
EU CREIO EM ALI KAMEL - 2
Por Sérgio Torelly, 31.01.2007
O diretor-executivo da TV Globo, Ali Kamel, havia prometido dar seqüência a suas reflexões sobre o jornalismo na coluna que publica semanalmente no jornal O Globo. Na terça-feira passada, Kamel disse que em seu próximo artigo pretendia discutir "como obter o máximo de objetividade e isenção em jornalismo". Chegou a terça-feira desta semana, que foi ontem, e o texto não veio.
No lugar onde costuma ser publicado, ali pelo meio da página 7, apareceu um artigo de Eduardo Rosa Pedreira, que, segundo o jornal, é "pastor da Comunidade Presbiteriana da Barra da Tijuca e professor da Fundação Getúlio Vargas". Tá certo que no comentário sobre seu outro artigo eu terminei dizendo amém, mas precisavam levar tão a sério?
O que teria acontecido com Kamel? Meu amigo Marcelo Salles, em seu sempre atualizado blog, cobrou explicações do Globo. Nenhum aviso. Férias, problemas familiares, um mal estar repentino, ou algo mais que poderia ter atrapalhado a concentração de Ali Kamel para dissertar sobre jornalismo. Nada. Até agora nós, seus fiéis leitores, não fomos informados.
Talvez alguém mais sensato tenha chegado junto e mandado uma real: "Ô Zé Ruela, você não percebe que está expondo a TV Globo desnecessariamente? Não percebe que quando você escreve suas pretensas filosofias isso repercute nesses malditos sáites alternativos e, geralmente, a turma não vai com a sua cara feia? Não percebe que você dá margem para lembrarem que tentamos roubar para Alckmin? Não vê que agindo assim você abre a brecha para colocarem em pauta que apoiamos a tortura num passado recente? E que apoiamos o imperialismo hoje?".
Não é nada, não é nada, foram mais de 40 comentários no Observatório da Imprensa, outros tantos no Comunique-se e quatro aqui. Estou chutando, mas as críticas às divagações de Kamel da semana passada devem ter sido lidas por umas dez mil pessoas. Sem contar que as pessoas conversam com amigos, familiares e tal.
Por outro lado, pode não ter sido nada disso. Às vezes Ali Kamel exercitou tão bem a arte da isenção e da objetividade que seu texto foi publicado... Mas ficou invisível! Isso mesmo, invisível. De tão isento e objetivo, passou despercebido pelas retinas até dos mais atentos leitores do Globo. Algo assim só pode acontecer com alguém como ele, transparente, uma pessoa pura, casta, pudica, nobre, de ideais elevados.
Só mesmo um enviado de Deus seria capaz de realizar este milagre! É o milagre da imparcialidade, como ele defendeu com tanta paixão na carta-resposta às matérias de CartaCapital. Amém de novo, santo Kamel! Amém de novo!