Porto Alegre, 3.2.05
JORNALISMO OU PROPAGANDA - 14h59
Por Malu Muniz
A RBS, que reproduz a programação da Rede Globo no Sul do País, exibe o Jornal do Almoço (JA). No último dia do FSM, quando muitas pessoas se despediam de Porto Alegre, o JA, que visualmente segue o padrão do RJTV, estranhamente (tendo em vista os parâmetros jornalísticos), apresentara primeiro matérias ditas “frias”, não referentes a fatos recentes ou até mesmo não-factuais. Depois vieram, por exemplo, matérias como a greve dos motoristas de transportes coletivos e os transtornos causados à população.
Em um dos intervalos comerciais aparecia a seguinte propaganda: um filho pergunta ao pai o que é o “orgulho”. E o pai responde, ao admirar uma extensa plantação, que orgulho é o que ele sente ao ver os resultados que a soja transgênica trouxera para suas terras. Então o filho diz: “Pai, orgulho é o que eu sinto de você”.
Ao final a voz em off dá nome ao anunciante: Monsanto.
Logo em seguida, no JA está na hora do cafezinho. Um café diferente. Uma série especial mostra os possíveis usos da soja, inclusive para fazer café. Mais um detalhe que salta aos olhos: a vinheta que introduz a “matéria” sobre a soja é a mesma que instantes antes encerrara a propaganda da Monsanto.
Na coluna de Luis Fernando Veríssimo (03/02/05), intitulada “Nós, os bananas”, publicada no Globo, o autor ressalta que a empresa mencionada controla 90% do mercado internacional de sementes geneticamente modificadas.
“Matérias” como a que foi apresentada pelo “Jornal do Almoço” são indícios para percebermos de que lado está a chamada mídia grande, seja no Rio de Janeiro, seja no Rio Grande do Sul. Diante da “matéria” exibida pelo JA, talvez cumpra esclarecermos qual o significado, ou melhor, qual a diferença entre as palavras “jornalismo” e “propaganda”.
Porto Alegre, 31.1.05
JANELAS PARA A REALIDADE - 12h01
Por Gilka Resende e Raquel Júnia

Foto: Robson Oliveira
Um olhar atento pode fazer diferença. Ao passarmos por um dos vários estandes do Fórum Social Mundial, o olhar de uma criança falou conosco. Este olhar estava em uma foto. No entanto, possuía tanta intensidade que parecia estar ali a nos observar.
Neste momento fomos convidadas a encarar a realidade com um novo foco, o do artista Robson Oliveira. Ao sairmos da exposição, encontramos, para nossa surpresa, o fotógrafo, que, em uma conversa informal, nos contou mais sobre seu trabalho, “Os Excluídos”.
Com a utilização de uma tecnologia inédita, lançada no Fórum, Robson Oliveira mescla em seu trabalho o preto/branco e o colorido. Por meio das fotografias, ele expõe seu estudo dos 45 anos da sociedade pós-industrial. Geralmente os estudos sociológicos são apresentados em linhas, entretanto, o artista os fez utilizando a fotografia. A leitura imagética na sociedade brasileira, uma “sociedade do espetáculo” como afirma o filósofo francês Guy Debord, alcança melhor o objetivo proposto, pois nossa visão é historicamente hipertrofiada.
Essa supervalorização da imagem muitas vezes pode ser negativa, mas no caso de Robson Oliveira a utilização é voltada para a denúncia, para incitar uma reflexão crítica nas pessoas. O fotógrafo utiliza a cor para representar a forma como os incluídos na sociedade de consumo percebem a vida, ressaltando signos vangloriados por esta parcela. Já o cinza reflete a condição apática e desbotada dos excluídos.
Porém, nossa conversa não se limitou às questões técnicas de “Os Excluídos”. O artista externou uma visão ampla da sociedade. Ele ressaltou a dependência das pessoas em relação a pequenos grupos dominantes fazendo com que a maior parte da população mundial fique marginalizada no modelo econômico vigente. Também destacou o fato de a população de rua ter aumentado cinco vezes nos últimos dez anos, além da prostituição, do tráfico de drogas, do crime organizado, do subemprego, que aumentam cada vez mais. Em sua exposição, é o aumento da massa anônima que ganha identidade.
Conversando com o assessor de Robson Oliveira ficamos sabendo que mais uma “arma” de combate à desigualdade social foi ignorada pela mídia, uma mídia oportunista que muitas vezes pinta um mundo apenas colorido e se esquece do lado cinza da realidade. “Eu distribuí fotos, expliquei o quanto o trabalho significa para o mundo em termos de avanço tecnológico e ideológico e a resposta mais freqüente era que o caderno de cultura já havia sido fechado”, disse Edgar Pont.
Até quando nossa realidade será maquiada? Até quando a arte será suprimida enquanto esta agir como mobilizadora social? A arte é um viés para a transformação. Basta ampliarmos o nosso olhar para o seu papel, que não se resume apenas ao entretenimento. Devemos abrir novas janelas. Robson Oliveira já abriu as suas. Sigamos o exemplo.
INEVITÁVEL COMPARAÇÃO - 11h12
Por Gilka Resende
O V Fórum Social Mundial contou com a presença de dois chefes de Estado da América Latina, os presidentes Lula e Hugo Chávez. Neste contexto, é inevitável que a comparação entre as recepções dos governates seja feita.
Lula participou, no dia 27 de janeiro, do lançamento da Campanha Global para a Ação Contra a Pobreza. Nesta sua participacão, acontecimentos que vão de encontro aos ideais do Forúm aconteceram.Um encontro antidemorcrático, no qual mais uma vez foi falseada uma aceitação popular do presidente. Militantes estudantis, veículos de comunicação alteranativos e integrantes de partidos de oposição foram impedidos de entrar no Gigantinho. Lula foi aplaudido por seu público cativo, cerca de 90% dos presentes, enquanto Verônica Rodriguês, componente da União de Mulheres Cearenses, era espancada no banheiro por integrantes da brigada militar, segundo relato da própria durante uma palestra sobre a democratização das comunicações. O motivo? Representar vozes, não só da multidão do lado de fora do ginásio, como também de milhões de brasileiros insatisfeitos com o governo.
A palavra de ordem puxada pela moça lhe rendeu dois braços fraturados, uma prisão de duas horas e meia e mais revolta, revolta... Em contraste com este clima pesado, chegamos ao dia 30 de janeiro, dia em que Chávez chega ao Fórum e é ovacionado por milhares de pessoas que lotaram o Gigantinho. Além de transbordar pessoas, o ginásio transbordava admiração, ideologias, energias concentradas para a construção de um novo mundo. Nesta vez quem levou as vaias foi o presidente da CUT, Luiz Marinho, aliada do governo.
O mais “engraçado” é o tom destoante de nossos noticiários.O governo venezuelano já foi duramente atacado pela mídia grande, enquanto o governo Lula é acariciado, com matérias brandas e superficiais. Qual seria o motivo desse tendenciamento? Por que um governo com uma real aceitação popular é tão atacado, enquanto as denúncias de protesto com relação ao outro são suprimidas?
A mídia já não é mais a sentinela da sociedade, mas sua manipuladora. Mais vozes serão caladas, mais Verônicas serão espancadas e mais ilusões perpetuadas, isso se não construirmos um novo mundo.
Chávez é um novo tipo de líder mundial, como disse Ramonet. Um tipo de líder que Lula apenas pensou ser.
Porto Alegre, 30.1.05
IMPARCIAIS NÃO BATEM PALMAS - 23h58
Por Marcelo Salles
Foto: Marcelo SallesOs jornalistas imparciais não batiam palmas jamais. Nem quando Chávez falava contra o imperialismo, nem quando exaltava a atuação dos médicos e professores cubanos que atuam em seu país. Muito menos quando o presidente da Venezuela disse que hoje em dia existe "uma ditadura midiática dos meios privados".
Essa coletiva de imprensa, realizada hoje às 16h, foi muito especial para nós do
Fazendo Media. Tão especial que farei um artigo a parte e em breve estará aqui. Adianto que nós fomos um dos cinco veículos contemplados pelo sorteio das perguntas, entre centenas de inscritos.
Voltando aos jornalistas imparciais. Esses são seres estranhos. Não que sejam insensíveis, coitados. A questão é que eles foram doutrinados a raciocinar por meios tortos e a crer em estruturas ilusórias como se fossem reais. Por isso acreditam no mito da imparcialidade, por isso se dizem imparciais.
No momento em que esses pobres diabos se assumem imparciais, podem até não saber, mas estão se colocando num lugar mais alto, mais importante que as demais pessoas. Isso porque, ao se dizerem imparciais, admitem a existência de apenas uma versão dos fatos, de apenas uma posição pré-determinada, de apenas
uma verdade - a sua verdade. Não seria exagero concluir que tais jornalistas se acham os donos da verdade.
Quanto ao jornalista parcial, este tem plena consciência de que não é um robô; este sim não tem qualquer receio de se envolver; sente dor, chora, fica feliz. E se emocionou quando Chávez contou sobre sua visita ao assentamento do MST hoje pela manhã. "Lá eu não vi os baderneiros que a mídia privada diz que eles são. Eu vi crianças, mulheres e homens trabalhando. Trabalhando e produzindo arroz. A propósito, é um arroz orgânico. Ou seja, eles estão preocupados em manter o equilíbrio ecológico".
Os jornalistas parciais bateram palmas. Sim, era uma entrevista coletiva. E reza a lenda que não seria polido ou ético bater palmas num evento dessa magnitude. Mas os parciais bateram palmas. Não quiseram saber de formalidades. A questão ali, como foi colocada pelo próprio entrevistado, Hugo Chávez, era a luta pela soberania dos povos, contra a injustiça promovida pelo imperialismo estadunidense. Forçar uma falsa imparcialidade ali, naquele momento, era simplesmente insignificante.
PEQUENOS MAS DESTEMIDOS - 23h45
Por Bruno Zornitta *Hotel Plaza San Rafael, coletiva com o presidente da Venezuela, Hugo Chávez. Uma moça loira, de tailleur preto e batom vermelho vivo anuncia que serão permitidas cinco perguntas: duas de veículos alternativos, duas de empresas de comunicação e uma de agência noticiosa. Hora do sorteio para saber quais veículos terão a honra de dialogar com Chávez. Expectativa. O primeiro sorteado não está presente. O segundo, a TV Educativa. A repórter Maria Luiza comemora. Novo sorteado, novamente ausente. A moça do batom vermelho pega mais um papel e anuncia, em castelhano:
Fazendo Media.
Ao ver-nos comemorando, alguns colegas da imprensa pedem exemplares do veículo. Enquanto isso, a equipe se concentra em aprimorar a pergunta, que já estava esboçada. Eis que surge Chávez no salão do hotel. Ele vem por entre as cadeiras, vagarosamente, cumprimentando os profissionais da imprensa com seu carisma peculiar. A moça loira do batom vermelho chama Maria Luiza ao microfone para a primeira pergunta. “Senhor presidente Chávez, qual o papel dos militares no processo de integração da América Latina”?
