recebeu do Ítalo Drago os trechos do livro "Nova História Crítica" que tratam especificamente da TV Globo (lembrando que os artigos e reportagens que desqualificaram a obra não mencionaram uma linha sequer a respeito):
"Está no capítulo 18 do livro, "A Ditadura Militar no Brasil" da coleção "Nova História Crítica" para a 8a série, 2a edição, publicada em 2004: "'O domínio global' A televisão foi instalada no Brasil em 1950. Nos anos 70, a TV já era um fenômeno de massas: até mesmo pessoas pobres nas favelas tinham um aparelho. A famosa Rede Globo viveu um espetacular crescimento exatamente durante os anos do regime militar. Simples coincidência ou a empresa foi beneficiada pelo governo militar? Para o historiador Thomas Skidmore, "sua expansão foi abertamente favorecida pelos governos militares. (...) Em troca, a Rede Globo seguia uma política de programação estritamente pró-governo". Para alguns analistas, a Rede Globo, por meio dos seus noticiários, programas e novelas, feitos com alta tecnologia, teria o poder de manipular informações e moldar a consciência de milhões de brasileiros. Talvez haja verdade nisso. Mas é bom lembrar que as pessoas podem mudar de canal ou então interpretar de maneira diferente a mensagem que recebem, não é mesmo?"(pág.286)
No mesmo capítulo, na página 289, no subtítulo "Diretas Já" mais uma alfinetada: "Nem todos estavam a favor. Por exemplo, os críticos do regime chegaram a acusar a Rede Globo de Televisão, através do Jornal Nacional, conceder mais atenção à candidatura de Maluf do que aos comícios das Diretas Já."
Já no capítulo 19, "O Mundo Contemporâneo", no subtítulo "A eleição de Collor", página 319, mais uma vez o autor dá uma espetada: "O último debate foi realizado na madrugada de domingo para segunda-feira. Por isso, a maioria das pessoas só assistiu ao compacto com os "melhores momentos" transmitido pela Rede Globo no Jornal Nacional, na noite seguinte. Mas o compacto da Globo tinha sido preparado de modo que desse a impressão de que Collor tinha arrasado Lula no debate. Percebeu? Escolheram apenas certos trechos, como numa luta de boxe, em que só se mostram os socos que um dos lutadores deu e não os que levou. Uma manipulação óbvia dos fatos. Mas, para a maioria da população, o Jornal Nacional, mais uma vez, tinha mostrado 'as imagens eletrônicas da verdade'."
O blog do Azenha está aqui.
Quilombolas x Globo
03.10.2007 | 10h37 |
Acabo de receber o emeio abaixo:
CARTA CONVOCATÓRIA
A Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas - CONAQ, entidade representativa das comunidades quilombolas de todos os estados da Federação, convoca todas as entidades e movimentos sociais para construir o Dia Nacional de Repúdio à Emissora Rede Globo de Televisão.
A nossa proposta é que o próximo dia 05 de outubro de 2007 fique marcado pela manifestação "GLOBO, A GENTE NÃO SE VÊ POR AQUI!", que irá expressar a indignação dos movimentos sociais criminalizados, direta ou indiretamente, por essa emissora.
Nós, quilombolas, estamos vivenciando, como outros movimentos, de uma investida da Rede Globo com matérias que negam a nossa identidade étnica e contra o decreto 4887/03, que regulamenta o processo de titulação dos territórios de quilombos.
Questionamos:
. O jornalismo da Rede Globo, pois possui uma postura tendenciosa a serviço das oligarquias, cujos interesses sempre entram em conflito com os interesses das classes populares;
. A formação da opinião pública dessa mídia, já que essas matérias acabam contribuindo para um maior desconhecimento da luta dos quilombolas e de outras lutas, desarticulando os diversos movimentos;
. O ineficiente controle que todos os poderes públicos e sociedade possuem em relação a esta emissora, já que não se sabe quando se renova as suas concessões, não há fiscalização se os Direitos de Respostas são cumpridos, não há punições em relação às distorções cometidas, entre outras.
Sugerimos que neste dia (05 de outubro) sejam realizadas atividades, nas quais se discutam sobre o papel da Rede Globo na sociedade brasileira, analisando como essa emissora desrespeita a diversidade dos movimentos sociais e de entidades.
A nossa postura política representa um ato de repúdio ao abuso de um grupo de mídia privado que se utiliza da concessão pública para descredibilizar aqueles e aquelas, que há mais de 500 anos, constroem a história desse país.
