......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



24.04.2007
GALDINO, SANDRO, JOÃO HÉLIO, ALANA...

Por Luciana Chagas - lua.chagas@uol.com.br

Chega a ser patético ler nos jornais as soluções propostas por setores da sociedade para o fim da violência na cidade do Rio de Janeiro. Redução da maioridade penal, pena de morte e manifestos semanais solicitando apoio a essas iniciativas...

Em geral parte-se de suposições esdrúxulas: se a pena de morte fosse instituída no Brasil a superlotação dos presídios seria resolvida. E os cemitérios? Será que há espaço para transferir os corpos de todos os assassinos que estão nos presídios para os cemitérios? Ou seriam todos incinerados? Certamente não é assim que se resolvem os problemas de uma sociedade. Todo cidadão tem direito à vida e esta é repleta de erros e acertos.

No dia 20 de abril completaram-se dez anos do assassinato do índio Galdino, quando quatro jovens da classe média alta brasiliense, sendo um menor de idade, atearam fogo ao corpo da vítima que dormia num ponto de ônibus no Distrito Federal. Tratar-se-ia de uma macabra e tardia comemoração do dia do Índio celebrado na véspera?

O caso do índio Galdino é tão ou mais chocante do que a morte do menino João Hélio, que foi brutalmente assassinado ao ser arrastado pelas ruas da cidade pendurado pelo cinto de segurança, após um assalto há quase dois meses. Curiosamente, na ocasião da morte de Galdino não houve manifestações clamando pela redução da maioridade penal. Por quê? Por que o menor em questão era de classe média alta?

É preciso atentar aos alertas em forma de violência que a cidade vem vivendo: são ônibus queimados e balas perdidas, que inclusive já se tornaram comuns e rotineiras, deixando de ser noticiadas pela mídia. Quantas crianças precisarão ser arrastadas e quantos índios deverão ser queimados para convencer o Estado a bulir na raiz do problema.

Em junho completam-se sete anos do seqüestro do ônibus 174, quando o seqüestrador Sandro e a professora Geísa Gonçalves foram mortos. Sandro matou a professora num ato de desespero - quase involuntário - e os policiais mataram-no num ato consciente, sendo absolvidos pela justiça brasileira. Diferentemente, Sandro, mesmo morto, foi julgado e condenado por boa parte da sociedade brasileira. Não devemos desprezar a vida do jovem Sandro, tendo em vista que sobreviveu às chacinas da Candelária e de Vigário Geral, viu sua mãe ser assassinada e conheceu os bastidores do Instituto Padre Severino. Não se deve ignorar a trajetória desse jovem, que não teve nenhuma oportunidade de conhecer outro caminho. Sandro, durante sua breve vida foi vítima, foi invisível, tornou-se algoz no momento em que decidiu seqüestrar - sabe-se lá porque - o ônibus. Quantos meninos como o Sandro existem na cidade do Rio de Janeiro?

Não estou aqui defendendo criminosos e assassinos, pois acredito que todos devem ser igualmente punidos, tanto os pobres quanto os ricos. Mas quando o Estado resolve ignorar milhões de crianças com fome, sem moradia, sem assistência médica, isso também não se constitui numa atitude criminosa? Trata-se da construção de vidas sem perspectivas, sem aprendizados, sem as condições para satisfazer necessidades básicas tais como o acesso à comida, abrigo, sono, etc.

Sem falar na estrutura familiar, que é fundamental para auxiliar nos percalços e nas chagas da vida, e na educação religiosa, seja ela qual for. É importante para qualquer cidadão, em especial para as crianças e adolescentes, a construção de uma educação religiosa. Senão a vida torna-se uma brincadeira, uma futilidade. Não se pode permitir que a morte seja banalizada e considerada uma solução para os ignorantes. Em apenas uma frase, Edna, a mãe da menina Alana Ezequiel, de 12 anos - morta recentemente por uma bala perdida no bairro de Vila Isabel e moradora do Morro dos Macacos -, revelou a desigualdade que assola o país. Ao ser perguntada sobre qual seria o maior sonho de sua filha, Edna respondeu: "gente que mora no morro não tem sonho".

É negligência acreditar que a vida dos meninos malabaristas, por exemplo, é problema do Estado, responsabilidade do governo, apenas resultado de políticas equivocadas. Ledo engano. Somos todos responsáveis. A moeda que não doamos no sinal, o olhar de repúdio, o pensamento preconceituoso, o egoísmo e a desconfiança nos levam a este quadro de tragédia, abandono e desesperança. Cadeias superlotadas, repressão policial e descaso das autoridades retratam o momento atual.

Luxo e Pobreza. Carros e pés descalços. O chão gelado das ruas e o quarto confortável do lar burguês. Miséria e ostentação. Viver e sobreviver. Muitas são as contradições presentes no cotidiano da cidade do Rio de Janeiro.

Educação é a palavra-chave, é o primeiro passo para transformar a sociedade. Educação, tal como nos lembra o dicionário, significa aplicação de métodos próprios para assegurar a formação e o desenvolvimento físico, intelectual e moral de um ser humano.

Esse deve ser o nosso único clamor! Negros e brancos, pobres e ricos numa só voz.


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