O presidente avisa que será breve nas respostas. “Bem, sou militar, portanto, esse é um ponto especial”, esclarece. Chávez cita o líder revolucionário Simon Bolívar, que na hora da morte teria dito: “os militares devem empunhar suas armas para defender as garantias sociais”. Ele diz que a última coisa que os militares devem fazer é prestar serviço ao imperialismo e às classes dominantes. E cita Bolívar novamente: “maldito seja o soldado que levanta suas armas contra seu povo”. O presidente fala ainda sobre o golpe de Estado que sofrera em 2002, quando os militares se opuseram aos golpistas, o que fez com que ele voltasse ao Palácio de Miraflores 47 horas após o início do golpe.
“Agora, por favor, o representante do
Fazendo Media”, anuncia a moça. Marisol Souza se dirige ao microfone com a pergunta rascunhada em um pedaço de papel. Com uma edição do impresso em punhos, entrega nas mãos do presidente Chávez, “o jornal que luta pela democratização dos meios de comunicação”.
Foto: Bruno ZornittaEmbora saiba espanhol, Marisol pergunta em português mesmo, deixando a tradução para um senhor que está no tablado. Ela fala com firmeza: “Ilustríssimo presidente Chávez, o senhor sofreu na pele o poder dos meios de comunicação no golpe de abril de 2002, golpe este que foi felicitado pela grande mídia brasileira, inclusive pela Rede Globo e outras mais. No contexto da Televisão do Sul (Tele Sur), o senhor pretende usá-la somente como uma forma de integração latino-americana ou usará o poder político desta TV para combater a mídia empresarial”? O auditório aplaude em peso, durante cerca de 15 segundos, a pergunta pertinente e corajosa da equipe, para arrepios de satisfação dos integrantes do
Fazendo Media.
Chávez fala que hoje vivemos sob uma tirania midiática. Ele lembra o amigo Ignácio Ramonet – entrevistado na véspera por nossa equipe -, que afirma existir no mundo uma ditadura dos grandes meios de comunicação. Fala das mentiras que os
medios proferem a seu respeito, como na ocasião do golpe de 2002, quando insitiram na tese de que Chávez renunciara (na verdade, fora sequestrado). “Falar de controle social dos meios de comunicação é tabu. As empresas vendem essa idéia como se fosse censura”, diz o presidente. Na Venezuela, foi aprovada recentemente a Lei de Responsabilidade Social da Mídia, explica Chávez, sob aplausos dos jornalistas. Ele fala ainda sobre a Tele Sur, que deve servir como um meio a serviço da integração latino-americana. Pegando o gancho do tema integração, Chávez fala um pouco do que seria a Alternativa Bolivariana das Américas (ALBA – para mais informações, ver matéria “Mídia Grande ignora alternativa à ALCA”, aqui nesta página). “Estou propondo que passemos à ofensiva. A melhor defesa é o ataque”, afirma Chávez, para depois emendar: “Que não se assuste Mr. Bush. Procuramos sempre o diálogo, Bush é que fala por meio de bombas e metralhadoras”.
A coletiva seguiu, com mais três outras perguntas, entre elas uma sobre a questão do Haiti, que também foi aplaudida. Porém, ser solidário ao Haiti hoje em dia, é fácil. O surpreendente é um jornal universitário, com 2.000 exemplares de tiragem, ser ovacionado por centenas de jornalistas ao se fazer uma crítica direta a uma empresa de comunicação como a Rede Globo. Depois disso, dinheiro nenhum seria capaz de pagar o sublime momento em que pudemos, de certa maneira, dar nossa opinião, na frente de representantes da grande mídia, e ainda sermos apludidos por isso. Nada. Nada paga.
* Colaboração: Breno Costa
REVISTA OCAS”: INCLUSÃO SOCIAL PELO JORNALISMO - 23h16
Por Mariana Vidal
Foto: Divulgação - www.ocas.org.br
Sol escaldante em Porto Alegre. Andava pelo espaço D – onde ficam concentradas as atividades relacionadas à área de comunicação – quando fui parada por um rapaz negro, baixinho e franzino a me oferecer revistas. Uniforme de cor laranja, uma bolsa carteiro enorme cheia de exemplares, veio com um trazendo o Marcelo Yuka na capa e começou a me explicar o que era o projeto Ocas”.
Eu, que já sou leitora e admiradora da revista há algum tempo, comprei a tal do Marcelo Yuka dispensando toda aquela explicação, puxei papel e caneta e perguntei o nome do vendedor. O rapaz, ao invés de responder, pegou o crachá onde lia-se Antônio César Andrade e colocou-o na altura dos meus olhos, dizendo: “pode copiar”. Eu já havia conversado com outros vendedores de Ocas” no Rio de Janeiro e em Niterói e uma atitude muito marcante de todos eles é justamente esta: o orgulho com que mostram seu crachá, como se estivessem falando “estou uniformizado, trabalhando dignamente, não estou esmolando”.
Antônio foi parar nas ruas de Salvador com apenas seis anos de idade. Mais tarde, foi para São Paulo tentar a vida, mas ainda assim morando na rua. Sem sucesso, acabou preso e, após cumprir sua pena, ficou sabendo através de um amigo que tinha uma revista em São Paulo que dava emprego para moradores de rua e ex-presidiários. “Assim que eu saí da penitenciária, há dois anos, eu mesmo fui procurar a Ocas”, eu não queria voltar pra rua, não é porque a gente está na rua que a gente quer ficar lá”.
A Ocas” é uma revista de cultura alternativa e custa R$3,00, sendo que R$2,00 ficam para o vendedor. A revista dá assistência e treinamento para que possam exercer o novo emprego. “Tive um treinamento psicológico durante seis meses e quem usa drogas eles encaminham, fica ainda mais tempo”, explicou o vendedor.
Antônio coseguiu sair das ruas com o apoio da revista e o dinheiro que juntou com a venda. Paga sozinho um aluguel de R$140,00 em São Paulo, disse que esta é sua única renda e, abrindo um largo sorriso, contou que voltou a estudar e está quase terminando o primário. Aliás, sair da rua e estudar parecem ser a sua grande realização, pois a todo momento ele falava que em fevereiro ia começar um curso de informática em São Paulo, também oferecido pela revista. “E eu queria um lugar só meu pra morar mesmo, eu não gosto de abrigo, tem gente que prefere ficar lá, mas eu não gosto.”
Antônio César foi um dos oito vendedores de São Paulo selecionados pela revista para vir ao Fórum Social Mundial com transporte e hospedagem pagos pela Ocas”. Ele costuma vender de quinze a vinte exemplares por dia na cidade onde mora, mas aqui faz em média trinta vendas.É muito bom que as pessoaas estejam conhecendo esse projeto jornalístico de inclusão social e comprando a revista, fica aqui a minha enorme admiração pelos organizadores da Ocas”, pela garra e determinação dos vendedores e por todos aqueles que acrediatm que é possível modificar a realidade através do jornalismo.
O endereço da Revista Ocas” é www.ocas.org.br
PODE VIR, NÃO SE ACANHE - 22h54
Por Breno Costa
Mais de 10 mil pessoas presentes. Isso só do lado de dentro do ginásio que, por sinal, faz jus ao nome que tem. O Gigantinho, de fato, é um pequeno gigante. Cabe bastante gente, mas poderia comportar muito mais. Que o diga os milhares que ficaram do lado de fora, mesmo após enfrentarem filas quilométricas e uns bons graus Celsius na cabeça. De nada adiantou as vaias e muitas tentativas frustradas de entrar e ver o homem mais de perto. Afinal, lá dentro estava o responsável por toda aquela multidão: Hugo Chávez Frias, presidente da Venezuela.
Ao meu lado, já no interior do ginásio, no tablado improvisado para a “acomodação” do pessoal com a credencial vermelha de imprensa, duas jornalistas: uma do Le Monde Diplomatique no Brasil e outra da revista eletrônica Novae. Não falarei aqui, entretanto, da fala de Chávez, mas dos ditos das duas profissionais. Ao lado de Chávez estavam Ignácio Ramonet, do Diplô francês; Olívio Dutra, ex-governador do Rio Grande do Sul; Roberto Requião, governador do Paraná; e Luiz Marinho, presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT).
Quando este último foi à tribuna, apupos. Muitos apupos. Um estridente som vogal de “uuuhhh” ecoou pelo Gigantinho. Coro este seguido com gosto pelas duas jornalistas citadas. E a história que a mídia grande não mostra é contada: na abertura do Fórum, quando Lula esteve no mesmo lugar em que Marinho agora discursava, um pequeno grupo de pessoas o vaiara, contraposto aos aplausos da maioria. Porém, e aí entra o que não foi dito, grupos de pessoas que se opunham ao presidente Lula não conseguiram entrar, já que o ginásio já fora dominado por integrantes da CUT, UNE, PT, entre outras instituições de apoio ao governo Lula, além de integrantes de veículos de mídia alternativa terem sido barrados.
Aqui, a frase proferida pela jornalista da Novae: “Luiz Marinho está tomando a vaia que o Lula deveria ter tomado quinta-feira”. De fato, o Gigantinho foi tomado por inconformados. Ao longe, uma faixa se destacava, resumindo o clima que ali se vivia: “Chávez, venha ser nosso presidente”. Completo por conta própria: “Aproveite e traga na bagagem uma mídia mais honesta (não que a sua seja lá grandes coisas...)”.
BEIJOS DE RESISTÊNCIA - 13h46
Por Rejane Lopes
Foto: Divulgação
O Fórum Social Mundial (FSM) é caracterizado pela presença e luta das minorias marginalizadas. Neste evento, elas buscam discutir seus problemas e colocar propostas para superá-los. Também buscam a construção de redes de comunicação para diminuir as distâncias entre elas e fortalecer as lutas através de possíveis trabalhos em conjunto. No entanto, estes objetivos são enfraquecidos quando grupos que lutam por causas semelhantes pautam seus debates em discursos que enfraquecem uns aos outros. Um bom exemplo disso foi a atuação neste V FSM de grupos que discutiram questões relativas à luta das mulheres.
No dia 29 de janeiro, a conferência “Luta das mulheres contra os projetos hegemônicos de dominação” contou com a presença de lideranças feministas da América Latina. Quase todos os países estavam representados, entre eles Cuba, Argentina, Bolívia, Peru e Brasil. Foi colocado principalmente a idéia da feminização da pobreza, devido ao fato de países como Brasil e Argentina ainda pagarem menos ao trabalho feminino, mesmo este sendo equivalente ao realizado por homens. Desta forma, para as palestrantes, a luta das mulheres latinas e de todos os outros países subdesenvolvidos passa primeiro por melhores condições de vida que só serão alcançadas através da justiça social.
