Por Marcelo Salles, do Rio de Janeiro - salles@fazendomedia.com

Protoblog de endereço novo
19.06.2009 | 15h33 |

Caros e queridas, a partir de agora o endereço deste blog mudou para http://www.fazendomedia.com/?cat=17





Sobre o diploma
18.06.2009 | 23h23 |

Quero agregar ao meu comentário sobre o fim do diploma de Jornalismo, que fiz nos comentários do último post: enquanto estive na faculdade presenciei um movimento, vindo de cima, para tornar os cursos de comunicação mais técnicos. Isso bate com o que sempre defendeu William Bonner: "Formo um jornalista em seis meses". Claro que um sujeito adestrado e com pouco conhecimento geral vai se adequar muito melhor ao sistema dominante. E o fim do diploma contribui para o aprofundamento deste quadro. Não acredito que vá demorar muito para que as corporações de mídia construam seus próprios canis.

Ritmo proibido
17.06.2009 | 21h43 |

Quem me chamou a atenção para esta reportagem do SBT foi a professora de História Renata Moraes, que me orgulha com sua presença nas discussões deste blog. Segue abaixo o vídeo. Trata-se de uma filmagem de soldados dançando funk durante a ocupação no Morro da Providência (centro do Rio).

O mais interessante da matéria é que as críticas recaem não sobre a ocupação em si, mas sobre o momento de descontração dos soldados, que rebolavam no ritmo do som proibido (de acordo com determinados ouvidos) do funk. Como me disse MC Leonardo, no último domingo, na Cidade de Deus (só que em relação a um policial): "Ué, claro que gosta. O cara vai gostar de quê, de merengue?". A matéria até ouve as reclamações dos familiares das vítimas fatais, mas com o devido cuidado de separar uma coisa da outra (ocupação = bom; mortes = coisas da vida). Vale lembrar: as agressões cometidas contra moradores durante a ocupação do Exército no Morro da Providência foram denunciada por mim no jornal A Nova Democracia seis meses antes do assassinato dos três jovens - fato que poderia ter sido evitado se a mídia de massa tivesse interesse por pobres ou se as demais instituições da suposta democracia brasileira, como Ministério Público, Defensoria Pública, Poderes Legislativo e Executivo, entre outras, dessem o devido valor à imprensa alternativa.

Penso que em vez de recriminar as Forças Armadas por "coreografias pornográficas" (segundo o texto da reportagem), o SBT e seus côngeneres deveriam se preocupar em respeitar o juramento profissional, sobretudo neste momento em que o Supremo Tribunal Federal derruba o nosso diploma: "A Comunicação é uma missão social. Por isto, juro respeitar o público, combatendo todas as formas de preconceito e discriminação, valorizando os seres humanos em sua singularidade e na luta por sua dignidade". Simples assim, não tem muito mistério.

Calamidade invisível
17.06.2009 | 18h18 |

Enquanto a gripe suína matou um punhado de gente no mundo, doenças conhecidas há mais tempo matam 35.000 pessoas POR DIA. São mais de 12 milhões de mortes a cada ano por Aids, malária, tuberculose e Doença de Chagas, entre outras. A gripe suína ocupa boa parte do noticiário enquanto as outras... Isso ocorre porque qualquer um, independentemente de sua classe social, pode ser alvo da gripe suína, enquanto as outras atingem com muito mais freqüência a população pobre. Segue abaixo o apelo divulgado mundialmente em 2006:

Apelo aos governos para que ofereçam suporte significante e contínuo para levar novos medicamentos essenciais, vacinas e diagnósticos às pessoas sofrendo e morrendo de doenças negligenciadas.

a.. A cada dia, mais de 35.000 pessoas morrem de doenças infecciosas tais como Aids, malária, tuberculose assim como de doenças mais negligenciadas como a leishmaniose, a doença de Chagas e a doença do sono.

b.. Embora estas doenças afetem centenas de milhões de pessoas, faltam vacinas, diagnósticos e medicamentos, que sejam seguros, adaptados às condições de vida das pessoas afetadas, efetivos, e cujos preços sejam acessíveis, para combatê-las.

c.. Entre 1986 e 2001, o financiamento global para a pesquisa em saúde aumentou de 30 bilhões para 106 bilhões de dólares, mas o progresso orientado para novas ferramentas de saúde para os pobres permaneceu insignificante.

d.. Dos 1.393 novos medicamentos aprovados entre 1975 e 1999, apenas 1% foi desenvolvido para doenças tropicais e a tuberculose.

e.. A ciência básica para doenças infecciosas existe e a biomedicina está se desenvolvendo com muita rapidez, mas sem determinação política, este progresso não pode ser utilizado para desenvolver produtos essenciais.

f.. O modelo de desenvolvimento de medicamentos baseado no lucro não é adequado para desenvolver ferramentas de saúde essenciais para doenças negligenciadas.

h.. Níveis mais elevados de proteção de propriedade intelectual não resultaram em mais P&D de medicamentos para as necessidades globais de saúde.

