......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



QUE A SURPRESA FIQUE PARA OS CEGOS
Marcelo Salles, 16.05.2006

A revolta latente, que ninguém vê / E nem sabe se sente, pois é, pra quê? (Sidney Miller)

As estatísticas são ainda desencontradas, mas giram em torno de 200 os atentados que deixaram 90 mortos, 60 ônibus incendiados e 13 agências bancárias destruídas em SP. Para além dos números, espalha-se o medo entre os paulistas, devidamente ampliado pela cobertura superficial e sensacionalista da mídia de massa.

Os meios de comunicação corporativos aproveitam o momento para reforçar a criminalização da pobreza e exigir do poder público medidas repressivas e leis mais rigorosas. Em sua edição de ontem, o Jornal Nacional, por exemplo, assim divulgou o número de mortos: "43 policiais e cidadãos foram mortos; 38 suspeitos pelos atentados também morreram". Sutilmente o telejornal transforma suspeitos em não-cidadãos. Na cabeça do telespectador, porém, o efeito é contundente: quem não é cidadão não possui direitos.

É exatamente o que pede Marcelo Rezende na Rede TV!: "É preciso cessar os direitos civis dos presos". E por falar nisso, os direitos humanos foram violentamente atacados por Datena em seu Brasil Urgente. Sem qualquer sutileza, mais sincero, o apresentador da TV Bandeirantes só faltou repetir Wagner Montes, para quem o lugar de bandido é "na vala". No final da noite o Jornal da Globo disse, em editorial, que "é preciso exigir que os legisladores ofereçam ao Executivo instrumentos para combater o crime".

A Anistia Internacional divulgou nota aos meios de comunicação. Nela havia dois posicionamentos centrais. 1) Condenou os ataques do PCC e pediu que o Estado garantisse que os responsáveis pelos ataques fossem levados à Justiça. 2) Cobrou das autoridades brasileiras reformas profundas no sistema prisional do Brasil. O Jornal Nacional só divulgou o primeiro ponto.

As questões são outras
Não foi à toa que o Jornal Nacional omitiu a crítica ao sistema prisional por parte da Anistia Internacional. A ONG toca num dos pontos centrais da discussão. Geraldo Alckmin costumava comemorar que SP, com cerca de 20% da população do país, possui a metade da população carcerária. Mas em que condições os presidiários brasileiros vivem? Do mesmo modo FHC costumava se regozijar ao dizer que noventa e tantos por cento das crianças estavam nas escolas. Mas não explicava o tipo de educação que recebiam.

Quando as autoridades dizem que cada preso custa 700 reais por mês ao Estado, estão falando meia verdade. Esse dinheiro deveria ser utilizado para a manutenção do detento, mas qualquer um que conheça presidiários ou seus parentes sabe que se alguém de fora não levar comida, roupas, remédios, roupa de banho e acessórios simples como ventiladores, o cidadão dificilmente sobrevive nas condições extremamente hostis a que são submetidos. As denúncias de superlotação nas cadeias, maus tratos e torturas não são levadas em consideração pelos donos do poder. Seus porta-vozes na mídia de massa mostram isso com perfeição.

Outro ponto importante é a reforma do sistema judiciário, cuja lentidão dos processos criminais permite que cidadãos sem julgamento fiquem por meses, ou anos, detidos ao lado de criminosos condenados. Soma-se a essas questões estruturais a transferência de oito líderes do PCC, incluindo o chefe Marcola, para o regime de segurança especial. Inclusive, especula-se que o fim dos atentados tenha sido negociado com os bandidos, que teriam exigido a anulação da transferência.

Mas em momentos como esse o senso comum não debate as questões estruturais, nem as mais imediatas que possam causar constrangimento. Prevalece o discurso do caos, da barbárie, para justificar medidas autoritárias e repressivas. Desconsidera-se o fato de os presidiários já viverem na barbárie. Desconsidera-se o fato de a periferia brasileira, de modo geral, já viver a barbárie em seu dia-a-dia. Mas a barbárie só vira manchete quando os barbarizados barbarizam. Que a surpresa fique para os cegos.

Terrorismo é outra coisa
Parte da mídia colombina tentou classificar as ações armadas como terrorismo. Não é o caso. Terrorismo pressupõe o assassinato em massa da população civil com o propósito de se alcançar um objetivo político. As agências bancárias foram atacadas de madrugada, quando não havia funcionários trabalhando, e antes de queimar os ônibus os integrantes do PCC ordenaram que os passageiros saíssem dos veículos.

Por fim, não parece casual que o alvo principal escolhido pelo PCC tenha sido a PM. Que o digam os moradores da periferia violentados diariamente das mais diversas formas por policiais bandidos, que envergonham a corporação e a sociedade como um todo. Do mesmo modo os alvos secundários possuem forte conotação simbólica. No final da semana em que os bancos divulgaram lucros recordes e bilionários, 13 agências foram alvejadas. Além disso, o transporte público, muito utilizado pela massa trabalhadora, também foi atingido. Sem os ônibus, grande parte dos empregados da classe pobre não pôde chegar nas empresas e fábricas, comprometendo, desta forma, a cadeia produtiva.


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