No dia anterior, a conferência “Beijo da rua: a experiência de 16 anos de um jornal do terceiro setor” comemorou o sucesso do periódico fundado pela Associação das Prostitutas da Bahia e que hoje circula por todo o Brasil. O jornal, apoiado pelo Ministério da Saúde e pela Unesco, é direcionado ao público das profissionais do sexo e tem por objetivo levantar a auto-estima dessas mulheres e também fazer campanha de prevenção à AIDS e outras DST's. Uma das principais reivindicações das prostitutas presentes foi a luta pela profissionalização da prostituição e por melhores condições de trabalho.
Foi colocado também pelas prostitutas o fato de que as feministas sempre atrapalharam suas lutas e reivindicações, já que estas condenam a comercialização do corpo feminino. Afirmaram que um grupo que sempre lutou contra a coerção masculina, estaria também exercendo contra elas um poder coercitivo. Afinal, o fim da prostituição seria algo utópico e que pelo menos as prostitutas pudessem usufruir todos os direitos de um trabalhador comum. Sem falar no fato de que as escolhas pessoais deveriam ser respeitadas e que qualquer tentativa de homogeinização deveria ser combatida.
Esta questão foi colocada para o grupo das feministas para que estas também pudessem ser ouvidas. Segundo elas, as feministas não questionam o trabalho das prostitutas, mas sim as relações econômicas e sociais que possibilitam a atividade. Ainda mais pelo fato de que a maior parte das mulheres que se prostituem são originárias das classes sociais mais baixas. No entanto, admitem o fato de que são contra a profissionalização da prostituição, já que esta não poderia ser considerada uma atividade digna para as mulheres.
O endereço eletrônico do Beijo da Rua é www.beijodarua.com.br.
Porto Alegre, 29.1.05
MANIFESTO DE PORTO ALEGRE - 23h24
Por Bruno Zornitta
Foto: Malu Muniz
Sábado, fim de tarde no Hotel Plaza San Rafael. Um grupo de intelectuais se reúne com profissionais da imprensa para divulgar o Manifesto de Porto Alegre, documento que reúne doze propostas para viabilizar “um outro mundo possível”. Os signatários do manifesto declaram expressamente que as propostas são de cunho estritamente pessoal, ou seja, que não pretendem falar em nome do Fórum. O documento apresenta as propostas como sendo “políticas alternativas à tirania da globalização neoliberal impulsionada pelos mercados financeiros e pelas transnacionais, cujo braço armado é o poder imperial dos Estados Unidos”.
Os signatários do documento, por enquanto, são: Adolfo Perez Esquivel, Aminata Traoré, Atílio Borón, Armand Matellar, Bernard Cassen, Boaventura de Sousa Santos, Eduardo Galeano, Emir Sader, François Houtart, Frei Betto, José Saramago, Roberto Sávio, Ignacio Ramonet, Immanuel Wallerstein, Ricardo Petrella, Samuel Luis Garcia, Tariq Ali, Samir Amin e Walden Bello.
Segue abaixo um resumo das doze propostas expressas no manifesto:
01) Anular a dívida pública dos países do Hemisfério Sul;
02) Aplicar taxas internacionais sobre transações financeiras, vendas de armas e atividades que colaborem para a poluição da atmosfera;
03) Desmantelar progressivamente os paraísos fiscais, jurídicos e bancários, que são refúgios do crime organizado;
04) Direito a emprego e proteção social;
05) Promover o comércio justo, rechaçando as regras do livre comércio da Organização Mundial de Comércio (OMC) e excluir a saúde, os serviços sociais e a cultura do Acordo Geral Sobre o Comércio da OMC;
06) Garantir o direito à soberania alimentar, suprimindo os subsídios agrícolas, em primeiro lugar dos Estados Unidos e da União Européia;
07) Proibir o patenteamento do conhecimento e dos seres vivos, assim como a privatização dos bens comuns, em especial da água;
08) Lutar contra todo tipo de discriminação, sexismo, xenofobia, antisemitismo e racismo;
09) Tomar medidas urgentes para pôr fim à destruição do meio ambiente;
10) Exigir o desmantelamento das bases militares estrangeiras e suas tropas em todos os países, salvo as que atuem com mandato da Organização das Nações Unidas (ONU);
11) Garantir o direito à informação, mediante legislações que ponham fim à concentração dos meios de comunicação, garantam a autonomia dos jornalistas frente às empresas e favoreçam a imprensa sem fins lucrativos, em especial aos meios alternativos e comunitários;
12) Reformar e democratizar as organizações internacionais, entre elas a ONU. Isso implica a
incorporação do Banco Mundial, do Fundo Monetário Internacional e da OMC aos sistemas e mecanismos das Nações Unidas.
Embora estas sejam apenas propostas, sem força de lei ou econômica para se fazer cumprir, já representam algum avanço no sentido de pressionar os donos do poder para que um mundo melhor seja realmente possível. Aí está uma resposta para aqueles que insistem em dizer que, no Fórum Social Mundial, muito se discute, mas nada de prático é proposto.
REFRESCO JORNALÍSTICO - 22h44
Foto: Marisol Souza
Fazendo Media: para Eduardo Galeano, um refresco jornalístico.
CULTURA: PRÉ-ESTRÉIA DE "EM VIAGEM COM CHE GUEVARA" - 22h34
Por Manoela Cesar
Foto: Divulgação
Walter Salles, Gianne Mina, Alberto Granado, Che Guevara e a "Poderosa". Dois olhares, dois personagens, duas rodas e o mesmo caminho: o amor pela América Latina. Aproveitando o momento de efervescência cultural e de propagação da necessidade de união da America Latina, proporcionado pelo Fórum Social Mundial, o documentarista italiano Gianne Mina exibiu na tarde deste sábado, pela primeira vez no Brasil, o longa "In Viaggio com Che Guevara" ("Em Viagem com Che Guevara"), no qual revela de forma poética os bastidores do premiado "Diários de Motocicleta", do brasileiro Walter Salles. Para apresentar o filme, foram chamados Ignácio Ramonet, editor do jornal francês Le Monde Diplomatique, o ex-assessor especial de Lula, Frei Betto e o prêmio Nobel da paz, Rodolfo Pérez Esquivel.O filme está previsto para estrear no circuito a partir de 2006.
Numa produção que complementa a história narrada por Salles, "In Viaggio com Che Guevara" reporta momentos de intimidade de Alberto Granado – o companheiro de viagem de Che Guevara em sua jornada pela América do Sul – ao participar dos bastidores do filme de Walter Salles, assessorando a produção na resconstituição das cenas, fielmente atento às filmagens. O ator Gael Garcia Bernal, que vive Che, e o ator Rodrigo de la Serna, que interpreta Alberto quando jovem, falam da responsabilidade que sentiram ao vivenciarem diálogos do revolucionário que marcou a História. Em entrevista à Gianne, Salles conta porque decidiu filmar Diários. “Me encantei pelo livro e tive a certeza que nenhum de nós seria o mesmo no final desta aventura”.
Na pré-estréia, o franciscano Frei Betto fez um paralelo entre as duas linguagens. “Enquanto Walter pinta na tela a fotografia de um romance, Gianne Mina foi repórter e levou o jornalismo para a sétima arte, esta arte que incorpora todas as outras”. Já premiado na Alemanha, no Canadá e na França, o filme aguarda o Tribeca Film festival, de Nova Iorque.
Mas para Gianne a maior expectativa para os proximos dias é saber se Diários de Motocicleta vai faturar os dois Oscars aos quais foi indicado, por Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Canção Original ("Al Otro Lado del Rio"). “Diários é tão bem feito que eu esperava mais
indicações, mas vamos aguardar. Acredito que o conservadorismo norte-americano não pode se sobrepor à arte, nem mesmo quando se trata da biografia de um revolucionário comunista”, analisou, otimista.
CONCENTRAÇÃO DA MÍDIA: PROBLEMA MUNDIAL - 22h03
Por Mariana Vidal
Vindo de uma tenda ouvi a voz imponente, dessas de professor de História que prende a atenção de toda turma quando fala: “e o Arnaldo Jabor que apareceu no Jornal Nacional descascando uma banana para demonstrar que a República das bananas havia acabado? E a Veja que noticiou a queda do presidente fanfarrão? ”. Era Renato Rovai falando sobre a cobertura da mídia grande brasileira frente a tentativa de golpe na Venezuela – mídia esta que chegou a publicar e comemorar a suposta queda de Hugo Chávez. O debate intitulado “Midiático poder”, organizado por Renato Rovai e pelo Intervozes (leia abaixo “Comunicação: direito de todos?”), procurou problematizar a relação entre mídia e poder político e, principalmente, enfatizar a importância dos veículos independentes. Foi a mídia alternativa que denunciou a situação na Venezuela através de uma página feita por dois jovens (um na Venezuela, que passou as informações, e outro que as recebeu em Nova York), conseguindo espalhar para o mundo que Chavez não havia renunciado e, sim, sofrido um golpe. Antônio Biondi, do Intervozes, resumiu bem a relação entre mídia e poder no Brasil: “Nove famílias controlam a comunicação no Brasil, falam para 180 milhões e não ouvem estes 180 milhões”.
Alguns estrangeiros presentes no debate resolveram dar um depoimento sobre a mídia em seus países. Uma jovem do Uruguai denunciou que as estudantes só podem formar-se em jornalismo através de faculdades particulares. Os que estudam em faculdades públicas freqüentam aulas, mas nâo recebem diploma, podendo apresentar-se como comunicadores, mas nunca como jornalistas. Os cidadãos uruguaios dão mais credibilidade ao rádio que a TV, pois os telejornais são muito parecidos, com uma informação padronizada. Perguntada sobre o papel da mídia nessaas eleições, a jovem uruguaia disse que os grandes veículos não cobriram as eleições, tão pouco o plebiscito da água (67% da população votou contra a privatização da água no Uruguai ). “A informação foi boca a boca , com distribuição de folhetos nas ruas”.
Nashana, da Jamaica, disse que há grupos estatais de comunicação em seu país, mas os maiores e mais importantes são privados. Na Jamaica, os partidos formam alianças com determinados grupos de mídia e, por isso, a informação que recebem depende do partido da situação. Segundo Nashana, os jornalistas não podem se opor ao governo e, quando tentam publicar investigações que envolvam o Estado, são censurados da primeira vez e perdem o direito de exercer o jornalismo se continuarem insistindo em publicá-las.A saída é lançar tais investigações na internet usando pseudônimos, mas pouquíssimas pessoas têm acesso a este meio na Jamaica.
A França, conhecida pela liberdade de imprensa e pela diversidade de veículos, vem sofrendo uma recente concentração midiática. O francês Ian disse que os jornais de referência como o Le Monde estão falidos e que a visibilidade da agência de notícias France Presse camufla a verdadeira crise em que se encontra devido à concorrência desleal com a Reuters, que possui muito mais recursos.