Nos últimos anos, este desafio de saúde tem gerado um aumento de ação e de comprometimento por parte da comunidade internacional. Certos países em desenvolvimento vêm fortalecendo seus meios de desenvolver novas tecnologias de saúde, e seu papel tem sido cada vez mais importante. Entidades sem fins lucrativos foram criadas e estão ajudando a acelerar o processo de inovação para essas doenças negligenciadas desenvolvendo carteiras de projetos que atendem às reais necessidades dos pacientes negligenciados. Essas parcerias para desenvolvimento de produtos agem como laboratórios "virtuais", trabalhando em colaboração com cientistas de institutos públicos de pesquisa, universidades, e indústrias farmacêuticas e de biotecnologia.

Entretanto, a maior parte dessas entidades é financiada principalmente por organizações filantrópicas e doadores individuais. A resposta continua insuficiente com o envolvimento apenas marginal dos governos mais ricos.

Há uma necessidade urgente de corrigir o desequilíbrio fatal do modelo atual de desenvolvimento de medicamentos. Os governos devem assumir a responsabilidade pela saúde pública global.

Novos modelos e mecanismos de financiamento devem ser buscados. Uma ação política determinada é necessária para dirigir P&D baseada em necessidades e deslanchar iniciativas de colaboração. Isto irá garantir que os avanços iniciais se transformem em medicamentos e diagnósticos melhores, acessíveis e adaptados aos pacientes que mais necessitam.

Apelamos aos governos para que ofereçam:

a.. Liderança Política - Fazer da saúde global e dos medicamentos um setor estratégico e estabelecer prioridades de P&D de acordo com a necessidade dos pacientes. Só então, o mundo poderá atingir os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio que vislumbra - entre outras coisas - um progresso significativo no combate ao HIV/aids, tuberculose, malária e outras doenças negligenciadas.

b.. Permanente Suporte financeiro - Governos ricos e pobres, assim como organizações inter-governamentais, deveriam fornecer, de forma sustentada, 3 bilhões de dólares por ano, necessários para atingir um nível apropriado de pesquisa em saúde para as doenças que afetam populações pobres. Para assegurar o sucesso em longo prazo, novos mecanismos de financiamento devem ser traçados para este fim.

c.. Novas regras para estimular a P&D essencial em saúde - Redirecionar o conhecimento e a expertise científica de hoje para as necessidades negligenciadas vai significar uma mudança substancial na forma como os produtos essenciais de saúde serão avaliados, financiados e disponibilizados. Um novo quadro de ação deveria incluir o acesso ao conhecimento, compostos químicos, e ferramentas de pesquisa protegidos pelos direitos de propriedade intelectual. Além disso, os processos de aprovação regulatória devem ser agilizados para que os medicamentos essenciais possam ser rapidamente disponibilizados aos pacientes. Os riscos e benefícios de cada medicamento ou vacina devem ser avaliados em relação às necessidades dos pacientes, à gravidade da doença, e aos tratamentos e vacinas disponíveis.

Sem novos passos arrojados, as doenças continuarão atingindo fortemente o mundo em desenvolvimento, com conseqüências globais. Os governos devem agir AGORA.

Consignatários:

Davy Koech, Diretor, Instituto de Pesquisa Médica do Quênia

Paulo Buss, Presidente, Fundação Oswaldo Cruz, Brasil

Philippe Kourilsky, Diretor Geral, Instituto Pasteur, França

Ismail Merican, Diretor Geral de Saúde, Ministério da Saúde, Malásia

Lalit Kant, Vice-Diretor Geral, Conselho Indiano de Pesquisa Médica, Índia

Rowan Gillies, Presidente, Médicos Sem Fronteiras Internacional

Barbara Stocking, Diretor, Oxfam International

Richard Jefferson, Diretor, Bios Initiative, Austrália

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Fonte: http://www.dndi.org.br

