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O REI NÃO TOLERA SÚDITOS INSUBORDINADOS
Por Denílson Botelho (*), 11.01.2007

Não pretendo aqui fazer uma resenha do livro recém-lançado Roberto Carlos em detalhes, um ensaio biográfico de autoria do jornalista e historiador Paulo César de Araújo, publicado pela Editora Planeta. Tendo em vista que o cantor decidiu entrar na justiça exigindo a cassação do livro e indenização por ofensa e invasão de privacidade, seria oportuno considerar alguns aspectos sobre o caso.

Em primeiro lugar convém deixar bem claro que o autor não escreveu um livro oportunista de fofocas, com o objetivo de enriquecer às custas do sucesso alheio. É fundamental que esta informação circule para que o debate não seja aviltado por insinuações descabidas. Paulo César é professor de história como eu e o conheci quando ainda éramos alunos da mesma universidade em que estudamos no início da década de 1990. Hoje, além de ser um pesquisador meticuloso, labuta nas salas de aula de uma escola pública em Niterói, onde reside.

Paulo é um baiano do bem, fala mansa, sempre atencioso e afetuoso, dotado de paciência e persistência invejáveis. Viveu a infância e adolescência em Vitória da Conquista e de lá parece ter trazido dentro do coração temas que mais tarde transformou em objeto de pesquisa e, posteriormente, em livros impecáveis. Eu não sou cachorro, não (Editora Record, 2002) revirou a história da MPB pelo avesso, mostrando que a música brega dos anos 70 do século passado nada tinha de alienada, como sempre se afirmou. Pelo contrário, a música brega ou cafona revelava um indiscutível engajamento de seus autores, críticos também do regime militar.

"Roberto Carlos em detalhes" é projeto de toda uma vida, haja vista que a pesquisa realizada para o livro consumiu 15 dos 44 anos de idade de Paulo César. Acompanhei de perto um pouco da agonia e da angústia que cercou os três últimos anos desse trabalho. Agonia e angústia que se devem, em parte, ao fato de que Roberto Carlos recusou-se a receber Paulo César, recusou-se a conceder-lhe qualquer entrevista. Mas nem assim ele desistiu do livro, engendrando todo tipo de esforço no sentido de fazer chegar ao autor algumas das principais perguntas para as quais buscava respostas. Mas se Gay Talese fez um perfil biográfico de Frank Sinatra sem jamais ter conversado com ele, porque Paulo César não seria capaz de fazer o mesmo com Roberto Carlos?

Inúmeras vezes ouvi de Paulo César uma observação extremamente crítica e pertinente: os intelectuais da academia, em geral, têm um certo desprezo pelo popular. Podem até ser marxistas de carteirinha, mas o elitismo burguês faz com que torçam o nariz para a música cafona, brega ou popular.

Talvez por isso esses intelectuais tenham sido incapazes de decifrar o enigma da popularidade de Roberto Carlos. Daí o fato de a academia nutrir o mais absoluto desprezo pelo significado de Roberto Carlos para a história da música popular brasileira e do Brasil. Essa inquietação, que nasceu ainda na infância em Vitória da Conquista, é o eixo central do livro. Paulo César pleiteia um lugar para Roberto Carlos no centro da história cultural contemporânea de nosso país.

A questão é que Roberto Carlos, com o apoio midiático das Organizações Globo, sempre se imaginou capaz de exercer absoluto controle sobre a sua história e o seu passado. Esquece o cantor, que ao tornar-se o "Rei" Roberto Carlos, sua história confunde-se com a do reino em que vive e de seus súditos. Ou seja, sua história não lhe pertence mais. O máximo que pode fazer é apresentar a sua versão aos fãs, escrevendo um bom livro de memórias - que eu duvido que seja melhor do que o ensaio biográfico escrito por Paulo César. Aliás, o "Rei" precisa entender que ninguém tem o monopólio sobre o passado, nem mesmo sobre a memória, que é constantemente reinventada. A história é feita de versões e a de Roberto Carlos seria muito bem vinda.

E que ninguém venha apressadamente esgrimir o argumento da invasão de privacidade supostamente cometida por Paulo César. Lendo o livro percebe-se que se o autor falou da vida pessoal do cantor foi porque o próprio Roberto Carlos o fez em suas músicas. O que se lê nada mais é do que o resultado de um trabalho detalhado de historicizar a produção musical, contextualizando-a cuidadosamente no seu tempo e na trajetória de vida do "Rei".

Em entrevista recente, o cantor informou que não leu, não vai ler e não gostou do livro. Possivelmente o cantor não imaginava que um fã ardoroso, depois de tornar-se jornalista, historiador e professor, seria capaz de produzir uma obra tão bem elaborada como esta. Agora parece querer ignorar a liberdade de expressão, arregimentando advogados para calar Paulo César, à despeito de inúmeros depoimentos favoráveis ao livro publicados em diversos veículos. Comporta-se como um rei que não tolera súditos insubordinados.

A quem pertence a história de Roberto Carlos? Independentemente da resposta que emanará dos tribunais, cada leitor que faça seu julgamento - enquanto há tempo.

Denilson Botelho é historiador, professor e autor de A pátria que quisera ter era um mito.


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