Por Marcelo Salles - salles@fazendomedia.com

Misturar não é refinar
31.08.2007 | 03h30 |

Não sei se nas aulas de química ou de português do ensino médio, mas creio que uma delas explica direitinho a diferença entre "refinar" e "misturar". Chamar aquele casebre de refinaria é o cúmulo da forçação de barra. Todo o discurso das corporações de mídia está preocupado em construir a idéia de que a Rocinha está produzindo cocaína; um blogueiro alinhado chegou a dizer que isto é uma resposta para os que diziam que cocaína não nasce em favela. Embora títulos e subtítulos usassem a palvra "refinaria", cujo significado remete a grandes galpões e milhares de funcionários (como a Reduc, por exemplo), o interior dos mesmos textos colocava em dúvida a aposta dos editores. Lá podemos encontrar que a casa era usada para "misturar" a pasta-base por "uma espécie de químico". Tudo muito rudimentar (as fotos divulgadas mostram isso): ventiladores mal ajambrados sobre bancos de plástico, algo parecido com uma tábua de passar roupa servindo de apoio, tudo muito bagunçado. Uma das matérias diz: "Após ser misturada com fermento, a droga era secada em estufas e com ventiladores. Em seguida, era triturada num liquidificador e misturada novamente com fermento em pó. Após essa nova fase, era prensada, misturada com éter, secada e embalada para distribuição".

"Triturada com liquidificador"? Então é isso? A grande refinaria da Rocinha, essa macabra fábrica de pó que fornece droga para diversas favelas do Rio de Janeiro, utiliza um liquidificador para "produzir" cocaína? LIQUIDIFICADOR??? Só podem estar de sacanagem, com o perdão do termo. E onde é fabricada a pasta-base, senhora mídia colombina? E onde são fabricadas as substâncias químicas que a compõem: anfetamina, a dextroanfetamina e metanfetamina? Você não sabe? Pois o jornalista José Arbex Jr. já publicou na Caros Amigos há alguns anos: são fabricadas em laboratórios que participam da ciranda financeira descrita nos dois comentários abaixo. Mas isso as corporações de mídia jamais divulgarão, porque seria como atacar o sistema que elas defendem e de onde retiram seu sustento.

PS: A Rocinha é mais uma favela controlada pelo Comando Vermelho invadida pela polícia. Depois do Alemão, houve incursões em pelo menos Vigário Geral, Jacarezinho e Muquiço. Não se tem notícia de uma favela do Terceiro Comando atacada pela polícia recentemente. Inclusive, recebi uma denúncia de que a última invasão de Vigário (Comando) por bandidos da vizinha Parada de Lucas (Terceiro), teve apoio da polícia. Seria bom que a corregedoria investigasse.

Terrorismo de Estado - 2
30.08.2007 | 01h18 |

Para continuar o assunto, sirvo-me do excelente livro "Capitalismo Gângster", de Michael Woodiwiss (Ediouro). O autor concorda com as colocações do sociólogo Gilson Caroni, publicadas no comentário abaixo, que deslocam o eixo do senso comum para os verdadeiros responsáveis pelo tráfico de drogas e armas. "Enquanto a criminalidade empresarial e financeira for considerada secundária em relação ao crime organizado do gênero máfia [que aqui no Brasil poderíamos entender como o tráfico varejista de drogas nas favelas] e enquanto a criminalidade política em todo o mundo for defendida em termos de realpolitik, a economia política global estará continuamente vulnerável à atividade criminosa". Eis aí uma das possíveis causas para a crise no "mercado imobiliário" dos EUA, que agora ameaça as economias periféricas. Os caras se organizam de forma criminosa (lembremos das fraudes na Enron, Xerox e WorldCom) e as corporações de mídia arrumam mil desculpas, jamais assumindo a verdadeira razão desses escândalos: a natureza do capitalismo, que assume sua face mais cruel quando desregulamentado. Há dois ou três anos uma "jornalista de economia" foi dar uma palestra para estudantes de jornalismo na UFF. Eu estava na sala. Na época havia uma outra crise dessas e a moça a tentar explicar: "Ah, é porque teve um aumento no valor do trigo". Levantei o dedo e perguntei: "Por quê?" Ela: "Ah, porque teve uma mudança no valor do câmbio da Conchinchina". Eu: "Por quê?". Aí a moça se irritou: "Por que o quê, garoto?". Pois é, pra quem não tem argumentos resta a irritação. Em geral, esses especialistas que freqüentam as corporações de mídia não fazem muita idéia do que acontece. Um interessante livro a respeito é o "Cabeças de planilha", de Luís Nassif. Uma análise bem mais próxima da realidade é oferecida por Woodiwiss, em seu "Capitalismo Gângster": "À medida que os controles se enfraqueciam, a criminalidade empresarial organizada se tornava mais institucionalizada e destruidora". Ou seja, o livre mercado proposto por Wall Street termina na violência cotidiana das grandes cidades. O resultado da privataria do bando FHC é o fuzil na cara do trabalhador desempregado nas favelas do Brasil.

Em "Capitalismo Gângster" há uma referência a outro livro, escrito pelo sociólogo Edward Ross. A reflexão acurada surpreende pela data de sua publicação: 1907. Há um século o problema estava identificado, mas os governos insistem em ser negligentes e a mídia, em ser míope: "O novo criminoso típico da sociedade industrial era alguém que prosperava mediante "práticas [destruidoras] que ainda não chegaram a ser execradas pela opinião pública", afirma Ross. Não mudou nada; a opinião pública de hoje continua acreditando - talvez ainda mais cegamente - que o verdadeiro bandido mora na favela. Woodiwiss continua: "Os criminosos provenientes das classes mais pobres tinham pouca oportunidade de prejudicar a sociedade. Os "criminalóides" das grandes corporações, por outro lado, eram 'animais predadores' capazes de - citando Ross - 'bater milhares de carteiras, envenenar milhares de enfermos, poluir milhares de mentes ou pôr em perigo milhares de vidas' (...). E continua, novamente citando o sociólogo: "O homem que rouba dos demais ao receber propina, que mata com substâncias adulterantes em vez de um porrete, assalta com lucros ilícitos em vez de uma gazua (...) não sente na fronte a marca do malfeito (...) Como um gigante envergonhado e impotente, o público reconhece o pequeno contraventor ostensivo mais do que o grande bandido oculto". Em vez de propostas efetivas, os governantes insistem em implementar políticas repressivas. Compram Caveirões da Ford para aterrorizar o proletariado enquanto permitem a livre movimentação do capital que sustenta o ciclo da cocaína e as fábricas de fuzis.

Terrorismo de Estado continua no RJ
29.08.2007 | 02h57 |

Dois trechos do livro "O medo no Rio de Janeiro" (Editora Revan), escrito por Vera Malaguti em 2003:

"O discurso que animaliza o mal recorre a duas figuras: extermínio ou limpeza, mas tanto uma quanto a outra têm o mesmo sentido, eliminação"

"Cada vez que se designa um fenômeno social como doença, está sendo utilizada inconscientemente a idéia central do nazismo"

Infelizmente, a descrição da socióloga ainda se aplica ao nosso estado. O governo Sérgio Cabral se aproveita do discurso fascista das corporações de mídia e mantém a política de extermínio da pobreza. Ao mesmo tempo em que essa parte da população é violentamente agredida pela polícia, essa mídia diz ao povo que são eles, os pobres, que devem ser temidos. E a coisa vira um círculo vicioso; como a própria Vera Malaguti explica, o medo é sempre usado para que se possa desencadear políticas repressivas. É o caso de perguntar: quem lucra com esse estado de coisas? As empresas de segurança e consultorias de seguro, com certeza. E os veículos de comunicação onde elas anunciam também. Se é verdade que na atual sociedade a cidadania só se realiza no consumo, então a proposta é eliminar quem não consome. Consuma ou te devoro! Só nos quatro primeiros meses deste ano, essa política de segurança matou 449 pessoas, 120 a mais que no mesmo período do ano passado. Isso sem que tenha sido registrada queda no número de homicídios, roubos e furtos ou aumento na apreensão de armas e drogas. De maio a junho, só no Complexo do Alemão foram cerca de 50 mortos (incluindo os 19 da Chacina do Alemão). Depois dos Jogos Pan-Americanos, mais uns 30.

Como explicou o sociólogo Gilson Caroni Filho, ao agir dessa forma a polícia não faz nada além de enxugar gelo. Pior, enxuga uma ferida que não cicatriza e nem desaparece. Porque são os sintomas que estão sendo atacados, não as causas. Como disse o historiador e deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL), o tráfico atende a uma lógica internacional. Na matéria sobre o Complexo do Alemão que está na revista Caros Amigos deste mês, ele declara: "As armas e as drogas atendem a uma lógica internacional, não são produziadas nas favelas. A circulação dessas mercadorias gera um lucro absurdo. Esse dinheiro não está nas favelas ou com alguém que mora nas favelas ou alguém preso em Bangu". Gilson Caroni radicaliza: "Para combater o crime só combatendo o capital". Para o sociólogo, o enfraquecimento do Estado e a desregulamentação do mercado permitem que o capital procure as atividades mais rentáveis, pouco importando se elas são ilícitas. Jean Ziegler já mostrou em "A Suíça lava mais branco" que os grandes bancos são os principais parceiros desse dinheiro sujo. Segundo o Fundo Monetário Internacional, o chamado crime organizado movimenta, por ano, 750 bilhões de dólares, sendo que 500 bilhões de dólares são gerados pelo "narcotráfico" ("Acionistas do nada - quem são os traficantes de drogas", tese de mestrado do delegado Orlando Zaccone, a ser publicada pela Editora Revan).

Gilson retoma: "Então você vai ter morro cercado, gente inocente morrendo e a classe média batendo palma. O grande traficante fica incólume. Esse aí tá olhando os números da bolsa. O grande traficante está na Viera Souto, não está no Alemão, não está na Rocinha".

Já passou da hora de o governador Sérgio Cabral encarar essa realidade de frente. Sob pena de seu governo ficar marcado pelo sangue de milhares de pessoas enquanto os dólares continuam regendo este ritual macabro.

Comentário constitucional
29.08.2007 | 01h24 |

Há 19 anos os governos não cumprem os seguintes artigos da Constituição Federal:

220 - proíbe monopólio e oligopólio nos meios de comunicação social

54 - proíbe que políticos sejam concessionários de serviços públicos

223 - estabelece um sistema público de comunicação

26 - determina constituição de CPMI para investigar e promover uma auditoria na dívida pública

153 - determina a cobrança de imposto sobre grandes fortunas

Além disso, o país segue leiloando as reservas de petróleo, não fez a Reforma Agrária, não controla o fluxo de capitais e não possui uma lei clara de remessa de lucros. Nenhum desses escândalos desperta a atenção das corporações de mídia, que acreditam que o país se resume a José Dirceu, Renan Calheiros e Campeonato Brasileiro.

Dia do combate ao neoliberalismo
29.08.2007 | 01h04 |

29 de agosto, dia nacional do combate ao fumo. Aproveito a data não para encher o saco de quem fuma, mas para recomendar o filme "O Informante", com Al Pacino. Trata-se de um belo exemplo de como as corporações de mídia servem ao poder e, no caso, um poder que obtém seu lucro a partir da morte de milhões de pessoas. Há uma cena em que os diretores das companhias de tabaco juram, em juízo, que a nicotina e as outras 4.720 substâncias tóxicas (60 das quais cancerígenas) presentes no cigarro não fazem mal ao organismo. No filme, um cientista demitido de uma dessas empresas de tabaco procura Lowell Bergman, o produtor do "60 Minutes" interpretado por Al Pacino. Disposto a falar, o cientista sofre todo tipo de pressão e ameaça. Pessoas estranhas passam a vigiá-lo, falsos policiais vasculham sua casa. Seu relacionamento familiar é atingido, ele perde o seguro de saúde, a casa e o respeito da esposa. Terminam se separando. No entanto, ele continua disposto a falar. O programa é gravado, uma longa entrevista onde ele denuncia a máfia do tabaco com riqueza de detalhes. Porém, o que acontece pouco antes de o programa ir ao ar? A CBS, dona do programa "60 minutos", se vende para as corporações de tabaco. Nesse sistema, o dinheiro vale mais que a vida das pessoas.

Feliz dia do neoliberalismo! E bom combate.

Realidade de poucos porcento
28.08.2007 | 03h00 |

Na entrevista concedida ao Fazendo Media, Fausto Wolff disse que as corporações de mídia falam de uma realidade de 15%. Em artigo publicado semana passada, Luiz Carlos Azenha relata sua incursão à periferia de São Paulo. Ele mostra todas as dificuldades de quem depende de ônibus - pouco espaço, muitas viagens de pé e longa duração; intitulou o texto de "Caos na catraca". Ocorre que entre a entrevista de Wolff e a viagem do Azenha, a realidade das corporações de mídia caiu quase pela metade. Ignorando totalmente as péssimas condições dos transportes públicos usados pela maioria da população, essa mídia passou a cobrir diariamente os atrasos nos vôos. Usam alegremente o termo "apagão aéreao", pra ver se livram a cara de FHC (único presidente que conseguiu apagar o país, literalmente) a partir da tática mais cretina de todas: nivelar por baixo ou o famoso "já que eu me dei mal, levo você junto". Como mostra Azenha em seu artigo, apenas 8% dos brasileiros utilizam aviões como meio de transporte. Isso aí é o que as corporações de mídia chamam de "servir ao interesse público". Tipo quando Lula venceu Alckmin e os mesmos sabichões escreveram: "O povo votou contra a opinião pública".