Maria del Rosario, do Peru, lembra que seu país está saindo de 10 anos de ditadura, período no qual a imprensa foi completamente controlada por Fujimori. Após a queda do ditador, formou-se um grande conglomerado de mídia, inclusive com participação colombiana, dando início ao atual monopólio da imprensa em seu país. Segundo Maria, grupos de esquerda tentaram um jornal alternativo mas, por motivos financeiros, estão “tornando-se comerciais”. A jovem peruana ainda ressaltou que existe uma grande diferença entre o preço dos jornais e os únicos condizentes com a realidade da populçaõ pobre são muito sensacionalistas.
Gabriela, uma jovem jornalista da Venezuela responsável por uma TV comunitária na favela, fechou o debate dando-nos uma esperança: apesar de todos esses depoimentos, está ocorrendo uma revolução da comunicação venezuelana. As pessoas passaram a ler a Constituição e se deram conta de que têm direito a uma comunicação de qualidade; estão se unindo e organizando veículos comunitários que têm todo apoio do atual governo e não pagam impostos. Gabriela, assim como a equipe do Fazendo Media, acredita que é possível alastrar essa tomada de consciência por toda América do Sul.
RAMONET NO FM - 21h34
Por Breno Costa
Foto: Bruno ZornittaChegamos junto com uma sueca, loira, repórter de uma revista de "initmidades" no friorento país nórdico. Fala castelhano: "Ramonet também marcou comigo às 16h". Impasse. Também havíamos marcado entrevista exclusiva com o diretor do jornal francês
Le Monde Diplomatique para o mesmo horário. Pois bem. Em maior número, dominamos a entrevista. E foi boa. Muito boa. Pela ótica de quem comanda um dos jornais símbolos de resistência à lógica publicitária que rege 99% das redações atualamente, Ramonet esmiuçou o campo midiático para o
Fazendo Media.
O resultado, você confere na edição especial Fórum Social Mundial do nosso impresso, disponível para assinatura aqui nesta página.
ENTREVISTA: TARIQ ALI - 21h22
Por Marcelo Salles
Foto: Bruno ZornittaTariq Ali parece estar sempre irritado. Bigode espesso, cabelos grisalhos e desgrenhados. Os olhos esbugalhados se acalmam quando este escritor paquistanês começa a falar sobre as correlações de poder no mundo de hoje. Explica-nos, em entrevista que será publicada em nossa próxima edição, quais as bases do imperialismo estadunidense. “Este é um século dominado pelo capital americano. É um monstro que caminha sobre duas pernas. Uma delas é a econômica e a outra perna é a militar. E a mídia é o pilar central do Consenso de Washington”.
Tariq falou também das diferenças entre Lula e Chávez. “Ouvimos o discurso do presidente brasileiro anteontem e ele só falou banalidades. Amanhã ouviremos Chávez, e será muito diferente”. O
Fazendo Media está cadastrado para cobrir a coletiva do presidente da Venezuela. Amanhã mesmo daremos, aqui neste espaço, as primeiras informações sobre este encontro com a imprensa.
COMUNICAÇÃO: UM DIREITO DE TODOS? - 21h07
Por Thaís Tibiriçá
Ocorreu hoje pela manhã um debate sobre o direito da comunicação no Brasil, organizado pelo Intervozes - Coletivo Brasil de Comunicação Social, uma associação que existe há três anos e luta para difundir a idéia de que a comunicação é um direito de todos.
Atuando em várias partes do Brasil com debates, oficinas e marchas de protestos, ela vem encontrando muitas respostas positivas. Isto foi comprovado pelas várias perguntas e exemplos que os participantes do debate fizeram questão de compartilhar, tanto que o tempo foi insuficiente.
A discussão girou desde o fato de que a comunicação não é considerada um direito segundo a lei, até a questão de como os “donos da mídia” controlam o bem público que são as emissoras de TV. Um dos componentes da mesa, Sérgio Suiama, procurador do Ministério Público, colocou fatos importantíssimos em discussão como a questão de as emissoras nunca permitirem a criação de orgãos controladores da comunicação de massa, sempre alegando que isto é uma forma de censura. Sérgio lembrou bem que as emissoras que usam essa justificativa, durante o regime militar concordaram em praticá-lo.
Dados interessantes foram ressaltados, como o da última pesquisa do IBGE, que mostrou que os brasileiros assistem à televisão 5 horas por dia, em média, além de as TVs atingirem praticamente todos os municípios brasileiros, inclusive em casas em que não há nem geladeira, nem rede de esgoto. Todos estes dados foram utilizados para comprovar que o meio de comunicação é um meio de poder, mesmo que as emissoras digam o contrário.
Também foi colocada a questão de a televisão ser um meio público, e as emissoras receberem concessões que deveriam ter prazos de renovação, mas estes não existem, sempre são automaticamente renovados por ordem do Congresso. Nunca se perguntou a nenhum telespectador se ele gostaria que a Globo, SBT, Record ou Bandeirantes continuassem no ar.
Mecanismos que poderiam ser utizados para controlar a comunicação também foram citados, como o “direito de antena”, que seria um espaço aberto na TV para que sindicatos e ONGs pudessem divulgar suas idéias. Isto já existe em vários países da Europa. Outra possibilidade seria a população trabalhando junto ao Congresso no controle das concessões; o estímulo do Governo na expansão das rádios comunitárias (o site www.intervozes.org.br divulgará um dôssie em que relata a violência que estas rádios estão sofrendo e como estão sendo fechadas).
Atualmente já temos mecanismos que podem ser utilizados para impedir que estas emissoras se considerem donas dos meios de comunicação. Entre eles está a utilização do direito de resposta coletiva, já usado e ganho no caso da Record, que ofendia a religião afro-brasileira, além da indenização por danos morais em programas que desrespeitam os telespectadores, entre outros instrumentos.
GALEANO E SARAMAGO CONCEDEM ENTREVISTA COLETIVA - 20h56
Por Júlio Lubianco
Foto: Júlio LubiancoPouco antes do início, a assessora avisa aos jornalistas, ou melhor, pessoas com credenciais de imprensa: “Esta atividade é autogestionada e não temos como colocar aparelhagem de som para um auditório para três mil pessoas”. A mudança havia sido proposta por algumas das cerca de 100 pessoas que se espremiam em uma apertada e abafada sala anexa ao auditório Araújo Viana, à espera dos escritores José Saramago e Eduardo Galeano.
Câmeras, gravadores, blocos e canetas nas mãos. O alvoroço é inevitável com a chegada dos escritores. Do lado de fora, um grupo de participantes do V Fórum Social Mundial se esgüela numa última e desesperada tentativa de se aproximar dos dois popstars da esquerda, sem sucesso. A entrada só era permitida aos portadores de credencial de imprensa.
- Vocês tiveram cinco horas para ouvi-los falar”, argumenta uma integrante do comitê organizador, referindo-se ao painel “Quixote hoje: utopia e política”, que lotou o auditório Araújo Viana. Ao início da coletiva, os barrados não se conformam e iniciam um protesto: “Queremos entrar, queremos entrar”, gritam, talvez as menos criativas palavras de ordem ouvidas durante este fórum.
- Deixem-nos trabalhar - responde Saramago aos berros que abafavam a sua fala. “Este é um problema que não é meu. Querem que eu faça o quê? Que interrompa isto aqui?
Através de pequenas aberturas na parede da sala, os manifestantes acusavam o FSM de promover uma “censura à imprensa”. Ignorados, cansam e vão embora.
Do lado de dentro, há pelo menos duas vezes mais jornalistas do que as cadeiras disponíveis nos levam a deduzir. Sem ar condicionado ou um mísero ventilador de teto, o calor ultrapassa, sem dúvida, os 35 graus. O suor escorre e mancha as camisas dos entrevistados. A assessora havia avisado: são só 45 minutos, porque o vôo deles sai ainda no mesmo dia. O tempo é escasso para o assédio de tantos jornalistas, que se acotovelam na tentantiva de se aproximar dos dois.
Sem pauta pré-definidaa, Saramago e Galeano falaram sobre quase tudo: eleições no Iraque, governo Lula, crise do capitalismo, vida nas favelas, futebol, literatura, democracia e concentração dos meios de comunicação. Solicitado a fazer um balanço das cinco edições do FSM, Galeano evitou polêmicas:
- O fórum não pode ser muito melhor do que o mundo que o gera. O fórum enfrenta as contradições e limitações do mundo real - explicou.
Depois de responderem a cerca de 10 perguntas, Galeano e Saramago se dirigiram ao aeroporto. A participação dos dois neste FSM havia se encerrado.
EDUARDO GALEANO FALA DE ÁGUA E DIGNIDADE - 14h09
Por Malu MunizA tenda do espaço E 602 não tinha mais espaço para tantos admiradores - muitos deles uruguaios - do escritor Eduardo Galeano.
O escritor uruguaio agradeceu emocionado à cidade de Porto Alegre por sediar o V Fórum Social Mundial.
Galeano, com sua inigualável capacidade de contar histórias, misturando literatura e política, contou a história de uma amiga mexicana, que havia dito que o ano de 2004 seria profeticamente o ano que anunciaria “a chegada de um novo sol”, um fenômeno não ocorria há mais de 5 mil anos. A profecia se cumprira mais ao sul do que fora prenunciado, mais precisamente no Uruguai. Galeano faz referência a vitória do povo uruguaio, fruto de um “trabalho de militância, porta por porta, consciência por consciência”. O Uruguai, que em 2004 elegera um presidente de esquerda, da Frente Ampla, realizou um feito inédito em todo mundo. “O povo uruguaio confirmou por 65% que a água é um direito de todos e não um direito de poucos”.
Galeano defendeu que a privatização, a exemplo do ocorrido no Uruguai, ocorra somente mediante uma consulta ao povo. Ao falar da vitória contra a privatização da água, Galeano disse que “o povo uruguaio sentiu a necessidade de praticar uma democracia de verdade”.
Sob repetidos e entusiasmados aplausos Galeano seguiu lembrando da omissão dos meios de comunicação a respeito do que ele considerou uma vitória do povo uruguaio.
Novamente fazendo uma ponte literária e metafórica, o escritor contou a história do cortesão que elogiara a beringela e logo depois, quando o sultão enjoou da especiaria, maldizera a mesma. Interrogado por um curioso sobre sua mudança súbita o cortesão respondera: “Eu sou cortesão do sultão, e não da beringela”. Galeano disse que “nesse mundo os meios de comunicação são cortesãos do sultão... E não se interressam nem um pouco em ressaltar a importância de uma notícia como a do plesbicito da água no Uruguai”.
Embora Galeano tenha afirmado que “o único pecado que não tem redenção é a perda da esperança”, não considera que o povo deva esperar passivamente. O escritor afirmou que notícias como a da conquista do povo uruguaio contrariam a tradição dos sultãos estrangeiros de se tornar forte a crença na “impotência nacional”.
