......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



14.05.2007
SOBRE OCTÁVIO FRIAS DE OLIVEIRA

Por Redação - contato@fazendomedia.com

Hamilton Octávio de Souza é professor de jornalismo da PUC-SP e ex-jornalista da Folha de S. Paulo (1983 a 1986). Vasco Oscar Nunes foi jornalista da Folha entre 1970 e 1979. Ambos vieram a público oferecer suas versões sobre o empresário Octávio Frias de Oliveira "para não deixar que a história seja reescrita conforme os interesses dos poderosos", como assinalou Hamilton.

Seguem abaixo os dois depoimentos, que chegaram à Redação via mensagem eletrônica. Primeiro o de Hamilton Octávio de Souza, depois o de Oscar Nunes. Importante: Nicoleta, mencionado no segundo depoimento, foi demitido do jornal Meio & Mensagem, onde era editor, após publicar uma reportagem sobre o empresário Octávio Frias Filho.

Depoimento de Hamilton Octávio de Souza:

Apenas para não deixar que a história seja reescrita conforme os interesses dos poderosos.

1) Otávio Frias de Oliveira comprou o grupo Folha da Manhã, em 1962, junto com Carlos Caldeira (que era um verdadeiro gangster), depois que o antigo proprietário tinha sido estrangulado financeiramente pelos agiotas. Foi um negócio de grande oportunismo e típico de aproveitadores e aves de rapina. Ambos eram donos da antiga rodoviária de São Paulo, um verdadeiro caça-níquel.

2) Durante a Ditadura Militar, a partir de 1964, o grupo Folha passou a apoiar integralmente o regime. Depois do golpe dentro do golpe, em 1968, o jornal passou a colaborar com a repressão aos movimentos operários, estudantis e às organizações que entraram para a luta armada. Os carros da Folha eram usados por policiais e arapongas. Otávio Frias entregou o jornal Folha da Tarde para os policiais da repressão; durante anos o jornal abrigou policiais, informantes, dedos-duros; e serviu para divulgar os "ATROPELAMENTOS" de militantes das esquerdas mortos sob tortura.

3) A contrapartida da Folha foi receber subsídios do governo, isenções de impostos de importação e financiamentos para modernizar o parque gráfico.

4) A Folha de S. Paulo foi tão fiel à ditadura que jamais teve censores em suas redações e gráficas, como em outros jornais e revistas. A autocensura do jornal atendia perfeitamente os interesses da ditadura. O apoio da Ditadura ao grupo Folha fazia sentido porque o Estadão, da família Mesquita, desde o AI-5 (1968), tinha decidido fazer oposição ao regime, e a Ditadura queria fortalecer em São Paulo um jornal concorrente e submisso.

5) A campanha das diretas foi uma iniciativa do PT, em 1983. Tanto é que o partido organizou um grande comício no Pacaembu, em outubro de 1983, para o qual foram convidados inúmeros movimentos sociais e organizações políticas. Vários partidos existentes na época (PMDB, PTB e PDT) mandaram representantes para esse comício. Logo depois, os jornalistas da Folha de S. Paulo escreveram um documento (abaixo-assinado) apoiando a luta pelas diretas e praticamente toda a redação do jornal havia assinado o documento. Esse abaixo-assinado foi levado ao dono do jornal, Otávio Frias, que concordou em abrir as páginas do jornal para a campanha, publicou editorial apoiando a defesa da emenda Dante de Oliveira, que seria votada no Congresso Nacional. Na verdade, quando a Folha entrou na campanha, ela já estava nas ruas, e foi por pressão da redação. O jornal transformou a campanha das diretas no seu próprio m arketing para aumentar vendas e se tornar o porta-voz da "sociedade civil" empenhada na democratização do País.

6) É muito estranho que o atual presidente da República, que conhece bem essa história toda, tenha declarado no velório do empresário Otávio Frias que a campanha das diretas não teria existido sem ele. Ou o presidente da República está sofrendo de amnésia ou está querendo atribuir aos poderosos (empresários, elites etc) a glória de uma luta que pertence ao povo brasileiro.

Conclamo os companheiros e companheiras a não aceitar que a história seja distorcida. Vamos preservar a memória das lutas dos trabalhadores e das esquerdas.

Depoimento de Vasco Oscar Nunes, em carta enviada à sua filha:

Filha!

Aí vai a minha opinião pessoal, pois vivenciei como jornalista e testemunhei o que ocorreu nas "Folhas" de 1970 a 1979.

A punição de Nicoleta é injusta porque ele fez, apenas, o que qualquer bom jornalista faz: bom jornalismo. O "box" introduzido por ele é prática normal e utilizado para complementar ou dar o outro lado da matéria. O conteúdo do "box" é correto, segundo os depoimentos conhecidos. Nicoleta foi mais uma vítima da autocensura instalada até hoje nos jornais e que, ainda impede a publicação de qualquer fato que vá contra os interesses das elites ou a favor do atual Governo Federal. As "Folhas" continuam do seu lado: ou seja, o dos poderosos de ontem, de hoje e de sempre e que agora estão empenhados em impedir que o Presidente da República vete a "famigerada" Emenda 3, que, se instituída, prejudicará os trabalhadores. Nicoleta foi mais uma vítima da autocensura, desta vez, na "Meio & Mensagem".