Contamos com a sua adesão.
Semana de democratização da mídia
02.10.2007 | 23h33 |
Recebi o emeio abaixo e recomendo que todos distribuam em suas listas de contatos. Trata-se do movimento político mais importante de que se tem notícia. Enquanto a comunicação continuar brutalmente concentrada, os diversos movimentos que lutam por mudanças na estrutura desigual da nossa sociedade vão continuar dando murro em ponta de faca. Os espaços que terão nas corporações de mídia serão todos concedidos, quando não usados para criminalizá-los. Por outro lado, quanto mais democracia e pluralidade houver entre os meios de comunicação (algo previsto na própria Constituição), melhor os grandes debates nacionais serão travados, mais informações serão veiculadas e, no longo prazo, a conformação subjetiva do povo estará livre das manipulações promovidas pelo discurso neoliberal dominante. Sem mais, por hora, segue o emeio:

No dia 5 de outubro vencem as concessões de importantes emissoras de televisão do país, as cinco da Rede Globo - São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife e Brasília, as da Bandeirantes, Gazeta, Record e TV Cultura de São Paulo, entre outras. Para continuarem operando os canais que lhe foram outorgados pelo Estado, o governo federal precisaria autorizar e o Congresso Nacional sancionar essa renovação. Na prática, isso não acontece. Diferente de todos os outros setores, não há obrigações das concessionárias do serviço de radiodifusão. Em qualquer concessão pública há deveres estipulados em contrato. Mas na radiodifusão sequer podemos ter acesso aos contratos, apesar de serem “públicos”.
Globo Mente - Um dos principais problemas da televisão brasileira é a falta da diversidade. É sempre mais do mesmo. É uma reprodução incessante do sistema capitalista. Estímulo ao consumo. Todas as emissoras manipulam as informações de acordo com seus interesses comerciais e políticos. Mas sem dúvida a Rede Globo é campeã nesse item. Seu império foi construído em cumplicidade com a ditadura militar que cometeu crimes horrendos. Benefícios fiscais e econômicos de toda a ordem para que se mostrasse naquele tempo um país de paz que não existia de fato. Agora, a Globo conta a história do período escondendo quanto se beneficiou.
E sua influência dos processos eleitorais é reconhecida internacionalmente. Sem contar as omissões do poder público. Recentemente a Procuradoria da República emitiu parecer comprovando as falsificações de documentos e outras irregularidades cometidas por Roberto Marinho para assumir, na década de 60, o controle da Rádio Televisão Paulista (TV Globo - São Paulo), que hoje responde por mais de 50% do faturamento da Rede Globo.
Não é possível que as emissoras tenham tanto poder sem controle. Não é aceitável que as concessões sejam renovadas sem nenhum debate com a sociedade sobre a continuidade ou não daquela concessão. Senão, é a privatização de fato de um bem público.
Este debate, entre outros tantos necessários para a construção de uma nova regulação para o setor de comunicações, deve ser feito em uma Conferência Nacional de Comunicação – semelhante às realizadas com outros temas como saúde, meio ambiente, mulheres etc - que seja ampla, democrática e participativa, com etapas regionais antes da nacional.
É por isso que se realizarão uma série de atividades debatendo a comunicação no país a partir do dia 3 de outubro, abrindo a Semana pela Democratização da Comunicação. E estamos convocando toda a população a estar conosco na rua, no dia 5 de outubro, exigindo um debate público sobre as concessões de radiodifusão.
Globo Mente
Manifestação cultural contra a renovação automática das concessões públicas de rádio e tv
Dia 5 de outubro, sexta-feira, a partir de 17h
Ato público no Buraco do Lume
(Centro do Rio de Janeiro, próximo ao Castelo, entre a Rio Branco e a 1º de Março).
Exibição dos vídeos: a História da Rede Globo (inédito, com cenas do apresentador do SP/TV anunciando o comício das diretas como sendo uma festa pelo aniversário de SP e o Moreira Franco dando depoimento como vencedor da eleição que o Brizola ganhou. Imperdível!), Manual Rádio Livre, Hélio Costa e os japoneses contra Seleção Digital Brasileira. Música e debates ao vivo. Gravação de vídeo cabine, colocando o povo de protagonista. Participação de diversos movimentos sociais. Além de distribuição de materiais e jornais alternativos.