Por último, reforçando a necessidade de um povo participar democratica e efetivamente das decisões políticas de seu país, o escritor afirmou emocionado que “o bem natural mais importante para a humanidade é a dignidade".
Aplausos eufóricos e o grito “el pueblo unido jamais será vencido” dito em coro pelos presentes encerraram a palestra do escritor uruguaio Eduardo Galeano, que hoje pela manhã falou ao lado de Ignácio Ramonet e José Saramago para mais de duas mil pessoas no Auditório Araújo Vianna.
UM OUTRO MUNDO É POSSÍVEL - 12h54
Por Mariana Antoun
Foto: Mariana AntounAcho que essa coisa é contagiosa. Todos, ou pelo menos quase todos acreditam em mundo melhor. Tem uma turma que não acredita em nada, e sobre esses eu devo escrever no final do Fórum. Mas existem uns especiais, que acreditam em outra coisa e mais que isso, lutam por essas pequenas coisas com as armas que possuem domínio. E que não matam, nem destroem.
Falo aqui do professor da Universidade de Coimbra, Boaventura de Sousa Santos e do projeto da Universidade dos Movimentos Sociais e/ou Rede do Conhecimento. Falando para uma platéia de pelo menos 300 pessoas (não sou especialista em cálculos desse tipo e fiz uma conta suja por número de cadeiras por fileira e estou chutando, mas a impressão é que tinha mais gente ali) ele começou desconstruindo a nossa Universidade burra e elitista: "Se a Universidade ensinasse todo o conhecimento para nós, não precisaríamos de uma universidade popular". Ele lembra o conhecimento indígena antes desprezado pelos colonizadores e que hoje é apropriado pela indústria farmacêutica e patenteado.
"Quando a gente desvaloriza uma forma de conhecimento, desvalorizamos os grupos sociais que se apoioam nesse conhecimento. E nisso está um dos fatores de injustiça social no mundo", e lembrou que as atividades que incluem os povos indígenas no próprio Fórum estão publicadas no caderno de cultura, e não assumidos enquanto conhecimento.
O princípio dessa Universidade é a troca de conhecimento entre os movimentos sociais e os intelectuais que hoje formam o nosso modelo universitário (excludente e elistista, vale lembrar). Troca essa onde todos devem estar dispostos principalmente a aprender e a escutar. E que deve ser traduzida nas linguagens e culturas envolvidas no projeto.
A coisa parece que vai sair. No final da tarde de hoje sairão as diretrizes para uma carta de princípios, e questões como financiamento e estrutura física serão discutidos. Eu estarei lá de novo. O primeiro caminho para transformar o mundo é pela democratização da educação, num processo ao meu ver pacífico e humanístico, e onde educação não é o que eu ensino pra você, ou os branquelos do norte pros coloridos do sul. Educação é onde todos aprendemos uns com os outros sobre o mundo em que vivemos.
GENOÍNO FALA SOBRE A IMAGEM DO PT - 13h41
Por Marisol Souza
Dois dias depois da vaia nacional ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva no V Fórum Social Mundial, o presidente do PT, José Genoíno, transformou a palestra do partido em Porto Alegre, no dia 28/1, em uma verdadeira campanha de marketing. E deixou claro que a mídia é uma das maiores precupações do PT para os próximos anos.
O presidente não escondeu sua preocupação com os meios de comunicação nem a favor nem contra o PT para as próximas eleições. Ao falar da campanha em geral, afirmou que a mídia não poderá mais ser usada como “moeda de troca” nas eleições de 2007. Segundo genoíno, “é preciso haver um controle da mídia em relação a como serão vinculadas as informações na época das eleições”.
Entre propostas utópicas, considerando tudo que o PT não tem feito desde sua entrada no poder, Genoíno, com características militantes, deu uma prévia do que será a campanha de reeleição do presidende Lula. Usando o mesmo mecanismo de 2002, foi anunciado um plano de representação da legenda nos meios de comunicação. Tudo indica que o presidente ao mesmo tempo que teme que o PT seja a bola da vez em 2006, também reconhece que a manipulação na midía corporativa é o único caminho para redenção do presidente vaiado pelo que chamou “filhos do PT”.
José Genoíno defendeu o desenvolvimento da democracia no Brasil em seu discurso, mas quando questionado pelo Fazendo Media como isso poderia ser feito, considerando que a concentração do poder midiático impede a realização do processo, o líder do partido dos trabalhadores concordou mas
fugiu do assunto afirmando que “há muitos projetos no governo que buscam resolver esse problema”. Genoíno negou que a imagem do presidente Lula tenha sido modificada na imprensa colombina e que o PT continua sendo o mesmo PT de outros tempos, só que como governo.
Com o Fazendo Media nas mãos, Genoíno ainda ironizou a questão da imagem do presidente Lula no meios de comunicação, ao dizer que nada mudou no PT, mas que “a imagem do presidente é considerado um progressodificação do PT no Brasil”.
LIÇÕES SOBRE UMA TAL DE MÍDIA - 12h34
Por Breno Costa
Foto: Breno CostaCamisa social amarela, um senhor de óculos pega uma transparência e a ajeita no retroprojetor. À sua frente, mais de 80 pessoas. Ainda é cedo em Porto Alegre, bom horário para uma aula sobre o funcionamento dos meios de comunicação, na Oficina de Leitura Crítica da Mídia.
O professor em questão atende por Osvaldo Biz e dá aula para estudantes de Comunicação na PUC/RS. Para uma “classe” atenta, aponta, em tópicos, as quatro funções da mídia: informar, opinar, orientar e entreter. Explica cada ponto, tim-tim por tim-tim. E lembra: “Publicar uma notícia e desprezar outra nada tem de neutro”.
Seu objetivo é expandir sua técnica, o uso das notícias publicadas na mídia grande nas salas de aula. “Temos que estimular uma leitura menos ingênua dos meios de comunicação”. Para isso, fala, didaticamente, sobre a relação entre anunciantes e a necessidade de audiência. Expõe a todos as famílias que mandam na mídia brasileira. Não são muitas. Pelo contrário, são demasiado escassas. Faz questão de lembrar que as empresas de mídia não são forças isoladas. Os donos dos grupos de mídia também atuam em outros campos. Cita o exemplo de Roberto Marinho, que, quando em vida, ainda arrumava tempo para controlar um banco (ABC Roma), uma seguradora e uma mineradora.
O professor Osvaldo ainda ressalta para sua turma a dialética presente nos meios de comunicação. “A mídia pode possibilitar ou impedir mudanças”. E tome exemplos concretos. Diretas Já, impeachment de Collor e por aí vai. Mostra, também, a importância dos adjetivos na construção de sentido. “Sempre falavam do 'marxista Salvador Allende', mas nunca ouvi ninguém dizer 'o capitalista George W. Bush'”.
Fala o professor: “Esse nosso trabalho, assim como o de vocês, é um trabalho de formiguinha. Vamos caminhando vagarosamente. Por exemplo, agora em 2007 termina o prazo de concessão da TV Globo. Vamos nos articular, vamos fazer uma campanha para que ela perca essa concessão”.
Durante a aula, participação ativa dos alunos, com relato de experiências vistas e vividas. No final, salva de palmas para o professor Osvaldo Biz. Só faltou pedirem bis...
COMUNICAÇÃO PARA TODOS - 8h10
Por Bruno Zornitta
Os direitos à educação e à saúde, por exemplo, são velhos conhecidos nossos, direitos consagrados. Ninguém ousaria contestar a legitimidade da luta por essas garantias constitucionais. Já o direito à comunicação, esse é menos popular. A discussão sobre o acesso à comunicação ainda está restrita aos profissionais do setor. Pensando nisso, um grupo de ONGs de diversos países lançou, em novembro de 2001, a campanha CRIS, Communication Rights in the Information Society (Direitos à Comunicação na Sociedade da Informação). Nessa sexta-feira (28/1), a articulação nacional da campanha (CRIS Brasil) foi apresentada aos participantes do V Fórum Social Mundial, em debate no espaço de “Práticas contra-hegemônicas, direitos e alternativas”.
A mesa foi composta por Taís Ladeira, da Associação Mundial de Rádios Comunitárias (AMARC), Gustavo Gindre, representante da sociedade civil no Comitê Gestor da Internet e Venício Lima, professor aposentado da UNB e autor de “Mídia: teoria e política”. A representante da AMARC abriu a atividade apresentando a campanha. Ela contou que essa articulação surgiu para ampliar a agenda da Cúpula Mundial sobre a Sociedade da Informação e explicou que o debate iria abordar algumas das discussões dos Grupos de Trabalhos da CRIS Brasil. Em seguida a palavra foi dada ao professor Venício Lima.
Lima disse que se considerava otimista com relação às perspectivas para o setor de comunicação. Isso porque as questões relativas a essa área estavam finalmente vindo à tona, com as discussões em torno dos projetos de criação do Conselho Federal de Jornalistas e da Ancinav, a despeito de sua abordagem tendenciosa por parte da mídia grande. O professor lembrou que o governo federal prometeu elaborar uma Lei Geral de Comunicação de Massa e se propôs a traçar alguns parâmetros que, na sua opinião, deveriam orientar a criação dessa lei. O primeiro seria a integração das diferentes áreas da comunicação, que hoje se encontram em legislações dispersas. Além disso, seria preciso regulamentar o capítulo referente à comunicação da Constituição de 88, criando regras para que a regionalização da produção, o estímulo à produção independente, o veto à propriedade cruzada dos meios de comunicação e o estabelecimento de um sistema público de comunicação, sejam efetivos. Por último, Lima disse que seria preciso revisar e atualizar a legislação de rádios comunitárias e definir as condições de transição da comunicação analógica à digital.
Em seguida, Gustavo Gindre abordou os temas da propriedade intelectual e diversidade cultural. “Se eu tivesse que dar um nome para minha exposição, este seria 'A luta de Thomas Alva Edison contra Santos Dumont e o que a comunicação tem a ver com isso'”, disse Gindre, arrancando risadas do público. Ele explicou que Santos Dumont, quando inventou seu primeiro avião, publicou o organograma de construção da máquina em uma revista de Paris. “Ele trabalhou o paradigma do conhecimento livre”, afirmou. Já Thomas Edison [inventor da eletricidade] chefiava uma oficina com cerca de cem trabalhadores assalariados e patenteava o resultado da produção de seus empregados, por isso passou para a história como inventor de tantas coisas. Hoje o conhecimento é uma mercadoria cada vez mais valiosa, pois é condição de reprodução do capital, explicou Gindre. O debate em torno da propriedade intelectual busca desenvolver meios de tirar o conhecimento das mãos de grandes empresas monopolistas e, assim, proporcionar a diversidade cultural, apontou o membro do Comitê Gestor da Internet.
