
26.05.2007
RCTVs TUPINIQUINS
Por Eduardo Guimarães - http://edu.guim.blog.uol.com.br
Na antevéspera do fim que o governo venezuelano colocará, definitivamente, no funcionamento da emissora RCTV (uma espécie de TV Globo da Venezuela), valendo-se, exclusivamente, da constituição venezuelana - que, a exemplo da brasileira, determina que canais de rádio e de televisão são concessões públicas -, a Folha, a exemplo do que faz o resto da grande mídia brasileira, publica, sem permitir contraponto, o editorial "Ditador em obras", no qual acusa o presidente Hugo Chávez de estar empreendendo uma escalada "ditatorial" por conta de, entre outros motivos, negar a renovação da concessão da emissora.
O editorial reconhece, em certo e fugaz ponto, que "a oposição" venezuelana, inspirada pelo governo americano, "em 2002 já havia enveredado pelo atalho do golpismo (...) deslegitimando-se à época como pólo alternativo de poder e vitimizando um presidente então fragilizado". A Folha só não diz que a "oposição" a que se refere incluía - e inclui - a mídia. A prova disso pode ser encontrada no site de vídeos You Tube. Basta procurar lá a reprodução de um programa da RCTV apresentado logo depois da tentativa de golpe contra Chávez em 2002. O vídeo mostra a RCTV confessando no ar sua participação na articulação do golpe.
Quero ressaltar que é peculiar o editorial em questão dizer que Chávez encontrava-se "fragilizado" - por certo, o texto quis dizer fragilizado politicamente -, porque a verdade é outra. Era enorme o apoio que o presidente tinha - e continua tendo - entre os venezuelanos. Esse apoio era tanto que derrotou o movimento golpista. Logo após o golpe, um contingente espantoso de venezuelanos cercou o palácio presidencial de Miraflores e exigiu que os golpistas devolvessem o presidente que haviam seqüestrado. A massa humana que desceu dos morros que circundam Caracas foi tão impressionante que os golpistas, cuja primeira medida tinha sido fechar o Congresso, fugiram como coelhos assustados.
Também é peculiar a forma usada pela Folha para contar os fatos aos seus leitores. O jornal afirma que a RCTV é - ou era, para quem vier a ler este texto depois do último domingo de maio - "a última emissora com transmissão nacional que ainda se pautava pela independência em relação ao governo, uma vez que as outras duas grandes TVs privadas - a Venevisión, de Gustavo Cisneros, e a Televén - reformularam sua linha editorial e hoje operam como dóceis instrumentos do chavismo".
Quem, como eu, já esteve na Venezuela ou tem contatos de alguma espécie com o país, sabe que não é verdade o que diz a Folha. A imprensa venezuelana é totalmente livre. Inclusive as TVs. No dia em que escrevo, o jornal caraquenho "El Universal", por exemplo, que é um dos maiores da Venezuela, publica editorial e vários artigos sobre o fechamento da RCTV que guardam enorme similaridade com o discurso da Folha, apesar de serem textos característicos da imprensa venezuelana - mais virulentos, ressentidos e pregadores do mesmo "golpismo" a que aludiu o jornal brasileiro. Além disso, reinam absolutos, sem qualquer contraponto, no espaço contíguo. Como na imprensa brasileira.
O articulista do "El Universal" Agustin Blanco Muñoz, por exemplo, critica hoje (25/5) que a RCTV tenha tentado reverter a cassação de sua concessão "através da lei", e repercute uma pergunta única que diz estar recebendo de seus leitores sobre como derrubar "o regime". Vejam que a elite venezuelana busca "soluções" para se livrar de Chávez fora do instituto democrático do voto, pois sabe que é minoria e não tem como derrotar o atual governo nas urnas.
O leitor da Folha e do resto da grande imprensa brasileira, bem como o telespectador da Globo e de tantas outras TVs e rádios, estará mal informado se não buscar fontes alternativas de informação. Ignora e continuará ignorando que a RCTV não está tendo sua concessão cassada por se opor a Chávez ou por se alinhar à oposição a ele. A emissora venezuelana será extinta no próximo domingo porque integrou o movimento golpista que seqüestrou o presidente constitucional da Venezuela. E há provas disso que podem ser colhidas aqui mesmo no Brasil, graças ao instrumento magnífico que é a internet.
A mídia latino-americana, conservadora e de direita, ao mentir e omitir fatos e ao tentar manipular as classes mais empobrecidas para que votem de acordo com seus interesses, ignora que, diferentemente do passado, não há mais monopólio da informação. Por isso, textos mentirosos como o da Folha podem ser desmascarados por um único cidadão como eu em textos postados na internet, e esses textos podem se espalhar pelo país e pelo mundo em questão de minutos. Por isso as elites conservadoras e golpistas estão perdendo o controle de tantos países latino-americanos.
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