Quando o MST não é notícia
28.08.2007 | 02h44 |

Alguém aí viu alguma reportagem nas corporações de mídia sobre a campanha que o MST está promovendo para arrecadar livros para as bibliotecas de seus assentamentos e acampamentos? Dê uma olhada aqui. Porque se depender da televisão aberta, rádios, jornalões e revistões, dificilmente você será informado. Ainda que esta "grande imprensa" seja a "única capaz de fazer um jornalismo livre e independente", como informou um diretor de jornalismo da televisão aberta em artigo recente.

Uma xícara de açúcar
27.08.2007 | 23h44 |

Um dia por semana tenho o inenarrável prazer de estudar filosofia no grupo de Cecília Coimbra. Em todo encontro dou-lhe um abraço apertado, uma forma de agradecer pelo convite e demonstrar a alegria que sinto por ter sido convidado pela própria. Comecei a freqüentar o curso em fevereiro deste ano e dos quase 30 encontros faltei a apenas um, justamente por estar na Favela Canal do Anil, onde dormi no dia seguinte à invasão da Prefeitura do Rio - que terminou sendo rechaçada pelos moradores e parlamentares como Eliomar Coelho (PSOL), Edson Santos (PT) e Brizola Neto (PDT), além do procurador Leonardo Chaves e da defensora pública Maria Lúcia Pontes [leia a matéria aqui].

Nesses encontros filosóficos, sempre fazemos café. Aconteceu que outro dia não havia açúcar no apartamento, e acabei tomando o café sem açúcar, já que não gosto de adoçante. Depois, conversando com minha irmã, ela perguntou: "ué, por que você não pediu no vizinho uma xícara de açúcar?" De fato, por que eu não havia lembrado deste pequeno detalhe? No encontro seguinte, mesma coisa: sem açúcar. Aí fui ao vizinho pedir uma xícara de açúcar, como faziam antigamente na roça (pelo menos meu pai assim conta). Meus colegas de curso ficaram assustados, eu mesmo me senti diferente. Afinal, nesta época de edifícios masters, não é muito usual conhecer os vizinhos. Em algum momento da história ficou mais difícil, por vezes até constrangedor, entrar em contato com uma outra subjetividade. Eduardo Galeano diz que existe um sistema de poder que nos ensina a temer o outro. Mas fui em frente.

Chegando lá, cinco metros depois da porta, nem precisei tocar a campainha. Uma jovem sorridente recebia um convidado; o apartamento vizinho estava em festa! Violão, triângulo e uns batuques davam o ritmo; cerca de quinze pessoas bebiam, conversavam e cantavam alegremente. Eu nem tive tempo de me apresentar e a jovem já me puxou pelo braço. "Entra, entra!". Entrei e logo expliquei que não estava ali pela festa, mas porque nosso açúcar havia acabado. Aí ela comentou com uma amiga: "Ele é nosso vizinho e quer uma xícara de açúcar. Ih, acho que a gente também está sem. Serve mel?".

De volta ao grupo, voltei a tomar o café sem açúcar - mas confesso que ele já não amargava tanto.

Só um toque
27.08.2007 | 22h13 |

Uma das ONGs que eu considerava séria, que faz trabalhos em favelas, está cada vez mais capturada pelo sistema. Enquanto flerta com jornais reacionários - legitimando-os -, deixam de lado pessoas que contribuiram - e muito - para fazer com que ela alcançasse a expressividade de que hoje desfruta.

Cabe destacar um trecho da conclusão da monografia de Mariana Vidal, integrante do Fazendo Media, recentemente aprovada com nota 10,0 no curso de Jornalismo da Universidade Federal Fluminense e indicada para uma bolsa de mestrado. Seu trabalho analisou o tratamento que o "Globo" dispensa ao Caveirão: "Cientes da manipulação e do controle da opinião pública por estes grandes veículos, é imprescindível para a longevidade de qualquer movimento social a inclusão da democratização da comunicação em suas pautas de reivindicação. A criminalização da pobreza e a conseqüente apologia do Caveirão seguirão espelhadas nas telas e estampadas nas bancas até que os meios de comunicação seja, de fato, populares e democráticos".

Pra ver se os grupos que atuam em favela, assim como aqueles que lutam por igualdade étnica ou de gênero, e todos os outros grupos que lutam por qualquer outra coisa, decidem se vão ficar satisfeitos em resolver seus problemas particulares ou se querem a transformação do sistema político-econômico que aí está. A questão que estou colocando precisa ser pensada pelos movimentos sociais, sindicais e estudantis. Eles precisam discutir isso todos os dias, sob pena de ver suas bandeiras elevadas agora e enterradas num futuro próximo - dependendo apenas da vontade do inimigo. Os quilombolas já entenderam isso e partem para a vanguarda da luta política; em outubro, promoverão um grande ato contra a renovação das concessões públicas de radiodifusão.

Ou alguém acredita que uma corporação que apoiou um golpe que seqüestrou, torturou e assassinou milhares de brasileiros; uma corporação que apóia a invasão do Iraque; uma corporação que apóia a ditadura que impera nos EUA, onde não mais existe habeas corpus e todos os cidadãos podem ser vigiados pelo governo; alguém acredita que essa corporação pode estar ao lado da libertação do povo brasileiro?

E aí, o Rio está mais seguro?
26.08.2007 | 20h50 |

Policiais militares e bombeiros organizaram protesto na manhã de hoje, em Ipanema, pedindo melhores salários. O governo Sérgio Cabral quer conceder apenas 4%, o que é um desrespeito com o trabalhador da Segurança Pública. Do mesmo modo que é um desrespeito oferecer este mesmo aumento para os trabalhadores da Educação e da Saúde. Essa é a política desse governo; gasta o dinheiro que for para comprar armas mais modernas, mas não é capaz de pagar um salário digno ao policial. Para piorar, o governo Sérgio Cabral implementa uma política de terrorismo de Estado nas favelas do Rio de Janeiro, como temos denunciado no Fazendo Media há pelo menos seis meses. Desde o final dos Jogos Pan-Americanos, cerca de 30 pessoas já foram mortas em incursões policiais (em trocas de tiro, segundo a polícia, e execuções, segundo moradores). E aí, o Rio de Janeiro está mais seguro agora?

Governador tucano é cassado
26.08.2007 | 19h33 |

Faltou às corporações de mídia aquela fúria cívica na divulgação da cassação do mandato do governador da Paraíba Cássio Cunha Lima. Deve ser coincidência o fato de o moço tenha sido eleito pelo PSDB. Imagine você, caro amigo, prezada amiga, o escândalo que fariam se um governador de um partido de esquerda fosse cassado por crime eleitoral. E depois falam em liberdade de imprensa, em espaço igual para todos, em imparcialidade, em servir ao público e outras belas mentiras que dizem defender.

Na semana passada, o PCB ingressou no TRE da Paraíba com um pedido de convocação de novas eleições gerais no Estado (para Governador, Senador, Deputado Federal e Estadual), sem a participação do cassado. "Com isto, estamos questionando a decisão de dar posse ao segundo colocado, não só porque contra ele também correm na justiça denúncias de crime eleitoral. Defendemos a tese de que o processo eleitoral na Paraíba foi todo contaminado pelo uso da máquina pública e do poder econômico. Só o candidato cassado distribuiu ilegalmente, com recursos públicos, 35.000 cheques a eleitores", afirmou em nota o secretário-geral do partido, Ivan Pinheiro.

Ele contrariou a imprensa
26.08.2007 | 04h30 |

Trechos do preâmbulo do voto do ministro do Supremo Tribunal Federal Eros Grau, durante julgamento daquilo que se convencionou chamar de "mensalão". Leia a íntegra aqui, direto da página do STF.

Aqui devo cumprir o meu dever, preservando minha independência, expressão de atitude firme e serena em face de influências provenientes do sistema social e do governo. Independência que permite ao juiz tomar não apenas decisões contrárias a interesses do governo - quando o exijam a Constituição e a lei - mas também impopulares, que a imprensa e a opinião pública não gostariam que fossem adotadas.

A sociedade e mesmo a imprensa não o sabem, mas o magistrado independente é autêntico defensor de ambos. É mercê da prudência do magistrado independente que não resultam tecidas plenamente, por elas mesmas, as cordas que as enforcarão, as elites e a própria imprensa.

Navegando por aí
26.08.2007 | 03h30 |

Vale a pena ouvir a rádio Café Brasil, de Luciano Pires. Fazia tempo que eu não entrava lá, confesso, e hoje percebi que estava perdendo. O Luciano conseguiu criar um excelente programa de rádio pela internet, onde mistura música com notícia e esta com opinião inteligente. O endereço é www.lucianopires.com.br/cafebrasil. Recomendo, particularmente, o podcast sobre a loucura.

O que pensa Fidel?
25.08.2007 | 23h04 |

"A publicidade comercial e o consumismo são inconciliáveis com a sobrevivência da espécie" (Fidel Castro, presidente de Cuba)

Ao público das corporações de mídia não é dado o direito de discordar do pensamento de Fidel Castro, porque simplesmente seu pensamento não é divulgado. Em vez disso, o respeitável público pode apenas julgar Cuba pela imagem distorcida que lhes é oferecida. Porque esse é o desejo das grandes empresas de comunicação. Não porque Cuba seria uma ditadura, conforme pregam jornalões, rádios e televisões. Mas porque o modelo cubano não aceita o consumismo desenfreado de poucos, se isso significar a fome de muitos. Porque Cuba mostra que mesmo debaixo de bloqueio econômico e dispondo de pouquíssimas riquezas naturais é possível acabar com o analfabetismo e ter uma das melhores medicinas do mundo. Além disso, a História ensina que esses mesmos veículos de comunicação apoiaram a ditadura de 64 no Brasil, assim como apóiam a ditadura na Arábia Saudita e a ditadura de Bush, onde não existe mais hábeas corpus desde outubro do ano passado e qualquer cidadão pode ser vigiado, perseguido e torturado pelo governo.

Vale a pena acompanhar os artigos de Fidel pela Caros Amigos ou pela Prensa Latina, agência de notícias criada por Che Guevara. Aliás, foi neste endereço (www.prensalatina.com.br/RESUMEN%20ago-07.html#10) que li a citação que abre este comentário.

Curiosidade: Ho Chi Minh e Gandhi também criaram jornais.

"Vargas nunca foi de esquerda"
25.08.2007 | 22h13 |

A propósito do comentário abaixo sobre Getúlio Vargas, escreve-me Neylor Ferreira, estudante de História da UFF. Achei importante publicar sua opinião na íntegra para fomentar este importante debate:

Marcelo, você sabe que Vargas nunca foi de esquerda. Se a fração hegemônica da burguesia brasileira (sócia menor do imperialismo e ligada ao capital externo) não quer a liberdade do trabalhador, tampouco a burguesia dita "nacionalista" ou "progressista" teoricamente ligada a Getúlio (tão exaltada pelo esquema etapista do PCB e pela esquerda nacionalista nos anos 60) pretendia emancipar a classe trabalhadora. Ainda que o país tivesse se desenvolvido com menor concentração de renda, reforma agrária e etc., a exploração e a opressão continuariam, talvez em escalas diferentes! Substituir-se-ia um tipo de burguesia para favorecer o crescimento de outro tipo. É claro que, não sendo sectário, vejo as vantagens dessa forma de desenvolvimento integrado e com vistas a atender a determinadas demandas históricas e das conquistas obtidas com as lutas sociais. Mas também não podemos nos esquecer, nunca, que a nossa luta é contra o capital e pela emancipação humana. Ainda que tenhamos pela frente setores que possam auxiliar nesse caminho a depender da situação concreta e da correlação de forças, não podemos perder de vista o objetivo final. O capital sempre vai continuar sendo capital, seja ele direcionado para o desenvolvimento interno ou para atender exclusivamente aos interesses do imperialismo. Se nos deixarmos levar por essas ilusões desenvolvimentistas corremos o risco de ver o que poderia ser uma esquerda radical e lúcida se transformar em uma social-democracia ao melhor estilo da social-democracia alemã da República de Weimar ou em um PT (levando em conta as particularidades de cada caso). Mais uma vez, faço questão de frisar que não devemos ser sectários e abrir mão das lutas parciais e das conquistas que elas podem trazer; a grande questão, e ela não é nem um pouco nova, é como conciliar a atuação política prática, com todos os seus limites, com o fim a que pretendemos alcançar. Acho que esse é um debate importante na esquerda.

Bom, como isso era pra ser só um comentário, volto à Getúlio Vargas. Não acho que ele deva ser uma referência para a esquerda e nem que realmente quisesse tornar o trabalhador livre.

Bom, encerro dizendo que compreendo que ele é um personagem muito significativo e deve, sem sombra de dúvidas, ser lembrado. Não tive a intenção de criar um mal-estar e ou criticar a sua postagem, apenas acho que a esquerda deve debater melhor alguns temas. E só o fato da sua postagem ter suscitado em mim a vontade de escrever o que escrevi, acho que valeu a pena. Também não quis dar nenhuma aula nem parecer pedante.