Taís Ladeira, em sua fala, ressaltou a importância da criação de um sistema público de comunicação. A Constituição brasileira prevê a existência de três modelos de comunicação - o privado, o estatal e o público -, mas, no entanto, não existe registro do que seria esse sistema público no país. A representante da AMARC afirmou que o Grupo de Trabalho da CRIS Brasil sobre a criação de um sistema público de comunicação tem como meta apresentar uma proposta do que seria esse sistema até julho deste ano. Ela convidou os presentes a participar da luta pelo direito à comunicação, assinando a carta da campanha CRIS. A carta pode ser lida no endereço www.crisbrasil.org.br
Por fim, foi aberto um espaço para que as pessoas presentes fizessem perguntas aos debatedores. Após as perguntas, as entidades que participam da campanha realizaram uma assembléia nacional, para a qual todos foram convidados.
"NÃO SOMOS LÍDERES COMUNITÁRIOS" - 8h01
Por Julio Lubianco
Comparada a algumas das atividades deste Fórum Social Mundial, o painel “Cidade de Deus para além do filme” foi, digamos, um pouco menos concorrido. Sem nenhum “popstar” da esquerda para atrair o
público, integrantes do Comitê Comunitário da Cidade de Deus mostraram, para uma platéia de pouco menos de 50 pessoas, que a transformação social é possível. Apesar dos escassos recursos, o comitê tem uma criteriosa seleção dos projetos sociais desenvolvidos na comunidade e, no ano passado, recusou a entrada do poderoso Criança Esperança, capitaneado pela Rede Globo.
− O modelos que eles (do Criança Esperança) queriam não ia mudar em nada a Cidade de Deus. Além disso, quiseram nos impor a tutelagem do Viva Rio, o que foi recusado − explicou Cleonice Dias, diretora do Centro de Estudos e Ações Culturais de Cidadania (Ceacc) e integrante do comitê comunitário.
Segundo ela, o Criança Esperança seria organizado a partir de um prédio no centro da CDD, “onde há um monte de outras coisas”. Seria construída uma vila olímpica, com quadras de esportes e piscina, onde crianças da comunidade participariam de escolhinhas. Como em outras comunidades onde o projeto é realizado, apenas as matriculadas em escolas poderiam participar. A contra-proposta do comitê foi um projeto descentralizado, com gestão coletiva, atuando em áreas mais pobres da comunidade, mas não houve acordo.
− De que adianta mais uma atividade para crianças que já estão na escola? Na CDD, há crianças que não estudam, que passam fome, e são estas as que precisam ser inseridas − defende Cleonice.
O árduo trabalho de mobiização
A decisão de barrar os milhares de reais da Rede Globo causou reações adversas em parte da comunidade, que tem 65 mil moradores (IBGE, 2000). Convencer que o Criança Esperança, e suas quadras e piscinas, não trariam benefício real foi difícil, assim como é mobilizar cada morador a se envolver e participar das atividades do comitê.
− Temos dificuldade de mobilização. Disputamos com os meios de comunicação, que criam os “Big Brothers” e fazem as pessoas acreditarem que todo mundo tem uma chance de ficar rico. A nossa maior dificuldade é fazer com que os moradores acreditem em suas próprias lutas − diz Cleonice.
Filme e transformação social
Um dos maiores sucessos de público e crítica da retomada do cinema brasileiro, Cidade de Deus não foi bem recebido pelos moradores da comunidade, cuja história inspirou o filme. A produção, afirmam, contribuiu para o aumento do estigma e do preconceito contra a favela carioca, que se tornou mundialmente conhecida com as quatro indicações ao Oscar de 2003.
Na comunidade, no entanto, moradores tentam reverter a visibilidade, ainda que negativa, em vantagem para obtenção de apoios a projetos que tenham como objetivo a transformação social. Há dois anos, 13 instituições que agiam isoladamente na favela criaram o Comitê Comunitário da Cidade de Deus.
− As instituições, separadamente, disputavam as mesmas verbas públicas para projetos semelhantes. Cada um abriu mão de suas particularidades para o bem maior − lembra Iara Costa, da ONG Alfazendo, que trabalha com a alfabetização de crianças e adultos.
Com a união, veio também a mudança de mentalidade, refletida em decisões como a de recusar o Criança Esperança. Ao estudar um projeto, o comitê avalia qual o real retorno à comunidade. Se for o caso, rejeita-se. Muitos, no entanto, desistem ao se deparar com a insistência dos moradores em determinar os seus próprios destinos.
− Não somos líderes comunitários. Queremos andar juntos, ao lado dos moradores − ressalta Iara.
Porto Alegre, 28.1.05
PELA AMPLIAÇÃO DOS ESPAÇOS - 18h26
Por Breno Costa
Mais um evento abarrotado de gente discutiu as possibilidades de transformações sociais através da política. Na mesa composta por sociólogos e cientistas políticos e apoiada pela revista Margem Esquerda, da Editora Boitempo, destacaram-se os intelectuais Emir Sader, entrevistado do mês deste Fazendo Media e Ricardo Antunes, professor do Departamento de Sociologia da Unicamp (SP).
Falas otimistas foram contrapostas à decepção da esquerda acadêmica, representada pelos dois, com o desenrolar do governo Lula. Segundo Antunes, ainda existem caminhos para a mudança.
“Não há apenas um eixo de luta. Há várias trincheiras de luta. A principal delas é a luta contra o capitalismo em todas as esferas do cotidiano”, afirmou Antunes.
A comparação de Lula com o presidente venzuelano Hugo Chávez não pôde ser evitada e foi feita justamente no que se refere à posição dos políticos no período pós-eleitoral e a necessidade de apoio ativo da população não apenas durante a campanha.
“Chávez só terá condições de enfrentar os interesses do capital se tiver muita força popular”. No seu caso, isso não falta, vide a retomada do poder após a queda em abril de 2002 e a vitória no referendo popular de agosto do ano passado. Já no caso de Lula...
Com relação à mídia, Antunes, assim como Emir Sader, a considera de fundamental importância na busca pelo apoio popular.
“A mídia é essencialmente privada e atende a interesses contrários ao do povo. Ela age em defesa da ordem estabelecida. Temos que nos apoiar nas iniciativa de imprensa alternativa para ganhar o apoio das massas, lutando constantemente pela ampliação dos espaços, seja em jornais, rádios ou TVs”, alertou o professor da Unicamp.
CONSUMIR ATÉ MORRER - 18h04
Por Breno Costa e Thaís Tibiriçá
A tenda não era das maiores. Muito calor, para variar. De pé, rodeado por cerca de 200 pessoas, trajando bermuda e camiseta, pedindo para ser confundido com um mero espectador do Fórum, estava um representante de uma das principais estratégias de luta atuais contra o sistema econômico.
Carlos Ballesterus é um dos quatro integrantes de um projeto de contra-propaganda baseado na Espanha chamado “Consumir Até Morrer”. O único publicitário do grupo – há dois técnicos em informática e um designer – dispensou o microfone para contar aos presentes sua experiência no embate contra o consumo irresponsável.
Inevitável a comparação com um outro grupo de contra-propaganda bastante conhecido: o Adbusters, que chegou a tentar veicular uma propaganda durante o intervalo do Super Bowl, nos EUA, o evento de maior audiência em TV aberta do país.
Ballesterus não dispõe de tantos recursos. Mas apesar de, na origem, ter o Adbusters (algo como Caçadores de Anúncios) como referência, as diferenças não param por aí.
“Nosso projeto não é vender nada”, garante, referindo-se ao fato de o grupo estadunidense fabricar tênis com sua marca para se contrapor à Nike, por exemplo. Ballesterus também procurou se distanciar do polêmico método do publicitário italiano Oliviero Toscani, responsável, durante os anos 90, pela campanha publicitária da Benneton. “Nós não vendemos camiseta. Toscani se aproveitava dos problemas do mundo para vender roupa”.
O grupo “Consumir até Morrer” tem como principal instrumento de ação a Internet, através de sua página www.consumehastamorir.com. Com o uso diferenciado da linguagem publicitária, eles vêm tendo uma resposta bastante positiva, principalmente entre os jovens e as crianças.
“Não se pode consumir irrefletidamente. Queremos tornar o público consciente de seus hábitos de consumo, fazer com que eles sejam críticos do que estão consumindo”, explica Ballesterus, que sobrevive de outros trabalhos, já que este, iniciado há três anos, é apenas voluntário.
O grupo luta contra a associação muito comum na publicidade entre consumo e felicidade. “É necessário que na educação das crianças mostre-se que um tênis não fará com que ela tenha mais amigos, não fará com que ela seja mais feliz”, afirmou.
Em 2005, o “Consumir até Morrer” lançará uma campanha, convidando pessoas a criar anúncios sobre o tema “Amor como mercadoria”. Para o futuro, Ballesterus pretende criar uma agência de publicidade para os movimentos sociais, além da gravação de dois documentários sobre o tipo de consumo que eles desejam para as pessoas.
ENTREVISTA: PRESIDENTE DO OBSERVATÓRIO BRASILEIRO DE MÍDIA - 17h30
A Bruno Zornitta e Malu Muniz
Foto: Luana Maria
Bruno Zornitta e Malu Muniz entrevistam Laurindo Leal, presidente do Observatório Brasileiro de MidiaApós a realização do debate “O papel do Observatório Brasileiro de Mídia na democratização da imprensa” - do qual Marcelo Salles falou no texto abaixo -, o presidente do Observatório e professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, Laurindo Leal Filho, respondeu a algumas perguntas da equipe do Fazendo Media. Leia abaixo trechos da entrevista.
Quais devem ser os próximos projetos do Observatório?Um estudo que eu entendo que é prioritário e urgente é o comportamento do Jornal Nacional em relação à política nacional. Isto não pode ser feito apenas às vésperas de eleições. O mal que esse telejornal faz ao Brasil é muito visível nas eleições, quando toma partido, mas ele faz um mal homeopático, diário. Todo dia ele tem uma posição clara, definida, colocada debaixo de um manto de aparente neutralidade. Apenas para dar um exemplo, o primeiro dia de Fórum foi coberto pelo Jornal Nacional como se fosse um acampamento hippie, como se o Fórum Social Mundial tivesse por objetivo reviver a Woodstock dos anos 60. Não se tocou ali em nenhuma questão fundamental para o destino da humanidade, que são questões que estão sendo discutidas aqui.
Como é que a criação do Observatório Brasileiro de Mídia está repercutindo na América Latina?Aqui no Brasil estamos começando agora, mas como o Observatório já existia há mais de um ano, com uma comissão provisória, ele já atuou principalmente na questão da Venezuela, onde houve um golpe de Estado. Esse golpe foi sustentado e praticamente deflagrado pelos meios de comunicação. Ali o Observatório teve uma participação muito ativa, tentando mostrar pra sociedade a importância de haver órgãos não vinculados a grupos econômicos que tinham interesse em derrubar o governo. Eu acho que na Venezuela nós teremos também, em breve, um observatório de mídia venezuelano. No momento, nós temos o brasileiro e o francês, dirigido pelo professor Armand Matellart. Nos outros países onde há alguma movimentação, ainda são comissões provisórias.
