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TV DIGITAL: TECNOLOGIA BRASILEIRA É IGNORADA
Bruno Zornitta, 15.07.2006

Embora as Organizações Globo e o ministro das Comunicações Hélio Costa - conhecido por defender os interesses do empresariado - tenham pressionado desde o início das discussões pela adoção do padrão japonês (ISDB) de TV digital, nada indica a superioridade desta tecnologia sobre seus concorrentes (o brasileiro Sorcer, o europeu DVB e o estadunidense ATSC).

Os testes realizados em São Paulo (1999-2000) pela SET/ABERT não demonstraram clara vantagem de nenhum dos sistemas importados. O padrão europeu superou o japonês em vários testes, inclusive. De qualquer forma, nenhum deles atingiu 100% dos receptores, o que motivou a criação do Sistema Brasileiro de TV Digital (SBTVD).

O Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações (CPqD) orientou 22 consórcios de universidades e centros de pesquisa, ao custo de mais de R$ 50 milhões, para desenvolver as partes do SBTVD. Três desses consórcios criaram propostas de modulação brasileiras. A PUC-RS desenvolveu o Sorcer, por exemplo.

"O sistema da PUC é totalmente novo. É claro que usa conceitos de outros sistemas, como a segmentação de espectro do ISDB, o COFDM adotado pelo DVB, pelo DAB e pelo próprio ISDB, etc. Mas introduz novas técnicas como o equalizador com algoritmo de inteligência artificial, que melhoram bastante o desempenho, em relação aos outros", diz Takashi Tome, pesquisador do CPqD.

Pressa de quê?
A pressa em definir o padrão tecnológico foi artificialmente fabricada pelos grandes radiodifusores para, assim, encerrar o debate e usar a comunicação como moeda de troca política, aproveitando a proximidade das eleições. Takashi lembra que na mesma semana em que o governo publicou o Decreto 5.820/06 [que dispõe sobre a implantação do SBTVD-Terrestre] a China divulgou ter consolidado seu padrão de TV digital, que foi pesquisado e testado ao longo de quatro anos. "Ora, se os chineses esperaram quatro anos, porque o governo brasileiro não pode esperar, não digo quatro, mas pelo menos um ano?", questiona.

O Intervozes - Coletivo Brasil de Comunicação Social também alertou para o clima de pressa, alimentado pelos grandes meios de comunicação. No documento "TV Digital: princípios e propostas para uma transição baseada no interesse público" a entidade afirma que não existe qualquer motivo que justifique a pressa nas decisões, pois o Brasil não corre o risco de ficar atrasado com relação a outros países: "Ao contrário, uma definição mais criteriosa, que conte com a participação dos diversos setores envolvidos no processo, fará com que o Brasil tenha reais condições de se inserir de maneira independente em âmbito global e dará ao país a oportunidade real de desenvolver um sistema de comunicações que seja plural, diverso e verdadeiramente democrático".

O decreto sobre TV digital (5.820/06), publicado no último dia 29 de junho, não especifica quais as inovações tecnológicas brasileiras serão incorporadas ao sistema, deixando essa definição para um momento posterior. O padrão de modulação japonês, no entanto, está definido. O decreto será contestado na justiça pela Frente Nacional por um Sistema de Rádio e TV Digital, por meio do Ministério Público Federal.


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