E concluindo, o Fazendo Media está de parabéns na resistência contra o monopólio privado da comunicação. Desculpe se pareci arrogante, não foi a minha intenção.

"Globo" apóia genocídio no Iraque
24.08.2007 | 03h35 |

Em editorial de hoje, o "Globo" afirma: "A questão é como os EUA e as forças iraquianas com que Washington pode contar devem proceder para que se caminhe no sentido de aumentar a segurança, desarmar bombas e ódios sectários, e construir pontes entre grupos políticos, facções inimigas e clãs rivais". Ou seja, o "Globo" naturaliza a invasão do Iraque pelos EUA. É a legitimação irrestrita da intervenção de um país sobre outro, sem autorização da ONU. Para o "Globo" pouco importa o direito consagrado de auto-determinação dos povos. Ao dar esse tratamento a esta questão, o jornalão carioca contribui para o prosseguimento dos seqüestros, torturas e assassinatos cometidos pelo regime terrorista de Bush, cujo objetivo é roubar o petróleo do Oriente Médio.

"Não querem que o trabalhador seja livre"
24.08.2007 | 02h30 |

Hoje completam 43 anos desde a morte de Getúlio Vargas. Vale a pena reler e meditar sobre sua Carta-Testamento, que ilustra com clareza e contundência a opressão imperialista contra o povo brasileiro, que ainda hoje se faz presente. Opressão esta compreensivelmente omitida pelas corporações de mídia, mas do conhecimento de cada vez mais brasileiros que procuram se informar pelas mídias alternativas. Em tempo: Vargas foi vítima de intensa campanha difamatória da mídia, mas em vez de ceder diante dos ataques, viabilizou a criação de um jornal popular - Última Hora - para fazer a disputa política.

"Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes. Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao Governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar a liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma".

Leia aqui a íntegra da Carta-Testamento.

A questão da saúde é política
24.08.2007 | 01h40 |

Para alguns é muito difícil enxergar dois ou três palmos além do próprio nariz. No programa Espaço Público, da TVE, que ainda está acontecendo enquanto escrevo, só faltaram agredir fisicamente a presidente do Conselho Regional de Medicina do RJ (Cremerj). A apresentadora e um dos convidados esperam que os médicos sejam super-heróis. Pensam assim: "Entendemos as dificuldades, as condições precárias de trabalho, sabemos que as reivindicações são justas. Mas não concordamos que o médico abandone seu posto de trabalho se isso for resultar na morte de alguém". Não adiantou que a presidente do Cremerj explicasse que todos os secretários de saúde são avisados dos problemas desde 1993. Não adiantou que ela explicasse e demonstrasse por A + B que o problema é político. Os cães de guarda do moralismo udenista repetiam com os olhos em faísca: "O médico não pode deixar de salvar vidas". É impressionante a que ponto a mediocridade pode chegar. No final, para concluir, a besta quadrada ainda disse que a medicina, "por ser emergencial", é mais importante que o jornalismo. Porque o médico lida com "vida e morte". Não sabe o imbecil, embora seja professor de jornalismo, que a produção de subjetividade das corporações de mídia pode determinar a complacência com genocídios (como, aliás, acontece nesse instante no Iraque e no Afeganistão). Se fosse muito difícil entender isso, bastava lembrar que uma campanha de mídia contra a dengue pode salvar várias vidas. Entre outras coisas. Mas nesses tempos de imediatismo e lógica binária, é realmente complicado enxergar dois ou três palmos adiante.

O problema é o neoliberalismo
23.08.2007 | 01h30 |

Trechos do livro "Prisões da miséria", do sociólogo francês Loïc Wacquant (dica do leitor amigo Luís de Gonzaga Mendes):

"A penalidade neoliberal apresenta o seguinte paradoxo: pretende remediar com 'mais Estado' policial e penitenciário o 'menos Estado' econômico e social que é a própria causa da escalada gereralizada da insegurança objetiva e subjetiva em todos os países" (...) "Essa violência polícial inscreve-se em uma tradição nacional multissecular de controle dos miseráveis pela força, tradição oriunda da escravidão e dos conflitos agrários, que se viu fortalecida por duas décadas de ditadura militar" (...) "É o estado apavorante das prisões, que parecem mais com campos de concentração para pobres, ou com empresas públicas de depósito industrial dos dejetos sociais, do que com instituições judiciárias servindo para alguma função penalógica".

Sim, ele estava falando do Brasil.

Latuff x Imperialismo
22.08.2007 | 00h49 |

A fotografia acima foi tirada no campo de refugiados palestinos de Badawi, no Líbano. Trata-se de uma ilustração de Carlos Latuff, mais uma a correr o mundo em solidariedade aos povos agredidos pelo imperialismo dos EUA - violência que conta com amplo apoio das corporações de mídia. Leia aqui a entrevista exclusiva com Latuff.

A que ponto chegou o OI
21.08.2007 | 23h40 |

Certas coisas são inacreditáveis. Não é que a Miriam Leitão ganhou um programa inteiro de bajulação? É... Parecia até a versão jornalística daquele "Arquivo secreto" do Domingão do Faustão: perguntas elogiosas intercaladas com depoimentos de fazer chorar. A que ponto chegou o Observatório da Imprensa na TV...

PS: Na internet, o OI continua promovendo bons debates e publicando excelentes artigos. Uma pena que todo esse potencial também não esteja sendo aproveitado na televisão aberta.

"Sou classe média"
21.08.2007 | 23h33 |

Bate-papo na FACHA
21.08.2007 | 05h46 |

Quero agradecer ao professor Paulo César Guimarães pelo convite para participar de um bate-papo com seus alunos de Técnica de Reportagem, na FACHA (Rio de Janeiro). Muitas curiosidades e inquietações a respeito da reportagem sobre o Complexo do Alemão, publicada na edição deste mês da revista Caros Amigos (queriam saber se foi difícil subir, se tive problemas para fazer fotos e etc.). Foi um debate agradável, na minha opinião. Num dos momentos mais interessantes, uma menina ficou assustada quando eu disse que o Rio de Janeiro é apenas a vigésima terceira cidade mais violenta do país, segundo o IPEA. "Não, é a primeira", ela afirmou. Não, quem faz essa construção é a mídia. Na hora tinha esquecido, mas pesquisei: o município de Serra, no Espírito Santo, é o mais violento. Recife e Salvador estão entre as cinco mais violentas. No fim das contas, fiquei com a sensação de ter acrescentado alguma coisa.

Onde está a violência?
21.08.2007 | 05h17 |

Primeira frase do editorial do Globo de hoje: "Embora seja uma doença urbana disseminada pelo país, a favelização virou a cara do Rio". Com Cecília Coimbra aprendi que as construções imagéticas das corporações de mídia têm como objetivo transmitir a idéia de que a violência está com a favela. Não, diz a professora da UFF. A violência está com o Estado e, acrescento, com as corporações privadas. Como disse Carlos Lessa em entrevista à Caros Amigos (dezembro de 2005, se não me engano): "A favela não é problema, a favela é solução". Duas curiosidades: 1) O Globo realmente parece acreditar que o governador, o secretário de segurança e o comando da PM não são responsáveis pela situação que seus repórteres apresentam. 2) O jornalão levou apenas 22 anos para notar que ainda vivemos numa ditadura. Falta apenas identificar sua natureza, o que o Globo jamais fará sob pena de auto-incriminação.

Nota da Agência Brasil
21.08.2007 | 04h55 |

Emissoras de rádio e TV têm 60 dias para se recadastrar

O Ministério das Comunicações irá recadastrar cerca de 3,5 mil entidades que prestam serviço de radiodifusão no país. Todas as concessionárias, permissionárias e autorizadas a prestar serviço de radiodifusão sonora e de imagens terão 60 dias para se recadastrar.

De acordo com a assessoria do ministério, o objetivo da medida é atualizar alterações contratuais e de composição dos quadros societários das entidades detentoras de outorgas de rádio e TV no país.

Serão solicitadas informações como composição do capital social, do quadro diretivo, nomes dos procuradores com poderes de gerência e administração, endereço da sede social e denominação de nome fantasia.

Segundo o Ministério das Comunicações, as entidades que não cumprirem o prazo ficam sujeitas a Processos de Apuração de Infrações.

Tropa de Elite
21.08.2007 | 04h29 |

Acabo de assistir ao filme "Tropa de Elite", baseado no livro "Elite da Tropa" (Objetiva, 314 páginas). Comprei o DVD num camelô em Icaraí por R$ 5,00. Alguns amigos ficaram assustados, "poxa, você financiando a pirataria?". Exatamente. Eu - e a torcida do Flamengo - financio a pirataria, mas não financio a máfia engravatada. No dia em que nosso salário mínimo puder garantir a sobrevivência digna do trabalhador, no dia em que metade do povo não estiver desempregada ou sub-empregada, aí a gente volta a discutir "pirataria". "Tropa de Elite", de José Padilha, é um filme importante de ser visto. Ele retrata a visão de um capitão do BOPE, grupo de elite da PM carioca, sobre a violência na cidade. A montagem está muito bem feita e os diálogos bem construídos, o que resulta numa boa adaptação. Entretanto, achei que o roteiro se perdeu um pouco do meio para o final e a captura e posterior assassinato dos ongueiros por traficantes varejistas ficou forçada (essa parte não existe no livro). Parece que o roteirista quis se vingar dos estudantes, até porque eles são estereotipados como "riquinhos-viciados-imbecis" durante todo o filme. De fato, muitos são assim. Muitos, mas nem todos. Do mesmo modo que existem policiais corruptos e policiais honestos. Por fim, quero deixar registrado um ponto que considero particularmente grave: como eu já havia escrito na resenha do livro, o mais grave nessa história é a pena de morte decretada pela polícia ser encarada com naturalidade, o que até pode fazer sentido na lógica desse sistema, mas nos insere num contexto de fascismo social.

Acrescentado às 13h40: No filme, a interferência da mídia nas questões de segurança pública não é discutida. Por outro lado, no livro temos trechos como esse da página 51, onde os autores registram o uso do BOPE "pela política de propaganda do governo, que delega à mídia as decisões sobre nossas prioridades".

Nota do Partido Comunista Brasileiro
21.08.2007 | 04h01 |

Antes da realização dos Jogos Pan-Americanos, no Rio de Janeiro, houve uma ofensiva articulada dos governos federal, estadual e municipal para derrubar todas as casas da comunidade do Canal do Anil, vizinha à chamada Vila do Pan, que era o centro de gravidade do evento internacional. Foi uma conjugação de interesses, para "unir o útil ao agradável": ao mesmo tempo em que procuravam esconder a pobreza e dar impressão de segurança, contemplavam-se os interesses da especulação imobiliária, que está de olho vivo naquela área, cada vez mais valorizada.

Como se anunciou, a medida era uma das exigências da delegação norte-americana ao governo federal, para dar segurança a seus atletas. O Ministro dos Esportes (do PCdoB) liberou R$3 milhões para a Prefeitura promover a remoção dos moradores e a demolição das 242 casas (O Globo, 18/08/07).

Na mesma matéria, sob o título "Fita mostra deputados impedindo demolições", o jornal tenta incriminar parlamentares que foram ao local dar solidariedade ativa aos moradores, agindo corretamente, tanto em termos políticos como jurídicos, já que não havia mandado judicial que respaldasse a desocupação e a demolição das casas. Na verdade, o episódio faz parte da ofensiva pela criminalização dos movimentos sociais.

O mais grave é que a "denúncia" do jornal tem como fontes declaradas "uma fita de vídeo à qual O Globo teve acesso" e "um relatório reservado da Assessoria de Assuntos Internos da Guarda Municipal que acompanha a fita". Em verdade, a tal Assessoria de Assuntos Internos, por ironia, não passa de um serviço de espionagens externas.

O PCB apóia a atitude dos deputados federais Edson Santos (PT) e Brizola Neto (PDT) - "acusados" pelo órgão oficial da direita - e de outros parlamentares "esquecidos" pela matéria, como o vereador Eliomar Coelho e o deputado estadual Marcelo Freixo (ambos do PSOL), que pessoalmente respaldaram a heróica resistência dos moradores do Canal do Anil, que contou também com a solidariedade militante de diversas organizações e entidades progressistas.

Finalmente, conclamamos a OAB-RJ, o Ministério Público, a Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro e outras instituições a apurarem com rigor a promiscuidade entre o governo municipal e aquele jornal, neste conluio político-partidário em que se evidenciam vários delitos como informação privilegiada, uso da máquina pública e até falsidade ideológica, pois um dos subtítulos da matéria é "Ilegal. E daí?", apesar de o direito dos moradores a suas casas estar hoje legalmente garantido por liminar concedida pela Segunda Vara de Fazenda Pública.

