
UNIÃO LATINOAMERICANA, APESAR DE BUSH
Por Marcelo Salles (*), 08.03.2007
O início de 2007 tem sido um período de intensas negociações e aprofundamento das relações políticas, sociais e econômicas entre os países que integram o Mercosul: Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai, Venezuela e Bolívia (Estados Associados); Colômbia, Equador, Peru e Chile (Estados Partes). Além da Reunião de Cúpula, realizada no Rio de Janeiro, com a presença de todos os chefes de Estado do bloco, no mês passado o presidente Lula visitou o Uruguai, Evo Morales veio ao Brasil e Nestor Kirchner esteve na Venezuela.
Nessas oportunidades, os países selaram acordos importantes nas áreas de saúde, educação, política, economia, comércio, segurança e defesa, desenvolvimento social, cultura, meio ambiente, energia, transporte, ciência e tecnologia. Dois pontos que se destacaram, por sua relevância para o desenvolvimento dos países da região: a "desdolarização" do comércio entre os países do bloco e a constituição de um Parlamento do Mercosul.
Essa orientação "multilateral", no dizer do Ministro das Relações Exteriores Celso Amorim, vem despertando o descontentamento de setores que preferiam ver a política externa funcionando como durante o governo FHC. Naquela época, a ênfase eram as negociações Sul-Norte em detrimento dos acordos Sul-Sul. Foi também nessa época que o ministro da pasta contentou-se em retirar os sapatos para ser investigado num aeroporto estadunidense, numa atitude subserviente que humilhou a imagem do Brasil junto à comunidade internacional.
Nesse sentido, a mídia corporativa tem se destacado pelo esmero com que representa tais setores. O jornal O Globo, por exemplo, incita a discórdia entre os países do Mercosul, tanto em editoriais quanto em reportagens. Títulos como "Bolívia 2 x 0 Brasil" ou "Visita de Bush ao país afasta Lula de Kirchner" evidenciam que a linha editorial entreguista deste jornal segue vicejando, visto que o acordo entre Bolívia e Brasil foi bom para os dois lados (quem perdeu foi uma empresa privada de energia, que atua no Mato Grosso) e a outra matéria sequer sustenta sua manchete.
A propósito, esta reportagem publicada no domingo 25 de fevereiro sobre a visita de Bush ao Brasil esquece que o presidente estadunidense é responsabilizado no mundo inteiro por crimes contra a humanidade e não explica a razão desse "súbito" interesse dos EUA pela América Latina.
É a mídia colombina, recém-saída da folia carnavalesca, impedida de revelar a seus leitores que nosso continente, hoje, representa o maior obstáculo ao avanço do imperialismo, ferido de morte no Oriente Médio e com atuação restrita na Europa. No continente latino-americano, o que temos visto é uma guinada à esquerda - e isto não ocorre por acaso ou em razão de algum mistério misterioso. Como disse o embaixador argentino no Brasil Juan Pablo Lohle ao Fazendo Media, "as iniciativas neoliberais dos anos 90 chegaram a crises onde fomos excluídos, a pobreza aumentou e os recursos se concentraram em poucas mãos. Isso provocou naturalmente uma mudança no sentimento popular em toda essa região".
(*) Este artigo será publicado na edição impressa do Fazendo Media nº 50 (março de 2007).