......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



JORNALISTAS DENUNCIAM. E LUTAM
Renato Gianuca, 14.07.2006

Nós, jornalistas brasileiros, queremos informar e denunciar ao Brasil um novo estado de coisas. Informar nosso pensamento coletivo a respeito dos desafios profissionais, a serem enfrentados com determinação, nos próximos anos, principalmente em relação às precárias relações de trabalho e ao achatamento salarial, imposto pelas principais empresas de comunicação. E denunciar as ameaças que pairam sobre a consolidação da democracia brasileira e impedem a inserção autônoma do Brasil no cenário mundial.

Esta é uma síntese da Carta de Ouro Preto, lançada sábado, dia 8 de julho, na histórica cidade mineira. É o documento final que sintetiza as intensas polêmicas e debates de mais de 800 participantes, reunidos durante quatro dias no 32º Congresso Nacional dos Jornalistas, aberto na quarta-feira à noite, dia 05/07, no Centro de Convenções da Estalagem do SESC de Ouro Preto. O evento marca os 60 anos de atividade da Fenaj, a Federação Nacional dos Jornalistas. E foi o primeiro congresso da categoria realizado no Estado de Minas Gerais.

”Mídia e Poder”. Este o tema da conferência de abertura do evento, na quarta à noite, com a professora paulista Marilena Chauí. Ela lembrou, inicialmente, da infância: seu pai estudava em casa, para mais tarde exercer a profissão de jornalista em vários órgãos da mídia impressa daquele Estado.

Para Chauí, a mídia no Brasil vive momento paradoxal. É um jornalismo cada vez mais rápido, barato e vazio, além de extremamente inexato. Para ela, “hoje em dia, o jornalismo se tornou um dos principais protagonistas da destruição da opinião pública”.

Ela recordou ao grande público presente à cerimônia de abertura do congresso da Fenaj: “Hoje, no mundo globalizado, os donos da mídia são também os proprietários ou acionistas principais de bancos, indústrias metalúrgicas, e até de indústrias de armas e de aviões de combate. Esses donos da mídia dominam jornais, revistas, rádios, TVs e portais de Internet na grande maioria dos países, tanto os ricos como os chamados emergentes, o “Terceiro Mundo”.

O discurso atual da mídia, fundado no conceito de “competência”, determina quem tem o direito de falar. E quem deve ouvir. De um lado, os detentores de um suposto saber racional e tecnocientífico são os que devem mandar. Enquanto resta aos demais – a enorme maioria – apenas obedecer. Ou seja, explicou a filósofa: quem sabe, manda; quem não sabe, obedece.

Na mídia hoje em dia – diz Chauí -, os especialistas e os chamados “formadores de opinião são os intérpretes de temas políticos, econômicos, sociais, culturais. Com seu poder, a mídia deste século 21 determina o que devemos pensar, sentir e falar. Assim, se apresenta uma verdadeira intimidação cultural e social sobre as grandes maiorias. A presença diária, 24 horas a fio, destas imagens de uma certa “competência” levam à interiorização da ideologia deste pensamento único, consumista e neoliberal, nas consciências das populações. E todo este gigantesco poder da mídia está, por inteiro, nas mãos do grande capital transnacional. Os jornalistas presentes consideraram uma aula a palestra da filósofa, pela acurácia dos conceitos emitidos sobre nossa profissão, e com novos detalhes sobre a permanente batalha para democratizar os meios de comunicação no Brasil.

O 32º Congresso Nacional dos Jornalistas foi centrado basicamente em seis eixos: mercado de trabalho; liberdade de imprensa; democratização da comunicação; formação profissional; atualização do Código de Ética da categoria; e reformulação da proposta do Conselho Federal dos Jornalistas (CFJ). Para debater esses temas, foram apresentadas 41 teses com a contribuição de vários dos 27 sindicatos estaduais filiados à Fenaj.

Um dos temas foi a atualização do nosso Código de Ética, em painel com a presença do professor Valdir Castro, da Universidade Federal de Minas Gerais e do jornalista e ex-presidente da Fenaj, Armando Rollemberg. Foram mais de três horas entre a exposição dos painelistas e os debates com o público, a grande maioria jovens estudantes de Jornalismo de Minas Gerais e de outros Estados.

Nos debates, foi pedida a inclusão no nosso Código, na parte que fala dos princípios fundamentais da profissão, um parágrafo da tese apresentada pelo Sindicato dos Jornalistas do Pará. Diz o texto: O jornalista não deve recorrer a subterfúgios – como identidades falsas, e/ou câmeras e microfones ocultos – para conseguir realizar suas matérias, salvo em caso de necessidade de denúncia de interesse público. A questão, polêmica, gerou novos debates. Quem determinaria o que é “de interesse público”. O dono do jornal? Ou o chefe de redação?

Em meio a este painel, veio à tona a questão da crítica da mídia. Neste momento, o professor da UFMG fez uma referência expressa ao jornalista carioca Alberto Dines e ao seu trabalho à frente do Observatório da Imprensa, destacando a grande contribuição do OI para o avanço rumo a uma mídia mais comprometida com a ética e a boa e veraz comunicação social.

Ao longo de quatro dias, de manhã e à tarde, estendendo-se noite a dentro, os painéis, os grupos temáticos (foram mais de 10, desde o jornalismo ambiental até os afrodescendentes na mídia brasileira), os grupos de trabalho e as plenárias marcaram momentos importantes para a unificação nacional das principais reivindicações da categoria, bem sintetizadas no título da Carta de Ouro Preto: Por ideais ousados e democráticos, ainda que tardios.

Agora, de volta aos seus estados, caberá aos congressistas levar às redações, às universidades e à sociedade questões básicas, como um novo debate sobre o CFJ e o novo programa nacional de estágio para estudantes de jornalismo. As tarefas não serão, certamente, muito fáceis. Há que enfrentar obstáculos, até físicos, para ingressar em alguns órgãos de imprensa para falar aos nossos colegas. Mas vamos à luta, cada um dentro de suas qualidades e deficiências, buscando a consolidação da democracia e da liberdade de imprensa. Na assembléia plenária final do congresso de Ouro Preto, uma colega passava perto deste repórter com uma camiseta e a seguinte inscrição nela bordada: “Jornalismo te dá asas”. Creio que esta frase, singela, resume bem o espírito básico de nossa profissão. Além de servir como motivo de permanente inspiração para todos nós.

*Jornalista, da Comissão de Ética do Sindicato dos Jornalistas do Rio Grande do Sul


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