Digno de nota
16.06.2009 | 01h17 |

Não tenho dúvidas em afirmar: o maior problema da esquerda brasileira é não compreender a importância da disputa simbólica, travada a partir dos meios de comunicação de massa. Brizola foi exceção. O PT tem boa discussão a respeito e adotou políticas públicas importantes via Ministério da Cultura, mas infelizmente deixou o ministério das Comunicações com o PMDB de Helio Costa, que faz o jogo do monopólio que controla o setor. Entre os partidos de esquerda, o PSOL tem mostrado boa atuação nesta área, sobretudo no mandato do deputado federal Ivan Valente. Há poucos dias, o deputado estadual pelo Rio Marcelo Freixo, do mesmo partido, fez um pronunciamento digno de nota (segue abaixo), apontando a irresponsabilidade da TV Globo em usar, num seriado, um criminoso no papel de um corregedor de polícia. Agora, vale lembrar que as críticas esporádicas não bastam: é preciso elaborar e lutar pela implementação de um projeto de comunicação popular e democrática em todos os níveis, municipal, estadual e federal. Apenas quando a esquerda como um todo (partidos, academia e movimentos sociais, estudantis e sindicais) abraçar esta luta é que vamos começar a vislumbrar uma democracia real para o Brasil.

Pronunciamento do deputado Marcelo Freixo, 12/05/2009, Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro

Já que estou aqui citando a importância da luta pedagógica na política, acho que o Sistema Globo de Televisão, a Rede Globo, lamentavelmente prestou um desserviço ao Rio de Janeiro na semana que passou. Falo isso com pesar, não tem aqui uma carga ideológica. Esse debate é necessário e importante, mas quero ser pontual na minha crítica.

Na semana passada, houve um seriado na Rede Globo chamado Força Tarefa. Desde o filme Tropa de Elite, criou-se uma cultura – não estou aqui para questionar –, visivelmente se construiu um público para esse tipo de espetáculo. Está também no teatro, agora há uma peça do Luiz Eduardo com o Domingos Oliveira. Há diversas obras de arte, de livros a peças de teatro e cinema, cujo enredo passa pela ação policial, pelos conflitos urbanos. Pois bem, um desses seriados é o Força Tarefa da Rede Globo, que foi ao ar na última quinta-feira (07/05).

Nesse episódio, o tema era milícias. Eu, por acaso, estava em casa e, quando vi que era sobre milícias, parei para assistir ao seriado. De alguma maneira, a Rede Globo tenta se redimir da última novela, onde um miliciano exerceu o papel de herói, papel do Antônio Fagundes. Nesse momento, nesse seriado, a milícia era caracterizada como algo negativo, extorquindo a sociedade, extorquindo os moradores. Menos mal. No final das contas, o recado é que a milícia é enfrentada e depois o tráfico volta.

Aconselho aos diretores de televisão da Rede Globo que leiam o relatório da CPI das Milícias, porque em 65% das áreas onde hoje há milícia no Rio de Janeiro, antes não havia tráfico. Assim, não é verdade a lógica “ou milícia, ou tráfico”. Na verdade, a lógica que precisamos implementar na sociedade é milícia/tráfico de um lado, Estado do outro. Temos que defender o poder público sobre todo o território, com sua soberania sobre todo o território, e não jogar a sociedade na falsa polêmica de milícia ou tráfico, como se os moradores tivessem que escolher sob qual tirania vão submeter suas vidas. Qualquer morador do Rio de Janeiro tem que submeter sua vida à lógica do Estado democrático, e é isso que temos que exigir para todo o território e o conjunto de pessoas. Todas têm o mesmo valor, ou pelo menos deveriam ter.

De alguma maneira, o seriado era crítico à milícia, mas colocava a fragilidade de “ou milícia, ou tráfico”. Até aí tudo bem. Mas qual é o desserviço? O desserviço é o que veio depois. Esse seriado foi gravado numa comunidade no Rio de Janeiro chamada Rio das Pedras, que é uma das milícias mais antigas do Rio de Janeiro. É uma área de milícia. O relatório da CPI concluiu isso. As investigações da Polícia Civil indicam isso. As investigações da Polícia Militar, a Secretaria de Segurança Pública. Todo cidadão do Rio de Janeiro sabe que em Rio das Pedras funciona uma milícia, a mais antiga do Rio de Janeiro, clássica milícia. Diversos dos seus líderes foram indiciados pela CPI, diversos foram investigados pelo Ministério Público, diversos estão respondendo a processos na Justiça. A Rede Globo, mesmo assim, desconsiderando isso, abrindo mão de qualquer necessidade ou cuidado de pesquisa, resolve fazer a gravação dentro de Rio das Pedras. Para isso, evidentemente, negocia com a Associação de Moradores de Rio das Pedras.

