
COLUNISTAS EXCITADOS COM A PRESENÇA DE BUSH
Por Marcelo Salles, 09.03.2007
Certos colunistas da mídia grande estão excitadíssimos com a presença de Bush no Brasil. Para eles, será uma grande oportunidade de retomar os eixos da política externa brasileira, após a recaída terceiro-mundista - quanto desplante! Onde já se viu estreitar laços com Chávez, Morales, Kirchner, Fidel e Correa?
Os colunistas estão em polvorosa. Ontem havia uma espécie de euforia contida na voz de Carlos Alberto Sardenberg (Rádio CBN). Por volta de 12h30, entrevistou longamente o ex-ministro Celso Lafer, aquele que retirou os sapatos para ser revistado nos EUA. Os dois comentavam a visita de Bush a partir da fantástica pergunta: "A visita é mais política ou mais econômica?".
Obviamente, jornalista que faz uma pergunta como essa só pode mesmo ser prestigiado por este sistema de mídia monopolista ilegal que existe no país. Qualquer criança de 10 anos - que não tenha sido criada pela TV - sabe que exportações e importações (atividades econômicas) não podem estar dissociadas das definições sobre taxas, índices e alíquotas (atividades políticas). O verdadeiro interesse dos EUA no Brasil está fora da alçada da mídia grande. Compreensivelmente.
Como essa mídia poderia compreender o funcionamento do imperialismo se para ela isso não existe? Sempre que a palavra aparece em jornalões, rádios e televisões, vem entre aspas e de modo a fazer seu enunciador parecer um destemperado.
Até porque, hoje, o imperialismo atua com muito mais força no campo cultural, entre novelas e telejornais, programas de auditório e demais estratégias de dominação via entretenimento. O dia em que nossa resistência descobrir isso, os 20 mil manifestantes de ontem voltarão suas atenções para as sedes das tevês comerciais; é lá que são produzidas as subjetividades que determinam as formas de pensar, agir e sentir o país e o mundo.
Para essa mídia, os protestos que agitam a capital econômica do Brasil e outros 16 estados do país são fruto exclusivamente desse "antiamericanismo" que cresce no mundo todo. Primeiro, distorcem o termo "americano", que deveria designar todos os cidadãos nascidos na América, desde o Chile até o Canadá, passando pelo Brasil. Em seguida, apresentam essa aversão a Bush como se fosse um delírio do povo, algo inconseqüente, pueril e irracional.
Para esses colunistas, as torturas em Abu Graib e Guantánamo são justificáveis, pois aquelas pessoas são "suspeitas de terrorismo". Também para eles é bastante aceitável que os EUA invadam Iraque e Afeganistão, sem a autorização da ONU, e cause um genocídio sem precedentes na história do planeta (instituições independentes falam em 2% da população iraquiana assassinada).
Terminada a entrevista com Celso Lafer, Sardenberg passa a entrevistar Miriam Leitão (colunista da CBN, do jornal O Globo e da TV Globo - só). Os dois passam a tricotar sobre o etanol, o que é possível fazer, quanto o país vai ganhar, etc. Em nenhum momento considera-se o uso intensivo do solo, os prejuízos causados pela monocultura, o gasto excessivo de água na produção do álcool combustível ou as condições precárias dos trabalhadores rurais alocados neste tipo de atividade onde o trabalho escravo ainda é encontrado com freqüência.
Miriam Leitão ainda aproveitou para atacar Hugo Chávez: "ridículo" e "patético" foram dois adjetivos utilizados para caracterizar a participação do presidente venezuelano na manifestação de hoje em Buenos Aires. Para ela, não fica bem um chefe de Estado se misturar com o povo. O legal é ficar encastelado feito um covarde comandando a destruição do planeta. Como escreveu Gilberto Felisberto Vasconcellos na Caros Amigos de fevereiro deste ano: "Enrabado pelo imperialismo, o pau da burguesia paulista fica durinho para enfiar e ferrar nos outros brasis pobres. (...) O solo, o subsolo, o céu estão nas mãos do capital estrangeiro. A mídia empresarial extrai seu sustento da mais-valia ideológica".
Colunistas excitados à parte, dois registros são de fundamental importância: 1) o povo brasileiro mostrou ontem sua força, sua capacidade de organização e, mais importante, mostrou que essa mídia já não tem mais capacidade para enganá-lo. Vinte mil pessoas nas ruas, em plena quinta-feira à tarde, é bastante significativo. 2) Que vergonha a atuação da polícia paulista. Agrediu os manifestantes com cassetetes, tiros de borracha e spray de pimenta, enquanto o inimigo era protegido.