Em nome da coerência
20.08.2007 | 05h07 |

"Fugiu Goulart e democracia está sendo restabelecida" (O Globo, 01/04/1964)

"Este não foi um movimento partidário. Dele participaram todos os setores conscientes da vida política brasileira, pois a ninguém escapava o significado das manobras presidenciais. Aliaram-se os mais ilustres líderes políticos, os mais respeitados governadores, com o mesmo intuito redentor que animou as Forças Armadas. Era a sorte da democracia no Brasil que estava em jogo. A esses líderes civis devemos, igualmente, externar a gratidão de nosso povo." (O Globo, 02/04/1964)

Duas do The Globe
19.08.2007 | 01h59 |

No jornal de ontem, The Globe volta a clamar pela destruição das casas do Canal do Anil. Com chamada na capa, o jornalão "acusa" os deputados federais Brizola Neto (PDT) e Edson Santos (PT) de terem impedido o trabalho da Prefeitura. Não sem espanto constatei 3 páginas de anúncios de grandes empreendimentos imobiliários na região do Canal do Anil. Só no primeiro caderno. Fizemos uma matéria a respeito dessa invasão da Prefeitura do Rio de Janeiro - leia aqui. E se você vasculhar a seção "Política", vai achar outras matérias que mostram a ligação das corporações de mídia com essa política demolidora do prefeito neoliberal César Maia.

A segunda do The Globe está na edição de hoje. Trata-se da série de reportagens que começam a ser divulgadas neste domingo, sob a vinheta "Os brasileiros que ainda vivem na ditadura". A julgar pelos textos de hoje, os repórteres Carla Rocha, Dimmi Amora, Fábio Vasconcellos e Sérgio Ramalho estão de parabéns. Deram espaço, ainda que reduzido, para Cecília Coimbra e não deixaram de mostrar que tanto os bandidos quanto as mal chamadas milícias e a própria polícia são os responsáveis pelo terrorismo praticado nas favelas. Contudo, esse belo esforço de reportagem fica prejudicado quando o editor da primeira página seleciona um título como "Tráfico impõe leis de exceção para 1,5 milhão de cariocas" e traz no subtítulo "Direitos básicos são violados todos os dias; há 7 mil desaparecidos no Rio". Como sabemos, a grande maioria das pessoas lê apenas o título que, nesse caso, não contempla a essência da reportagem. Fora isso, um último comentário: The Globe levou apenas 22 anos para perceber que ainda não vivemos numa democracia.

Economistas de sotaque paulista
19.08.2007 | 00h42 |

Sei não, mas a cobertura das corporações de mídia sobre a queda da bolsa parece ter um fundo de mea-culpa. Talvez porque seus cadernos de economia - todos fundamentalmente iguais - vivam a repetir o mantra: não há outro caminho. E dentro do único modelo que aceitam, fazem o povo acreditar que o irreal é real e que essa ilusão pode ser mantida por toda a eternidade. Nada de discutir modelos alternativos, ainda que dentro do sistema capitalista - há outros, muitos outros. E quando o cidadão que investiu em ações começa a perder dinheiro, surgem os economistas (geralmente com sotaque paulista) para explicar: "ação é investimento de médio e longo prazo. Não tire seu dinheiro agora, se não você vai realizar a perda". É essa mesma turma que tenta convencer os outros de que é possível viver com um salário de R$ 380,00. Fossem minimamente sinceros, pelo menos assumiriam que não fazem idéia do que estão falando e que o cidadão não tem o menor controle sobre o sobe e desce da bolsa de valores e o dinheiro lá aplicado; quem controla isso é uma máfia internacional. Mas como não conseguem admitir sua incompetência, os tais economistas passam o tempo a discursar sobre o nada. "Houve um certo nervosismo na bolsa de Nova York que se espalhou pelas principais economias do mundo, com reflexos no Brasil". Ou seja, não disse porra nenhuma.

Sim, ele é de carne e osso
19.08.2007 | 00h29 |

Toco a campainha. Cinco segundos depois ele abre a porta e me cumprimenta com um aperto de mão. Sua mão parece real, mas para ter certeza, toco seu braço. Não satisfeito, dou-lhe um abraço. Sim, ele é de carne e osso.

O personagem em questão é José Ricardo, filho de Cecília Coimbra. Quando estava presa pela outra ditadura, um guarda se assustou quando viu a foto de José Ricardo em suas mãos. Cecília conta que o soldado perguntou-lhe, sério: "Ué, comunista pode ter filho?". Na época, muitos pensavam como esse soldado. Até que ponto os meios de comunicação de massa são responsáveis por essa alienação? Melhor: até que ponto a concentração ideológica da mídia de massa em poucas mãos é responsável por essa distorção da realidade? O jornal que hoje chama os blogueiros de macacos apoiava a ditadura política, do mesmo modo que hoje apóia a ditadura de mercado. Maria Rita Khel, no documentário Muito Além do Cidadão Kane: "A TV Globo conseguiu, melhor do que qualquer sistema opressor, alterar a consciência do brasileiro sobre sua própria condição".

Você duvida que hoje em dia também possam existir realidades fabricadas? E consensos forjados? E percepções moldadas por encomenda? Que tal examinarmos o termo "traficante", como fez o delegado Orlando Zaccone em sua dissertação de mestrado em criminologia? Ele estudou o emprego do termo por editoriais do jornal O Globo e chegou à seguinte conclusão: a construção violenta conferida pelos textos do Globo não corresponde à realidade, pois cerca de 90% dos traficantes presos NÃO são violentos. Veja, isto está sendo dito por um delegado, que todo santo dia entra em contato com essas pessoas. Em vez do sujeito mau, cruel, assustador, ele encontra um ser humano. Não que o sujeito não tenha cometido um erro, mas há uma diferença enorme entre a realidade e esse demônio construído pelas corporações de mídia.

Acrescentado às 11h50: Há ainda um desdobramento perverso. Ao pautar a favela apenas pelo viés da violência, as corporações de mídia acabam associando todo e qualquer morador dos espaços populares aos bandidos. É o "estigma de lugar do mal", como disse o diretor do Raízes em Movimento Alan Brum, para a reportagem publicada na Caros Amigos deste mês. Mesmo que apenas 0,2% dos moradores estejam envolvidos com o tráfico varejista, segundo a própria polícia, a construção midiática faz parecer que todo morador de favela é potencialmente bandido. Isso é uma grande sacanagem e uma puta mentira. E o efeito no imaginário coletivo não é muito diferente daquele causado pela história de que comunista não pode ter filho.

Zé Dirceu na berlinda
19.08.2007 | 00h25 |

Folha de S. Paulo e Veja bateram pesado no ex-ministro José Dirceu. O jornal, na edição de hoje, traz longa reportagem assinada por Rubens Valente que publicou até o valor do terreno da casa que Dirceu tem em Vinhedo, no interior de São Paulo. Além disso, a sucursal de Brasília do jornalão traz matéria sobre o julgamento de Dirceu no Supremo Tribunal Federal. E a revista, em sua edição deste final de semana, também atacou o ex-ministro - via coluna de Diogo Mainardi. Contra este, Dirceu se defendeu em seu blog (www.zedirceu.com.br).

Estadão malandrão
19.08.2007 | 00h23 |

Pra quem não viu ainda, aí está o vídeo da campanha do novo sítio do Estadão. Os marketeiros malandrões acreditaram que iriam se dar bem ao divulgar o produto atacando os blogs. Se deram mal. Primeiro porque ter muito dinheiro e centenas de funcionários não dá credibilidade a ninguém; fosse assim, as informações da TV Globo seriam imbatíveis e, no entanto, essa emissora distorceu e omitiu notícias para apoiar a ditadura que seqüestrou, torturou e matou milhares de brasileiros. A segunda reação desencadeada pela genialidade dos marketeiros foi uma campanha de boicote às assinaturas do Estadão. Leia mais sobre o assunto aqui e aqui.

A violência de Sérgio Cabral continua
18.08.2007 | 23h22 |

Maurício Campos (de calça jeans clara), da Rede Contra a Violência, acompanhado de moradores e familiares de vítimas da violência no Jacarezinho, favela da Zona Norte onde vivem cerca de 80 mil cariocas. Bati esta foto hoje à tarde numa rua próxima à Praça da Concórdia. De acordo com os moradores, o Caveirão costuma passar por ali.

As mesmas coisas que ouvi no Complexo do Alemão foram ditas pelos moradores do Jacarezinho: "a polícia entra atirando", "tenho mais medo da polícia do que dos bandidos" e "estão fazendo terrorismo com quem mora na favela". Foi particularmente muito duro ouvir o depoimento de Maria Luiza da Silva, mãe de Lincoln da Silva Rezende, morto aos 18 anos por disparos da polícia, segundo disseram todos os doze moradores que ouvi. Sua expressão era a de quem carregava toda a dor do mundo; foi difícil olhar as lágrimas em seus olhos sem chorar também. Ao mesmo tempo, assusta sua determinação em levar essa denúncia adiante, sobretudo nesse momento em que a grande maioria se omite com medo das ameaças.

Há outra informação dramática daquelas pessoas: na quarta-feira, durante a invasão da polícia que deixou três mortos, os moradores que tentavam socorrer as vítimas eram ameaçados pela polícia. Isso me lembrou a forma de agir do Exército de Israel contra os palestinos, conforme explicam os livros e artigos de José Arbex Jr. e Georges Bourdoukan.

Ainda vou publicar uma reportagem sobre essa ida ao Jacarezinho, mas quero deixar registrado, desde já, o que ouvi de Lúcio Elias dos Santos, que trabalha na ONG Saúde e Cidadania, no Jacarezinho: "O maior culpado pelo Caveirão entrar nas comunidades, só tem um culpado: Sérgio Cabral".

PS: Não deve ser coincidência, não pode ser coincidência. Mas foi anunciado hoje que o governo Sérgio Cabral cortou R$ 35 milhões na verba da UERJ. Em sua lógica perversa, é melhor investir em repressão do que em educação.

Manchete possível (mundo animal)
18.08.2007 | 03h18 |

"Depois de organizar concurso de cachorros, empresário realiza encontro de chipanzés"

14.502 páginas visitadas num dia
18.08.2007 | 01h21 |

Foi neste 14 de agosto que registramos esse surpreendente número. A média estava entre cinco e seis mil páginas visitadas por dia e algo em torno de dois mil visitantes únicos por dia, mas no dia 14 os internautas ficaram mais curiosos e resolveram vasculhar o fazendomedia.com. Que voltem sempre! Enquanto as mídias alternativas crescem, jornalões e revistões perdem assinaturas.

Ó, dúvida cruel
18.08.2007 | 00h59 |

Só pra ter certeza: mesmo com atores globais e a Ivete Sangalo, que já lotou o Maracanã (e com ingresso pago), o movimento Cansei só conseguiu juntar 2 mil pessoas na Praça da Sé, segundo a PM, ou 5 mil de acordo com seus organizadores? Ok, era só pra ter certeza.

Como é bom ser ditador no Brasil
18.08.2007 | 00h50 |

Veja você como é bom ser um presidente lesa-pátria no Brasil. Você faz um governo empenhado em entregar de mão beijada o patrimônio público da nação e depois ainda perambula por aí dando entrevistas e palestras na maior tranquilidade. Na Bolívia, o presidente vendilhão, Sanchez de Lozada, teve que se esconder em Miami, onde vive até hoje. Fugimori teve que fugir do Peru. Entre outros exemplos. Mas aqui no Brasil, não. Do mesmo modo que o ditador militar Figueiredo curtiu uma aposentadoria tranquila, Fernando Henrique Cardoso segue por aí desfilando sua arrogância. Ah se essa palhaçada fosse na Cinelândia...

Secura jornalística
18.08.2007 | 00h41 |

Uma das corporações que controlam o duopólio de notícias pelo rádio estava discutindo o clima seco no Centro-Oeste e no Sudeste. O jornalista entrevista uma especialista no assunto e os dois passam a dar dicas para a população contornar os problemas da baixa umidade relativa do ar. Lá pelas tantas, o coleguinha vira e comenta: "também é importante o usar aqueles aparelhinhos desumidificadores, não?". A entrevistada: "Claro, com certeza". E toca o barco...

A culpa é do Estado?
18.08.2007 | 00h37 |

Recomendo a leitura da entrevista concedida à Carta Maior pelo economista Márcio Pochmann, novo presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. Um trecho: "O país tem um Estado raquítico. Apenas 8% da mão de obra ocupada pertence ao Estado. Nos Estados Unidos, são 18%. Na Europa, 25%. Na Escandinávia, 40%. Espanha e Portugal tem cerca de 20%". E os setores neoliberais ainda insistem em dizer que o Estado brasileiro é o que impede nosso crescimento. São os mesmos que elogiam o modo de vida na Suécia.

Agressividade no trânsito
18.08.2007 | 00h19 |

Quinta-feira, perto de 21h. Saindo de Copacabana, pela orla, para o Flamengo - trecho nobre da zona sul carioca. Depois de passar o túnel e a UFRJ, há um pequeno viaduto. Na metade, o motorista pode sair para fazer o contorno ou seguir em frente para o Flamengo. Só que ali é meio complicado e a sinalização é muito em cima. Um motorista se complica, pega a pista da esquerda mas precisava dobrar à direita. Ele pára, liga a seta e vai tentando mudar de pista. Enquanto isso, os demais motoristas sentam a mão na buzina e o infeliz tem que fazer a manobra debaixo de uma barulheira infernal.

É impressionante como as classes média e alta estão violentas. O sujeito já estava com um problema, precisava mudar de pista, mas em vez de solidariedade e compreensão foi bombardeado pela irracionalidade: seria muito mais inteligente aguardar em silêncio para que ele procedesse com a manobra, pois assim ele seguiria seu caminho e liberaria e pista mais rapidamente. Eu, hein.

