
Por Marcelo Salles - salles@fazendomedia.com

http://latuff2.deviantart.com
Você acredita que o capitalismo pode resolver os problemas da humanidade?
Não, não... Nem um pouco. A gente tem visto aí o que o capitalismo tem feito, onde tem nos levado. O capitalismo é a destruição, o caos. Se eu fosse a favor do capitalismo eu nem estaria aqui te dando entrevista. É o fim. O capitalismo é a barbárie. A partir do momento em que o capital vale mais que o social, fudeu o barraco. Eu posso tudo. Eu posso tudo, meu amigo. O social é o respeito à vida, respeito aos valores humanos. A partir do momento em que isso tem um papel terciário, o mais importante é ganhar dinheiro, é o lucro, fudeu. Posso fazer qualquer coisa. Perdeu-se essa barreira, esse respeito. Existe algo que nos impede de fazer qualquer coisa. Existe um freio humanista. Esse respeito à vida é esse freio que não nos permite produzir barbáries. A partir do momento em que você não tem mais esse freio, o que importa é o lucro, é ganhar dinheiro, fudeu, você pode fazer qualquer coisa. Já era. Então, o capitalismo é a barbárie. É o fim.
E o que é o socialismo?
Bom, aí você já está me perguntando coisa difícil. Uma coisa eu sei. Eu nunca vivi num regime socialista. Mas tenho vivido a minha vida toda num regime capitalista. Disse eu sei bem como é que é. O dia em que eu viver num regime socialista eu vou te dizer, mas por enquanto o que eu sei é o regime capitalista. É isso que a gente vê. É a destruição, a auto-destruição. É o caminho para o buraco. Agora, pra mim, a única alternativa é o pensamento que valorize o social, em detrimento do capital. O que a gente tem visto é o contrário: o capital em detrimento do social. Quer dizer, a saúde... Pagar um plano de saúde!? Como se fosse um negócio, você montar um negócio pra ganhar dinheiro em cima de saúde, de plano de saúde!? Então perdeu-se o limite. Perdeu-se o limite! A gente pode ganhar dinheiro de qualquer jeito! Vou botar minha mãe na zona! Não tem mais limite. É essa a questão. O capitalismo é isso, é destruir os valores humanistas. É botar eles abaixo. É nivelar tudo por baixo, o negócio é ganhar dinheiro. Não importa como eu vou fazer. Se eu vou montar o plano de saúde, você vai lá porque tá com câncer. Tem dinheiro pra pagar? Não, então foda-se. Ou seja, aquele conceito de que tem serviços essenciais que o Estado precisa bancar através do imposto, acabou. O negócio é deixar tudo na mão do mercado, que se auto-regula, e fode com a vida a gente. Ponto. É isso. Então esse tipo de regime não pode ser bacana, legal, humano. Não se pode imaginar uma vida decente e digna dentro de um regime desse. Não tem condição. Não tem condição. Se a sua vida se tornou um número, um negócio... No momento de maior fraqueza da sua vida, que é quando você tá doente... é o momento de maior fraqueza, que você tá quebrado, eu vou perguntar se você pagou em dia seu plano, se seu plano cobre isso ou aquilo. É o buraco, é a barbárie. Sem dúvida.
E na outra ponta tem a indústria das armas, que ganha dinheiro matando.
Pois é. A discussão é pra saber o seguinte: o valor das coisas. O valor da vida. Apesar de isso parecer piegas, chavão, é verdade. Perdeu-se o valor da vida. Eu fiz uma tira de quadrinho inclusive que diz o seguinte: o valor da vida é medido por sua localização geográfica. O So Seung-Hui comprou duas pistolas numa loja, foi numa escola, matou 32 pessoas. O mundo ficou chocado. Realmente, uma barbaridade. Carro-bomba em Bagdá mata 60, 100 pessoas. O que aconteceu nos EUA foi um massacre, se deu o nome de massacre. Carro-bomba explode em Bagdá e chamam aquilo de guerra. No RJ matam 13 num dia só e é chamado de rotina. Ou seja, dependendo da localização geográfica, a morte pode ser mais ou menos importante. Aquela vida pode ser mais ou menos importante. O que vale mais, a vida de um bebê na Suécia ou no Sudão? É essa discrepância, essa mais-valia, isso tem que ser discutido. A gente tem que parar, baixar a bola, e pensar bem sobre o valor das coisas. Não é possível eu entrar numa loja na Gávea e ter um lustre que custa 15 mil reais. Não é possível isso. Não tem condição um troço desse. E você sai da loja da Gávea e tem dois moleques cheirando cola. Sobre esse tipo de coisa, de discrepância, a gente precisa parar e pensar: pra onde vai nos levar isso? O que origina esse tipo de coisa? Não adianta simplesmente analisar o fim das coisas. Ah, o PM deu porrada aqui, o sujeito matou ali. Porque isso a crônica policial já fala. A gente tem que analisar essas questões mais profundas, que geram esse estado de coisas, que geram essa depreciação do valor da vida humana. A ponto de você negociar a morte de uma pessoa. Quanto vale matar uma pessoa? Lá no interior no Pará, aqui deve ter isso também, mas lá neguinho tem tabela de preço. Um padre vale tanto, um juiz vale tanto, um político vale tanto. Então, porra... Mas o que mais me chama atenção é você ganhar dinheiro com saúde. Isso pra mim é inaceitável! Inaceitável! Você chega com sua mãe lá, fodida, com uma doença lá, caquerada, aí neguinho quer saber o seguinte: "seu plano cobre? A carência já venceu? Olha, isso dá pra comprar esse remédio, mas não dá pra comprar esse". Porra, vender remédio! Vender remédio! Como vender remédio?! Não se pode vender remédio! É uma coisa essencial. Vender comida?! Não se pode vender comida. Eu não entendo isso. Eu acho assim, dentro dessa lógica, eu sou simpático ao comunismo, ao socialismo, que tem esse pensamento de que o Estado tem que prover as necessidades básicas. Ele tem que arrecadar os impostos e transformar isso em atendimento de necessidades básicas. O cara não pode ganhar dinheiro vendendo comida. Não é possível, com gente passando fome... Ganhar dinheiro vendendo remédio. Tem certas coisas que pra mim são incompreensíveis.
Exportando comida...
É... Barganhando... Porque se a comida tem um valor mercadológico, fudeu! Uns vão ter, outros não. Ou então uns vão ter de boa qualidade e outros vão ter de baixa qualidade... E comida é necessidade básica, caralho! Sabe, não pode ter barganha com essas coisas. Comida, remédio. Não pode ter barganha com isso. É diferente, por exemplo, de barganhar um telefone celular. Ah, o meu é mais velho, ou é mais novo. Isso é luxo. Agora, comida não é luxo, remédio não é luxo. É isso.