
A GUERRA É A DEGRADAÇÃO DO HOMEM
Por Ryszard Kapuscinski, 27.01.2007
A guerra é a degradação do homem ao mesmo nível da besta. Cada guerra é uma derrota para todos. Não há nenhum vencedor. Tenho presenciado muitas guerras, mas recordo especialmente como acabou a Segunda Guerra Mundial. Houve alguns dias de euforia, mas logo foi-se revelando a enorme infelicidade que a acompanhava: os mutilados, as crianças órfãs, as cidades feridas e arrasadas, as pessoas irremediavelmente enlouquecidas.
A guerra não acaba no dia em que se assina o armistício. A dor persiste muito tempo. Existe um conto do escritor polonês Jerzy Andrzejewski intitulado O verdadeiro final da grande guerra. O verdadeiro final da guerra ocorre muitos, muitos anos depois da declaração oficial. No fundo, a guerra não acaba nunca. A guerra é conseqüência da interrupção da comunicação entre os homens. Não há que esquecer nunca que a capacidade de comunicar-se é a essência da humanidade. Às vezes, em momentos como estes, alguém sente a necessidade de fugir da corrente do rio e sentar-se na margem para observar as coisas de fora. Os acontecimentos se sucedem, velozes e caóticos, e formam redemoinhos contraditórios e incompreensíveis. É preciso aprender a olhar debaixo da superfície, onde tudo acontece mais lentamente e é possível tentar captar a natureza profunda da história que estamos vivendo, o que Fernand Braudel chamava "longa duração".
Eu queria escrever um livro sobre a globalização. No último ano e meio voltei a viajar pelo mundo para recolher material e conversar com as pessoas, sobretudo na América Latina. Mas me dei conta de que este mundo muda tão depressa, de forma tão radical e violenta, que não posso escrever nenhum livro nem dar nenhuma decisão convincente. Não há tempo para fazer alguma reflexão profunda de fora. E, no entanto, estou convencido de que o que faz falta é precisamente tentar fazer uma reflexão serena sobre o mundo. Mas, para fazê-la, é preciso distanciar-se dos acontecimentos, encontrar uma perspectiva mais ampla e elaborada. Isto é o que estou fazendo agora. E para isto me pus a seguir os passos de Heródoto: o mestre de todos nós, o primeiro repórter, um fenômeno único na literatura mundial.
Os passos de Heródoto
Heródoto foi o primeiro que entendeu que, para compreender e descrever o mundo, faz falta recolher grande quantidade de material e, para ele, alguém tem que sair de sua terra, viajar, conhecer pessoas que nos relatem suas histórias. Nosso relato é o resultado do que vimos e do que nos contam as pessoas. Nós, repórteres, somos o resultado de uma escrita coletiva. O material de nossos textos constituem os relatos de centenas de pessoas com as quais falamos.
Heródoto não descrevia o mundo como faziam os filósofos pré-socráticos, partindo de seu próprio pensamento, somente contava o que havia visto e ouvido em suas viagens. Sua filosofia consistia em que é necessário viajar e descobrir histórias novas. Estava convencido de que as culturas se misturam e que, inclusive quando há um conflito, não há por que ser um aniquilamento. Heródoto polemiza com seus compatriotas, demonstra e prova, por exemplo, que os gregos, sem a cultura egípcia, não seriam nada. Nenhuma civilização existe de forma isolada: há uma interação constante. É um cronista e, ao mesmo tempo, um patriota grego. Mas nunca emite uma palavra de ódio. Nunca usa termos como inimigo ou aniquilamento. A linguagem do ódio não tem lugar em seus textos. Escolhe palavras dramáticas, que servem para mostrar a desgraça humana dentro do conflito. O que mais o interessa é destacar as razões das duas partes. Não julga. Dá aos leitores as faculdades e os materiais necessários para formar sua própria opinião. Muitas vezes, mais que de cronista, tem atitude de estudioso: depois de narrar, faz perguntas.
Tudo se baseia em um questionamento dramático: Por que se faz a guerra? Ouvi falar pela primeira vez de Heródoto quando estudava História na Universidade de Varsóvia, mas estávamos no período stalinista e seus livros, embora traduzidos, permaneciam guardados nas caixas da editora. Porque sua obra é uma grande apologia da democracia, uma acusação contra sátrapas e tiranos. Mostra que a guerra era o conflito entre a democracia e a ditadura, e que a primeira venceu porque os homens livres estão dispostos a dar a vida para conservar sua liberdade. Naquela época, na Polônia, publicar um livro que exaltava a democracia e a liberdade, e que condenava as ditaduras orientais, era impossível. Foi preciso esperar até 1954, depois da morte de Stalin e num clima de tímida liberalização, para que se publicassem as Histórias.
Em 1956, recém concluído meu curso, tive possibilidade de viajar ao exterior pela primeira vez, à Índia, Paquistão e Afeganistão, enviado pelo jornal das juventudes comunistas, O Estandarte dos Jovens. A diretora me presenteou para a viagem com um exemplar das Histórias de Heródoto. Com aquele livro iniciei minha viagem no jornalismo, começando por uma escala de dois dias em Roma. A Itália foi o primeiro país que via fora do bloco soviético. Do céu, me recordo, vi uma cidade toda iluminada. Me causou uma grande impressão que ainda hoje perdura. E aquele livro tem me acompanhado em todas minhas viagens. Inclusive agora o trago sempre comigo, como fonte de inspiração, reflexão e prazer. Um modelo de objetividade e informação completa para nosso ofício de "investigadores do mundo".
