
03.05.2007
QUANDO O MOÇO DA TV MANDAR
Por Gustavo Barreto - gustavo@fazendomedia.com
Na questão da nacionalização de recursos naturais na Bolívia, a imprensa brasileira de grande circulação quer fazer acreditar que o cidadão comum não se importa em ser enganado a nível nacional, mas não suporta quando a "injustiça" vem de fora. Um telejornal sentencia na noite desta quarta-feira (2/5): "Foi bom para Evo Morales, mas para os brasileiros...". Além da interpretação medíocre e patética acerca do cenário político e social boliviano, há uma questão de fundo – nacional – que deveria nos preocupar mais seriamente.
Quando o mercado internacional se mostra "nervoso" – tal como um 'brutamontes' descontrolado -, a Petrobrás volta e meia aumenta o preço do produto final, o que atinge principalmente cidadãos e empresas brasileiras de médio e pequeno porte.
Quando o mercado internacional está tranqüilo e a Petrobrás vai bem, anunciando um lucro de causar inveja a grandes petrolíferas mundo afora, este ganho não é repassado. Talvez tenha a ver com a composição acionária da "estatal" brasileira – onde a administração é majoritariamente estatal, mas não os lucros.
Mas por que, então, a imprensa brasileira raramente pressiona o governo a baixar o preço da gasolina? Pela influência dos credores na sociedade 'midiatizada' (herança da indústria das relações públicas norte-americana do início do século XX), é certo, mas não só por isso. Tem também a ver com a forma como nos organizamos hoje em dia – basicamente em torno do dinheiro e tão somente dele.
É simples: a notícia sobre o "nervosismo" do mercado internacional não surge por causa do mercado internacional, necessariamente. É mais pelo fato de o preço aumentar. Não se fala da estrutura, e sim dos centavos a menos, multiplicado por milhões de brasileiros. Chamam isso de "fiscalização do poder". O mercado internacional tranqüilo não é, portanto, notícia. Nenhum preço é alterado no andar debaixo, pelo menos não aos olhos do cidadão "Homer", aquele do Jornal Nacional.
O motor de uma sociedade com forte identidade política e organizada na base é o pensamento, a crítica, a mobilização. Em um país onde o maior impulsionador de grande parte da população é o dinheiro – com destaque para aqueles que mobilizam mais dinheiro, ou seja, a elite financeira e parte da classe média -, não dá muito para pensar alto. Há risco de ser chamado de "utópico" ou "esquerdista". Resta, então, ficar indignado quando o moço da TV mandar.