Programação da Semana Nacional pela Democratização da Comunicação do Rio
[de 3 a 9 de outubro]
Dia 03 de outubro - quarta-feira
9h – Abertura da Semana Nacional pela Democratização da Comunicação no Rio com a realização de programa, ao vivo, na rádio comunitária do Morro do Estado, em Niterói, e gravação de vídeo cabine no morro.
13h - Vídeo cabine no Instituto de Artes e Comunicação Social da UFF (Rua Lara Vilela, 126, Ingá).
16:00 - Vídeo Cabine na praça Araribóia (em frente as Barcas de Niterói) com gravação de depoimentos, teatro e panfletagem.
19:00 – Exibição do filme Tapete Vermelho (comédia em que Quinzinho [Matheus Nachtergaele] tem uma promessa a cumprir: levar seu filho à cidade para assistir a um filme do Mazzaropi) seguido de debate com Adriana Facina (professora de História da UFF e Observatório da Indústria Cultural) e Movimento de Niterói para salvar o Cine Icaraí. Local: Teatro do DCE-UFF, Centro de Niterói, perto do Plaza.
Dia 04 de outubro - quinta-feira
14:00 - Realização de Programa da TV Comunitária de Niterói sobre a Semana Nacional pela Democratização da Comunicação, com exibição do material das vídeo cabines. Local: IACS – Rua Lara Vilela, 126, Ingá, Niterói.
17h: Debate UFF- Mestrado Ciência da Arte – Concessões e sua relação com a produção da teledraturgia – IACS 2 (rua Tiradentes, 148, Ingá, Niterói) – Heloísa Toledo Machado, Sergio Santeiro, Antonio Moreno, Octavio Bezerra, Noilton Nunes, Gustavo Gindre e Rafael Duarte.
20:00 – Exibição do programa Comunicação Popular na TV Universitária de Niterói com a participação de diversos movimentos sociais e entidades do movimento estudantil falando sobre a concentração da comunicação no país, os assuntos e lutas que a mídia comercial esconde e a formação do pensamento único. Local: Estúdio grande da Unitevê, IACS – Rua Lara Vilela, 126, Ingá, Niterói. Quem for participar do programa ao vivo (todos estão convidados!) chegar até 19:30h.
Dia 05 de outubro - sexta-feira
21:00 - Ato em Defesa da Transparência das Concessões de Rádio e Tv, no Sest-Senat de Barra Mansa
Dia 07 de outubro – domingo
12:00 - Panfletagem de jornais alternativos na Praia de Ipanema - Posto 9
Dia 08 de outubro - segunda-feira
12:00 - Panfletagem de jornais alternativos no Bandejão da UFF – Campus do Gragoatá, Niterói
17:00 – Panfletagem de jornais alternativos na Central do Brasil – em frente à saída do metrô
Dia 09 de outubro – terça-feira
14:00 - Debate sobre a contribuição das rádios comunitárias para o desenvolvimento social - projeto de pesquisa do curso de comunicação social da UFF, orientado pelo professor Adilson Cabral – Local: IACS – Rua Lara Vilela, 126, Ingá, Niterói.
19:00 – Reunião de articulação do movimento pela democratização da comunicação do estado do Rio. Democratizar a comunicação para transformar a sociedade! Local: Rua Joaquim Silva, 56, 9º andar, Lapa.
21:00 – Programa Especial de Encerramento da Semana de Democratização da Comunicação na TV Comunitária do Rio. Ao vivo! Local: Rua Joaquim Silva, 56, 9º andar, Lapa.
