
22.08.2007
NÃO DEIXEMOS QUE NOS DECEPCIONEM
Por Marianna Araújo - contato@fazendomedia.com
Costumo dizer entre os amigos que a "grande imprensa não decepciona". Explico-me. O uso corrente da palavra decepção tem o sentido de desapontamento, frustração. Por isso, a afirmação pode passar a idéia de que estou sempre de acordo com o que diz a grande imprensa. O que não é verdade, claro. Acontece que a palavra decepção vem do latim deceptio, que quer dizer engano. Ou seja, para sentir-se decepcionado, é preciso que se tenha expectativas, positivas ou não, e que estas não sejam correspondidas. Como as minhas expectativas sobre a grande imprensa brasileira não são das melhores - e não o são por acaso - ela não me decepciona, não me engana.
Esta semana, no entanto, pensei estar à beira de uma decepção. Há alguns meses fiquei sabendo que repórteres do jornal O Globo estavam fazendo uma série de matérias sobre favela e violência. Esperei o pior, claro. Principalmente, depois da cobertura dada à recente operação no Complexo do Alemão. A isso, junte-se o tratamento que o jornal dá à questão das remoções, defendo-as abertamente, como política de urbanização.
Foi, portanto, esperando o pior, que sentei-me para ler o jornal de domingo (19/08), quando foi publicada a primeira matéria da série. Fiquei surpresa com o que li. Contrariando minhas expectativas, a reportagem era bastante completa, tinha fontes diversas - o comum é que a polícia seja a única fonte - e não continha os corriqueiros estereótipos que corroboram com a criminalização da pobreza. Uma coisa que me chamou a atenção foi que os jornalistas tocaram de forma clara e direta numa das feridas que mais incomodam o governo do Estado quando se fala em segurança pública: a violência e a corrupção policial. Ainda que o governo teime em tratar os casos de policiais violentos ou corruptos como exceção, sabe-se que não é bem assim. E isso ficou claro quando a reportagem mostrou que em alguns casos os moradores se sentem mais ameaçados pela polícia do que por organizações criminosas.
O jornal traça, ainda, um paralelo entre os desaparecidos no período da ditadura militar (136, em 21 anos) e as pessoas de quem não se sabe o paradeiro nas favelas cariocas (7 mil, em 14 anos). O Globo mostra em números o que as organizações de direitos humanos e movimentos sociais vêm falando há anos: a política de enfrentamento e extermínio não vai contribuir para a redução dos índices de violência. Se assim fosse, com tanta gente desaparecida e, claro, morta, a tendência era algum tipo de melhora. E nem adianta o argumento de que isto é resultado, apenas, das ações dos criminosos ou das milícias. Os depoimentos na reportagem mostram que não são. Para o cenário caótico em que nos encontramos, colabora, também, a polícia; seja extorquindo, abusando do poder ou simplesmente matando sob a desculpa de estar combatendo o crime. Por isso, para mim, não há dúvida de que adotar uma lógica de guerra e invadir as favelas matando indiscriminadamente não é o melhor caminho para se pensar a segurança pública.
Como há muito não acontecia, fiquei satisfeita com o que li no jornal. Mas, ainda era cedo para dizer que me decepcionei. Afinal, tratava-se de uma série de matérias e aquela era só a primeira. Qualquer conclusão só deveria ser feita no próximo domingo. Acontece que não deu para esperar. Apresso-me para escrever sobre o tema, pois o jornal de hoje acabou com minhas boas impressões.
A reportagem, como nos dias anteriores, está excelente. Isso se deve, principalmente, aos bons depoimentos que tratam do tema central da matéria: moradores de favelas que passam a viver exilados.
A coisa começou a mudar quando li, na capa, a manchete: "Quando fugir da favela é a única solução". E logo abaixo: "Tráfico leva moradores ao exílio". Primeiro equívoco. Não é apenas o tráfico que faz com que moradores de favela tenham que fugir de suas casas e viver escondidos. A afirmação omite, também, o fato de que muitos moradores fogem e não podem sequer denunciar seus agressores à polícia, pois correm o risco de serem entregues por ela. A chamada persiste no erro, citando apenas o tráfico como grande vilão e conclui com uma fala do governador Sérgio Cabral: "essas atrocidades mostradas pelo Globo são reais. Esse poder paralelo é selvagem".
Concordo plenamente com o governador. O poder paralelo é selvagem. E o poder do Estado seria o que, então? Será que o governador acha pouco essa selvageria e por isso manda o caveirão? Será que o governador só ficou sabendo dessas atrocidades pelo Globo? Será que ele ainda acha que policiais bandidos são coisa rara? Quantas atrocidades, como a do Alemão, o governador pretende cometer para acabar com as atrocidades reais?
Fiquei incomodada com a capa do jornal. Sabemos que a maioria das pessoas não lêem as reportagens, lêem apenas os títulos. Com a chamada, a manchete e a fala do governador, o jornal, mais uma vez, legitima a política de confronto, definindo as favelas como um espaço que serve de reduto para criminosos e justificando ações de extermínio da polícia. Se a lógica é de guerra, as mortes passam a ser tratadas como efeito colateral, um mal necessário. É esta a lógica do Estado e defendida pela imprensa.
Lógica que é defendida de forma escancarada no editorial desta edição. A primeira frase mostra bem o que vem pela frente: "Embora seja uma doença urbana disseminada pelo país, a favelização virou a cara do Rio". Mais abaixo o jornal conclui que "a favela nada tem de romântico e idílico. Mora-se quase sempre mal (...)". Fico imaginando quantas vezes o cidadão que escreveu este texto foi a uma favela para fazê-lo com tamanha certeza. Não é preciso morar na favela para enxergar o belo que há nelas, para admirar a alegria, a criatividade e solidariedade que há entre os moradores - bem diferente do individualismo que reina nos condomínios da zona sul.
A expressão "doença urbana" mostra bem o lugar de quem escreveu. É doença para a elite racista que mora de frente para a praia e é o patrão que explora os trabalhadores que vivem nas favelas. É doença para a classe média imbecil deste país, os "papagaios de telejornal" que querem "que se exploda a periferia toda", como bem resume a música de Max Gonzaga - o clip está no Youtube e vale a pena ser visto (http://www.youtube.com/watch?v=KfTovA3qGCs).
De resto, o próprio jornal se desmente. Algumas páginas depois, na coluna do Ancelmo Gois, podemos ver dados de uma pesquisa feita pela professora Alba Zaluar. A pesquisa revela que 85% dos moradores de favela não gostariam de deixar sua comunidade. Se a mesma pergunta fosse feita em bairros de classe média, este número jamais seria tão alto. Afinal, Ipanema, Leblon e Barra da Tijuca são o sonho de consumo de "todo mundo". Ou quase todo mundo, como mostra a pesquisa. Mas, como pode a favela não ter nada "de romântico" e tanta gente gostar de morar nela? Contradições da grande mídia. Ou melhor, mentiras da grande mídia.
O que o editorial do Globo faz é defender a política do governo do Estado, a política da elite, que a classe média avaliza, sonhando um dia morar na Vieira Souto. Para isso, o jornal usa, como argumento, a realidade cruel à qual os moradores de favela são submetidos. Pois, são eles as principais vítimas, não só da violência, mas da ausência do poder público, da exploração do trabalho e da concentração de renda. Para O Globo, o problema da nossa sociedade resume-se à existência de favelas. É o ditador da mídia questionando a ditadura nas comunidade populares. É o jornal burguês fazendo-se de paladino dos pobres favelados. Com certeza, a grande mídia não me decepciona.