......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



ABRAM A CAIXA-PRETA DA MÍDIA
Marcelo Salles, 09.05.2006

Embora a mídia corporativa encontre-se em pleno delírio diante da nacionalização do gás boliviano, seu poder de conduzir mentes e instituições assusta. Se por um lado a cobertura autista da Bolívia, ou a propaganda de guerra contra o Irã atentam contra as mais elementares normas jornalísticas, de outro é de arrepiar que reportagens publicadas nesses mesmos veículos tenham motivado CPIs ou que seus artigos tenham ajudado a afastar profissionais de seus empregos.

Refiro-me à CPMI dos Correios, criada após reportagem da revista Veja que mostra um funcionário do quinto escalão recebendo R$ 3 mil de propina. As imagens foram exaustivamente repetidas pelo Jornal Nacional, enquanto os parlamentares recolhiam as assinaturas. Um olho no papel, outro na televisão.

Outro fato, este mais recente, deixa claro o entrosamento Veja-Globo: a armação contra Suzane von Richthofen, ré confessa, criou o fato jurídico que devolveu a assassina à prisão e denegriu ainda mais sua imagem junto à opinião pública. O outro nome disso é chutar cachorro morto, e mais uma vez as duas empresas julgaram como se juízas fossem. Curioso, mas o mesmo não fizeram no caso Staheli, na Barra da Tijuca, quando o casal apareceu morto. A embaixada dos EUA tratou de retirar os filhos do país rapidamente e não se viu a mesma disposição dessa mídia em apurar, aceitando o caseiro como coelho. Por que seria?

Em seu surto autista, a Veja dessa semana induz o público a acreditar que a Petrobrás foi expropriada da Bolívia. Do mesmo modo procedeu a Globo, cujos comentaristas estiveram a um passo de exigir a invasão de La Paz. Figuras como Miriam Leitão e Arnaldo Jabor, historicamente defensores intransigentes da entrega do patrimônio público brasileiro, de repente aparecem criticando a diplomacia brasileira por não ser mais firme na defesa do interesse nacional. Hipócritas, não dizem que Fernando Henrique vendeu 59,7% das ações da Petrobrás, sendo 40% para o imperialismo via Bolsa de Valores de Nova York. Não dizem que a dependência do gás boliviano foi criada pelo governo do PSDB. Não dizem que o petróleo brasileiro está sendo leiloado desde o governo anterior até o atual. Não dizem que o preço pago pelas multinacionais pelo gás boliviano é aviltante (US$ 3 por BTU contra US$ 8 no mercado internacional).

Além dessa manipulação perversa, agora a Veja ergue palanque para atacar jornalistas. Diogo Mainardi despejou seus vitupérios contra Alberto Dines, Mino Carta e Franklin Martins, entre outros. Todos responderam com firmeza, mas sem o mesmo espaço. Dines, no Observatório da Imprensa. Martins, em sua página, enquanto Mino usou o espaço editorial de CartaCapital dessa semana para se defender, já que a Veja não sabe o que é direito de resposta. Martins, que foi acusado de tráfico de influência, perdeu o emprego. Todos tiveram a imagem arranhada pela tiragem milionária de Veja.

É sobre esse poder descomunal que estamos falando há três anos. É contra esse oligopólio inconstitucional que nos insurgimos. Porque é em cima dessa massa que não faz idéia de como funciona a imprensa que a mídia colombina se cria. Como o capitalismo, ela depende da existência de consumidores em lugar de cidadãos.

Por isso estamos aqui nessa trincheira pedindo para que seja aberta a caixa-preta das caixas-pretas, para que se instaure no Congresso Nacional a CPI da Mídia, para que as verbas públicas sejam democratizadas e para que seja cumprido o artigo 220 da Constituição Federal, que proíbe a formação, direta ou indireta, dos monopólios e oligopólios que imperam na mídia brasileira.


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