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21.05.2007
ME FAÇA UMA GARAPA, ZÉ - ALGUMAS VERDADES SOBRE SÃO FRANCISCO DO PARAGUAÇU

Por Carlos Rocha (*) - carloskaurocha@yahoo.com.br

"O Jornal Nacional mostra o resultado estarrecedor de uma investigação no Recôncavo Baiano, em uma comunidade que está prestes a ser reconhecida oficialmente como remanescente de um quilombo", assim foi a chamada de Willian Bonner no Jornal Nacional do dia 14 de maio de 2007. Parodiando o jornalista, digo: a sociedade brasileira assistiu ao resultado estarrecedor de uma matéria pseudo-jornalística veiculada no maior empreendimento midiático do Brasil, a TV Globo, com ares de laudo antropológico, que tem como objetivo provar que negros que nasceram no Recôncavo Baiano, construíram suas vidas ali e daquele lugar retiram seu sustento há décadas, não são descendentes de escravos. Seria cômico, se não fosse trágico!

Observe o texto da matéria, disponibilizado pela própria TV Globo, em seu site:

Repórter (José Raimundo): aqui já existiu um quilombo?
Eronildes: não. Estou vendo falar nisso agora.
Repórter: algum parente seu foi escravo?
Eronildes (um negro idoso): não, nem avó, nem bisavó, ninguém nunca foi escravo aqui.

Essa é a prova de que ali não fora um quilombo, caro repórter?

O método usado por grande parte dos profissionais de comunicação do Brasil merece séria reflexão. É triste observarmos que jornalistas definem o teor da notícia muito antes de sair a campo para fazer a apuração necessária. Quando vão entrevistar alguém, procuram garimpar deslizes, destilar ironias e manipular declarações sem dó nem piedade daqueles que, ingenuamente, abrem seu coração para em seguida serem apunhalados pelas costas. Bom mesmo é sentar na ilha de edição para produzir obras de ficção em busca de comprovar o que já estava programado muito antes num script vergonhoso.

Que decepção Zé, se prestar a um papel tão torpe, tão infeliz, tão devastador da incipiente política de reparação iniciada no país. Você deve mesmo acreditar que os negros do Brasil, todos eles, são livres desde a assinatura da Lei Áurea, deve ser essa a versão que o você apreendeu ainda na infância, nos livros de história, não é mesmo? Ainda bem que a nova geração não terá que acreditar tão sem crítica a história do seu país, os livros didáticos de hoje contam um pouco da história da África e refletem sobre os ataques covardes para colonizar o imaginário de gerações inteiras que acreditam existir no país uma bela mistura de raças, tudo em plena harmonia...

É importante nos fazermos perguntas muito simples: o que sabemos dos quilombos que existiram ou deixaram de existir nesse imenso país? O que sabemos, além da história dos vencedores? Como era a vida nos quilombos, a reportagem podia se dignar a buscar mais informações, não é mesmo? Quem sabe uma matéria especial sobre o modo de vida dos quilombolas do século XVI ou XVII lançaria luzes para iluminar a consciência desses profissionais de TV. Tente tirar a viseira, Zé. Com que autoridade uma matéria tão frágil, onde na boca do repórter evidencia-se a indução da resposta que estava no script, se arvora a querer atribuir ou não o estatuto de quilombo para áreas situadas num território hegemonicamente composto por negros, com marcante presença de engenhos, rota do tráfico negreiro? É ridículo colocar no ar depoimentos de pessoas monossilábicas, tratadas como objetos, receosas de contrariar a autoridade de um repórter da TV Globo. Com certeza armadilha encomendada por interesses econômicos e/ou ideológicos atrelados à linha editorial fascista levada a cabo pela Globo através do famigerado Ali Kamel, que teve a audácia de escrever um livro intitulado "Não somos Racistas", retratando a história do Brasil.

Posso falar da comunidade em questão com muita tranqüilidade. Estive em São Francisco do Paraguaçu no final do ano passado e pude constatar a realidade de um povo que está sendo desrespeitado por latifundiários que se acham donos de terras, mangues, rios, céus, mares e até templos religiosos. Em São Francisco do Paraguaçu, a face mais cruel de ser negro no Brasil revela-se aos olhos de quem se dispõe a conversar e ouvir as pessoas do lugar. Lá registramos não o que queríamos, mas o que brotava na memória de senhoras idosas que falaram da sua vida, de sua infância, das rezadeiras, dos pescadores ou agricultores que dali extraem a piaçava e os mariscos que ainda existem. Lá se ouvem ecoar melodias de sambas de raiz do Recôncavo, tão propalados quando artistas brancos delas se apropriam e tão execrados quando são negros pobres e anônimos que as entoam. Na memória dessa gente ainda vivem melodias dos ritos do candomblé que lá existiam junto ao pé de Jurema que ainda está lá, mas a câmera da Globo não tem interesse nisso.