Mas o mais grave está por vir: o presidente da Associação de Moradores de Rio das Pedras, que é uma pessoa indiciada pela CPI, investigada pelo Ministério Público como miliciano, recebeu toda a equipe da Globo e trabalhou no seriado como policial da Corregedoria. É inacreditável! Ele era policial da Corregedoria e, diga-se de passagem, foi filmado com muito cuidado – sistematicamente aparecia, não era um simples figurante. É o policial da Corregedoria que atua no enfrentamento às milícias.

É evidente que não estou cobrando de qualquer emissora, de qualquer veículo de comunicação o papel de ação policial ou de investigação. Não é isso, não se trata disso. Mas não se pode tratar assim de um assunto como esse, de um assunto como as milícias, que representam hoje a maior ameaça à segurança pública do Rio de Janeiro, a maior ameaça ao estado democrático do Rio de Janeiro. As milícias representam hoje a maior ameaça, o que há de mais grave, e o governo já admite isso – age pouco, mas admite isso. Falamos isso há muito mais tempo e ainda esperamos uma ação mais concreta do governo sobre as milícias – não tem. Aliás, esperamos uma ação do Estado e não só do governo – do Judiciário e do Ministério Público também.

Nesse sentido, quando se quer fazer um documentário, quando se quer tratar desse assunto, o mínimo de cuidado deveria haver. Não se pode dizer que é descuido pegar alguém que está indiciado por ser miliciano e colocá-la para trabalhar como policial corregedor enfrentando as milícias. Isso beira o deboche, beira uma ironia inaceitável! Não é em nome da arte que se pode justificar isso, não há licença poética para tamanha atrocidade, não há.

Eu não poderia deixar de me pronunciar depois do trabalho que esta Assembléia fez, depois do relatório da CPI, depois da coragem que esse Parlamento teve de indiciar 225 pessoas, entre elas o novo ator. É um afronta ao trabalho desta Casa, é uma afronta ao trabalho dos bons policiais, é uma afronta ao trabalho do Ministério Público e de todos aqueles que querem um Rio de Janeiro diferente. Não é um detalhe pegar alguém que está sendo investigado por ação de milícia e colocar para trabalhar como policial corregedor que enfrenta as milícias.

Fica aqui o meu repúdio a esse desserviço promovido pela Rede Globo, a essa ação antipedagógica, lamentável, injustificável. Espero que se pronunciem publicamente, que peçam desculpas a todos aqueles que estão enfrentando, sobre os efeitos que têm. Todo mundo sabe hoje o que significa enfrentar as milícias no Rio de Janeiro, o risco que todo mundo que as enfrenta está correndo para isso virar um seriado em que aquele que estamos enfrentando vira ator e faz papel de corregedor.

Sinceramente, Sr. Presidente, eu não estou aqui para isso e acho que, por mais poderosa que seja, a Rede Globo não tem esse direito. Faltou respeito a todos aqueles que enfrentam as milícias, inclusive os jornalistas do próprio jornal O Globo, alguns ameaçados – há jornalistas da Rede Globo e do jornal O Globo que tiveram que ficar fora do Rio de Janeiro porque foram ameaçados por milícia. Nem respeito aos seus profissionais, da própria casa, tiveram. Isso é inaceitável! Fica aqui o meu protesto e espero que estejam mais atentos nas próximas produções.

Resistência nas favelas
11.06.2009 | 14h43 |

Logo após as eleições do ano passado, mais precisamente no dia 28 de outubro de 2008, escrevi o seguinte, aqui neste blog: "Sem querer ser pessimista, antevejo dois anos de mais violência no Rio de Janeiro. Com uma prefeitura plenamente afinada com a orientação do governo estadual e das corporações de mídia, o aparato de repressão estatal será ampliado. Caveirões povoarão ruas e céus e milhares serão exterminados. Tudo em nome do enriquecimento de poucas pessoas e um punhado de grupos privados". O texto original está em http://www.fazendomedia.com/diaadia/protoblog25.htm.