3 perguntas para Paulo Zottolo
18.08.2007 | 00h06 |

Enviei as três perguntas abaixo para o presidente da Philips no Brasil, Paulo Zottolo, que declarou que ninguém ficaria chateado se o Piauí deixasse de existir. Como não sou o Azenha, a assessoria da Philips nem se dignou a me responder. Sugiro aos caros amigos que também escrevam para comunicacao.corporativa@philips.com e apresentem seus questionamentos.

Prezados colegas,

Escrevo apenas para confirmar se o presidente da Philips Paulo Zottolo afirmou o que foi publicado pela Folha de S. Paulo, na coluna da Monica Bergamo. O trecho que eu li atribuído a ele diz o seguinte: "Não se pode pensar que o país é um Piauí, no sentido de que tanto faz quanto tanto fez. Se o Piauí deixar de existir ninguém vai ficar chateado". Se isto for confirmado, gostaria de perguntar ao presidente Paulo Zottolo:

1) O senhor não acha que foi preconceituoso com os brasileiros que vivem ou que nasceram no Piauí, em particular, e no nordeste, em geral?

2) O que o senhor pensa da resposta do governador do Piauí, Wellington Dias, que disse: "Tenho certeza de que o capitalismo afasta o homem do ser humano. Que Deus dê a ele a oportunidade de conhecer o Piauí e os homens e mulheres que aqui vivem. Para se ter uma idéia, o Piauí tem 80% de suas florestas nativas preservadas e produz oxigênio para o Brasil e para o mundo. O Piauí, segundo estudos em andamento, tem uma das maiores bacias de gás e petróleo do país. É do Piauí a melhor escola do Brasil, eleita dois anos consecutivos pelo Enem. O Piauí tem a melhor produtividade de soja, mel e algodão do país. Por coincidência, um piauiense, José Horácio de Freitas, foi diretor financeiro da Philips. Por ele e por todos os cidadãos piauienses deveríamos ter respeito. E faço a ele o convite para vir conhecer o Piauí"?

3) O senhor acha que alguém ficaria chateado se São Paulo deixasse de existir?

Atenciosamente,
Marcelo Salles

6 perguntas para Marcelo Yuka
16.08.2007 | 01h22 |

"A gente tem que entender que matar traficante também é crime", diz Yuka, músico carioca conhecido por seu ativismo social e pelas belas composições. Nessa curta entrevista - a segunda para o Fazendo Media - Yuka fala sobre a Chacina do Alemão, discute a violência policial, a reorganização do tráfico de drogas e acusa os EUA de serem os principais patrocinadores da corrida armamentista que vem causando cada vez mais mortes nas favelas da cidade. O autor da frase "Todo camburão tem um pouco de navio negreiro" agora trabalha numa outra, versão século XXI: "O biocombustível do caveirão é preto, é de pele e osso e sem gordura, e é viscoso como o luto do progresso". E antes que o governador Sérgio Cabral reclame, Yuka já manda: "A ação da polícia no Alemão foi burra". E pra não deixar dúvidas: "O terno é o disfarce mais utilizado pelo crime".

Como você avalia a política de Segurança Pública do RJ a partir da análise da invasão ao Alemão?
A primeira coisa a se dizer é que vem ocorrendo uma chacina oficial antes da invasão do Alemão. É só constatar o enorme avanço das milícias e ver: quantos milicianos foram presos? Nenhum. Qualquer criança é capaz de perceber que milicianos, justiceiros, grupos de extermínio representam um problema político, hoje, muito maior. O que antes era só na Baixada... Agora a polícia descobriu que pode tomar o lugar do tráfico, não só vendendo segurança, mas também gás, TV a cabo... A polícia aprendeu a mineirar não apenas o bandido, mas também a comunidade. É um fenômeno novo os matadores agindo dessa maneira.

Como você acha que a ação da polícia nas favelas é percebida?
A sociedade, de maneira geral, apóia. Muito por fazer uma confusão entre justiça e vingança. A mídia também apóia, porque quer mais é que o povo pobre se foda. Então isso forma uma conjuntura que vai favorecer a Chacina do Alemão.

A polícia do Rio vem agindo com inteligência?
Ao contrário do que essa corrente da polícia diz, que está investindo em inteligência, todas as ações, em todos os sentidos, mostram que a ação no Alemão foi burra. 1) Representa um continuísmo secular de que fora dos olhares é permitido matar, cometer arbitrariedades e fica por isso mesmo. 2) Qualquer estrategista do mundo iria falar para invadir de cima para baixo, até para não ficar em posição de risco. 3) Os laudos mostram tiros certeiros na cabeça e pelas costas, o que revela assassinato e não troca de tiro. Pra mim, inteligente é conseguir desarticular o centro do crime no local com estratégias não letais. Pra completar, essa polícia é metida a esperta: faz a mesma coisa que sempre foi feito e acha que tá fazendo algo novo.

O tráfico está mudando sua dinâmica?
Ele vai se adaptando aos novos tempos. O chamado crime organizado, que pra mim é muito desorganizado, passou a perder força com a chegada das novas drogas químicas nos últimos 10 anos. É um movimento gerenciado por jovens de classe média e alta, que podem ter um passaporte para viajar e comprar as tais balinhas, docinhos... E eles não se acham bandidos porque não portam armas e vêm de outra classe. Esse tipo de tráfico começou a ganhar mais espaço e um novo ambiente, até porque a violência foi gerando um medo que as pessoas deixaram de ir para o morro. Então o tráfico de ácido começou a abalar o tráfico do morro. E quanto mais o tráfico no morro é sufocado, mais os caras começam a praticar assaltos na rua, sobretudo a carros, que permitem um poder de barganha alto. A partir daí temos dois fenômenos. O primeiro é que os Complexos conseguem se manter porque têm um consumo interno alto, não depende do playboy ir comprar. Em contrapartida, o tráfico do morro cada vez mais abre as pernas para o crack. Embora essa droga mate o consumidor mais cedo, enquanto ele for vivo vai fazer de tudo para conseguir a droga.

E essa corrida armamentista que vemos? A cada ano as armas crescem de tamanho e potência...
Ela é patrocinada pelo Estado, pela federação e pelas fábricas de armas do mundo todo, principalmente as dos Estados Unidos. E tem a cumplicidade, ainda que inconsciente, do governo federal. Esse país tem 500 anos de repressão armada. Imagina a cena do primeiro português chegando com sua garrucha no meio de um monte de índio e atirando: "Pow!". E de lá pra cá isso só piorou, nunca ajudou a melhorar nada. Aí você vai criando uma sociedade adestrada a achar que arma traz segurança. Arma não traz segurança. O que traz segurança é oportunidade, consideração, justiça, principalmente justiça social. A gente tem que entender que matar traficante também é crime. Existe um conceito na sociedade de que a polícia pode matar bandido. Mas onde isso está na Constituição? Isso só gera uma falsa sensação de segurança. Essa situação ainda não mudou porque quem fica no fogo cruzado não tem poder de pressão social. Por mais que na Zona Sul seja possível ouvir o som dos tiros, a elite não é tão vítima quanto as classes pobres. E infelizmente quem tem poder de pressão é a elite.

O que fazer, então?
Por que não tem invasão social? Por que não invade com hospital, escola? Em vez de caveirão, carro do sacolão. Combater tiro com tiro é uma burrice tão grande que chega a ser medieval. A palavra justiça é muito fiel a seus princípios. É seguir a lei, nem mais, nem menos. Quem dá o tratamento do traficante não é o presidente ou a polícia, é a lei. E lá não tem pena de morte. E lá não diz que quem mora perto pode ganhar tiro. Tem uma questão ainda mais profunda, entre moral e ética. Não é ético arriscar tantas vidas numa operação, mas a moral vê a limpeza como algo bom. Quando alguém é seqüestrado, há uma grande mobilização de policiais, da mídia, e o Estado mostra que dá valor à vida. Mas o mesmo não acontece nas operações em favelas. É por isso que eu digo: existe carne de primeira e carne de segunda. Uma é bem localizada, tem direito à vida. A outra é mal localizada e seu direito à vida não é respeitado.

Transparência na administração pública
16.08.2007 | 01h06 |

Recebi a mensagem abaixo do ex-senador João Capiberibe:

A deputada federal Janete Capiberibe (PSB/AP) comemorou, nesta terça-feira, 14, a inclusão do PLP 217/2004 na pauta da Câmara dos Deputados. O projeto de lei complementar - PLP - 217/2004, obriga Prefeituras, Câmara de Vereadores, Governos Estaduais, Assembléias Legislativas, Governo Federal, Câmara dos Deputados, Senado, Judiciário e demais órgãos da administração divulgar na Internet, em tempo real, todos os seus gastos, com detalhamento que permita a fiscalização das contas públicas.

"É uma ferramenta de combate à corrupção por que permite que qualquer cidadão possa fiscalizar os atos do administrador público sem nenhuma restrição de acesso", explica a deputada socialista.

Conhecido como projeto Transparência, foi apresentado simultaneamente no Senado Federal e na Câmara dos Deputados, em abril de 2003, pelo senador João Alberto Capiberibe e pela deputada federal Janete Capiberibe. Em 2004, foi apreciado pelo Senado Federal e remetido à Câmara. Desde 2005 está pronto para ser votado pelos deputados.

CPI do Pan engavetada
15.08.2007 | 23h50 |

Deu no boletim eletrônico do vereador carioca Eliomar Coelho (Psol):

A instalação da CPI do Pan na Câmara Municipal, prevista para ocorrer ontem, foi adiada para novembro pelo voto dos vereadores Carlo Caiado (DEM) e Nadinho de Rio das Pedras (DEM), da base do prefeito Cesar Maia, e do vereador Luís Antônio Guaraná (PSDB), representante do Secretário Estadual de Esportes, Eduardo Paes (PSDB). Adiar para novembro, a um mês do recesso legislativo, é o mesmo que engavetar a CPI. Se já havia indícios de irregularidades nos contratos do Pan, como o fato de que os gastos sofreram um incremento de 1.000% em relação ao valor inicial, a atitude de tentar impedir a investigação só aumenta a suspeita de que tenha havido corrupção na realização dos jogos mais caros da história dos Pan-Americanos. Mesmo com essa decisão, o vereador Eliomar Coelho, autor do projeto que criou a CPI, irá apurar as denúncias que tem recebido e encaminhará os casos que tenham fundamento para o Ministério Público.

Tem mais, Eliomar. A invasão ilegal da Prefeitura no Canal do Anil também deveria ser investigada por esta CPI. A assessoria de imprensa da PM confirmou que a polícia foi mesmo acionada pela Prefeitura, mas não soube explicar o que a corporação estava fazendo lá sem autorização judicial: "Isso aí você vai ter que perguntar para a Prefeitura". Lá somos informados de que a ação no Canal do Anil acontece porque as casas estão em área de risco. Ou seja, tratar-se-ia de uma boa ação da Prefeitura. Que demorou apenas 50 anos para descobrir que ali é área de risco. E que não se deu conta de que a Vila Pan-Americana foi construída no mesmo tipo de terreno, a apenas 600 metros de distância.

Como mente!
15.08.2007 | 23h42 |

O Globo Online publicou hoje à noite, com exclusividade e regozijo, artigo da secretária de Estado dos EUA Condoleezza Rice. Seu ponto é o mesmo de sempre: "os EUA querem ajudar os demais países da América a superar as injustiças e a pobreza". Segundo a moça, isso não será possível sem "crescimento econômico e livre mercado". De preferência com a assinatura de acordos bilaterais com os EUA. Claro que Condoleezza mente descaradamente, assim como seu governo o fez para invadir o Iraque e assassinar os iraquianos. Se a América Latina está desse jeito hoje, a responsabilidade maior é da exploração imperialista patrocinada pelos EUA, desde golpes de Estado até assassinatos em massa, passando pelas chantagens financeiras. E como secretária de Estado, Condoleezza é também responsável por essas atrocidades. Ao publicar este artigo sem qualquer ressalva ou contraponto, o "Globo" evidencia sua posição política.

Globo e Veja: tudo a ver
15.08.2007 | 13h15 |

A TV Globo e a revista Veja fazem parte do mesmo plano. Não é à toa que o Jornal Nacional tem por hábito repercutir as capas dessa revista. Seus interesses são os mesmos: explorar o povo brasileiro para que suas centenas de empresas extraiam o maior lucro possível, preferencialmente no campo da especulação financeira. Podem até divulgar, a contragosto, um escândalo com uma empresa aérea (grande anunciante, lucro anual em torno de R$ 400 milhões), mas jamais colocam bancos na berlinda (anunciantes gigantes, lucros anuais vinte vezes maior, cerca de R$ 8 bilhões).

No campo da produção de subjetividades, onde a mídia se destaca na sociedade de hoje, podemos entender a dupla dentro de um funcionamento complementar. A TV Globo se esforça um pouco mais para parecer isenta, enquanto a Veja deixa transparecer com mais freqüência suas opiniões fascistas. Assim, a dupla consegue captar dois espectros do público: os de direita e os de extrema direita. Na rebarba, ainda pega uns incautos de centro-esquerda e os analfabetos políticos. Nessa movimentação, o indivíduo fica capturado dentro dessas faixas e é levado a flutuar entre elas; ele acredita que pode encontrar o contraponto nessa esfera. Pura ilusão. Na verdade, a Globo e a Veja fixam-se num determinado ponto e procuram esgarçá-lo para a direita, mas sempre tomando cuidado para não romperem com ele (nesse ponto a Globo é claramente mais prudente). Porque quando isso acontece o descrédito se instala, as assinaturas não são renovadas e o povo vai às ruas gritando que não é bobo e tombando carros de reportagem.

