......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



"ESTOU COM MUITO MEDO", DIZ SARGENTO DOS EUA
Por Amy Goodman, 21.01.2007

O programa Democracy Now! (www.democracynow.org) traz uma entrevista exclusiva com o sargento Ronn Cantu, do Exército estadunidense no Iraque. Ele recentemente assinou uma petição ao Congresso - chamada de Atenção para esta emenda - pedindo a retirada das tropas dos Estados Unidos.

A petição será entregue ao Congresso norte-americano na próxima semana. O sargento Cantu é membro do grupo Veteranos do Iraque contra a Guerra, que tem um fórum na internet, o soldiervoices.net, para oferecer aos soldados um local que possam falar sobre a guerra do Iraque. O sargento fala ao programa por telefone, do Iraque.

Transcrição da entrevista:

AMY GOODMAN: Vamos primeiro ao Iraque, falar com o nosso convidado, o sargento Ronn Cantu. Ele é sargento do Exército e está servindo pela segunda vez no Iraque. Agora ele está na linha, lá do Iraque. Estamos muito gratos pelo sargento estar falando conosco.

SARGENTO RONN CANTU: Sim, mas agora estou com muito medo de ficar aqui. (sua voz está quase sumindo, parece constrangido).

AMY GOODMAN: Por que tem medo?

SARGENTO RONN CANTU: Na verdade não quero entrar em detalhes. Apenas o que quero dizer - porque não deveria estar fazendo isto - tudo que quero dizer é: agora mesmo soldados norte-americanos morrem em uma guerra civil suní-chií, uma guerra civil sectária - é como eu vejo pessoalmente. Os soldados estão com as mãos atadas, sem defesa. Cada vez que um soldado dispara sua arma tem que assinar papéis para assegurar que tem justificativa. Quero enfatizar que os soldados querem passar da ofensiva, mas tudo que fazemos aqui é a defensiva. E os soldados com que tenho conversando pensam que qualquer aumento de tropa só vai trazer mais homens e mais objetivos.Tudo que fazemos é reativo. Nós saímos em patrulhas, e os objetivos são mudados sempre que alguém nos ataque primeiro. Alguém que esteve comigo contou uma história - prefiro não dizer o nome - um soldado recebeu um tiro no rosto, e não fez nada porque não conseguia ver de onde vieram os disparos. É a isso que acabamos chegando, e este é um caso simples. Sinto muito. (Uma voz constrangida).

AMY GOODMAN: Sargento Cantu, pode explicar melhor sobre o documento que assinou?

SARGENTO RONN CANTU: Ele é... - somente um direito e forma dos soldados comunicarem-se com os políticos que elegeram no Congresso - pedindo a retirada das tropas. Bem, no nosso site na Rede está bastante claro. Se alguém acessar verá tudo ali, está bem claro.

AMY GOODMAN: Vocês têm apoio do Iraque? Onde o senhor está, na sua divisão de infantaria?

SARGENTO RONN CANTU: Desculpe, não entendi.

AMY GOODMAN: Vocês contam com o apoio da Primeira Divisão de Infantaria para sua proposta de que as tropas voltem para casa?

SARGENTO RONN CANTU: Bem a maioria nem sabe do documento.

AMY GOODMAN: Sargento Cantu, ainda está na linha?

SARGENTO RONN CANTU: Sim, estou.

AMY GOODMAN: E o que o presidente, o Congresso pedem a vocês agora? Sargento Cantu, sargento Cantu, está na linha? (A ligação cai)

***

AMY GOODMAN: Agora vamos entrevistar outra ativista da paz, ela nos fala de Washington, também está pedindo ao presidente Bush que traga as tropas de volta. Nos fala Leslie Cagan. É coordenadora nacional da União pela Paz e Justiça. Qual sua opinião, tanto sobre o que nos falou o sargento Ronn Cantu do Iraque, como o que disse o presidente Bush na biblioteca da Casa Branca?