Pois bem, a Prefeitura armou a Guarda Municipal, sob os aplausos da mídia grande, com armas "menos letais", compreensivelmente intituladas de "armas não-letais" pelo jornalismo irresponsável. São elas gás de pimenta, escopetas de balas de borracha e tasers, aparelhos que dão choques. O Choque de Ordem é a Ordem do Choque, como diz o Mário Augusto Jakobskind. Resultado: os números oficiais continuam dando conta de um genocídio, mesmo após a exoneração da antropóloga Ana Paula Miranda e a nomeação de um militar para comandar o Instituto de Segurança Pública. As projeções indicam que mais de mil pessoas serão mortas pela polícia em 2009 (272 vítimas nos três primeiros meses do ano). E a polícia que mata é a mesma que não evita crimes, sendo o pior deles o que atenta contra a vida: no trimestre foram registrados 1.695 homicídios (6.780 é a projeção para 2009). Além disso, tenho recebido muitas denúncias de que nas favelas ocupadas pela polícia está ocorrendo uma perseguição às manifestações culturais, sobretudo em relação ao funk. Ouvi relatos de gente que está sendo proibida de ouvir música dentro de sua própria casa! Ressalvando o trabalho dos bons policiais que, sim, existem, é preciso dizer: o quadro da segurança pública do Rio de Janeiro, infezlimente, vem piorando.

No sentido de protestar contra essas violências, ainda nesta semana serão realizados dois eventos no Rio de Janeiro. Um, dentro da Ocupação Manoel Congo, no centro da cidade. Outro, na Cidade de Deus, favela recentemente ocupada pela polícia. Onde há repressão, há resistência!

Três meses e um milagre depois
11.06.2009 | 14h15 |

Marlene, Cibele, Bosco, Renata, Marco, Antonio, Diego... Caros e queridas,

Três meses e um milagre depois volto a atualizar o Proto-Blog, que só vai fechar no dia da minha morte. Ocorre que apenas dois dias após a última notícia que enviei de La Paz foi diagnosticado câncer em minha mãe, pessoa a quem tudo devo, sobretudo a paixão com que se entrega às suas atividades. Isso eu herdei e vou levar pra cova. Pois foi com paixão decidida que deixei a Bolívia e voltei pra casa. Em menos de dois dias fiz a mudança com minha companheira. O quadro era dos piores: câncer no pulmão com metástase no cérebro. Minha mãe tossia constantemente, havia perdido parte da memória e não conseguia ler ou escrever. Pra resumir, o médico chegou a desmarcar a cirurgia porque não acreditava mais na possibilidade de cura. Uma outra médica me disse: “Marcelo, o melhor que você pode fazer agora é ficar ao lado dela o máximo possível”. Iniciamos uma corrente de energia positiva, cuja líder foi uma poetisa que vive em Itaipu, Niterói, chamada Isamar Bersot. Na antevéspera da cirurgia, que o médico havia desmarcado, minha mãe lhe disse: “Doutor, quero operar sim, mesmo com todos esses riscos aí que o senhor falou”. O teste de função pulmonar era duvidoso e ele temia que fosse necessário tirar um pulmão inteiro. Felizmente, quando ele abriu seu tórax, viu que a inflamação no mediastino não era cancerosa e que bastava remover o terço inferior do órgão para liquidar o tumor, assim como o do cérebro já havia sido retirado. Para abreviar a história: a tosse acabou, a memória voltou e minha mãe tem me escrito bilhetes maravilhosos. O cirurgião disse que minha mãe é a exceção da exceção e a médica me disse que a partir de agora acredita em milagres. Eu, particularmente, nunca duvidei. Tanto que no dia em que fiquei sabendo, há três meses, peguei um telefone público no centro de La Paz, disquei pra casa e disse: “mãe, fique tranqüila que nós vamos resolver isso”. Espero que vocês compreendam a suspensão das atualizações aqui no blog; tive que me concentrar ao máximo em outro objetivo, que graças ao apoio de muitos e às forças superiores foi alcançado.

Aos poucos vou colocando a casa em ordem, novamente radicado no Rio de Janeiro. Tenho alguns textos publicados que gostaria de compartilhar aqui, como por exemplo o que seguiu pelo Correio Caros Amigos neste dia 10 de junho: Nova descoberta da Petrobrás abala mídia. Trata-se de um breve comentário acerca do blog criado pela maior empresa do Brasil, que além de informar critica as manipulações das corporações de mídia.

Hoje, numa midiona da vida
11.06.2009 | 13h55 |

“A Polícia Civil divulgou balanço da operação na favela da Coréia, em Senador Camará (RJ). Dois bandidos que resistiram à ação morreram. Os corpos ainda não foram identificados”. Ué, se não foram identificados como diabos podem ser bandidos?

