......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



LUZES, PAPAI NOEL, FESTAS... LULA: AGORA ESTAMOS EM 2007!
Por Alacir Ramos Silva (*), 09.01.2007

Chegamos a 2007, hoje, ainda, é festa, dia de ilusões, promessas, cumprimentos, charmes, sonhos... como se a felicidade dos encontros e ou a infelicidades dos desencontros dependesse do calendário...

Luzes, realces, símbolos... não bastam as luzes e fogos de nossas cidades ou os de Copacabana (local mais lindo, no mundo não há) para comemorar a chegada do ano novo, é preciso ver os de Nova York. Se você não pode ir lá ligue a tv ou o computador.

Nova York é logo ali, bastam seis ou 7 horas de vôo (se você conseguir entrar no avião). A cidade tem seu charme, encanta aos novos ricos mais que Paris, há sempre uma loja de 1 dólar à disposição, sem contar que novaiorquino é um povo à parte... espelha-se na estátua da liberdade e acha que é como ela: símbolo da razão universal escondida em montoeiras de cimento!

Este american life style é cada vez mais apropriado às festas... acabam por ditar normas... assista à TV e verás que você é o que você come.... há há há... Se é assim como se explica a enorme quantidade de obesos mórbidos ou quase mórbidos nas camadas de renda mais baixas da população brasileira? Muitos estudos tentam encontrar a resposta.

Na televisão estão as quatro senhoras do Saia Justa, parece que encontraram sua audiência nas mulheres da classe média alta paulistana e para elas dirigem o programa. Sinto saudades da Rita Lee com sua deliciosa e irreverente inteligência e da Ana Carolina dos velhos tempos.

A sociedade do espetáculo impõe mudanças, talvez isto explique a nova Ana e aquela famosa filósofa de quem nunca ouvi falar antes de sua participação no dito programa. Falando nela, no último programa do ano disse que vai escrever três horas por dia em 2007, escreva mais e fale menos, por favor. Quem sabe seus textos, que nunca li, possam revelar melhor o que a senhora é por trás da imagem. Ah... se a senhora relaxasse o luto, seu rosto bonito talvez aparecesse mais.

Fico imaginando como jovens universitários, falo jovens porque são cada vez mais novos de idade os que chegam ao ensino superior no Brasil, reagem ao ter uma professora de filosofia vestida de preto, falando frases, nem sempre conectadas. Vão, muitos deles, ter mais ódio, ainda, dos filósofos. Vão achar que filosofia está fora do alcance dos mortais de inteligência mediana. Quem sabe vão agir que nem a história ou fábula, não lembro a categoria literária, da roupa nova do rei. Só os inteligentes enxergavam. Até que o menino de outro reino viu que o rei esta nu.

À revelia do anti-lulismo das moças e de alguns patrocinadores que estão pagando para que certos críticos fiquem desvinculados de suas imagens, falo de comentaristas do Mahatan Connection, até o Lula que criticava o domínio USA, apropriou-se do estilo americano de viver. Vai tirar férias logo após a posse, o vice vai governar. O Brasil tem sido um país de vices. Nada mais próximo da cultura americana que férias após o ano novo. Na maioria países, ditos pobres, o povo vende as férias ou trabalha dobrado para ganhar um pouco mais, sonhando com as próximas férias. As férias que são somente nos finais de semanas e no amparo da "marvada" água que passarinho não bebe.

Hoje um novo mandato se inicia para Lula que, segundo Laerte Braga, transformou-se numa grife, vive e sobrevive sem o PT. Desafios se encarregarão de atropelar sua travessia durante estes próximos quatro anos. Entre estes ser rotulado como governo populista. A resposta pode ser vista no discurso de posse: este governo não é populista, mas popular.

Falando em popular, onde estava o povo que não compareceu à posse. O número de pessoas presentes à cerimônia foi menor que o esperado para um segundo mandato. Mais parecia, pelo frescor das bandeiras, tecido e tinta novas que era público de encomenda, ou melhor, figurantes. A mídia apontará como a ausência de esperança em um governo que foi reeleito com o voto dos pobres. Os mais lulistas vão culpar a chuva que teima cair sobre a maior maquete do mundo.

No início do governo, a maior parte dos problemas estará sempre posta nas alianças feitas para garantir a eleição. Aliança, nem de casamento, às vezes, resolve muita coisa. Muita gente costuma dizer: faça o que quiser quando estiver longe, o que os olhos não vêem o coração não sente, mas não tire a aliança. Sem contar o brilho que algumas realçam em suas pedras encravadas. Apesar do brilho, a Roseane Sarney não conseguiu ser ministra, a pedra encravada na aliança com o PMDB está no Ministério das Minas e Energia. Sem comentários.