Mais informações sobre a Semana:
Rafa (9879-8076/rafa_doliveira@yahoo.com.br)
Claudia (9616-1447/claudiaverde@yahoo.com.br)
Lutam pela Democratização da Comunicação no Rio: ComunicAtivistas; TV Comunitária do Rio; TV Comunitária de Niterói; Executiva Nacional dos Estudantes de Comunicação Social - Enecos; Diretório Acadêmico de Comunicação Social - UFF; Centro Acadêmico de Comunicação Social – PUC; CACOS-UERJ; Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra - MST; Setorial de Comunicação e Cultura do PSOL; Rede Nacional de Jornalistas Populares; Núcleo Piratininga de Comunicação; Associação Mundial de Rádios Comunitárias - Amarc; Sindicato Interestadual dos Trabalhadores na Indústria Cinematográfica e do Audiovisual - STIC; Sindicato dos Petroleiros - RJ; Federação Interestadual dos Trabalhadores em Rádiodifusão - Fitert; Diretório Central dos Estudantes da UFF; Associação dos Docentes da UFF - Aduff; Sindicato dos Trabalhadores da UFF - Sintuff; Luta Jornalista/RJ; TV Caos; Casa da América Latina, Sindicato dos Engenheiros - Senge-RJ, Clube de Engenharia, Sindicato dos Jornalistas do Estado do Rio de Janeiro; Intervozes; Grêmio do Colégio Estadual Raul Vidal - Niterói; Agência de Notícias das Favelas; Círculos Bolivarianos Leonel Brizola; Mandatos do Deputado Federal Chico Alencar (PSOL), do Deputado Estadual Marcelo Freixo (PSOL), dos Vereadores Eliomar (PSOL-Rio), Renatinho (PSOL-Niterói) e Paulo Eduardo Gomes (PSOL-Niterói).

Veja, que mentira
02.10.2007 | 16h28 |
O Círculo Bolivariano Leonel Brizola está incentivando (ver modelo abaixo) os internautas a escreverem cartas à revista Veja repudiando a reportagem de capa da última edição, que traz informações falsas e preconceituosas a respeito de Che Guevara. Sobre o aniversário da morte desse líder da Revolução Cubana, escrevi este artigo há dois anos.
AO DIRETOR DE REDAÇÃO, VEJA
VEJA acaba de produzir uma das matérias de capa mais tendenciosas de sua trajetória. Sua afirmação de que "conversou com historiadores, biógrafos, antigos companheiros de Che na guerrilha e no governo cubano na tentativa de entender como o rosto de um apologista da violência, voluntarioso e autoritário, foi parar no biquíni de Gisele Bündchen, no braço de Maradona, na barriga de Mike Tyson, em pôsteres e camisetas" equivaleu a uma admissão involuntária de que não praticou jornalismo, mas, tão-somente, produziu uma peça de propaganda anticomunista, mais apropriada para os tempos da guerra fria.
Não houve, em momento algum, a intenção de se fazer justiça ao homem e dimensionar o mito. A avaliação negativa precedeu e orientou a garimpagem dos elementos comprobatórios. Tratou-se apenas de coletar, em todo o planeta, quaisquer informações, boatos, deturpações, afirmações invejosas, difamações, calúnias e frases soltas que pudessem ser utilizadas na montagem de uma furibunda catalinária contra o personagem histórico Ernesto Guevara, com o propósito assumido de se demonstrar que o mito Che Guevara seria uma farsa.
Morde e assopra
02.10.2007 | 15h59 |
Domingo à noite, Campo do Sargento, Complexo do Alemão. Sete e pouca, mega-palco já armado, puta equipamento de som explodindo. Marisa Monte vai entrar em breve para um show completo, mesma banda, mesmos instrumentos, mesmas músicas e efeitos especiais que apresentou nas casas mais requintadas do país. Lá estou, a convite de Jesus. Enquanto conversávamos, escorados num poste fino de metal, passa Luciano Huck. Levanta o olhar, vagaroso, desvia o olhar de Jesus, como que refletido por sua cara de mau, e demora-se mais um pouco em mim. "E aí, beleza?", diz sem parar. Nem eu nem Jesus respondemos, continuamos nosso papo. Mas, entenda-se. O jovem animador de auditório estava assustado, pois no dia anterior havia sido assaltado com um 38 na testa, como fez questão de registrar em artigo publicado na Folha. Sua vontade era chamar o Bope para liquidar o bandido que, quanta tristeza, levou-lhe o rolex. Pobre Luciano. Disse que algo não está certo, porque ele passa o dia inteiro pensando em como melhorar a sociedade em que vivemos.
Entretanto, em nenhum momento em que esteve com o microfone na boca foi capaz de registrar o escândalo das faixas de agradecimento ao governador Sérgio Cabral, que emolduravam o Campo do Sargento. Há apenas 3 meses a polícia desse mesmo governador chacinou mais de 40 pessoas, aqui mesmo, no Complexo do Alemão. 19 das quais num único dia.
* * *
Carta publicada no Painel dos Leitores da Folha de hoje (leia as outras aqui: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz0210200710.htm):
"O senhor Luciano Huck me constrangeu com seu "desabafo". Não pelo fato de ter sido vítima de violência, afinal, era de esperar que "sua hora" chegasse. Mas por achar que, sendo pessoa pública e digna da comoção de uma "multidão", estaria imune a ela.