Um dia no Jacarezinho
11.06.2009 | 13h50 |

O artigo abaixo, ainda inédito, faz parte do livro sobre os 20 anos da Medalha Chico Mendes, com previsão de lançamento, pelo Grupo Tortura Nunca Mais, para o final deste mês. Além dele participo com outros cinco ou seis textos, todos escritos desde La Paz.

Um dia no Jacarezinho

Por Marcelo Salles (*)

Acompanhar os militantes da Rede durante um dia de trabalho não é tarefa fácil, mas ajuda bastante a compreender a realidade do Rio de Janeiro. E quando eu digo realidade não estou falando daquilo que passa nos noticiários fictícios das corporações de mídia. Estou falando de uma realidade cheia de sangue e dor, de uma realidade que tem um corte de classe bem definido e que atinge, quase sempre, aqueles que possuem menos dinheiro: os excluídos pelo sistema capitalista.

Lembro com clareza de uma ida à favela do Jacarezinho, final de 2007. Eu estava acompanhando o Maurício após uma invasão policial que havia deixado três pessoas mortas. Uma ou duas ruas pra dentro e já era possível ver uma molecada fumando e cheirando, infra-estrutura decadente, os varejistas do tráfico ostentando mochilas da nike e armamento de guerra estadunidense, israelense, alemão. No geral, uma população radicalmente negligenciada pelo poder público e brutalmente sugada pelo poder privado.

Chegamos à associação de moradores e encontramos alguns familiares das vítimas. Foi aí que conheci dona Maria Luiza da Silva Rezende, mãe de Lincoln, morto aos 18 anos após mais uma “troca de tiro” com a polícia.

Seu depoimento teve de ser interrompido quatro vezes. De vez em quando ela começava a chorar. Aquela mulher, pelo menos naquele dia, carregava toda a dor do mundo. Seu olhar oscilava entre a ausência absoluta de expressão e o brutal arrepio de quem perdeu o filho que tanto amava. "Ele estava em casa, comigo. Eu ia sair de manhã, às 11h30. Ele falou 'pode ir, mãe'. Eu falei pra ele ficar em casa e perguntei se precisava fazer almoço, ele respondeu 'não, mãe, não precisa fazer almoço agora não. Quando a senhora voltar, a senhora faz a comida. Qualquer coisa eu vou na padaria e compro pão'. Eu disse 'tá bom, meu filho'. Aí ele me abraçou, me beijou, abençoei ele e saí para trabalhar. Quando eu cheguei, às duas horas, aí vieram minhas duas sobrinhas correndo. Aí coloquei a mão nelas e falei 'o que foi, filha'. Elas: 'benção, tia'. O que foi, aconteceu alguma coisa? E elas com os olhos cheios de lágrimas. 'Tia, mataram o nosso Lincoln, tia. Lá em frente à padaria'".

Eu não sei o que é a dor de perder um filho, mas o pouquinho que senti naquele dia, enquanto Maria falava, já é suficiente para entender que existe alguma coisa muito errada no Rio de Janeiro. Cinco meses depois outra invasão policial deixou outras sete pessoas mortas na mesma favela. Naquele dia, a Rede divulgou uma nota à imprensa afirmando que “a ação policial no Jacarezinho tem indícios mais que suficientes de execução sumária, violação de domicílio, tortura e desprezo por pessoas não envolvidas na linha de tiro”. Essa polícia mata, segundo as contas da própria corporação, cerca de 1.300 pessoas a cada ano.

E é exatamente aí que você vê a importância do trabalho de gente como o Maurício. Os militantes da Rede, além de fornecerem atendimento psicológico aos familiares de vítimas, recolhem os depoimentos e encaminham as denúncias em nível nacional e internacional – o que é fundamental para pôr um fim à impunidade.

Emociona ver um trabalho assim, totalmente voluntário, enquanto as pessoas que poderiam resolver o problema – nas esferas pública e privada – geralmente se omitem ou, pior, trabalham para aprofundá-lo.

(*) Marcelo Salles, jornalista, foi correspondente da revista Caros Amigos no Rio de Janeiro entre 2004 e 2008. Atualmente é correspondente da Caros Amigos em La Paz (Bolívia), editor do jornal Fazendo Media (www.fazendomedia.com) e membro do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social.

