
SOBRE NOEL E CRISTO
Por Marcelo Salles, 25.12.2005
O Natal deveria ser um momento de reflexão. Um momento em que nós, criaturas imperfeitas, deveríamos parar e pensar. Pensar muito. Em primeiro lugar, deveríamos pensar no significado dessa data. Deveríamos achar no mínimo estranho que um senhor aparentemente bonachão, vestindo vermelho na roupa e branco na barba, apareça assim do nada, das chaminés, e distribua presentes para todos a sua volta.
Deveríamos aproveitar o momento de reflexão para questionar esse que se diz Papai e nos induz ao consumo desenfreado, e o faz da maneira mais desprezível ao sugerir prazer no ato de presentear objetos e ao dizer, dessa forma, que o importante é ter, ter e ter.
Poderíamos também aceitar o convite à reflexão para questionar algumas verdades impostas sobre o Natal. Por exemplo, por que a árvore de Natal no Brasil, país tropical, é um pinheiro? Por que as pessoas enfeitam suas casas com bonecos de neve? Por que ouvimos falar mais de Papai Noel do que de Jesus Cristo? O que sabemos sobre Jesus Cristo e o que sabemos sobre Papai Noel? Esse conhecimento (ou a falta dele) teria alguma coisa a ver com a situação caótica do país e do mundo em que vivemos?
Todo comerciante sabe que o Natal é a melhor época do ano para as vendas. Há um clima tão forte de troca de presentes que o sujeito fica até constrangido ao imaginar a possibilidade de não comprar nada. O modo como o Natal é construído pela mídia colombina praticamente obriga o cidadão a consumir. Cria-se uma expectativa na maioria das pessoas que leva os que não se deixam seduzir a serem excluídos do processo. E convenhamos: o personagem vermelho e branco que aparece na televisão é definitivamente um grande vendedor, negociando com competência desde carros até eletrodomésticos.
A triste realidade é que, nesse mundo dito moderno, Papai Noel substituiu Jesus Cristo - o que é coerente, registre-se. Um defendeu o socialismo, o outro o capitalismo. Enquanto Jesus expulsou os vendilhões do templo, Noel os convida de volta. Enquanto Jesus preocupava-se em ser tolerante, Noel nos impõe sua vontade. Enquanto um buscava a reflexão profunda, o outro se realiza no imediatismo impensado.
Amar o próximo como a si mesmo é um dizer por demais revolucionário para ser aceito pelo sistema.