......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



HOMENAGEM AO COMANDANTE
Por Marcelo Salles - salles@fazendomedia.com

"Ser capaz de sentir profundamente uma injustiça cometida com qualquer pessoa, em qualquer lugar do mundo, esta é a qualidade mais bela de um revolucionário"

No dia 8 de outubro completaram-se 38 anos da morte de um dos maiores revolucionários de toda a história (autor da frase acima), sem que a mídia colombina reservasse uma linha que fosse a sua memória. Bom presságio. Significa que em tempos de rebeliões populares pela América Latina, os exploradores sabem que não podem dar margem a ideais libertários e nem mesmo permitir que se desperte o interesse dos desavisados em conhecê-los.

A antropóloga Valderez Guimarães o recebeu em sua casa quando ele esteve no Brasil, em sua viagem pela América Latina: "Era um homem incrível. Além de não dar trabalho, nos ajudava lavando a roupa, cozinhando, passando". E foi nessa viagem que o jovem conheceu as injustiças do continente, cujas riquezas eram tomadas pelos países imperialistas. Argentino, médico por formação, asmático, nas palavras de Jean Paul Sartre foi "o homem mais completo do século XX".

Nosso personagem também foi um dos maiores entusiastas da democratização da comunicação. Em 1960 criou a Prensa Latina, que tinha como objetivo furar o bloqueio informativo das agências de notícia vinculadas à ideologia das potências ocidentais. Foi um dos líderes da Revolução Cubana, que colocou o Estado a serviço do povo, e desde o início sabia da importância do cinema como forma de combater a propaganda imperialista. Por isso, esteve à frente do Instituto Cubano de Artes e Indústria Cinematográfica (ICAIC), órgão que ajudou a criar e que foi uma de suas prioridades enquanto ministro da Indústria e Comércio.

Enquanto ministro, até 1965, revelou-se um grande administrador. Nosso homenageado também foi um revolucionário ao cumprir suas funções como estadista. Nas palavras de Tirso Saenz (seu vice-ministro) em entrevista ainda inédita concedida ao Fazendo Media: "Falam muito dele combatendo nas montanhas, e isso é bom. Mas também precisamos lembrar que era um homem de muita visão estratégica, exigente e que sabia planejar o ministério".

Outro exemplo relatado por Saenz aconteceu quando diante de uma situação complexa, que exigiria trabalho voluntário, e decidiu levá-la ao ministro: "Ele não apenas a aprovou, como prometeu participar do trabalho voluntário. E cumpriu. Trabalhou, como sempre, fortemente, carregando e instalando canos. Sua presença resultou num grande estímulo para todos os que participavam da obra".

Ao prefaciar um dos muitos livros sobre este personagem, Frei Betto ressalta: "Os valores morais devem predominar na atividade política, sob pena de fracasso do homem e da causa". Ele próprio, o revolucionário que hoje estaria com 77 anos, disse certa vez: "Um país em que não prevalecem os princípios morais - sem falar nos ideológicos - não se pode chamar de país socialista". Referia-se à Polônia.

Mas é preciso ressaltar que estamos falando de um ser humano, feito de carne e osso, como também era feito Jesus Cristo. A mitificação do personagem interessa apenas ao próprio sistema que ele combatia, pois o torna distante, inalcançável. Saenz lembra que ele tinha defeitos como todos temos. Era impaciente, às vezes tomava decisões equivocadas, pressionava demais os colegas, entre outros. Mas era humano e, como tal, é um exemplo que pode ser seguido por todos aqueles que lutam, de alguma forma, pela libertação dos povos.

Em 8 de outubro de 1967, na selva de Vallegrande (Bolívia), foi assassinado pela CIA. Seu corpo foi mutilado e as partes espalhadas, pois a agência de espionagem temia que, uma vez enterrado o corpo, o local se transformasse num ponto de peregrinação. Não adiantou. O homem já era uma lenda. Lenda essa eternizada pela imagem do fotógrafo Alberto Korda, reproduzida no mundo todo. Dizem ser a imagem mais reproduzida de todos os tempos.

Mas por trás da imagem há essência, estrutura e envergadura capazes de sustentá-la. Um dos maiores revolucionários de que o mundo tem notícia não merece esse título apenas por sua habilidade nos campos de batalha, onde era generoso o suficiente para prestar seus cuidados médicos aos inimigos feridos, mas, sobretudo, pela vontade insuperável de lutar pela independência dos povos explorados ao longo de séculos. E, tão importante quanto, talvez até mais, era seu desejo de ajudar a construir um novo homem, sem ego, vaidade e inveja, e dedicado plenamente ao amor ao próximo; homem esse que seria construído sobre os escombros do antigo homem, deteriorado por sua ganância desmedida.

Fica nossa homenagem a este grande comandante.


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