|

18.04.2007
O RIO REFÉM DA DESINFORMAÇÃO
Por Marcelo Salles - salles@fazendomedia.com
A Polícia Federal divulgou ontem (17) informações sobre a Operação Kaspar, cujo objetivo é combater crimes contra o sistema financeiro e lavagem de dinheiro. O esquema é composto, na ponta, por doleiros. Mas há também um banco suíço sendo investigado e "várias empresas transnacionais". Diante desta bomba, talvez tão grande ou maior que o caso Banestado, o que fez a mídia grande? O Globo Online, por exemplo, veio com um título pequeno na capa: "Devassa em casas de câmbio encontra dinheiro até no ralo". E o subtítulo: "Policiais prendem 22 pessoas, apreendem US$ 700 mil".
No corpo do texto, que vou me dar o trabalho de digitar palavra por palavra, já que O Globo não permite que os leitores usem o famoso "control c", estão os quatro parágrafos seguintes:
SÃO PAULO - A Polícia Federal desencadeou, nesta terça-feira, em São Paulo, uma grande operação contra doleiros e casas de câmbio, prendendo 22 pessoas e desmantelando cinco grupos de doleiros que movimentavam pelo menos US$ 30 milhões ao mês, praticando câmbio negro e enviando ilegalmente dólares para o exterior. A PF utilizou 240 policiais federais para execução da operação policial, denominada "Kaspar".
No Paraná, a PF de Guaíra deflagrou, na manhã desta terça-feira, a Operação Cobra d'Água para desmantelar seis quadrilhas especializadas em contrabando do Paraguai pelas águas do Lago de Itaipu, Rio Paraná e por rodovias paranaenses e paulistas.
Operação em SP - Somente numa casa de câmbio na avenida Paulista em São Paulo, a PF apreendeu US$ 700 mil, dos quais US$ 550 mil escondidos numa parede falsa no interior de um dos escritórios. A PF apreendeu ainda US$ 177 mil em outro escritório, escondidos num ralo. Os policiais apreenderam também 24 carros de luxo, como Porsche, Mercedes-Benz, Audi e Toyota. Além dos doleiros presos, outros dois chefões da máfia, Marco Antonio Cursini e Caio Vinicius Cursini, fugiram e estão foragidos no Brasil. Outro doleiro, Nick Salussoia, está no exterior.
Entre o material apreendido, estavam 24 automóveis, na maioria de luxo, das marcas Porshe, Mercedes-Benz, Audi, Toyota e outras; US$ 700 mil em espécie, dos quais US$ 550 mil em compartimento secreto existente no escritório de um dos doleiros; R$ 177 mil em espécie; dezenas de relógios valiosos e uma pistola semi-automática.
|
Agora leia a nota da Polícia Federal, divulgada para toda a imprensa:
OPERAÇÃO KASPAR COMBATE CRIMES CONTRA SISTEMA FINANCEIRO
SÃO PAULO/SP - A Polícia Federal realiza hoje, 17, a Operação Kaspar. Estão sendo cumpridos 22 mandados de prisão e 52 mandados busca e apreensão em imóveis comerciais e residenciais localizados, em sua maioria, na região metropolitana de São Paulo e também nos estados do Rio de Janeiro, Bahia e Amazonas para apreender provas de crimes contra o sistema financeiro nacional e de "lavagem" de dinheiro.
A investigação iniciou em setembro de 2006, a partir da identificação de um doleiro que operava para um escritório de representação de um banco suíço, nesta Capital, promovendo o câmbio ilegal de moedas, na modalidade "dólar-cabo", para clientes daquele banco que possuíam vultosas quantias de dinheiro em contas bancárias no exterior sem declará-las à Receita Federal.
Ao longo de sete meses de investigação, foram identificados os líderes e outros integrantes de cinco grupos de doleiros baseados na cidade de São Paulo que vinham atuando sistematicamente no mercado negro de câmbio de moedas tanto para promover a evasão de divisas do país quanto para garantir aos seus possuídores o proveito de recursos financeiros de origem ilícita.
Várias empresas que transacionavam regularmente com os grupos de "doleiros" foram alvos de mandados de busca e seus representantes legais serão investigados por suspeita de crimes fiscais, financeiros e de "lavagem" de dinheiro.
Foram ainda congeladas 19 contas bancárias no Brasil utilizadas pelos doleiros e seus maiores clientes para movimentar valores oriundos dos crimes financeiros e também solicitado o bloqueio de 6 (seis) contas bancárias nos Estados Unidos, Portugal e Panamá, pertencentes aos suspeitos.
Nome da operação
Kaspar é o nome do primeiro capitão da guarda suíça responsável pela segurança do Vaticano. Assim, o nome da operação faz referência ao início da investigação que foi o envolvimento de banco suíço na guarda de valores de origem ilícita de seus clientes no Brasil.
|
Ou seja, a divulgação do Globo Online foi extremamente superficial. Nenhum banco suíço, nenhuma conta congelada. Para O Globo, a culpa toda é dos doleiros - que parecem trabalhar sozinhos. Geralmente quando o jornalista recebe uma nota como essa, ele procurar algo mais para acrescentar e enriquecer o texto. Nesse caso, aconteceu o contrário: o jornalista recebeu a nota e subtraiu informações nela contidas.
Na primeira página de hoje (18), O Globo impresso veio com a manchete "O Rio refém das balas", sobre a imagem de um caixão que, junto com outra foto, um infográfico e um pequeno texto, ocuparam mais da metade da primeira página. E nada sobre a Operação Kaspar. Apenas na página 26, na editoria de Economia, havia uma matéria discreta sobre a operação - também sem citar o envolvimento de um banco suíço ou das empresas transnacionais.
Ao omitir as informações divulgadas pela Polícia Federal a respeito da Operação Kaspar, O Globo perdeu uma boa oportunidade de associar a violência no Rio com os crimes contra o sistema financeiro e de lavagem de dinheiro, diretamente ligados ao tráfico de drogas e de armas (as armas de onde saem as balas que O Globo estampou hoje em manchete).
Vale lembrar o livro "A Suíça Lava Mais Branco", de Jean Ziegler. No capítulo 4, ele conta que em 1989 uma quadrilha brasileira foi descoberta em Genebra lavando 500 mil francos suíços por semana. A ponte era feita entre o Banesto Banking Corporation, de Nova York, e o Migros, da Suíça. O nome da empresa que fazia a movimentação era Walter Exprinter e, quando descobriram que por trás dela havia generais das forças armadas brasileiras, a Justiça daqui optou por não colaborar com a investigação.
Volto a ressaltar o que disse Rosinha Garotinho, no dia 21 de dezembro do ano passado. Talvez explique a omissão do jornal O Globo. Naquela oportunidade, a então governadora afirmou que TV Globo mantém uma conta secreta nas Bahamas, no Banco Credité Suisse, com mais de 100 milhões de dólares. Rosinha deu até o número da conta: 91493. E criticou o silêncio das Organizações Globo no escândalo do Banestado, "que envolveu bilhões de reais desviados do Brasil de forma irregular".
Seja como for, O Globo perdeu uma oportunidade histórica de mostrar a seus leitores que existe uma outra razão para os tiroteios que tanto assustam e vitimam a população carioca.
|
|
|