
ESSE SISTEMA NÃO SERVE PARA O SER HUMANO
Por Marcelo Salles - salles@fazendomedia.com
Trinta anos sem Vladimir Herzog, jornalista morto sob tortura pela ditadura política orientada pela CIA. Especializado em Cultura, Vlado não viveu para ver a continuação do regime de exceção, hoje sustentado justamente pela invasão cultural. Mudou o nome para ditadura de mercado, mudou a roupagem da opressão, mas seu objetivo segue o mesmo: explorar o país.
Washington apoiou o golpe, como fez em países variados, mas com o mesmo objetivo: garantir o interesse das corporações multinacionais. Civis e militares que apoiaram a manobra foram apenas testas-de-ferro do esquema, do mesmo modo que o são os que hoje defendem a economia de mercado, ancorado numa fantasia chamada neoliberalismo.
A triste verdade é que o Brasil não evoluiu de lá pra cá. Segundo o Grupo Tortura Nunca Mais, a situação dos Direitos Humanos hoje é pior do que há 30 anos. A diferença é que hoje os "outros" são os miseráveis em geral, pois além de estar à margem da sociedade de consumo, sua própria existência revela a falência do sistema capitalista. Democracia? Só se for como a democracia em Atenas, onde uma parte tinha voz (os chamados cidadãos) e a outra parte não (os escravos).
Mas o neoliberalismo consegue ser ainda mais perverso que a democracia ateniense, pois enquanto esta era sincera em sua segregação, a lógica do mercado pretende iludir as pessoas e transmitir-lhes a sensação de que elas são as culpadas por sua situação.
No entanto, os argumentos neoliberais são frágeis. Tão frágeis que, para surtirem efeito, precisam dos meios de comunicação de massa. Só assim para sustentar que "a mão invisível do mercado" garante preços mais acessíveis para produtos melhores, juntando tudo no mesmo saco, desde a mercadoria mais simples, como uma caneta, até serviços estratégicos, como os de energia.
Não se encontra nos cadernos de economia qualquer menção a um modelo alternativo, de modo que o centro do debate restringe-se àquilo que o tal mercado acha ou deixa de achar sobre as atividades econômicas do país. Estudiosos e pesquisadores que destoam do pensamento dominante são simplesmente ignorados.
Seria pertinente supor que o sistema neoliberal implantado no Brasil é o maior responsável pela gritante desigualdade social que, por sua vez, gera toda essa violência que aí está para quem quiser ver. Vêem esta, mas não conseguem trilhar os olhos até sua origem, pois no meio do caminho encontram de tudo - novelas, futebol, fofocas - menos informação.
Não é preciso ler Gramsci ou Althusser para perceber que mídia e polícia andam juntas. Tome propaganda de um lado, porrada de outro, caso se revolte por não poder comprar aquilo que oferecem. São duas faces da mesma moeda, onde quem tem a coloca no bolso e quem não tem é alienado ou coagido. Ou os dois. Esse é o sistema capitalista imediatista erigido sobre o medo, cujo único objetivo é o lucro.
Não se trata de discutir se o Rio de Janeiro está em guerra ou não, pseudo-debate que a mídia sofista tenta nos impor. O fato é que o país, ou melhor, o mundo inteiro está imerso num colapso social que evidencia para qualquer um que ouse olhar mais longe: este sistema não serve para o ser humano.