
EU CREIO EM ALI KAMEL
Por Sérgio Torelly, 25.01.2007
O diretor executivo de jornalismo da TV Globo, Ali Kamel, escreve às terças-feiras no jornal O Globo, oferecendo-nos boa oportunidade para conhecer melhor um dos principais dirigentes da maior emissora da televisão brasileira.
Nesta terça-feira (23), por exemplo, ele divaga sobre jornalismo. Diz que "a pluralidade é regra geral em tudo o que se faz em jornalismo, inclusive nas páginas de artigos, que devem espelhar as tendências da sociedade".
Tem razão o Kamel. Por exemplo, tem sido extremamente plural a cobertura dispensada pelas Organizações Globo ao presidente da Venezuela. Há dias em que não há uma linha sequer a contemplar o lado de Hugo Chávez. É o texto inteiro, do lide ao pé, descendo a lenha em qualquer medida do governo venezuelano. A pluralidade, no caso, deve ser com relação ao número de parágrafos: mais de um = plural. Apenas um = singular.
Quando foi anunciado que a concessão da RCTV não seria renovada, Chávez virou um ditador nas imagens e palavras da Globo, este bastião da democracia tupiniquim. Ainda exercitando a pluralidade, os veículos do conglomerado passaram a ouvir várias opiniões. Se todas atacavam Chávez, isso é outra história. O fato é que a pluralidade foi mantida. Mais de uma fonte = plural. Apenas uma = singular. Tantas foram as fontes ouvidas contra Chávez que não chegou a ser necessário reportar que ele venceu cinco eleições seguidas, ou que a Unesco tenha declarado a Venezuela livre do analfabetismo com a ajuda do método cubano "Yo, Sí puedo".
Mais à frente, Kamel afirma: "Opinião própria, apenas nos editoriais e sem repercussão no noticiário". O que será que ele pensa da manchete do Globo de 29 de setembro de 2004, sobre o arrastão numa praia da zona sul: "À luz do dia e no Leblon. O que falta mais?"? Claro, que no Andaraí pode, na Rocinha pode, na Maré pode e em Duque de Caxias também pode. Ou não pode, mas não vira manchete. Mas no Leblon não pode. E se acontecer, vira manchete. Puta absurdo arrastão no Leblon!
E o que dizer das palavras do repórter especial da TV Globo Rodrigo Vianna sobre a cobertura das últimas eleições presidenciais? O jornalista trabalhou durante dez anos na empresa, mas deve ser mesmo um desequilibrado, como a nota da Globo faz parecer. Curioso desequilíbrio esse, que foi descoberto apenas em sua saída da empresa, quando afirmou: "Intervenção minuciosa em nossos textos, trocas de palavras a mando de chefes, entrevistas de candidatos (gravadas na rua) escolhidas a dedo, à distância, por um personagem quase mítico que paira sobre a Redação: 'o fulano (e vocês sabem de quem estou falando) quer esse trecho; o fulano quer que mude essa palavra no texto'". Prova cabal de opinião própria sem repercussão no noticiário... Opinião própria do repórter.
Num outro trecho, Kamel compara Folha de S. Paulo, Estado de S. Paulo e O Globo: "concorrentes ferozes, destacam sempre mais ou menos os mesmos assuntos. Não é falta de criatividade: é que os jornalistas que neles trabalham, profissionais treinados, sabem reconhecer num enxame de fatos o que é relevante e o que não é".
Eu, sinceramente, acredito nisso. É sério. Não, não. Não estou brincando. Acredito mesmo nessa feroz e incansável disputa pelo furo nosso de cada dia; creio, como há de se crer no que é mais sagrado, que não existe nenhum interesse político ou financeiro por trás de algumas manchetes. Acredito, senhor, que o fato de esses jornais publicarem, em essência, o mesmo, não tem nada a ver com o projeto neoliberal que eles defendem. Creio nisso tanto quanto creio que as privatizações tenham trazido enormes avanços ao país, ou quanto creio que FHC tenha sido um grande estadista, ou ainda quanto creio que a Globo tenha combatido, incansavelmente, a ditadura política apoiada pela CIA.
Para a semana que vem, Kamel adianta o que pretende discutir: "Como obter o máximo de objetividade e isenção em jornalismo". Amém.