Tenho até pena do senhor Huck, pois ainda acredita que ser cidadão se resuma a votar ou a pagar impostos ou a dirigir uma ONG. Com o espaço de que goza na mídia, com o carisma que lhe renderia uma "homenagem no caderno de cultura" e com a renda que concentra, poderia fazer mais que isso.
Caso seu programa se preocupasse não apenas em "fazer este país mais bacana" mas em desenvolver uma consciência crítica no público, talvez nosso país fosse socialmente mais justo. Talvez, se os espectadores fossem incentivados a debater a importância de cada indivíduo na busca de soluções e estimulados a uma participação política ativa, Huck não estaria "à procura de um salvador da pátria"."
CLEBER FERREIRA SHIMIZU (Londrina, PR)
Até a AP registrou
02.10.2007 | 11h33 |
O jornalista Luiz Carlos Azenha leu e registrou (mais) uma grande distorção do jornal O Globo, dessa vez também apontada pela Associated Press:
"O Globo, um dos maiores jornais do Brasil, deu credibilidade à lorota mais assustadora do ano. Citou uma autoridade estadual anônima de Santa Cruz dizendo que uma milícia anti-Morales, de 12 mil homens, estava escondida na floresta, esperando o momento certo. O repórter do jornal nunca viu a milícia e não apareceu nenhuma prova para confirmar a fofoca".
Leia mais aqui.
Lembro que, durante a faculdade, O Globo publicou matéria sobre as novas ilhas de edição adquiridas pela UFF. No texto dizia que as sete ilhas haviam sido doadas pelo governo japonês, o que não era verdade. Segundo o diretor Antonio Serra, as ilhas foram adquiridas pelo MEC e financiadas por um banco japonês. Além dos cartazes que penduramos pela faculdade denunciando o erro e a não publicação da carta do diretor no jornal do dia seguinte, percebemos que quem conhecia de perto o alvo da reportagem do Globo, qualquer reportagem, geralmente encontrava uma dessas distorções. É o engajamento sutil, que muitas vezes passa despercebido, mas cujo resultado final a gente já conhece. Isso nesses pequenos temas. Imagine-se naqueles que envolvem os interesses da corporação... É por isso que as pessoas estão perdendo, cada vez mais, a confiança nessa mídia.
Entrevista: Eduardo Guimarães
02.10.2007 | 00h19 |

O blogueiro Eduardo Guimarães é referência na internet brasileira. Vendedor de auto-peças, começou a criticar a mídia a partir da leitura dos jornalões paulistas. Depois, passou a analisar diversos outros veículos de comunicação e recentemente reuniu uma centena de manifestantes em frente ao maior jornal do país, a Folha de S. Paulo (foto). Eduardo mantém um dos blogs mais visitados e comentados da internet (http://edu.guim.blog.uol.com.br) e agora está decidido a levar às últimas conseqüências o Movimento dos Sem-Mídia (carinhosamente apelidado de MSM). A reunião inaugural será realizada no dia 13 desse mês, em São Paulo. Mas ele reserva ao Rio de Janeiro a honra de sediar o primeiro grande ato do MSM, que será em frente à Rede Globo. Leia abaixo a pequena entrevista concedida ao Proto-Blog:
Qual a sua opinião sobre as corporações de mídia brasileiras?
Corporações midiáticas existem no mundo inteiro, mas, na América Latina - e não só no Brasil -, a regra é a de serem, antes de tudo, todas de direita, conservadoras, envolvidas até a raiz dos cabelos com partidos políticos e dadas ao golpismo. Minha opinião é a de que a desigualdade hors-concours latino-americana se sustenta primordialmente nas estruturas midiáticas que acabo de descrever.
Você pode comentar as diferenças e semelhanças entre a mídia impressa e a eletrônica e de que maneira isso se reflete no cotidiano das pessoas?
