......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



18.10.2007
À NOITE TODOS OS GATOS SÃO PRETOS

Por Ricardo Moura (*)

Bom, amigos, vou contar um fato que aconteceu esta tarde (domingo, 17/06/2007), mais precisamente às 14h, quando fui surpreendido pela Força Tarefa Nacional, que cumpria suas obrigações rotineiras em frente à extinta fábrica da coca-cola, bairro de Ramos. O veículo de placa JKL9613 / FN-0023 continha quatro soldados-policiais. Um grupo de três jovens e adolescentes na faixa de 16 anos, moradores da localidade, passavam pela rua quando foram abordados grosseiramente por dois soldados-policiais que estavam postos à entrada da Rua Jehovan Costa, Complexo do Alemão, para, segundo o governador do Estado do Rio de Janeiro, senhor Sérgio Cabral, manter a ordem da cidade.

Digo que fui surpreendido, pois tais adolescentes, volto a afirmar, de 16 anos, que estudam e trabalham (um deles treina futebol no Clube de Regatas Flamengo), além de fazerem parte do time em que jogo ou de algum time “adversário”, são jovens adolescentes que vi crescer e só porque acenaram com a mão de certa distância para falarem comigo os soldados-policiais de pronto mandaram encostar-se a uma parede de rostos virados para a grade usando de força bruta.

Logo, ao perceber a circunstância, imediatamente me pus próximo aos soldados-policiais e aos meninos para me certificar de que nada iria acontecer. Foi então quando um soldado-policial gentilmente me perguntou o que eu estava olhando respondi que era morador e que os meninos haviam acenado para falar comigo. Um deles mandou-me retirar, isso mesmo mandou-me. Mas resolvi argumentar como qualquer cidadão no exercício da sua cidadania e no seu direito de ir e vir. No entanto, me coagiram a ficar junto aos meninos. Recebi uma botinada para abrir as pernas, assim como os meninos e ser revistados. O soldado-policial, nitidamente despreparado para lidar com seres humanos, perguntou em tom de voz doce se eu nunca tinha recebido uma revista. Eu tentei me identificar, mas sem sucesso.

Após o término da revista e de ter recebido uma botinada na perna, o gentil policial mandou todos se retirarem. Havia um grupo de amigos bebendo uma cervejinha numa barraca próximo ao local. Eu me dirigi até lá e eles perguntaram o que tinha acontecido. Eu, então, passei a relatar o ocorrido. De imediato apareceu a imprensa, que ironia, eu jornalista por formação, sendo filmado discretamente por um câmera sedento por uma imagem que pudesse colocar novamente um dos bairros do Complexo do Alemão e alguns de seus moradores com centro das atenções e, pior, como uma favela onde os moradores são tidos na sua maioria como marginais.

Novamente fui interpelado pelo gentil soldado-policial. Desta vez ele perguntou o que eu estava falando com meus amigos. Ora, segundo a Constituição é livre a manifestação de pensamento, pelo menos na zona sul é assim. Mas parece-me que o soldado-policial, imbuído pelo autoritarismo do Estado, não sabe o que é isso, já que quis se certificar do que eu estava falando com meus amigos numa maneira inequívoca de repressão.

Porém, respondi ao soldado-policial: os meus amigos me perguntaram se estávamos sendo filmados (neste momento tentamos nos esconder por trás de uma árvore) e eu respondi que provavelmente sim. Ele então falou que eu podia me retirar. Aproveitei o momento para tentar argumentar, outra vez, que sou um cidadão, que respeito e entendo o trabalho desenvolvido por eles, mas não entendo por que ele me deu um pontapé, tampouco porque tratou os rapazes daquele jeito, já que não havia motivo nenhum. Aliás, se porventura algo estivesse errado eles deveriam, no exercício de suas atribuições, conduzir os menores para a delegacia de menores e eu para uma delegacia policial (talvez meu diploma de graduação em jornalismo, pós graduação em jornalismo cultural etc., servisse ao menos para eu ficar em uma cela separada). Não foi este o caso.

Entretanto, depois de tentar argumentar com a autoridade sobre os procedimentos de abordagem e de uma inútil tentativa de identificação, fui novamente mandado embora do local por ser mentiroso, isso mesmo, ele disse que não fala com pessoas mentirosas e que eu era um mentiroso, já que eu revelara que vi e sofri agressões. Com aquele ar gentil solicitou-me retirar da sua presença amável.

Torno público isso amigos, pois já não é a primeira vez. Vejam bem, as práticas de abordagem aos cidadãos, trabalhadores, estudantes honestos, que sequer podem entrar na rua onde moram sem serem tratados como marginais (quando não são executados como a chacina promovida pelo estado no dia 27 de junho, lembram?), são freqüentes e não episódicas como quer fazer acreditar a secretaria de Estado de Segurança, cujo represente é o senhor José Mariano Beltrame. Revolto-me com truculência, inaptidão, inabilidade desses soldados-policiais, todavia revolto-me ainda mais com ingerência do Estado.

O discurso do Secretário de Estado de Segurança e do governador Sérgio Cabral estão em perfeita sintonia e ainda são legitimados pelo discurso oficial - as operações vão continuar e se os policiais forem recebidos a tiros devem revidar. Notem que o fato ocorreu em plena tarde, às 14h. A ocupação começa às 7h e termina às 19h, justamente no horário em que boa parte dos moradores trabalham e estudam. À noite... bem ... à noite... cada um por si e Deus por todos, ou melhor: todos os gatos são pretos.

(*) Ricardo Moura é jornalista e morador do Complexo do Alemão.


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