LESLIE CAGAN: Sim, oi. Bom, do meu ponto de vista, não me surpreendeu o que disse o presidente. Tem sido coerente há mais de quatro anos com esta guerra. E na noite passada somente reforçou seu compromisso com ela, quando anunciou o envio de mais tropas. Penso, de maneira geral, que estas pessoas dentro das Forças Armadas são muito fortes, muito fortes. Incluindo a pessoa que acaba de falar com você do Iraque, que se pronunciou contra a guerra, isto só mostra com que profundidade as pessoas deste país - incluindo aqueles que vestem os uniformes militares dos EUA, quanto profundo estas pessoas se opõem ao presidente, por tudo que ele causou na vida delas, e ao povo do Iraque. Isso tem que terminar. Jamais deveria ter começado. Foi uma guerra totalmente baseada na mentira. Tem que terminar. Tem que terminar agora. E realmente, sabe, nossa mensagem não vai somente para o presidente, vai também para o Congresso. E o Congresso começou - alguns membros do Congresso agora começam a se pronunciar, a fazer escutar suas vozes. Queremos reforçar isto. Queremos que o Congresso fale ao presidente que o povo estadunidense quer o término disto. Em novembro, no dia da eleição em novembro, houve uma ordem nacional sobre a guerra. E não penso que os acadêmicos e os profissionais que analisam as eleições - não pensam que alguém compreendeu quanto profundo é o sentimento contra a guerra neste país, até o 7 de novembro. E agora temos um novo Congresso. Chamamos o Congresso para enfrentar o presidente e utilizar rapidamente seu poder, utilizá-lo para terminar esta guerra e trazer para casa todos os nossos soldados.

AMY GOODMAN: Agora nos vamos a Najaf. Lá está Sami Rasoulli. Ele é um iraquiano-estadunidense que atualmente vive em Najaf. Nasceu e cresceu no Iraque, no final dos anos setenta se mudou para os EUA, viveu em Minneapolis aonde abriu um restaurante de comida oriental. Em novembro de 2004, quase 30 anos depois de sair do Iraque, Sami voltou ao seu país para ajudar a reconstruí-lo. Atualmente é membro fundador do Grupo de Muçulmanos pela Paz, em Najaf. Sami, bem-vindo ao programa Democracy Now! Você pode responder por que o presidente Bush quer enviar mais 20.000 soldados para o Iraque?

SAMI RASOULI: Obrigado, Amy, e estou feliz de ouvir você e parte de seu programa aqui de Najaf. Na realidade, Amy, faz quatro dias que eu não posso tomar banho, porque não há energia elétrica, não há calefação, logo a água está tão fria neste inverno rigoroso do Iraque. E o Iraque tem um clima continental, ou seja, muito frio no inverno e muito quente no verão. Enquanto conversamos, estou verdadeiramente horroroso. E, para piorar, os preços só aumentam, a economia está péssima e a política do governo iraquiano é absurda, incluindo a política dos EUA, chamada de maré no Iraque. Também fede porque, como os iraquianos sabem e as outras pessoas também sabem, a ocupação é uma forma de guerra. Assim como qualquer ascensão neste tipo de guerra, também há resistência em ascensão. E também quero recordar e recordar os ouvintes que Alberto Fernández é um alto funcionário do Departamento de Estado em assuntos internacionais no Oriente Médio. Uma vez, ele foi entrevistado pela TV Al Jazeera e declarou que o governo estadunidense conduziu sua ocupação no Iraque e sua política, de modo estúpido e arrogante. E eu quero acrescentar, na minha ignorância, porque eu não acredito que quem está dirigindo a Casa Branca entenda as pessoas, a cultura, a história dessa região. O envio de 20.000 soldados, como eu vejo e entendo e os iraquianos também, é somente uma forma de substituir a perda de homens e mulheres estadunidenses que estão mortos ou gravemente feridos. Se você recorda havia no início da ocupação cerca de 160.000 soldados dos EUA entre homens e mulheres, e agora, antes destes 20.000, tínhamos quase 140.000. Margaret Beckett, de Londres, a ministra das relações internacionais, se negou a enviar mais forças britânicas; nem os australianos. Logo essa tarefa realizada no Iraque será solitária pelas forças dos EUA, uma desgraça. E, como sabemos, quantas pessoas já morreram? Segundo pesquisa do jornal Lancet, umas 655.000 mortes até agora; os iraquianos afirmam que são mais de um milhão. Isto, acrescentado a um milhão e meio de iraquianos que morreram durante a ocupação. Se lembra quando Baker III se reuniu com Tariq Aziz, em 1991, e advertiu a Tariq e a seu governo entregando-lhe uma carta ao presidente do Iraque na época, Saddam Hussein, dizendo: "Se não retirar-se do Kuwait, o país voltará à idade da pedra". E agora estou vivendo esta desgraça, essa idade da pedra. Não temos gasolina, não temos querosene para esquentar nossas famílias neste inverno. E se entendi bem a declaração do presidente de que está enviando estes 20.000 soldados para proteger os sauditas, os jordanianos, egípcios e os Estados do Golfo, que têm sido aliados dos EUA durante os últimos 30 anos ou algo assim. E quem nos protege? As forças de resistência iraquiana? É outra mentira que contam os que fazem a política da Casa Branca, que continuam sustentando suas mentiras com outras mentiras, desde o início da guerra. E me parece, e parece a outros também, que esquecemos qual foi o motivo pelo qual os EUA enviaram as tropas no começo da guerra.