Produzir subjetividades é produzir valores. E esses valores vão determinar as formas de agir, sentir, pensar e viver dos indivíduos e, conseqüentemente, das instituições e da sociedade como um todo. É assim que o imperialismo se sustenta atualmente. Enquanto a esquerda brasileira não entender isso, vai continuar apanhando. Essa é uma disputa árdua, mas tem que ser feita. Que já está sendo feita na Venezuela, na Bolívia, no Equador. Todos esses governos compreenderam a centralidade da mídia e passaram a promover políticas públicas de democratização dos meios de comunicação, inventivo a veículos comunitários e alternativos e redistribuição da verba oficial. Já no Brasil...

Nossa cobertura na Bolívia
15.08.2007 | 12h34 |

Em janeiro do ano passado estive na Bolívia. Fui a La Paz e El Alto cobrir a posse do presidente Evo Morales Ayma. Fiquei pouco tempo, apenas uma semana. O suficiente para quase morrer devido à falta de oxigênio (são 3 mil metros de altitude) e escrever três matérias, que podem ser lidas na seção de Internacional desta página. Em fevereiro deste ano nossa repórter Raquel Junia também foi para a Bolívia, na cidade de Sucre. Ficou seis meses e escreveu mais de dez textos, entre reportagens, entrevistas e artigos. Ela acompanhou de perto o processo da Assembléia Constituinte, os debates, as disputas ideológicas, as contradições dos parlamentares constituintes e a busca por soluções. Isso tudo de dentro do Legislativo boliviano. Deixando a modéstia de lado, o leitor do Fazendo Media tem à sua disposição um dos registros mais completos sobre a Bolívia. Arrisco a dizer que nenhuma outra publicação nacional, impressa ou eletrônica, possui material tão farto desde a posse de Evo Morales. Além disso, nossos textos não estão contaminados pelas mentiras daqueles que gostariam de ver nosso Exército invadindo La Paz. Portanto, sempre que as corporações de mídia começarem a espernear contra o povo boliviano, sugiro que você dê uma espiada nesses nossos textos.

Ainda os pugilistas cubanos
15.08.2007 | 00h22 |

Um programa que diz observar a imprensa não deveria ser usado para protegê-la, sobretudo quando ela está ao lado da exploração do povo brasileiro. Mas foi exatamente o que fez Alberto Dines na noite de ontem, ocasião em que foi "discutida" a situação dos pugilistas cubanos. Enquanto criticava a "ideologização" do tema, ele e seus convidados não faziam outra coisa a não ser ideologizar a questão. A mensagem era clara: "estamos preocupados com a questão humanitária"; "o que será dos lutadores que sonharam com o livre-arbítrio, agora de volta às garras do tirano?" e "o governo brasileiro precisa se explicar porque devolveu os pugilistas com tanta pressa".

Em nenhum momento os experts quiseram saber os motivos do governo cubano para tratar a questão esportiva desta forma; ninguém quer lembrar que o embargo econômico dos EUA a Cuba já causou prejuízos de US$ 82 bilhões; ninguém quer lembrar que a CIA já tentou assassinar Fidel Castro centenas de vezes - o que a própria agência confirma de tempos em tempos; ninguém quis saber porque mesmo assim Cuba é uma potência olímpica, não tem analfabetos e virou referência mundial em medicina.

Mas os telespectadores estavam atentos a tudo isso. E o nocaute veio em forma de uma pergunta de Rio das Ostras, no Rio: "Não seria o caso da mídia investigar como o tal empresário alemão possuía uma credencial de imprensa?". O entrevistado hesitou, titubeou e saiu pela tangente, um tanto quanto sem graça: "É, mas aí já é tarefa da polícia". Ou seja, Dines passou o programa inteiro louvando o trabalho da imprensa, "que dispensou fontes oficiais", seja lá que vantagem isso possa representar, para no final levar esse cruzado no queixo. É de desnortear qualquer um.

Curiosidades: por que o Observatório da Imprensa não fez um programa preocupado com a questão humanitária após o assassinato do jornalista independente Brad Will, em Oaxaca? E o que dizer da questão humanitária no Iraque? Por que Dines não se mostra preocupado com as torturas, os seqüestros e os assassinatos cometidos pelos EUA no Oriente Médio e encobertos pelas corporações de mídia?

Outras dúvidas: por que os experts não fizeram um paralelo com o caso de Muhammad Ali, um dos maiores pugilistas de todos os tempos. Único boxeador até hoje a suportar 12 assaltos com o maxilar quebrado, campeão olímpico em 1960 e campeão mundial dos pesos pesados três vezes. Como sabemos, os EUA cassaram-lhe o título e proibiram-no de lutar por três anos e meio por ter se recusado a ir para a Guerra do Vietnã. Converteu-se ao islamismo e lutou contra o racismo. E agora, onde estão os paladinos da moral para criticarem o "regime totalitário estadunidense"? Além de servirem ao imperialismo, as corporações de mídia são incoerentes. São duplamente ruins. E depois não entendem por que perdem assinaturas... Eu já cancelei as minhas.

Luiz Carlos Azenha responde
15.08.2007 | 00h02 |

Em resposta a Rodolfo Cabral, o jornalista Luiz Carlos Azenha responde: "Em todos os anos que trabalhei na Globo, desde 2000, nunca vi "essas coisas", se você se refere à submissão da notícia à ideologia. Episódios eventuais acontecem na carreira de todo jornalista, em toda a mídia. As discordâncias são comuns entre jornalistas, sobre o enfoque e a hierarquização das informações dentro de uma reportagem. Mas nunca vi tanta "centralização", que acredito se tornou possível graças à tecnologia (terminais em rede, com o editor sabendo o que o repórter escreve em real time). Nunca vi tantos meios omitindo, distorcendo e manipulando informações ao mesmo tempo, em minha carreira, desde que comecei, há 35 anos".

São medíocres, Aquino
14.08.2007 | 01h15 |

O caro amigo Claudio Aquino Cesar pede um comentário a respeito dos endinheirados que se divertem atirando ovos e outros objetos contra pedestres. Presentes, entre outros: Narcisa Tamborindeguy, Bruno Chateaubriand e o diretor do BBB, o Boninho, afirmando que já "acertou muita vagabunda em São Paulo". O vídeo está rolando no Youtube e quando os administradores atendem aos pedidos da Globo e retiram o vídeo do ar, algum internauta teimoso vai lá e faz novo upload. Procure por "Ovos em Ipanema". Novo lema da internet: Contra a teimosia não há resistência. O comentário que faço, Aquino, toma a Narcisa como foco por ser ela - a começar pelo nome - o que há de mais representativo na maioria dos endinheirados desse país: alienados, infelizes, deslumbrados, fúteis, anti-brasileiros. Medíocres.

Quando esse tipo de coisa vem à tona, fica bem mais fácil entender por que somos o segundo país mais desigual do mundo, por que nosso salário mínimo é 3,5 vezes menor do que o suficiente para se viver com dignidade, por que metade da nossa população está desempregada ou subempregada, por que o empresariado nacional apoiou o golpe de 64 e apóia a ditadura de mercado, por que as corporações de mídia são oligopolizadas e nivelam sua programação por baixo, porque 1% controla 48% das terras. E por aí vai...

A Rede Globo tremeu
14.08.2007 | 00h55 |

Agora a TV Globo passou a se explicar toda vez que pede dinheiro para o Criança Esperança. Após fornecer os telefones para as doações, o apresentador enfatiza que a grana não poderá ser usada para deduzir dos impostos. Curioso, porque a mudança acontece no momento em que circula pela internet um emeio intitulado "A Rede Globo treme - Criança Esperança", que afirma justamente o contrário: que a empresa faz as deduções. Mas além disso há outro dado significativo. O preço cobrado por cada ligação. Para onde vão esses milhões de reais?

55 edições do Fazendo Media impresso
13.08.2007 | 10h52 |

Ufa! Finalmente conseguimos fechar a edição de agosto do Fazendo Media impresso. Se tudo der certo enviamos os exemplares dos assinantes no próximo dia 20. A entrevista é com o escritor e jornalista Georges Bourdoukan; há uma matéria sobre o Grupo Sócio Cultural Raízes em Movimento, que funciona dentro do Complexo do Alemão, outra sobre os bastidores do acidente com o avião da TAM, trechos inéditos de uma pesquisa a respeito do tratamento dispensado pelo "Globo" ao "Caveirão", entre outras. Clique aqui para ler o editorial da edição e aproveite o embalo para fazer sua assinatura.

Fidel Castro é o novo colunista da Caros
13.08.2007 | 10h24 |

A revista Caros Amigos deste mês chega às bancas com uma novidade: Fidel Castro, presidente de Cuba, estréia como colunista. Gostem ou não, será uma leitura essencial por se tratar de um chefe de Estado. E particularmente interessante porque Fidel derrotou 10 presidentes dos EUA, sobreviveu a centenas de emboscadas da CIA e lidera um país sem analfabetos e com atendimento médico de boa qualidade para todos. Nessa mesma edição há uma reportagem de cinco página que fiz sobre o Complexo do Alemão.

Ali, três tragédias
11.08.2007 | 07h05 |

Primeiro, a omissão da tragédia com o avião da GOL. Depois, a fartura de versões inconsistentes sobre a tragédia com o avião da TAM. Nos dois casos foi obrigado a se explicar em público, mas não convenceu. Teria sido melhor argumentar que seu telejornal tentara uma cobertura solidária. Ou seja, trágica como a queda dos gigantes.

Um soco na boca do estômago
11.08.2007 | 06h29 |

A tese é tosca, mas vem sendo sustentada com esse ar sério e honrado que certos colunistas ostentam: o governo brasileiro enviou os pugilistas cubanos de volta para as garras do terrível ditador num ato de obediência ao governo caribenho.

Acontece que por muito menos o governo brasileiro esculhambou com o relatório do Departamento de Estado dos EUA sobre Direitos Humanos. No dia 7 de março, o Itamaraty divulgou a seguinte nota, que não foi recebida com todo esse entusiasmo pelas corporações de mídia: "o Governo brasileiro reafirma que não reconhece a legitimidade de relatórios elaborados unilateralmente por países, segundo critérios domésticos, muitas vezes de inspiração política. Atitudes e avaliações unilaterais sobre tais temas são inaceitáveis, pois contrariam os princípios da universalidade e da não-seletividade dos direitos humanos".

Não é curioso que este fato não tenha gerado a mesma, digamos, excitação das corporações de mídia? Será que é porque se trata do governo estadunidense, esse sim uma ditadura onde não há mais hábeas corpus e você pode ser preso e interrogado por horas a fio num aeroporto caso o guarda não vá com a sua cara?

Sobre os pugilistas cubanos, tem uma coisa que ainda não ficou clara. De acordo essa mesma mídia, os "empresários" alemães "levaram" os boxeadores para passear, pagaram-lhes uma noitada, regada a energéticos e garotas de programa. Entretanto, a versão dos cubanos foi minimizada - e em alguns casos até ignorada - pelos jornalões. Vamos lá: eu vou ponderar que é provável que eles realmente quisessem sair de Cuba. Isso acontece nos melhores países. No nosso querido Brasil, por exemplo, as taxas de imigração são altíssimas. Tá complicado viver num país onde metade da população está desempregada ou subempregada e o salário mínimo é 3,5 vezes mais baixo que o valor necessário para se viver com dignidade, segundo o IBGE.

Agora, por que as corporações de mídia não questionam esses tais "empresários"? Segundo os cubanos, eles foram dopados pelos alemães. E aí, como fica? Não seria o caso de investigar que tipo de empresário se vale de métodos como esse? Durante os Jogos Pan-Americanos, a cobertura foi uma fanfarronice só. Fora a mídia alternativa, pouco ou nada foi divulgado a respeito dos agentes da CIA, do FBI e dos outros agentes dos serviços secretos de outros países que estavam circulando pelo Rio de Janeiro. Quem garante que os tais "empresários" eram mesmo empresários? A mídia golpista? Dá um tempo.

Acrescentado às 07h30: os jornalões de hoje divulgam que o tais empresários alemães estavam credenciados também como jornalistas. Não, não... Que espiões, que nada! São, sim, respeitáveis empresários do ramo da comunicação.

Caso isolado?
11.08.2007 | 03h50 |

O cabo da Polícia Militar Adelino Correia, de 37 anos, lotado no Palácio Guanabara, foi preso ontem ao chegar ao trabalho. Acusação: exploração sexual de menores, que viviam presas dentro de um apartamento. Eram usadas para movimentar a prostituição na Barra da Tijuca e alegrar festinhas de ricaços nativos e estrangeiros. Quem deu a informação foi a mídia corporativa. Pode olhar, está em todos os jornais do Rio de Janeiro.

O que essa mídia não questionou foi o seguinte: como é que um policial de confiança (ou para trabalhar na sede do governo estadual não precisa ser de confiança?) estava envolvido numa situação dessa e ninguém do alto escalão sabia de nada? Pelo amor de Deus, as corporações de mídia informam ainda que ele já foi líder de milícia! E ninguém sabia de nada? Descobriram agora, pela estupenda capacidade investigativa da imprensa carioca?

