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A GLOBO E O CASO FREI TITO
Por Carlos Carmo (*), 19.11.2006

Quinta-feira, 16 de Novembro de 2006. Mandei a minha filha para a cama mais cedo, porque ela tem de acordar cedo para a Escola e porque era dia de Linha Direta, aquele programa da Globo sobre violência, ação da polícia, prisões, assassinatos, roubos, tiros, crimes passionais, gente em fuga, procurada... Nada recomendável para uma criança de dez anos.

Não foi uma surpresa total, apenas porque um e-mail já havia me avisado de que a Globo iria tratar do caso do Frei Tito.

Comecei a ver e fui adiando o momento de desligar a TV e do recolhimento. Fui vendo com os olhos de quem viveu alguns dos momentos históricos tratados. Fui vendo e revivendo esse período inesquecível da história deste país, pleno de violência, repressão bárbara, tortura, ausência de liberdade, de muita coragem de alguns, de muito sofrimento pelo simples fato da defesa de uma opinião, de uma visão de Mundo. Comecei a ver o programa com alguma simpatia.

Pela oportunidade de milhares de pessoas terem acesso a uma realidade muito pouco explorada nos últimos anos. O tratamento era corretinho. Era bem feito. As simulações tinham valor dramático. Bons atores. Tinha emoção, realismo. Enfim, tudo o que um programa destes precisa ter para dar ibope. E aí... Acendeu a primeira luz vermelha. E assim foram acendendo luzes vermelhas. Por que razão a Globo resolveu tratar dessa questão nesta quinta-feira?

Que insondáveis razões levariam um editor a decidir pelo caso do Frei Tito, em contraposição a um assassinato qualquer? Por que razão o programa insiste em tratar esse caso como um caso de polícia? Por que o facínora é o delegado Fleury e aparentemente ele parece ter autonomia total na sua ação de torturador e repressor?

Daí comecei a ficar com a sensação de que os fatos apresentados não eram no Brasil. Parecia o tratamento de algo que aconteceu em outro país. Nada que nos alcance, que nos diga respeito. A Globo disse a que vem. Não há nada a festejar.

Trataram um episodio da História recente do Brasil como se fosse algo externo a esse mesmo Brasil e explorando o pior lado, o pior enfoque, que poderia ser explorado. Acho até indignante. Eu fiquei indignado. Li tudo o que foi escrito sobre o episodio Marighela e o envolvimento corajoso e humanista dos Franciscanos e me indignou ver essa realidade tratada em um programa de casos de polícia.

E a pergunta que fica é saber em quê esse programa contribuiu na cabeça de quem o vê para entender o que realmente aconteceu. O que era a repressão e por que razão não podemos deixar que volte a acontecer; entender que aquele episódio e muitos outros aconteceram no Brasil. Sim, no Brasil, nosso país; que construímos todos os dias. A pergunta que fica é saber até quando deixaremos que a informação neste país seja algo sem disputa, com um enfoque mais correto e que respeite a realidade, de forma democrática, oferecendo a possibilidade da reflexão. Penso nisso todos os dias. Ontem construí ainda mais a certeza desta necessidade...

(*) Carlos Carmo é profissional da área de comunicação, com grande atuação na produção de audiovisuais retratando as lutas dos movimentos sociais, em especial do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra. Foi Diretor da TVE no Governo Olívio Dutra e atualmente é Diretor da Cooperativa Casanova Filmes, produtora de audiovisuais em Porto Alegre/RS.

Contatos: (051) 3231 6444 (051) 9998 1950 www.casanovafilmes.com.br.

Artigo publicado originalmente em www.adital.org.br.


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