Na sua exposição, o senhor falou que a comunicação é discutida hoje sob a égide da Organização Mundial do Comércio (OMC). Como isso acontece?Hoje a comunicação deixou de ter uma participação restrita ao mundo da cultura e passou a ter uma participação muito importante no mundo econômico. Hoje a mercadoria comunicação é uma mercadoria muito cara, que gera e produz lucros muito grandes. Há um mercado ávido em tomar conta dela. Eu citei na minha fala o deslocamento da comunicação da UNESCO para a OMC, ou seja, da área da cultura para a área do comércio. Isso é explicado porque a comunicação foi se tornando, nos últimos 20 anos mais ou menos, cada vez mais uma mercadoria carríssima e que gera altos lucros. Por isso, hoje nós temos claramente a comunicação tratada como uma mercadoria apenas.
Quais são os mecanismos do observatório que garantem a sua legitimidade?A qualidade do trabalho. Esse é um trabalho sério, baseado em fatos, na metodologia científica, um trabalho que permite o debate no nível das idéias, um debate político. Eu acho que a qualidade é que vai dar a legitimidade. Se nós tivermos essa qualidade, a sociedade nos dará a legitimidade.
O endereço do Observatório é:
www.observatoriodemidia.org.br
A ARTE DO MEDO - 13h50
Por Marcelo SallesDe pé, um sujeito gordo, bigode e óculos brada contra a Rede Globo. É aplaudido violentamente pelos cerca de 100 participantes. “Agora eles voltam a insistir em mentiras com esse livro sobre o Jornal Nacional. Insistem em dizer que cobriram a marcha pelas Diretas. Não precisa ninguém me dizer. Eu vi, eu estava lá. E o Jornal Nacional disse que aquela multidão estava nas ruas comemorando o aniversário da cidade de São Paulo”.
O debate foi organizado pelo Observatório Brasilieiro de Mídia (OBM), e teve extensa mesa. Terminou agora há pouco, às 13h. O personagem acima chama-se Venício Lima, pós-doutor em Sociologia pela Universidade de Illinois (EUA) e autor do livro “Mídia: Teoria e Política” (editora Fundação Perseu Abramo). Milton Temer, jornalista e membro da executiva nacional do P-SOL também estava presente. Esses dois já foram entrevistados pelo Fazendo Media (www.fazendomedia.com/entrevistas.htm). Também participaram um membro da Fenaj, o presidente do OBM e Carlos Tibúrcio, representando o governo Lula.
Tibúrcio, a propósito, defendeu uma tese muito interessante. Disse, e foi aplaudido por isso, que não era possível fazer (sic) porque 15 dias de Jornal Nacional desmoralizam o governo nacional e internacionalmente. Antes que Milton Temer respondesse e refutasse o colega de posse de argumentos e microfone, gritei, indignado: “Então o governo só faz o que o Jornal Nacional permite?”.
Dizem por aí que o medo venceu a esperança. Infelizmente, o que se constanta na prática – e de vez em quando o próprio governo evidencia isso – é que o medo tem sido a única opção viável para este governo. Medo da mídia grande. Medo das palavras e imagens. Medo de ficar mal na fita. Nem que para isso sejam mandados às favas escrúpulos, miseráveis e eduação, tudo no mesmo saco.
CHAMADA DO QUÊ MESMO? - 13h07
Por Mariana Antoun
O evento foi marcado para as 8h30, dia 27/1. A Chamada Global para a Ação Contra a Pobreza foi planejada pela Organização do V Forum Social Mundial que acontece aqui em Porto Alegre e foi representada por John Samuel (GCAP), Guy Ryder (Confederação Internacional de Organizações Sindicais Livres), Wahu Kaara (GCAP África) e Coumba Toure (ANCEFA – Mali).
Mas a importância da chamada perdeu o foco, afinal o presidente Lula estava lá. Pobres estrangeiros que esperavam ver Lula de perto. E das outras milhares de pessoas que ficaram de fora do Gigantinho. Dizem que a fila começou cedo.
Para outros não bastava ver. Era preciso mandar um recado. Protestar contra o governo, lembrando em especial as reformas sindical e universitária. Uma turma grande, que durante a marcha de abertura do Fórum levantou um coro bem forte, com carros de som e muitas bandeires. No começo foram chamados de “radicais livres” pela mídia colombina. Quem não se lembra? Hoje formam uma fração representativa da esquerda brasileira. Os “muito pelo contrário”, como disse Lula no começo do discurso ao agradecer aqueles que eram “contra, a favor e muito pelo contrário”. É, devem ser esses mesmo.
Ao chegar no estádio deu para entender o que o Secretário Geral da Presidência Luiz Dulci falou na entrevista coletiva de apresentação do Forum: “os que irão vaiar o presidente serão poucos e representam uma minoria”. Dito e feito. Dentro do estádio estavam apenas manifestantes uniformizados com as camisetas estampando “Lula” ou a estrela do PT. O greenpeace também conseguiu entrar para expor as camisetas contra a construção da Usina de Angra III. PSTU e o partido em formação P-SOL não entraram. Como poderiam então vaiar o presidente? É... minorias.
A manobra para permitir que os membros do partido do presidente e aqueles que o apoiam deliberadamente entrasse primeiro no estádio, e para que a massa de manifestantes da oposição ficasse de fora foi decepcionante. Enquanto eu entrava pelo portão destinado para a imprensa, pessoas com a camiseta 100% Lula tinha o acesso liberado pelo mesmo local, o que permitiu que pegasse uma fila muito menor do que na entrada principal do estádio.
A segurança foi rígida. Detectores de metal, garrafinhas de água proíbidas e até protetor solar em spray barrado. Enquanto a segurança das autoridades presentes foi garantida (os principais Ministros estavam presentes), não se pode dizer o mesmo quando a garantia de direitos dos que foram acompanhar o evento.
Ao perceber a confusão dentro do estádio, os manifestantes, que fizeram plantão em frente o local onde Lula discursava, ficaram mais animados e aumentaram o coro. O presidente respondeu várias vezes às vaias durante o discurso, tentando explicar “aos companheiros estrangeiros” que “aqueles que o vaiavam eram dissidentes do próprio PT” e que a rebeldia é coisa da juventude. Um dia amadureceriam “e o PT estará de braços abertos para acolhe-los”.
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"Agora Lula vai para Davos. Lá ele vai ser ouvido. Lá, não será vaiado. Ninguém vaia. As pessoas são muito polidas educadas, não vaiam ningiém. Também não fazem nada depois, mas não vaiam ninguém".
- Franklin Martins, no Jornal da CBN.
Porto Alegre, 27.1.05
REFORMA PARA MUDAR - 20h19
Por Breno Costa
O V Fórum Social Mundial, apesar de reunir, nas ruas da ainda ensolarada Porto Alegre, centenas de milhares de pessoas de todo o mundo, também costuma receber críticas. Uma delas, propagada, provavelmente, por alguém que não entrou em nenhuma das centenas de tendas armadas pelo Território Social Mundial, é recorrente: muito se discute, mas nada acontece na prática.
O lançamento da Campanha Mundial para uma Profunda Reforma do Sistema de Instutuições Internacionais é uma resposta a esta tese. Em um dos eventos mais duvulgados do dia, o lançamento da campanha reuniu mais de 500 pessoas em uma das tendas montadas perto do Anfiteatro do Pôr-do-Sol, às margens do Lago Guaíba. Na mesa, nomes como o do escritor José Saramago, do Nobel da Paz, Afonso Esquivel e do assessor especial do presidente Lula para Política Externa, Marco Aurélio Garcia, entre outros.
Os momentos que fariam calar a boca dos críticos, entretanto, se concentraram na exposição de Antonio Gutierrez, presidente da Internacional Socialista e um dos idealizadores do projeto. Ele deu detalhes de como funcionaria o sistema de democratização das instituições internacionais, como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e a própria Organização das Nações Unidas (ONU), bastante criticada durante o encontro.
A reforma promoveria uma participação direta dos cidadãos, através de organizações da sociedade civil e de diferentes níveis de governos nessas instituições, acabando com a representação limitada aos estados. Além disso, seriam criadas instituições “subsidiárias”, respeitando as características econômico-sociais de cada região.
Uma das principais propostas apresentadas é a reforma do atual Conselho Econômico e Social, transformando-o no Conselho de Segurança Econômico, Social e Ambiental, dotado de autoridade sobre FMI e Banco Mundial, por exemplo. De uma maneira geral, todas as mudanças deveriam solucionar o problema das dívidas externas, além de eliminar os paraísos fiscais e estabelecer taxas globias, como a Taxa Tobin, formada por um pequeno percentual do PIB dos países ricos.
Todas essas transformações, contudo, só poderão existir com o apoio dos meios de comunicação de massa. É o que pensa Federico Mayor, diretor da UNESCO e outro idealizador do projeto.
“Tudo isso só será possível com a mídia nos apoiando. Hoje a situação está muito ruim. Os meios de comunicação apóiam essa estrutura das instituições internacionais, estão ligadas a elas. E eles (os meios de comunicação) fazem a cabeça de muita gente”, afirmou Federico, que, contudo, não conseguiu explicar como ganhará o apoio da mídia. Porém, criticou a apatia da população mundial: “Em lugar de atores, temos sido espectadores”.
Após a fala de Gutierrez, foi a vez de Saramago ser longamente aplaudido e ovacionado. Na fala mais rápida da mesa e lendo um discurso pré-escrito, o escritor português arrancou mais aplausos e assobios da platéia ao defender a questão dos direitos humanos, que estaria em choque com a atual globalização econômica, com excessiva valorização do mercado.
“O mundo precisa passar por uma revolução moral e por uma revolução ética”, afirmou Saramago. “Se é o mercado que manda, se são as multinacionais que definem o destino do mundo, que democracia é esta?”
A busca por uma nova e real política para as instituições internacionais seguiram com Marco Aurélio Garcia, que tocou na questão da necessidade de se adaptar o papel da ONU – criada logo após a Segunda Guerra Mundial - aos novos problemas do mundo.
“O grande desafio a ser vencido é a insegurança social da humanidade”, sentenciou Garcia, que terminou seu discurso atacando a hegemonia dos Estados Unidos da América. “Temos que subordinar o mundo ao império do direito e não ao direito do Império”.
Durante o seminário foi distribuído um manifesto, pedindo a assinatura das pessoas para reforçarem a campanha. Para mais informações, www.reformcampaign.net
HAITIANOS CONTESTAM MARCO AURÉLIO GARCIA E CRITICAM A MÍDIA - 20h01
Por Breno Costa
Durante o encontro, Marco Aurélio Garcia, membro do governo, foi questionado sobre a posição política do Brasil em relação aos rumos econômicos adotados pelo governo Kirschner na Argentina e em relação à Venezuela, além do envio de tropas para o Haiti.