Volte lá Zé, e procure saber aonde eram realizados os rituais religiosos de matriz africana, volte lá Zé, e filme a cerca de fazendeiros que se acham donos da Igreja de Nossa Senhora da Penha, volte lá Zé, e registre a apropriação de áreas da União por fazendeiros, impunemente. Mas sua tese pronta não lhe permite pensar sobre a paisagem investigada, você quer arranjar mais algum argumento para provar que aqueles quilombolas não são confiáveis. Que curva dramática foi feita no roteiro para você chegar a atribuir o desmatamento da Mata Atlântica aos quilombolas que transportam toros de madeira em carros de boi que até parecem saídos do período colonial. Acho que entendi, esses são os caras que são os verdadeiros culpados pela destruição das nossas reservas. Só um idiota completo pode acreditar nisso.

Não contente com a primeira curva, aparece mais um apelo dramático, mais uma vítima dos quilombolas corre perigo. Mais vale um passarinho voando que negros lutando por um lugar ao sol, não é Zé? Aquela imagem do passarinho ficou bonita mesmo, isso rende bem na TV, né? Comunidade quilombola? Isso é conversa fiada, aqui nunca teve quilombo, você sabe disso, você está convencido disso, né Zé? Acho que entendi essa mensagem também, o importante mesmo é manter vivo o pássaro Olho de Fogo Rendado, segundo a reportagem o pássaro "está na lista dos ameaçados de extinção. Se a reserva ecológica for desapropriada, o animal pode desaparecer do mapa, dizem os biólogos", e mais uma vez, a culpa deve ser dos quilombolas, tô certo?

A Seu Altino, primeiro morador a aparecer na reportagem, não foi dada a possibilidade de falar nada. Sua fala é ouvida ao fundo enquanto a voz do repórter, em primeiro plano, diz a "verdade": isso é uma fraude. Seu Altino aprendeu a nadar ali mesmo, e hoje é impedido de ensinar aos seus netos o que aprendeu e vivenciou com seus ancestrais. Tudo isso bem ali embaixo do nariz do detetive, mas a reportagem sabe qual é seu objetivo, ali não existiram escravos, nem quilombos, mas o coronel ainda existe, e a reportagem foi até a autoridade que trouxe a informação de que esses negros vieram tangidos pela seca para aquela área. A reportagem não fez nenhum comentário sobre o regime de violência, com jagunços armados na área, impedindo a população local de ter acesso ao extrativismo de recursos naturais, como sempre fizeram ao longo de sua vida. Os mangues cercados, também, não devem ter chamado a atenção da reportagem investigativa.

E eu continuo com a pergunta na cabeça: será que seu Altino é um descendente de escravo? Acredito que não, nisso há uma concordância. Negros não nasceram escravos, foram escravizados. E aquelas igrejas e conventos de São Francisco, elas devem ter sido erguidas pelas mãos de coronéis, generais, condes ou autoridades européias que aqui vieram para trabalhar duro, não é Zé? Tudo isso em pleno século XVII, no Recôncavo Baiano. Me faça uma garapa! Que matéria danada de ruim foi essa? Vai de encontro à inteligência dos baianos que vivem na Bahia e conhecem a realidade do seu povo e a sua dinâmica social.

O poeta baiano, Castro Alves pergunta: "Senhor Deus dos desgraçados! / Dizei-me vós, Senhor Deus! / Se é loucura... se é verdade / Tanto horror perante os céus?!". Eu respondo: é verdade, nobre poeta, e não falo da história passada, te respondo assistindo, indignado, a história se repetir em pleno século XXI.

Recomendo a todos que assistam o vídeo Território Ameaçado - A luta quilombola em São Francisco do Paraguaçu, produzido de forma precária, sem recursos, nem ilhas de edição especiais, mas com muita verdade e uma vontade enorme de ver a nossa história mudar.

(*) Carlos Rocha é jornalista e documentarista da Grifo.doc. URL: http://www.grifocomunicacao.com.br/doc-quilombo.htm.

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