Nosso Presidente sabe como ninguém usar do "charme" da pobreza para manter-se no poder: abriu o novo mandato apelando ao povo a continuidade do apoio e reafirmando que tem programa social para todos os tipos e gostos. Evita Perón que se cuide, D. Marisa está cada vez mais loura e vestia amarelo. Luz, muita luz, acenda os refletores já que o sol disse que vinha, mas não compareceu para iluminar o casal!

Justiça seja feita a alguns programas sociais, eu mesma há mais ou menos três anos critiquei o Prouni - Universidade para Todos - num artigo com o nome: ao Ministro, a LOAS. Percebi, acompanhando a implantação deste programa, que ele (ideologias de ensino público gratuito à parte) está atendendo a uma parcela de jovens que não chegaria às Universidades.

Entre os problemas da adesão ao programa, está a falcatrua que algumas Escolas adeptas da seita e do culto ao deus mercado estão fazendo: colocam à disposição dos meninos e meninas vagas "podres" para usarem das benesses da lei. Chamo desta forma as vagas de cursos superiores que há muito não fecham turma. Os jovens que são classificados ficam à deriva com uma chance na mão, mas sem a quem recorrer. Não vi, ainda, nenhuma providência do Governo para proibir tais Escolas de nova adesão.

Os jovens, vindos da rede pública de educação, concorrentes aos Cursos de grande procura, por exemplo, tem notas de Enem que nenhum jovem aprovado nos primeiros lugares dos processos seletivos apresentam. Este ano um jovem do interior do Espírito Santo bateu o recorde, em torno de 97 pontos. Isto traz uma outra questão: por que estes jovens não passam na rede pública de ensino superior? Estariam os processos seletivos da rede pública de ensino superior vinculados à estrutura dos cursinhos pré-vestibulares?

Dizer que a escola pública não tem qualidade e que o aluno faz a escola são argumentos frágeis. Alguns dos maiores professores que conheço permanecem nestas escolas, lá estão os concursados que disputaram vagas com centenas de outros. Um abraço a Mila e Carmen Lúcia, que entre outras idealistas dedicam sua vida profissional ao exercício do magistério somente na rede pública de educação fundamental.

No início deste programa, várias pessoas afirmaram que estes jovens teriam problemas em conviver com meninos e meninas das classes economicamente altas, que pagam de 2 a 3 mil de mensalidades escolares. Engano: estes meninos e meninas bolsistas deste e de outros programas governamentais têm enfrentado a discriminação e a inveja com a arma mais poderosa: a competência!

Tenho presenciado estes fatos em meu cotidiano. Estes meninos e meninas têm me falado: votei no Lula; se não fosse ele, eu não estaria estudando. Semana passada ouvi de uma mocinha: votei somente no segundo turno, tenho 17 anos, precisava garantir a vitória dele, o Presidente dos pobres. Outra, arrimo de família com uma renda de 800 reais, pai doente, mãe acompanhante do pai: "quando vi a propaganda da bolsa, pensei: é a minha chance, vou fazer Enem e lutar por ela. Consegui!" Com certeza serão profissionais brilhantes.

Uma outra questão que me vem à cabeça neste início de ano é: qual o perfil da parcela da população que está hoje nas universidades públicas? Se os meninos e meninas pobres não passam; e os meninos e meninas de classe média não se esforçam, acostumaram a estudar em escolas privadas, em muitas delas não há mais processo seletivo porque o número de vagas é maior que o número de alunos.

É preciso assumir este debate. Papai Noel não nos trouxe a resposta apesar de ele ter tido muitos adeptos no Brasil em 2006. Falo dos adultos que tentaram nos fazer acreditar que dólares brotam em cuecas e que há somente dois deputados corruptos no Congresso Nacional. Coisas de CPIs.

No mundo inteiro as luzes começarão a desaparecer até o dia 6, mas a ausência do medo de ser feliz continua. Esta não foi criada por Carlito Maia e nem levam o produced by Duda Mendonça ou seu substituto. São sonhos de cidadãos comuns que se agarram na esperança para buscar dias melhores. A estes meus parceiros de luta desejo: feliz 2007!

Alacir Ramos Silva é pesquisadora, professora universitária e avaliadora de políticas e programas sociais implementadas por administrações governamentais. Seu e-mail é alacir.vix@terra.com.br.


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