As diferenças em termos de linha editorial da parte jornalística das mídias eletrônica e impressa são desprezíveis. As mídias impressas, porém, são um pouco mais democráticas, permitem um pouquinho (inho) mais de contraditório, mas, no mais das vezes, ambas atuam sempre na mesma linha político-ideológica partidarizada. E sobre a influência disso no cotidiano das pessoas, lembremo-nos de uma cena que qualquer um que vive nas grandes cidades conhece muito bem. Saia às sete da manhã por São Paulo ou Rio, por exemplo, e em cada esquina verá, diante de bancas de jornal, aglomerações de pessoas, em geral humildes, lendo as manchetes. O brasileiro dos estratos inferiores da pirâmide social é, antes de tudo, um leitor de manchetes e um não-leitor das matérias a que elas remetem. Assim, manchetes de primeira página de jornais são um dos mais poderosos meios de comunicação do pais. Preciso dizer mais?
Você não é filiado a nenhum partido político ou grupo interessado nesse tema. Por então criticar essa mídia?
Porque o poder da mídia e a forma como ela o exerce influem nas vidas de todos. Ignorar a manipulação da sociedade por essa mídia não é apenas omissão, é um verdadeiro suicídio social das pessoas comuns, é o que a elite que mantém o país nesta situação espera das pessoas. Não criticar a mídia por essa atuação não é só omissão, é burrice, masoquismo, entreguismo.
Quais as propostas do Movimento dos Sem-Mídia?
Em poucas palavras: que ela seja usada em prol da sociedade inteira e não do bico da pirâmide social como acontece hoje. Para atingir esse objetivo, os sem-mídia não pretendem - ao menos a meu juízo - apenas se manifestar diante de meios de comunicação. Ambicionamos empreender campanhas publicitárias, editar um jornal ou revista, fazer palestras, sobretudo em escolas, universidades, sindicatos, onde nos ouçam, para tentarmos orientar as pessoas - e, principalmente, os jovens - sobre como assimilarem a informação para não serem enganadas.
Por favor, acrescente quaisquer informações que julgar relevantes.
Os sem-mídia não estão formando um movimento de massas, infelizmente. Quem pretendemos que se junte a nós são aqueles que têm espírito crítico em relação à mídia, que saibam do que estão se queixando. Pode ser um pedreiro ou um advogado, contanto que se informe, que saiba o que há de errado na mídia. Não queremos massa de manobra nem dinheiro público nem vinculação com partidos. Para obtermos êxito, precisamos de credibilidade, precisamos nos colocar acima de suspeitas. Queremos depender, financeiramente, de doações entre nós, entre os sensíveis à nossa causa e não oferecermos meios aos nossos eventuais detratores para que nos desqualifiquem por sermos partidários de políticos.
Um Abraço a você e aos seus leitores.
Protesto registrado
02.10.2007 | 00h11 |
Recebemos o emeio abaixo com críticas à nova novela das oito. De minha parte, nada tenho contra as putas - profissionais infinitamente mais íntegras que muitos políticos e jornalistas. Entretanto, fica o registro da leitora, que gentilmente nos procurou para expor sua crítica:
Escrevo este e-mail como denúncia à matéria de capa da "Revista da TV" do dia 30 de Setembro de 2007, que trata da nova novela das 20h que se intitula "Duas Caras".
Tal matéria coloca o profissional Enfermeiro em um papel de degradação moral, pois vem relatando que na novela a atriz Flávia Alessandra interpretará uma "Enfermeira" que trabalha em um hospital público durante o dia e que no turno da noite trabalha em uma casa de massagem para complementar a renda.
Gostaria de usufruir da minha liberdade de expressão e mostrar a minha indignação, dizendo que para ter a Licença de Exercício Profissional como Enfermeiro é necessário ter graduação em alguma Instituição de Ensino Superior.
Ao contrário do que paira no imaginário popular, o Enfermeiro é um profissional que pode ter sim sua autonomia e não atua como auxiliar de qualquer outra classe, mas isto é uma mentalidade que advém de todo um processo Histórico-Social-Cultural e, realmente, modificar tal fato em uma sociedade, principalmente como a brasileira, é difícil, ainda mais quando temos roteiristas de novelas desinformados e deselegantes o suficiente para denegrir uma profissão tal fundamental quanto a Enfermagem.
Este e-mail foi enviado ao jornal "O Globo", e mando agora também para "Fazendo Média" como denúncia ao desrespeito claro a uma entidade profissional que, se não é, deveria ser crime, pois expõe pessoas, profissionais, deturpando, inventando absurdos. Esta é uma tentativa simplória, admito, de mostrar a vocês o que pode ser uma matéria interessante explorando e DENUNCIANDO tais atitudes. Talvez possa ser uma posta de entrada aos leitores, fazendo destes também seres participantes da mídia.
Grata,
Desirée Simões.
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