Se fosse no Palácio do Planalto, é certo que os jornalões estariam a perguntar: "Como é possível o Lula não saber de nada". E as quatro senhoras de tristes figuras debochariam nas madrugadas das quartas-feiras: "Ele nunca sabe de nada". Mas como o Cabralzinho vem fazendo o governo fascista que as elites gostam ("eram todos bandidos", disse para justificar as mortes no Alemão), fica por isso mesmo. Vão tratar a prisão do cabo como se fosse um caso isolado, do mesmo jeito que fizeram com o tal inspetor preso no início da semana.

Dois breves relatos
11.08.2007 | 03h48 |

Quando o artista gráfico Carlos Latuff decidiu não mais conceder entrevistas às corporações de mídia, lembrei de duas histórias. Uma foi contada por um grande amigo. Seu pai era auditor fiscal e sofria ameaças com freqüência. Se encontrava um rombo de R$ 5 milhões numa empresa, ofereciam-lhe R$ 200 mil para fingir que não viu. Se ele não aceitasse, ameaçavam matá-lo. Se ele falasse "foda-se", então ameaçavam sua família. E nessa hora ele cedia. No fim das contas, morreu de enfarte num vôo Rio-Brasília.

A outra história foi contada pela mãe de outro grande amigo e aconteceu num banco público. Havia um concurso para contratação de ajudante, num programa que levava em consideração as necessidades financeiras dos candidatos. Depois de um criterioso trabalho de apuração, chegou-se a um nome entre 300 candidatos. Aí veio um diretor e indicou outro nome. A bancária em questão se recusou a assinar o documento. Celeuma na agência: "Fulana, você ficou doida? Vão te demitir! Assina logo isso". E também não faltou quem avisasse: "Se você não assinar vai aparecer alguém pra assinar no seu lugar". Dito e feito. Às pressas, chamaram de volta o gerente do setor, que gozava de férias numa das belas praias do nordeste brasileiro. Ele assinou o papel.

Microfísicas do poder televisivo
11.08.2007 | 03h44 |

Luiz Carlos Azenha: "O aquário é uma sala envidraçada onde ficam os peixes graúdos de uma redação de Jornalismo. A mão pesada do aquário vai ficar cada vez mais pesada. Hoje, em qualquer redação moderna da TV brasileira, um editor-chefe de um telejornal pode acompanhar à distância a produção do texto do repórter. Graças à informatização. Você escreve num terminal, salva o texto, e acessando de outro terminal o chefe já tem uma idéia do que você está escrevendo". Leia o texto na íntegra aqui.

Acrescentado às 05h29: o Azenha tem publicado excelentes artigos no Vi o Mundo. E ele vem fazendo isso numa velocidade maior do que minha capacidade de registrá-los. Deixo aqui a indicação de mais este artigo - Quando uma empresa cava sua própria cova - dessa vez sobre a TV Globo, empresa onde trabalhou durante anos. Portanto, ele deve saber do que está falando. Agora, meu conselho mesmo é: leia a página do Azenha diariamente.

Grato pela visita, Pedro
11.08.2007 | 02h23 |

Prezado Pedro Alexandre Sanches, muito obrigado pela visita e pelo comentário na nota abaixo sobre o lucro dos bancos. Leio sempre suas reportagens em CartaCapital; você é um jornalista que honra a profissão, que enxerga cultura onde o senso comum não alcança. A gente se esbarrou uma vez - você nem deve lembrar - na sala do Gilberto Gil aqui no Rio. Você saindo, eu entrando com o pessoal da Caros Amigos. Isso foi em março do ano passado. Precisamos tomar um chope dia desses...

Carlos Latuff? Presente!
10.08.2007 | 03h06 |

Aí está o traço do artista gráfico Carlos Latuff, sempre a serviço do ser humano e dessa vez em defesa dos moradores do Canal do Anil, em Jacarepaguá. Que agora está em companhia de Chiapas, Líbia, Líbano, Estados Unidos, Irã, Palestina, Espanha e tantos outros países onde as charges humanistas de Latuff são publicadas. No dia 1º de agosto a Prefeitura do Rio de Janeiro invadiu a favela e tentou derrubar 37 casas, mas encontrou forte resistência organizada. Agora, está disponível mais uma arma contra a Prefeitura: quem quiser a charge acima em alta resolução, basta escrever para salles@fazendomedia.com que eu mando. Podem usar em cartazes, camisas, muros, postes e em outros sítios pela internet. Mas, cuidado: há sempre o risco de você ser intimado pela polícia, como aconteceu recentemente (leia as notas Santa democracia! e Carlos Latuff, um grande ser humano).

Aproveito o embalo e publico, com exclusividade, 4 perguntas que fiz a Carlos Latuff. Você, que é um dos dois mil e poucos leitores que entram aqui diariamente, pode procurar que não vai encontrar entrevista do Latuff nas corporações de mídia. Latuff perdeu a confiança quando um RJTV distorceu uma reportagem com ele em 1999. Para entrar em contato com o pensamento desse artista, meu amigo, minha amiga, só na mídia alternativa. Questão de coerência, como ele costuma dizer.

Blogagem coletiva
10.08.2007 | 02h03 |

Luiz Carlos Azenha é comunista. Ele pensa mais ou menos assim: "Blogueiros de todo o mundo: uni-vos!". Achei ótimo. Até porque tem diretor de jornalismo tremendo de medo dos blogs, assim como os exploradores capitalistas tremem de medo da união do proletariado. Sem mais delongas, publico o texto abaixo conforme sugestão do Azenha:

A notícia órfã

Por Luís Nassif

Ontem o Ali Kamel publicou uma coluna na página de Opinião do “Globo”, A grande imprensa.

Sobre a cobertura do acidente da TAM, Kamel se defende: “A grande imprensa se portou como devia. Como não é pitonisa, como não é adivinha, desde o primeiro instante foi, honestamente, testando hipóteses, montando um quebra-cabeça que está longe do fim”.

“Testando hipóteses” é outro nome para falta de discernimento. Em qualquer cobertura competente, enquanto o quadro não está claro montam-se cenários de investigação, análise de probabilidade, linhas de investigação. Evitam-se afirmações peremptórias, e apela-se para a criatividade para produzir manchetes de impacto sem recorrer conclusões taxativas.

De cara, se poderiam alinhavar várias possibilidades para o acidente da TAM, que seriam o ponto de partida. Toda a cobertura seguiria esse roteiro, procurando checar a probabilidade de ocorrência de cada possibilidade ou delas combinadas. A partir daí, o Sr Fato se incumbiria de descartar algumas hipóteses e reforçar outras.

O “testando hipóteses” do Kamel consistia em bancar aposta total na Hipótese A. Dias depois, esquecer a Hipótese A e bancar toda a aposta na Hipótese B. Depois, na Hipótese C, até acertar. Mas não houve acerto. A resposta final – a degravação dos diálogos na cabine – eliminou todas as hipóteses anteriores.

E aí se entra no modelo de gestão da notícia adotado pelas Organizações Globo. De alguns anos para cá resolveu-se homogeneizar o entendimentos dos jornalistas em relação aos temas de cobertura. Esse papel doutrinário coube a Kamel.

Não sei qual é a experiência de Kamel no front da reportagem. Mas foram dois os resultados. Primeiro, acabou-se com a diversidade de enfoques, marca de jornalismo plural. Segundo, perdeu-se o sentimento da rua, o sentido da reportagem. Os repórteres passaram a subordinar a cobertura aos desígnios do “aquário”. Houve um divórcio dos pais – o “pai” “aquário” e a mãe reportagem – e o resultado deixou a notícia órfã.

Nem vale a pena comentar as acusações generalizantes e conspiratórias de Kamel, na seqüencia do artigo, contra os críticos da cobertura. Ele não está escrevendo para os leitores. Apenas se justificando para os donos da empresa.

Sugestão minha: aproveite o embalo e dê uma lida neste artigo em que o Azenha brinca de testar hipóteses.

O lucro dos bancos é um escárnio
08.08.2007 | 02h09 |

Pra não ir muito depressa: lucro é quando você subtrai o faturamento das despesas. É o que sobra depois de pagar as contas. Pois é. Ocorre que os jornais divulgaram ontem, sem o menor vestígio de indignação, que o lucro dos dois maiores bancos privados que operam no país superaram R$ 8 bilhões só no primeiro semestre, sendo este valor 28% maior em relação ao mesmo período do ano passado.

Meu caro amigo, prezada amiga, você já parou para pensar no absurdo que isso representa num país que tem metade de sua população desempregada ou subempregada? Num país onde o salário mínimo é de R$ 380,00 e o mínimo para sobreviver com dignidade, segundo o IBGE, são R$ 1.500,00 mensais? Você sabe que centenas de bancários estão sendo demitidos ou pressionados - muitos sofrem assédio moral dos gerentes, uma política utilizada como filosofia de gestão por essas corporações financeiras? Que o assédio moral é uma das maneiras mais perversas da exploração do ser humano, e que pode levá-lo a contrair doenças físicas e psicológicas irrecuperáveis?

É o caso de Viviane da Silva Barros que, segundo o Sindicato dos Bancários do Rio de Janeiro, vem sendo perseguida pela gerente-geral da agência Nova América do Bradesco, Maria Elizabeth Gonçalves Barbosa. Viviane foi reintegrada judicialmente e transferida contra sua vontade. De acordo com a reportagem do sindicato, a bancária até hoje não recebeu seu vale-transporte e foi proibida de utilizar o horário de trabalho para se inteirar das normas internas. "Viviane contou que a perseguição começou antes da sua demissão e se deve ao bom relacionamento profissional que tinha com a ex-gerente-geral. [Ela] questionou o fato de a atual gestora ser esposa do gerente geral da Inspetoria, classificando a situação como um conflito de interesses que contraria as normas do Bradesco, já que ele é o responsável pela fiscalização das agências, inclusive a de Elizabeth", diz um trecho da reportagem.

Esse tipo de tratamento dispensado aos funcionários se estende ao público em geral. Quem aqui não tem reclamações a fazer a respeito do atendimento bancário? Os serviços prestados são de uma qualidade tão sofrível que recentemente um banco desenvolveu uma campanha de mídia que diz simplesmente o seguinte: "Unibanco, nem parece banco".

O lucro crescente das corporações financeiras é a total subversão de qualquer valor ético que se pretenda alcançar, sobretudo num país tão desigual quanto o Brasil. Essa situação só pode prosseguir porque é tolerada pelo Banco Central e pelo Ministério da Fazenda. Seus dirigentes sofrem pressão dos assassinos econômicos? Claro que devem sofrer. E como o povo não faz pressão suficiente, a corda arrebenta do lado mais fraco. Sugestão de leitura sobre o tema: "Confissões de um assassino econômico" (John Perkins, editora Cultrix).

Segundo o insuspeito FMI, o crime organizado movimenta US$ 750 bilhões por ano, sendo US$ 500 bilhões gerados pelo narcotráfico. De acordo com Jean Ziegler, no livro "A Suíça lava mais branco" (Editora Brasiliense), o dinheiro do tráfico de drogas e de armas é lavado justamente nas instituições financeiras - verdadeiras responsáveis, portanto, pelas matanças que ocorrem nas disputas por bocas de fumo nas periferias de todo o mundo. Nesse sentido, como esquecer a pergunta de Bertolt Brecht: o que é assaltar um banco comparado a fundar um banco? Enquanto pensam na resposta, os homens do governo poderiam trabalhar para regulamentar o artigo 153 da Constituição, que em seu inciso VII determina a cobrança de imposto sobre as grandes fortunas.

Atriz da Globo quer a cabeça de Lula
08.08.2007 | 02h02 |

A atriz da TV Globo, Christiane Torloni, publicou artigo no jornal O Globo de ontem defendendo abertamente a cassação do presidente da República. A donzela quer a cabeça do Lula, no bom sentido. Provavelmente esta senhora também está cansada da figura do presidente, embora não dê sinais de cansaço com o lucro bilionário dos bancos no segundo país mais desigual do mundo. A Mariann Araújo escreveu uma resposta bastante interessante para a atriz da Globo, emissora fundada com capital dos EUA. Leia aqui.

5 perguntas para Luiz Carlos Azenha
06.08.2007 | 00h05 |

http://viomundo.globo.com

Você foi ao Fora Lula em São Paulo. Quais são as propostas do movimento e qual a sua opinião sobre elas?
É óbvio que eles querem que o Lula deixe a Presidência. Pediram a redução da maioridade penal. Culparam o Lula pelos acidentes da Gol, da TAM e por 50 mil mortes causadas pela violência no Brasil. Isso foi dito pelos que discursaram, inclusive pelo pai de uma das vítimas do acidente da TAM. Portanto, foi uma reunião bastante emocional, que juntou a dor de um pai com o Hino Nacional. Falou-se na frase da Marta Suplicy e no gesto de Marco Aurélio Garcia. É impossível saber exatamente se o movimento quer o impeachment ou uma junta militar ou que o José de Alencar assuma o governo. Uma mulher que entrevistei diz que é preciso "limpar tudo". É para fechar o Congresso? Não ficou claro. Havia vassouras - símbolo das campanhas do Jânio Quadros - e uma faixa do Movimento Guararapes, de militares de reserva que pregam um golpe. Acho que é um movimento calcado acima de tudo na emoção, que deveria ser absorvido por um bom partido de direita, se houvesse partidos que assumissem ser de direita no Brasil. Aí a raiva que senti naquelas pessoas seria canalizada politicamente e não se transformaria no ódio contra a chamada "ditadura lulopetista". Este é o movimento Fora Lula, baseado numa comunidade do Orkut da qual fazem parte cerca de 200 mil pessoas.