OS DOIS FRIAS

Frias era, como se diz, um "come quieto", um "por dentro, pão bolorento, por fora bela viola"..... Qualquer pessoa que o conhecesse o julgava uma ótima pessoa. Cortez, gentil, amigável, fala mansa, um diplomata, um "gentleman". Mas no recôndito do seu egoísmo era um ditador. Só que não aparecia nunca como o responsável. Ele dava as ordens para prepostos que faziam o serviço sujo e sobre eles recaíam as culpas. Assim se resguardou a vida toda. E quando havia críticas ou queixas, elas recaíam no chefe do Departamento de Pessoal, nos diretores dos jornais ou ia parar nas mãos dos advogados para que resolvessem os problemas. Para ele, a vida continuava serena como aparentava. Sempre fechado, pouco acessível, mas jovial e simpático com quem dele se aproximasse. No entanto, os seus prepostos serviam, humilhantemente, ao "grande senhor". Mas, tudo, com muita classe e muita pose democrática.

"BODES EXPIATÓRIOS"

Outro a quem recaíam as culpas era o seu sócio, Carlos Caldeira Filho, que era "pintado" como o "mau patrão". Hoje, as "carpideiras" do Frias tentam responsabilizar a sua sabujisse à Ditadura como "coisa" do Caldeira e do diretor do jornal "Folha da Tarde". Mas, é necessário atentar para o fato de que o "poderoso chefão" era o Frias e não o Caldeira, e se ele discordasse de alguma coisa, cabia a ele corrigir. No entanto, de 1964 até às "Diretas Já" as "Folhas" cumpriram "diligentemente" o receituário dos Militares. E Frias nunca mudou isso... É evidente que ele as apoiava... E, é claro, foi o único beneficiado e que lucrou com essa posição política de solidariedade com os militares.

AUTOCENSURA

As "Folhas" não sofreram censura, em momento algum, pois os próprios editores tinham ordens de fazer a "triagem" do que publicar, numa autêntica autocensura. As "Folhas" nunca fizeram qualquer crítica à Ditadura, encarando-a nos 21 anos de sua duração. como fato natural e normal. Bem diferente do que faz hoje, uma oposição sistemática e "cega" a qualquer medida governamental, por melhor que ela seja. O Frias instituiu um jornalismo com duas faces: uma a favor das elites, militares, repressores e amigos; e uma outra para os que não faziam o seu jogo de interesses de classe.

"POSIÇÔES IMPOPULARES"

Assim, todas as críticas ao Frias têm procedência. Porque se ele era o dono do jornal, não tinha cabimento as "Folhas" tomarem as posições antipovo, antitrabalhadores que tomaram nesses anos todos e que, aliás, mantém até hoje.

TFP, MALUF E BORIS CASOY

Foi o Frias que, pessoalmente, determinou a publicação diária, até há algum tempo atrás, das colunas odiosas e odientas da TFP e toda a grande cobertura jornalística que essa entidade antiReforma Agrária recebeu.

Frias, também, apoiou, pessoalmente, a indicação de Maluf como candidato partidário ao Governo do Estado de São Paulo, contra Laudo Natel, numa das campanhas mas ricas da História da Política Brasileira, o que determinou, com a derrota de Natel, o fim de sua longa carreira política. Natel, surpreendido pelo resultado, acreditava que tinha o apoio do Frias. Era comum, naqueles dias, vê-lo visitando os diretores de jornais do Grupo. A tumultuada convenção, no domingo da eleição, ainda não havia terminado na Assembléia Legislativa, mas, Maluf já estava nas "Folhas", por volta das 19 horas, agradecendo o apoio pessoal dado por Frias, que já o esperava. Natel, a partir desse momento, magoado com Frias, desapareceu dos noticiários e da vida pública...

Também foi o Frias que "inventou" e nomeou o desconhecido "assessor de imprensa" de Maluf, Boris Casoy, ativista de extrema-direita dos movimentos estudantis e simpatizante do CCC, diretor de redação da "Folha de São Paulo". Assim começou a carreira na grande imprensa desse "porta-voz" das elites. Casoy se notabilizou na FSP por "podar" e "perseguir", dissimuladamente, os chamados jornalistas "progressistas". Foi um silencioso tempo de "caça às bruxas"! Foi um tempo de terror para os jornalistas da Folha de São Paulo!

