......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



ALGUÉM JÁ VIU UMA DROGARIA FECHAR?
Por Lívia Cabral Fernandes, 24.01.2006

O setor de farmácias do Rio de Janeiro cresceu 17% em 3 anos. Segundo levantamento feito pelo Núcleo de Estudos Econômicos e Microdesenvolvimento (Neem), o número de drogarias saltou de 1756 para 2051 entre os anos 2001 e 2004. Embora a Organização Mundial de Saúde (OMS) recomende uma farmácia por grupo de dez mil habitantes, a proporção atual na cidade do Rio é de quase 3,5 lojas por cada dez mil pessoas. O crescimento é notável, porém também é um alerta para a população.

Na opinião de André Queiroga, fiscal de atividades econômicas do Neem, “essa atividade tem atraído muito, talvez pelo grande mercado e pela margem de lucro. As farmácias de hoje não são como as de antigamente. Elas não vendem só remédios. Oferecem uma grande diversidade de produtos, como materiais de higiene e complementos alimentares. Com a cultura do corpo e a explosão das academias, muitas pessoas vão às farmácias em busca de complementos alimentares. Isso pode explicar o surgimento de tamanha quantidade de drogarias”.

Segundo os dados divulgados pela Secretaria Estadual de Saúde, o Centro da cidade concentra a maior quantidade de farmácias por dez mil habitantes (36,88). Copacabana e Leme têm um número de drogarias superior à média da cidade: 7,41 por dez mil habitantes. No trecho que se estende do Humaitá à Glória são 5,8 por dez mil moradores. E, da Praça da Bandeira à Tijuca, a relação também é alta: 4,67 para dez mil.

As estatísticas ainda revelam que algumas das principais ruas e avenidas da capital fluminense possuem elevada concentração de redes farmacêuticas. A Avenida das Américas, na Barra da Tijuca, é a primeira no ranking e possui 49 farmácias. Logo após vem a rua Conde de Bonfim, na Tijuca, com 47 e a Avenida Nossa Senhora de Copacabana, com 46. Mais atrás, a rua Visconde de Pirajá, em Ipanema, tem 23 drogarias.

Os números são surpreendentes. Alguém já viu uma drogaria fechar? As farmácias formam um grupo forte e bem-estruturado, em expansão desde a década de 80, com a informatização dos estoques dos pontos-de-venda. De acordo com o presidente do Conselho de Varejo da Associação Comercial, Daniel Plá, a principal característica do setor é a força das grandes redes e a concorrência entre elas: “é um excelente negócio para as principais marcas, que têm condições de oferecer uma grande variedade de produtos a preços baixos e concentram cada vez mais o mercado. No entanto, a alta competitividade prejudica os menores. Abrir uma drogaria de maneira independente é praticamente um suicídio”.

Nota-se, porém, que o crescimento do número de farmácias não acompanha o poder aquisitivo da população carioca. Pode-se dizer que o reaquecimento da economia e o desempenho dos genéricos e similares ajudam a manter estável a “saúde” das redes farmacêuticas no Rio de Janeiro. Em entrevista cedida à Gazeta Mercantil (novembro de 2005), Vera Valente, diretora-executiva da Associação Brasileira das Indústrias de Medicamentos Genéricos, “o consumo de genéricos poderia avançar ainda mais no País se houvesse uma política governamental voltada para o desenvolvimento desse mercado com o objetivo de ampliar o acesso da população aos remédios”. Vera ainda ressalta que "o segmento de genéricos cresce, mas sem grandes perspectivas de dar um grande salto".

A proliferação de farmácias é muito positiva para o ramo, mas também ficam dúvidas sobre a qualidade do serviço prestado à população. Para o presidente do Sindicato dos Médicos do Rio, Jorge Darze, a multiplicação das drogarias não é positiva: “antes de tudo, temos que lembrar que a saúde não é algo comercial. Não pode ser submetida às leis do mercado, como essa quantidade de farmácias nos faz crer. O medicamento é tratado como um bem de consumo. Por isso temos distorções, como o balconista tentando empurrar um determinado remédio para o freguês, mesmo que não seja o mais indicado”.

No entanto, o que mais surpreende, além do número excessivo de farmácias, é a falta de profissionais especializados em grande parte dos estabelecimentos. De acordo com a lei 5991/73, válida em todo o país, todas as farmácias devem ter farmacêuticos para orientar os cidadãos sobre o uso correto da medicação indicada. E o projeto de lei 3324/00, resultante dos trabalhos da CPI dos Medicamentos, tem por objetivo regular o comércio farmacêutico e criar condições para a melhoria da qualidade da dispensa de remédios. O projeto também determina que o técnico farmacêutico responsável por cada drogaria ou farmácia é obrigado a ter o título universitário.

A população, portanto, deve estar sempre alerta. O Conselho Regional de Farmácia de São Paulo adverte que a solicitação de um medicamento e o esclarecimento de dúvidas devem ser sempre feitos com um profissional da área. Os cidadãos devem evitar o “empurracionismo”, tão freqüente nos balcões das farmácias cariocas.


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