Sobre este último ponto, Garcia afirmou que só quem critica a presença das tropas brasileiras no Haiti são “os que nunca pisaram lá e não conhecem a extrema miséria vivida pelo povo haitiano”.
Entretanto, dois haitianos resolveram se manifestar. Um deles, psicólogo e representante da Fundação Trinta de Setembro, falou com o Fazendo Media. Lovinsky Pierre-Antoine, assim como o outro que se manifestou, é contrário à presença das tropas brasileiras em seu país, que passa por uma guerra civil e sofreu um golpe de Esatdo em fevereiro do ano passado.
“Desde 1994 o Haiti não possui mais Forças Armadas. O que existe lá, desde então, é a polícia. Mas neste mesmo ano, os ex-militares passaram a atuar como paramilitares, contando com reforços da República Dominicana, apoiados pela CIA”.
Lovinsky diz que a presença das tropas brasileiras, ao contrário do que afirmou Marco Aurélio Garcia, não é para garantir a paz, já que, de acordo com ele, as tropas brasileiras prendem os milicianos, mas permitem que os paramilitares capturem os prisioneiros dentro da cadeia e, em seguida, os fuzilem.
Tudo isso, segundo Lovinsky, comta com a benção da mídia local, que apoiou o golpe de Estado, ano passado.
“Os Estados Unidos levam nossos jornalistas para estudar nas universidades deles. Dá dinheiro mesmo”, acusou Pierre-Antoine. “A nossa mídia e a mídia internacional não estão mostrando a verdade”.
MORDIDAS DE SILÊNCIO - 18h10
Por Marcelo Salles
Quando aplaudido, Mário morde a língua. Quando passa a palavra também. A seu lado, um jornalista uruguaio que trabalhou por muitos anos como correspondente na Venezuela. Explicou-nos que lá, em vez de repressão, as rádios comunitárias recebem apoio do governo. Foi aí que o senhor Reis, da Casa Macunaíma, levantou-se. Voz firme, deu os dados: em 2003 o governo Lula fechou 37% mais rádios livres do que no último de governo tucano.
O debate em que estavam não reunia nomes tão caros aos organizadores do Fórum. A bem da verdade, foi realizado numa pequena sala, com cerca de 30 pessoas, sob o imponente título “Imprensa alternativa, uma prática contra-hegemônica”. O jornalista que morde a língua, o Mário, chama-se Mário Augusto Jakobskind, responsável por editar a seção Internacional da Tribuna da Imprensa durante quinze anos. Hoje está nos quadros do Brasil de Fato.
A Tribuna não é exatamente o que temos como mídia alternativa. Do Hélio Fernandes, seu dono, diz-se muito. Mais mal do que bem. Já ouvi uma história, da boa de experiente jornalista, que narra o episódio em que arremessaram uma lata de tinta marrom no Hélio, para acusá-lo de fazer aquilo que se chama “imprensa marrom”. Esta, iconizada por Assis Chateaubriand, é aquela que pratica todo e qualquer atitude anti-ética para tirar algum proveito. Exemplo maior são as chantagens feitas em cima de matérias. Exemplo: você tem uma denúncia sobre uma empresa. Liga para o dono e pede uma grana para não publicar.
Acontece que entre os jornalões, a Tribuna da Imprensa, depois de Carlos Lacerda, é bom deixar claro, passou a fazer uma crítica da mídia, sobretudo nas colunas do Hélio Fernandes. Outro fator é que faz tempo, muito tempo, que os homens do planalto não anunciam (Petrobrás, Banco do Brasil, Caixa, etc.) nesse jornal. Então, ter um pé atás é uma coisa. Desacreditá-la em tudo é outra bem diferente. Quando a Rede Globo esteve envolvida nas maracutais ao comprar uma rede de TV paulista, foi a Tribuna quem marcou em cima e informou o que se passava. Nos demais veículos, silêncio.
A mídia alternativa é, hoje, fator primordial na disputa por uma sociedade melhor. Nesse ponto concordaram todos. Mário, dessa vez sem morder a língua, ratificou as palavras de seu colega uruguaio sobre a Venezuela citando o presidente Chávez: “Temos que fazer uma, duas, três, mil TVs comunitárias”. Algumas pessoas entenderam que a guerra, hoje, é travada na mídia. Na mídia se ganha. Na mídia se perde.
“A mídia conservadora mantém as vozes discordantes num atordoante silêncio”. Foi assim que terminou sua participação o uruguaio. E o Mário mordeu a língua. Talvez num sinal de desespero de ter por tanto tempo a voz abafada, distorcida, manipulada
O MILAGRE VEIO DA PLATÉIA - 17h27
Hugo R C Souza *O I Fórum Mundial de Comunicação e Informação, realizado no dia 25 de janeiro em Porto Alegre, contou com a presença de figuras conhecidas do universo da mídia alternativa e das lutas pela democratização da comunicação. Ainda assim, a julgar pelos aplausos e pelas palavras, este evento aperitivo para o V Fórum Social Mundial teve sua mais instigante participação vinda da platéia. O jornalista uruguaio Esteban Valenti, em sua berve intenvenção diante de nomes como Ignacio Ramonet e Armand Mattelart, tratou de ensair uma contracorrente ali mesmo onde a nata da contracorrente mundial se reunia: contestou o próprio
slogan do Fórum, perguntado-se por que um outro mundo apenas seria possível, e não vários; por que precisamos pensar sempre em lados opostos perfeitamente distinguíveis e auto-excludentes? Segundo Valenti, questões aparentemente sem importância e menores como esta podem fazer a diferença entre uma verdadeira discussão de rumos e alternativas e aquelas que, alertou, interessam ao sistema que se quer combater.
Apesar do alerta, velhos clichês foram mais uma vez apresentados como grandes conclusões. Marcelo Hurtado, coordenador de campanhas do Greenpeace, preocupou-se: “se não nos comunicamos com o público, não sobrevivemos”. Quem não se comunica se trumbica, certamente. Chegou a ser dito que “não basta ter boas idéias”, o que pode ser considerado um clichê fazendo um mea-culpa.
Mas a tal nata do pensamento dissonante parece enveredar por novos avanços.
Mário Lubetki, diretor-geral da Inter Press Sevice e um dos organizadores do evento, anunciou aos cerca de 500 participantes que “uma outra comunicação é possível”. Sim, é... Mas Lubetki tocou também num ponto nevrálgico: como deve ser a relação entre “esse grande movimento mundial da sociedade civil”, que tem sua síntese no Fórum Social Mundial, e os governos de esquerda? Como esta outra comunicação que, sim, é possível, pode se relacionar com governos eleitos como populares, mas que podem acabar se mostrando não tão de esquerda assim?
Ignacio Ramonet relançou a velha pergunta: “Por que a informação se converteu hoje em mercadoria?”. O própio diretor do
Le Monde Diplomatique e presidente da
Media Watch Global respondeu com uma
constatação não menos antiga, ainda que mais óbvia: “Porque a informação obedece hoje à lei de oferta e procura, e não à sua função cívica, e obedece às leis do espetáculo”. Ramonet, ao qual se atribui a paternidade da expressão “pensamento único”, e que costuma cunhar expressões de sucesso sobre o tema das comunicações, como “ecologia da informação” e “quinto poder”, arriscou mais uma novidade: “insegurança informacional”: “não sabemos se a informação é verdadeira, falsa, ou se será desmentida no dia seguinte”. Com perspicácia, descreveu uma situação contraditória: “nos regimes autoritários uma imprensa livre é uma das principais reivindicações dos movimentos democráticos, mas hoje os meios de comunicação são um obstáculo à consolidação da democracia. Como lidar com este paradoxo?”.
Armand Mattelart, que é ruim de clichês, tentou demonstrar o quanto é complexo lutar por uma outra comunicação tendo em vista o cotidiano das pessoas comuns, que é o cotidiano de uma sociedade capitalista, a tal da lei de oferta e procura de que falava Ramonet. Fazendo coro com o uruguaio Valenti, disse que a lógica desse cotidiano, da nova ordem mundial, cada vez mais é a lógica empresarial, e o pensamento único é um pensamento tecnocrático. Para Mattelart, a luta é também pelo sentido das palavras, “uma guerra semiótica”.
Mas uma compreensão fundamental parece ter dado o tom dos debates: contra-informação e meios alternativos não ganham uma luta que é maior: uma luta cultural complexa e abrangente, e não apenas jornalística.
Já a “insegurança informacional”, ou a “guerra semiótica” serão exaustivamente repetidas no Fórum Social Mundial que se inicia... Candidatíssimas a clichês dos próximos fóruns, expressões como estas, se não derem em nada, ao menos substituem outras, mais batidas, desbotadas. Sim, um outro clichê é possível! Eles estão lá. Podem estar atravancando a discussão ou preparando o terreno para o passo seguinte, mas estão lá. Como diria Ignacio Ramonet: “quem não se comun...”, ou melhor: “como lidar com este paradoxo?”.
* Hugo R C Souza é editor do
Parto.
Porto Alegre, 26.1.05
A CAMINHO DO FÓRUM - 13h15
Por Marcelo Salles
Devido à queda da ponte que liga São Paulo a Curitiba, na rodovia Régis Bittencourt, chegaremos um pouco atrasados a Porto Alegre. A boa notícia é que nossa repórter Mariana Antoun já está na capital gaúcha e conseguiu agendar uma entrevista exclusiva com Ignácio Ramonet, editor do jornal francês Le Monde Diplomatique.
Até breve.
Porto Alegre, 25.1.05
MILHÕES PARA CONQUISTAR AS MENTES - 00h39
Por Malu MunizSegundo o periódico cubano
Prensa Latina, criado no mesmo ano da Revolução Cubana, os EUA destinam quantias milionárias para financiar a guerra midiática contra Cuba. Em 2004 teriam sido 58 milhões de dólares para subverter o processo político e social na ilha. Deste montante, 26 milhões estariam dedicados a chamada “diplomacia pública” anticubana, eufemismo para a “escalada desinformativa contra Havana”. (
www.prensalatina.com.br, versão em Português)
Talvez não seja demais supor que alguma verba também seja destinada para o mesmo fim para países como Venezuela e Brasil.
É por razões como esta que se faz necessária a existência de um Fórum, que daqui a algumas horas reunirá aproximadamente 150 mil pessoas do mundo inteiro para discutir onze temas gerais. Mais que isso: para disputar a hegemonia, a capacidade de agir, de tomar decisões.
Desde a reforma agrária na Patagônia até a discussões contra a ALCA. Vários temas ganharão espaço em Porto Alegre, várias pessoas se reunirão tentando pensar e propor soluções, caminharão alguns passos em direção a utopias, mas ao menos caminharão.