O INTERNVENTOR SINDICAL EM 1964

Nos primeiros dias de abril de 1964, logo após a posse do Marechal Castelo Branco, começou o desmonte sindical. Todas as forças políticas e conônicas se agitaram para influenciar a escolha dos "interventores". Em todo o Brasil o patronato de Extrema-Direita pressionou os generais da linha dura para favorecer os seus indicados. E em todos os sindicatos foram indicados pessoas ligadas a esses interesses patronais. Um dos primeiros sindicatos a receber a nomeação de um inteventor foi o SJPESP que tinha uma tradição de luta contra os patrões e que era, por estes, considerado área de influência do Presidente João Goulart.

Foi com base nesse argumento que foi escolhido um desconhecido funcionário das "Folhas" com o único mérito de se dizer que entendia de sindicalismo. E, surpreendentemente, o escolhido foi Adriano Campagnolli, pessoa de confiança de Frias e Caldeira e que garantiu, em todos os 10 anos que seu grupo esteve no Sindicato, que nenhum problema fosse criado nos jornais do Grupo "Folhas". Depois de 7 anos, Campagnolli passou, por eleição, a presidência para Romeu Aneli, que, em1975, perdeu a eleição para o Movimento de Fortalecimento do Sindicato que elegeu Audálio Dantas. que tomou posse em abril de 1975. E foi nesta gestão que os jornalistas de são Paulo reagiram em protesto contra a morte do jornalista Vladimir Herzog, assassinado em dependências do DOI-CODI, e iniciaram uma nova página na nossa História Política: a da abertura democrática.

"DELEGACIA CAMUFLADA"

Quando começou a queima de carros da "Folha de São Paulo" como reação ao apoio à repressão policial em São Paulo, a "Empresa" criou, junto à portaria na Alameda Barão de Limeira, uma Delegacia policial "camuflada", é claro, e com o aval dos donos da Empresa, porque, ao contrário, isso não ocorreria. A Delegacia era integrada por policiais civis lotados na Secretaria de Segurança Pública e comandada pelo delegado Bin, um ex-delegado aposentado do DEOPS, que morava no prédio ao lado das "Folhas". Assim, ficava sempre à disposição dos seus superiores na Empresa...

A Delegacia era bem disfarçada e seus policiais não se envoviam em questões de rotina. Os funcionários da Portaria também não se envolviam nas quesstões policiais e não se misturavam ou se ajudavam... Por determinação superior, eram dois trabalhos diferentes e que nada tinham em comum. Os empregados da Portaria não gostavam de ser confundidos com os policiais. Tinham muito medo que pudesse acontecer alguma coisa com eles por causa da sua proximidade com os policiais durante o trabalho, pois ficavam todos na bem espaçosa Portaria-Delegacia. Sempre um mínimo de três policiais trabalhavam noite e dia. Tinham muito trabalho vigiando, igualmente, funcionários e não funcionários para impedir qualquer ação contra a Empresa. Mas tudo era feito com muito cuidado, discrição e "sem dar bandeira"...

Quem não fosse da Empresa não percebia a presença dos policiais. Com o passar dos anos e pelo fato de nada de mais grave ter acontecido, os funcionários acabaram se acostumando com os policiais e passaram a encará-los como normais e naturais. Essa Delegacia existiu, pelo menos, até depois da Greve dos Jornalistas de 1979, quando esses policiais tiveram grande atividade fiscalizando os grevistas e os entregando aos seus chefes. Várias demissões em todos os jornais aconteceram. Esses policiais estavam diretamente ligados aos órgãos de repressão. A Delegacia tinha a ficha de todos os funcionários e vigiava, discretamente, à distância, todos os que eram suspeitos de serem de "esquerda". Os funcionários daqueles dias, sabiam da existência da Delegacia, da presença dos policiais e os temiam, daí, talvez, as poucas ocorrências que se têm notícia. Era considerada uma Delegacia "preventiva" e tinha o aval oficial da Secretaria de Segurança Pública. Sempre se fez muito silencio sobre essa Delegacia, mas os mais antigos sabem que de fato isso ocorreu e as maiores testemunhas são os próprios jornalistas que cobriam a área policial.

Filha! É claro que os atuais responsáveis pela Empresa não vão confirmar a minha narrativa e muito menos os detalhes... Possivelmente, terão desculpas e explicações para cada fato por mim narrado. Mas, tenho a consciência tranqüila de que tudo é a mais pura verdade, podendo, é claro, ter me enganado num ou noutro detalhe, mas, em linhas gerais e no seu todo, é tudo verdade, mesmo...

Filha, é isso aí!

Fui demitido da Folha da Tarde, como secretário-gráfico, porque fiz a greve de 1979. Também, ao mesmo tempo, de "A Gazeta", onde editava a pagina de "Internacional". Além da Greve, eu era muito visado por ser anistiado político, por ter sido no SJPESP delegado à FENAJ na gestão Audálio Dantas e por ter sido o criador e fundador em 1974 do MFS - Movimento de Fortalecimento do Sindicato.

Vivi e sou testemunha do que narro acima...


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