AMY GOODMAN: Estamos falando com Sami Rasouli em Najaf. Também temos aqui a Leslie Cagan, coordenadora nacional da União pela Paz e Justiça, em Washington. Leslie Cagan, qual são os planos da União pela Paz e Justiça, agora? Acabo de ler um artigo no jornal Washington Post, que cita o congressista pela Virginia, Jim Moran, dizendo hoje que John Murtha, o congressista da Pensilvânia, mais conhecido por sue temperamento, pede que se retirem as tropas, informara isto ao comitê que dirige, o Subcomitê sobre Designações de Defesa. Falará seus planos, as condições e critérios profundos que serão difíceis, pois vão gastar dinheiro e isto causará problemas no Congresso. Isto é, estou falando do financiamento da guerra. E o chefe da maioria na Câmara - James Clyburn (da Carolina do Sul) já disse: "21.500 soldados devem estar atados por 21.500 condições".

LESLIE CAGAN: Certo. Bom, pensamos que é crítica neste momento a pressão - obviamente, que tem que manter a pressão sobre o governo Bush, mas que se deve espalhar a pressão no Congresso. É excelente que alguns membros do Congresso estejam pronunciando-se contra a guerra, mas eles têm um poder que ninguém de nós possui. E é porque controlam o dinheiro, controlam o orçamento. Se o Congresso dos EUA disser: não há mais dinheiro para esta guerra, nem para o crescimento dela, nem para manter o nível de tropas atuais - não há mais dinheiro para esta guerra - bom, por certo, se teria um profundo impacto e falta de capacidade de continuar com a guerra. Por favor, me permita que mencionem duas coisas que estão ocorrendo. Uma é, hoje em todo o país, em pelo menos 500 lugares diferentes, há atividades, eventos, protestos, vigílias, chamando o presidente para acabar com este plano insano de enviar mais soldados. Foi uma mudança muito rápida que conseguimos organizar, e estamos fazendo junto com o grupo Win Without War e True Majority, todos os grupos unidos. E há um site na Internet: americasaysno.org, no qual todos podem entrar e encontrar aonde estão ocorrendo protestos, se está em sua vizinhança ou em sua comunidade. E então, daqui a poucas semanas, no sábado 27 de janeiro, pessoas de todas as partes do país se reunirão em Washington, onde estou agora, para uma passeata ao redor do Congresso, para entregar a nossa mensagem: é hora de acabar a guerra. A gente vai falar. A população votou e teve a oportunidade, em novembro, para que escutassem suas vozes. Agora estamos dizendo ao Congresso: "Vocês têm que agir conforme a vontade do povo deste país". E assim, no sábado 27 de janeiro, nós vamos entrar em ônibus, trens e outros meios de transporte para nos reunirmos em Washington, no shopping entre a terceira avenida e a sétima às 11 horas da manhã e terão que ouvir esta mensagem. E tem mais, vamos pedir às pessoas que fiquem em Washington alguns dias para fazermos um protesto massivo na segunda, dia 29 de janeiro. Todas estas informações se encontram no nosso site na rede: unitedforpeace.org.

AMY GOODMAN: Leslie Cagan, quero agradecer por sua presença, em Washington, a coordenadora da União pela Paz e Justiça, e a Sami Rasouli, fundador do Grupo de Muçulmanos pela Paz, que nos falou de Najaf. E antes, o sargento Ronn Cantu, sargento do Exército da Primeira Divisão de Infantaria, que foi recrutado nas forças armadas, reenviado para o Iraque, um dos mais de mil soldados ativos no serviço que firmaram um documento que será apresentado ao Congresso na próxima semana. E também apresentaremos seus artigos aqui no programa, entre eles temos "Reflexões de um soldado: a morte de um conservador favorável à guerra, ou o dia que disse o que me fez ganhar".

Tradução: Thaís Tibiriçá.


Clique aqui para assinar nosso jornal impresso


Este site é melhor visualizado na resolução de 800 x 600 pixels.
© 2004 Fazendo Media - por Kzal Design