O que você me diz sobre a participação da Philips no movimento?
A Philips participa de outro movimento, o Cansei. Acho que o presidente da Philips, como pessoa física, tem todo o direito de fazer o que quiser com o tempo e o dinheiro dele. Mas quando ele promete apoio de uma grande empresa a uma causa política está avançando além do desejável, tanto para a empresa quanto para o Brasil. Diz-se que a causa é apartidária, mas fica difícil de acreditar quando um dos organizadores foi arrecadador do PSDB e o outro fez marketing político para o PSDB. Mas é tudo muito vago - os problemas que eles querem combater existem há décadas no Brasil. A pergunta é: qual é o motivo que os levou a "protestar" AGORA, em ano pré-eleitoral, quando o presidente Lula tem popularidade e a economia vai bem? Não sei, ainda, se a Philips da Holanda endossa o movimento. Acho que entraram numa furada. Ninguém - nem a oposição, nem o governo - gostaria de ver uma multinacional poderosíssima dando palpite diretamente na política brasileira - embora elas façam isso nos bastidores.

Como as corporações de mídia estão vendo o movimento?
A Globo e a Band se negaram a colocar os anúncios do Cansei no ar. Acho que foi pelo potencial de uso político-partidário. Porém, no caso das manifestações do Fora Lula, a Globo usou imagens dos manifestantes na mesma reportagem que falava no enterro das vítimas do acidente da TAM. É um absurdo. Uma distorção. A Globo não fez uma reportagem dizendo: existe um grupo que quer tirar o Lula do poder e tem os seguintes objetivos... Não entrevistou os dirigentes do movimento, para perguntar: tirar o Lula como? Impeachment? Golpe de estado? Vão fechar o Congresso? Juntou tudo numa paçoca só, como se o protesto contra o governo tivesse sido exclusivamente por causa da tragédia da TAM. Não é; existe um movimento que quer derrubar o governo.

Você vê alguma semelhança entre o Fora Lula e o Fora Collor?
Acho que não. A economia está muito bem. O Collor brigou com todas as forças políticas ao mesmo tempo. Violou a poupança da classe média. Tanto a classe média está tirando proveito do dólar barato quanto os mais pobres estão ascendendo socialmente. Há, contra o Lula, uma combinação de discriminação contra os pobres e nordestinos, uma revolta genuína por promessas não cumpridas (que se manifesta através do PSOL), aquela história do mar-de-lama que o Getúlio já enfrentou, casos concretos de omissão e incompetência administrativa e, principalmente, uma campanha midiática promovida pela oposição para enfraquecer o Lula, principalmente para as eleições de 2010. Se chegar a 2010 com a popularidade de hoje (48% de ótimo e bom para o governo) o Lula fará seu sucessor. E a elite paulista - FHC, Alckmin e a turma da FIESP - quer o controle do estado de novo para fazer mais do que já fizeram: cortar impostos, cortar programas sociais, tirar direitos trabalhistas. Como se diz nos Estados Unidos, "tirar o estado das costas" da elite e colocá-no nas costas da maioria pobre.

Durante a última campanha eleitoral, o PT também passou a denunciar a manipulação da mídia e a se aproximar dos movimentos pela democratização dos meios de comunicação. Agora, o mesmo se repete. Na sua opinião, por que esse governo não se empenha mais em promover a democratização no setor em vez de ficar reclamando nos momentos em que se sente agredido?
O governo do Lula é frouxo e desarticulado. Um dos maiores medos das elites brasileiras é que o Lula dê uma guinada à esquerda e tente se manter no poder além de 2010, porque capital político para fazer isso ele parece ter. Por isso, as campanhas feitas através da mídia visam a extrair concessões do governo. No passado, isso era feito pela força política no Congresso, mas o Lula foi eleito de forma surpreendente, a bancada do PT cresceu quando todos diziam que ia diminuir e o PMDB entrou de vez no governo. Por isso esse uso político de dois acidentes aéreos trágicos. A ascensão de um novo empresariado ameaça os interesses das forças econômicas tradicionais, que sempre contaram com o estado para garantir suas vantagens fiscais e de financiamento. Finalmente, rico nunca aceitou ser preso no Brasil e a Polícia Federal tem feito justamente isso. Se depender do Lula ou do PT não haverá democratização coisa nenhuma. O partido quer seus cargos federais e ponto. Mas essa briga é uma questão de cidadania que vai além de PT ou PSDB. É uma questão de aprofundar a democracia, o que deixa a elite brasileira assustadíssima, porque ela está acostumada e quer manter uma democracia de poucos e para poucos Já pensou numa greve nacional de empregadas domésticas exigindo seus direitos?

Rodrigo Vianna no Prêmio Comunique-se
05.08.2007 | 21h05 |

Caros amigos, estou indicando voto no repórter Rodrigo Vianna, que concorre ao Prêmio Comunique-se. Sei que ele está na TV Record, que faz parte do oligopólio que controla a televisão brasileira. Mas insisto na indicação pela entrevista que ele nos deu - leia aqui - e porque quando foi afastado da TV Globo, ele denunciou as manipulações, o racismo e a opção política pelo PSDB da TV Globo. É possível votar até o dia 14 de agosto, neste endereço. Para votar é preciso estar cadastrado no Comunique-se, o que pode ser feito gratuitamente.

Jornal Extra é vetado na TV Globo
05.08.2007 | 20h52 |

Texto publicado no Comunique-se:

Um ovo podre acertou em cheio as Organizações Globo. O diário Extra, editado pelo Infoglobo, trouxe na quinta-feira (02/08) reportagem de primeira página sobre um vídeo com grupo de personalidades cariocas que gostam de atirar ovos nos passantes. Entre os que dão depoimento está Boninho, diretor do Big Brother Brasil, reality show da TV Globo. Após a publicação, os profissionais do Extra foram vetados na Globo.

Além de não ter mais acesso ao site de imprensa da TV, os repórteres não puderam entrar no Projac nem acompanhar gravações externas. Quem tentava falar com a assessoria só recebia negativas. A Central Globo de Comunicação (CGCom) já vetou outros veículos após reportagens, mas essa é possivelmente a primera vez que jornal das próprias Organizações Globo é censurado. “O que esperar de uma emissora formada nos tempos da ditadura?”, questionou um profissional.

O que diz a Globo
Segundo a CGCom, o Extra fez o pedido de entrevista com Boninho. O diretor falou, mas sua versão para a história “não foi acolhida”. “Sempre que acontece esse tipo de omissão, a gente suspende o envio de material para avaliar se está havendo algum problema no processo. O fluxo já foi restabelecido”, diz a nota da emissora.

O diretor do Extra, Bruno Thys, informa que não chegou a existir um veto. "Temos uma ótima relação com a TV Globo", disse.

O vídeo “Ovos 2”, encontrado no YouTube, mostra os socialites Narcisa Tamborindeguy e Bruno Chateaubriand, além de Boninho, falando de ovos atirados e dando receitas de como deixá-los podres. “Já acertei muita vagabunda em São Paulo”, diz o diretor. Todos sabiam que estavam sendo filmados. O filme – e o original, “Ovos”, que tem Leonel Brizola Neto como protagonista – pode ser assistido no site do Extra.

A disputa é pelo controle da mídia
05.08.2007 | 03h34 |


Veja abre o jogo: a disputa é pelo controle da mídia

No dia 16 de junho registrei aqui no blog:

A TV Globo bate, a revista Época bate, o jornal O Globo bate, a CBN bate. Ou seja, as Organizações Globo parecem ter sido contrariadas por alguma decisão de Renan Calheiros, o presidente do Senado Federal. Sempre tiveram uma relação profícua, mas agora a coisa desandou. Não, não estou dizendo que Renan seja um santo. Nem mesmo estou dizendo que suas relações com lobistas devem ser esquecidas. Minha questão é de outra ordem: por que só agora isso veio à tona? Ou alguém acha que só agora foram descobertas as relações de Renan com Mônica e desses com o lobista? Teria alguma coisa a ver com o período de renovações de concessões de radiodifusão? Pergunta-se aos caríssimos leitores: qual será o pomo da discórdia?

No dia seguinte, a coluna Toda Mídia, da Folha de S. Paulo, registrou meu comentário. Neste final de semana chega às bancas a revista Veja com Renan Calheiros na capa, sentado sobre uma laranja de onde saem uma cédula de 100 dólares e outra de 100 reais. Sobre seu ombro, um microfone. Título: "Mais laranjas de Renan - Como o senador se tornou o dono oculto de duas rádios em Alagoas. Ele pagou 1,3 milhão em dinheiro vivo".

Lá dentro, na página 63: "A sociedade secreta de Renan Calheiros e João Lyra era ambiciosa. Usando a influência política que tinha no governo federal, Renan planejou montar uma rede de emissoras espalhadas por Alagoas a partir das outorgas de concessões públicas que suas relações conseguiriam garimpar em Brasília". Uma das empresas, segundo Veja, seria a Rádio Coreeio, cujo logotipo aparece, numa foto da reportagem, colado no logotipo da CBN, que pertence às Organizações Globo - fato solenemente omitido pela reportagem.

Não creio na revista Veja, assim como não acredito que a relação de Renan Calheiros com grupos de comunicação só agora tenha se tornado novidade para o reportariado de Brasília. Até porque, como vem denunciando sistematicamente o professor Venício Lima, há dezenas (ou centenas) de políticos em situação similar. Mas eis que depois de bater durante meses no senador Renan Calheiros a Veja - com imediato apoio do Jornal Nacional deste sábado - resolve esclarecer que o incômodo são as empresas de comunicação. Sim, sim... Empresas de comunicação costumam ser usadas para vencer eleições, pressionar governos e influenciar em quase tudo nessa vida, desde negociatas contra o patrimônio público até a sexualidade das virgens.

Uma consulta à página da CBN revela que o grupo possui 4 emissoras próprias (Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Brasília) e 22 afiliadas, sendo que em Maceió a CBN opera a concessão do Sistema Costa Dourada de Radiodifusão Ltda, na freqüência 104,5 FM. Entretanto, a página da Anatel aponta a existência de apenas cinco emissoras comerciais de rádio FM em Maceió (Alagoas Rádio e Televisão, Rádio Clube de Alagoas, Rádio Cultura de Arapiraca, Rádio Jornal de Hoje e TV Pajucara) - nenhuma delas, portanto, a afiliada indicada pela CBN em sua página. A exceção da Alagoas Rádio e Televisão, acusada pelo Ministério Público de pertencer a políticos e cuja licença expira no ano que vem, todas as outras encontram-se com suas outorgas vencidas, segundo a Anatel.

Tudo muito nebuloso, como já sabemos, nesse mundo das concessões públicas de radiodifusão. Mas, pelo menos, uma coisa ficou clara: o medo da dupla Veja-Globo é mesmo ter um presidente do Congresso em que eles não confiam envolvido numa disputa pelo controle de empresas de comunicação. Isso porque no próximo dia 5 de outubro serão avaliadas, no Congresso Nacional, as renovações das concessões públicas do oligopólio que controla a televisão e o rádio no Brasil. Estão com tanto medo, mas tanto medo, que até se arriscaram a mostrar como acontecem as negociatas entre políticos e empresas de comunicação, um assunto tabu para a dupla, mesmo porque seus interesses nesse tipo de esquema não são poucos.

Por tudo isso, repito: precisamos nos organizar para pressionar nossos representantes em Brasília, desde telefonemas e correios eletrônicos até manifestações de rua. E não podemos perder a chance, porque essa renovação é mais demorada que o cometa Halley: acontece uma vez a cada 15 anos.

Em vídeo e texto, o multi-uso Azenha
05.08.2007 | 03h11 |

Vale a pena assistir às três pequenas entrevistas que o Luiz Caros Azenha gravou durante a manifestação contra Lula em São Paulo. A minha favorita foi com a mulher que carregava seu cartaz "Fora Guevara" porque hoje os adolescentes "cultuam muito ele". Tem mais. Na página do Azenha, que insiste em perguntar quando FHC vai assumir o filho com a jornalista da Globo, há textos muito interessantes, o que revela o caráter multi-uso do repórter. O meu texto favorito de hoje é esse aqui sobre o movimento golpista "Cansei", cuja diferença para os golpistas da Venezuela é que o governo de lá não governa para os ricos.

Covardia típica
05.08.2007 | 03h01 |

Falar o quê? Aí está a turma que ri embasbacada da emocionante aventura de atirar ovos e outros objetos pela janela de suas coberturas milionárias no Leblon, Ipanema ou qualquer outra dessas comunidades violentas da Zona Sul golpista do Rio de Janeiro. No vídeo tem até o Boninho, diretor daquela asneira chamada BBB, confessando que já acertou "muito ovo em vagabunda". Os jovens endinheirados não diferem em nada de seus pais, na grande maioria políticos e empresários preconceituosos e covardes, responsáveis pela situação miserável em que se encontra este país maravilhoso.