Bolivianos tomam casa de ex-vice
15.03.2009 | 15h55 |

Fernanda Chaves/Brasil de Fato

Comunários tomam a casa de campo do ex-vice-presidente neoliberal Victor Hugo Cárdenas

Não sei se virou notícia aí no Brasil, mas o que tem pautado o debate político na Bolívia é a tomada, no dia 7 de março, da casa de campo do ex-vice-presidente Victor Hugo Cárdenas, entusiasta do período neoliberal encabeçado por Gonzalo Sánchez de Lozada. Nesta sexta-feira 13, tive a oportunidade de ir até Sancajahuira, distante uns 100 km de La Paz, e acompanhei a assembléia realizada pelos comunários que protagonizaram a ação.

Assim que cheguei, por volta de 11 horas, o povo estava concentrado em frente à casa – repleta de pichações como “Do povo para o povo” e cartazes explicando os motivos pelos quais Cárdenas foi expulso. Como a mídia daqui havia divulgado que os jornalistas estavam sendo expulsos a chicotadas e a pedradas, optei por chegar sem a credencial. Minha idéia era conversar com as pessoas, mostrar uns exemplares do Fazendo Media, da Caros Amigos e do Brasil de Fato, e explicar o tipo de jornalismo que faço. Não foi preciso. Assim que me identificaram como jornalista (não me pergunte como), fui convidado a entrar na roda e a me aproximar. De longe, ouvia os comentários: “Periodista de Brasil”. Ao final ainda fui convidado para o lanche com alimentos típicos da região, como chunho, batata, mandioca, milho e um peixe parecido com sardinha. Uma recepção bem diferente da que eu esperava.

Fernanda Chaves/Brasil de Fato

"Não vamos retroceder", disse o povo organizado

Diversos representantes de movimentos sociais discursaram, incluindo a CSUTCB e as Bartolinas, duas organizações da base de apoio do governo Evo Morales Ayma. Até a tia de Cárdenas se manifestou contra ele, acusando-o de traidor de suas origens. Durante as falas, fico sabendo que Cárdenas não teria cumprido com suas obrigações comunitárias, que não cumpriu com as promessas que fez para a comunidade quando vice-presidente, que apoiou a venda de empresas públicas, fez campanha pelo NÃO no último referendo e, por fim, que ele não seria o verdadeiro dono do terreno (os comunários mostraram documentos públicos a este respeito). Um disse: “Não somos masistas (partido do Evo), mas apoiamos o processo de mudanças”.

Em seguida, o povo realizou um justiçamento comunitário simbólico, chicoteando um boneco do ex-vice e depois o enterrando do lado de fora da casa, que foi entregue neste dia à população da terceira idade da região. “Não vamos retroceder”, afirmam eles, que declararam toda a região de Omasuyos (onde está Sancajahuira) território livre de acordo com os artigos 190, 191 e 192, que dispõem sobre os direitos dos povos originários na Nova Constituição.

Marcelo Salles/fazendomedia.com

Um boneco representando Cárdenas foi chicoteado e enterrado

Diante das repercussões, a maioria dos analistas acredita que o governo Evo sai prejudicado, devido ao uso político feito pela direita e sua mídia. O efeito, sobretudo nas classes médias, será: “Minha casa poderá ser roubada”. Seria o primeiro grande desgaste de Evo para as eleições presidenciais de dezembro, segundo Eduardo Paz Rada, diretor de Sociologia da Universidade Mayor de San Andrés.

Digo uso político porque quando entrei na espaçosa casa de dois andares, quatro quartos, dois banheiros, sala com 70m2, lareira e amplo jardim, pude ver que não havia instalação elétrica e nem água corrente. Além disso, a escada não estava acabada, ainda no cimento, e não havia parapeito nem outro tipo de apoio. Pra mim ficou evidente que ninguém morava ali, mas segundo as imagens da televisão, parecia o contrário. Ao saber da decisão comunitária pela tomada da casa (o que foi divulgado amplamente), Cárdenas enxergou uma manobra inteligente.

Fernanda Chaves/Brasil de Fato

Anciãos agora são os donos da casa

Ele sabia que este governo não promoveria uma reintegração de posse violenta para não se igualar a Sánchez de Lozada (que hoje vive escondido em Miami, acusado de ordenar o assassinato de 67 pessoas em outubro de 2003), apesar de ministros terem declarado sua discordância com a ação dos comunários. Assim, Cárdenas mandou pra lá sua esposa e filhos (ele mesmo não foi), que foram arrancados à força da casa. Com ferimentos levíssimos, apareceram dando declarações de dentro do hospital debaixo das músicas especialmente selecionadas para completar o quadro de tristeza. O ex-vice aparecia na seqüência declarando que a culpa era do presidente Evo e seu governo. Pronto, aquele que era considerado um cadáver político agora já aparece entre os presidenciáveis da direita para dezembro.