Guerra de manipulação
Para muitos, este trabalho não é mais uma forma de ganhar dinheiro, mas também há muitos jovens que se perguntam sobre o que fazem e buscam mestres e exemplos - vejo isto constantemente nos contatos que mantenho em universidades, durante conferências e apresentações de meus livros. O livro sobre Heródoto será para eles: vão constatar, há 25 séculos, viveu um homem que compreendeu que o jornalismo é um ofício que deve praticar-se com escrúpulos, honradez e respeito, e que combate o partidarismo e o chauvinismo. Heródoto quis apresentar o mundo como um lugar habitado por pessoas que podem e devem viver juntas e em paz.
Meu trabalho é uma missão e deve estar sujeito a alguns valores; deve ajudar a manter o equilíbrio do mundo, uma ordem não só política como ética. A guerra do Iraque tem muitas facetas. Uma delas, por exemplo, é a guerra televisiva entre a Al Jazeera e CNN, uma grande guerra de manipulação. Um conflito de propaganda através da mídia. Cada um tenta mostrar a guerra que lhe convém para seus fins (tanto nacionais como internacionais). Não é nenhuma coisa nova. Faz alguns anos, um amigo meu, o grande jornalista Philip Knightley, escreveu um livro que todos deveriam reler hoje: The first casualty (A primeira vítima). Nele, Knightley mostra que as informações sobre as guerras, desde a da Criméia até a do Vietnam, sempre foram manipuladas. Os repórteres contavam os fatos de maneira bastante objetiva, mas, quando mais notícias chegavam às sedes dos jornais, em Londres ou Paris, eram distorcidas completamente, por razões políticas ou de conveniência. De forma que os dados que surgiam no papel impresso não tinham nenhuma relação com a realidade. Se em uma página se colocassem a informação que contavam os jornais e, ao lado, os fatos que de verdade tinham ocorrido, se descobririam duas histórias opostas.
A primeira vítima de qualquer guerra é a verdade. E continua sendo hoje. Estudei os boletins de imprensa da guerra de 1972 entre Israel e Egito. Incrível o que diziam, as duas forças em combate haviam destruído, reciprocamente, três vezes os meios reais do inimigo. Quando começa um conflito, o que interessa não são as notícias, e sim seus efeitos psicológicos. Assim se entende melhor, por exemplo, a contínua destruição da verdade levada a cabo na Rússia, desde a Revolução bolchevique até a queda da URSS, e inclusive depois. Rússia é um país que sempre se sentiu em guerra, rodeado de inimigos. Por extensão, não podia haver mais que uma manipulação constante dos fatos: nada de objetividade, somente propaganda. Hoje, a máquina que seleciona as notícias e as manipula tem que ser muito mais potente, porque ocorre debaixo do olhar das câmeras de televisão. Todo o mundo pode sentir-se envolvido emocionalmente desde sua casa.
Há que ter-se claro que em mim têm convivido dois ofícios: o jornalista de agência de notícias (para a polonesa Pap) e o historiador-escritor. Ser correspondente, um trabalho cansativo, era minha única forma de ter dinheiro para viajar. Mas, como jornalista, tinha que estar sujeito aos critérios de brevidade e economia. Não podia oferecer um quadro completo da situação, em meus artigos não havia lugar para as sensações, o âmago das coisas, as reflexões, os paralelismos históricos. Trabalhava nos países do chamado Terceiro Mundo e redigia informações muito "pobres". Reduzia tudo aos fatos crus. Mas assim impedia que meus leitores obtivessem um sentido das proporções. Fora de seu alcance restava um mundo imenso. Por isso comecei a escrever livros. Voltava das viagens com um material riquíssimo que me permitia, em minha casa em Varsóvia, explicar com calma o mundo daqueles fatos que antes só havia contado telegraficamente.
Nunca escrevi meus livros sobre o terreno nem o instante; alguns, muitos anos depois. Somente assim podia entrar, como Heródoto, até o âmago das coisas. Tentava superar o caráter telegráfico dos despachos de agência empregando uma linguagem diferente. Minhas viagens de trabalho se converteram na forma de recarregar as baterias do historiador-escritor. Quando tinha um dia livre, fazia anotações ou pegava a câmera fotográfica para fixar (como se vê em Ébano, meu livro ilustrado) rostos, cores e todas as coisas que, por desgraça, não é possível descrever com números e dados. Sempre tentei unir a linguagem rápida da informação com a língua reflexiva do cronista medieval. Meus livros e minhas fotos têm sabor de autenticidade porque estive verdadeiramente nestes lugares, vivi essas situações, às vezes inclusive com risco para minha vida.
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Com tradução de Ricardo Barreto, este artigo foi publicado originalmente no E-Zero, Jornal Laboratório do Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina, em 12 de junho de 2003.
Noda da Redação: ontem nos chegou a notícia de que o autor do texto, o polonês Ryszard Kapuscinski, havia falecido. Quem nos avisou foi o professor Dênis de Moraes, que considerava Kapuscinski o maior jornalista vivo. Ao noticiar sua morte, em editorial, o jornal mexicano La Jornada comentou: "A figura do informador polaco recém-falecido contrasta (...) com o jornalismo dominante no mundo de hoje: uma tarefa dominada, em sua maior parte, por interesses empresariais para os quais o objetivo do ofício não é informar, mas obter utilidades; uma indústria que se submete por conveniência ao poder público para acumular um poder econômico desmesurado. O processo se fecha quando esse poderio é transformado em força de choque para domesticar a opinião pública, e desviado, inclusive, pelos caminhos do golpismo midiático".