Fernanda Chaves/Brasil de Fato

Aqui um dirigente me mostra os documentos de propriedade do terreno

Fernanda Chaves/Brasil de Fato

No final, os comunários - tão violentos segundo a mídia daqui - oferecem um lanche coletivo

Sugestão para o ato de sábado
05.03.2009 | 12h10 |

Sugiro aos organizadores que leiam o juramento profissional do jornalista no ato de sábado próximo, em frente à Folha de S. Paulo: "A Comunicação é uma missão social. Por isto, juro respeitar o público, combatendo todas as formas de preconceito e discriminação, valorizando os seres humanos em sua singularidade e na luta por sua dignidade". Se eu estivesse no Brasil certamente estaria lá com vocês. Boa sorte!

A inspiração da Folha
03.03.2009 | 13h30 |

Ato público contra a Folha
03.03.2009 | 13h04 |

O Movimento Sem-Mídia, presidido por Eduardo Guimaraes, convoca para um ato público de repúdio à Folha de S. Paulo, no sábado dia 7 de março, em frente à sede do jornal. O objetivo é repudiar o recente insulto da Folha à memória das vítimas da ditadura (que o jornal acredita ter sido "ditabranda") e prestar solidariedade aos professores Fábio Konder Comparato e Maria Victoria Benevides, que foram acusados de "cínicos e mentirosos" pelo jornal após terem se manifestado contra o uso do termo "ditabranda".

Mais informaçoes no blog do Eduardo: http://edu.guim.blog.uol.com.br.

É bom deixar claro que este protesto pode ser centralizado na Folha, mas deve alcançar todas as corporaçoes de mídia que apoiaram um regime que sequestrou, torturou e assassinou milhares de brasileiros. Se a ditadura foi orientada pela CIA, é também verdade que ela foi sustentada pela mídia - TV Globo à frente. Como já denunciou Roméro Machado, Joe Wallach e Vernon Walters eram os representantes da CIA dentro da Globo e tinham poder para decidir o que ia e o que nao ia ao ar. Leia mais aqui: http://www.fazendomedia.com/globo40/globo40.htm

Se o governo federal estiver afim de democratizar este país deveria começar cassando as concessoes públicas de empresas que foram cúmplices do regime de exceçao (e que hoje defendem a aplicaçao de um novo regime de exceçao, conhecido como neoliberalismo). Sem isso nunca teremos no Brasil uma subjetividade capaz de produzir os elementos necessários à construçao de uma naçao independente e soberana, livre de toda essa iniquidade que existe hoje.

Cancele sua assinatura da Folha!
02.03.2009 | 12h22 |

Se você não concorda que a ditadura no Brasil foi branda, cancele sua assinatura da Folha de S. Paulo. Se você ficou indignado(a) com a agressividade do jornal contra os professores Fábio Konder e Maria Victoria Benevides, repasse esta campanha para os amigos e familiares. Se você tem um blog sem rabo-preso com as corporações de mídia, ENTRE NESTA CAMPANHA!


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"A Comunicação é uma missão social. Por isto, juro respeitar o público, combatendo todas as formas de preconceito e discriminação, valorizando os seres humanos em sua singularidade e na luta por sua dignidade" (Juramento do Jornalista Profissional)

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"Entre os melhores sites jornalísticos encontra-se o Fazendo Media, de Marcelo Salles" - Fausto Wolff, no Jornal do Brasil (27/07/06)

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Leituras indicadas:

> Biografia não-autorizada de Álvaro Uribe, presidente da Colômbia

> Programa Setorial de Comunicação e Democracia do Governo.

> "É preciso incentivar a mídia alternativa", entrevista com Ciro Gomes.

> Abaixo-assinado frustrado da TV Globo.

> TV Globo, o delegado e outros assuntos capitais.

> Um espectro ronda a democracia.

> O direito de criticar a imprensa.

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Vídeos recomendados:

> Muito Além do Cidadão Kane.

> Brizola responde aos ataques da Globo.

> Roberto Requião enfrenta a Globo.

> Midiatrix - Homer encontra Bonner.

> Subcomandante Marcos fala sobre a democratização da mídia


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