Foto: Gabriel Bernardo/Fazendo Media

Caso Daniel Dantas: como a imprensa se comportou?

"Precisamos melhorar a qualidade do serviço público e o trabalho da Polícia Federal”, afirma Raimundo Pereira. Foto: Gabriel Bernardo/Fazendo Media.

Raimundo Rodrigues Pereira trabalha há mais de 50 anos na imprensa brasileira. Participou de vários veículos alternativos e hoje é editor da revista Retrato do Brasil. Recentemente o jornalista publicou o livro O Escândado Daniel Dantas: duas investigações, pela editora Manifesto (2010). As  investigações foram sobre o Protógenes Queiroz, ex-delegado da Polícia Federal, que conduziu a operação Satiagraha, e sua própria apuração jornalística sobre o trabalho conduzido pelo delegado, na qual concluiu que o banqueiro foi transformado numa espécie de  bode expiatório do processo de privatização das telecomunicações. Em entrevista concedida ao Fazendo Media, ele fala do poder de Dantas e a  participação da imprensa, que noticiou o caso de forma desfocada.

Como você começou a fazer um recorte do Dantas até chegar nas duas investigações?

A história do Daniel Dantas está nas manchetes há mais de 10 anos. Desde 2000 existem matérias nas revistas falando dos poderes terríveis do Dantas, da grande habilidade dele em fazer acordos que prejudicam muita gente. Isso começou com a privatização do sistema de telecomunicações brasileiro em 1998. Eu acho que a grande matéria que começa é a da revista Veja, e eu sempre achei, sem estudar o assunto, uma coisa muito exagerada.  Quando você começa a demonizar uma pessoa, de um modo geral você está errando. Nenhum problema social deixa de envolver um conjunto grande de interesses, e quanto maior for o problema mais interesses ele envolve. 

Quando você começou a entrar neste caso especificamente ?

Quando o Luiz Eduardo Greenhalgh me disse: “olha, estou sendo acusado de negócios escusos e difamado pela imprensa e queria ver se você pode ler o processo e ver o que você pode fazer”. E o ataque a ele era por parte da grande imprensa, eram matérias no Globo, na Folha, no Estado de São Paulo. Eu não sei qual era a intenção do Luiz Eduardo, porque a Retrato do Brasil é uma revista de muito pouca repercussão. Eu acho uma revista importante, gosto muito do nosso trabalho, mas pouca gente lê. Luiz Eduardo é meu amigo de longa data, ele foi advogado do movimento que nós fizemos na época da ditadura, entre 1975 e final de 1981.

Na sua avaliação, por que a mídia acusava o Luiz Eduardo Greenhalgh?

O Luiz Eduardo, nos ataques contra o PT, já tinha sido alvo de ataque pela sua participação no caso do Celso Daniel.[advogado do PT encarregado de acompanhar as investigações]. O Celso Daniel, que era prefeito de Santo André, era coordenador de programa de governo da candidatura do Lula em 2002, ele foi morto num sequestro. Daí houve um inquérito e uma parte da mídia, correspondendo a uma série de interesses que havia, começa a caracterizar a morte e o sequestro como uma queima de arquivo e corrupção do pessoal da prefeitura. E teriam matado o Celso Daniel porque aparentemente ele teria resolvido denunciar o esquema do qual ele próprio participava, mas teria chegado a um limite.

Então, voltando ao Luiz Eduardo, isso ai ganhou um destaque e ele foi apontado como um dos elementos chave. Eu estou acompanhando uma história do geral, o governo do PT, o que é o PT no governo. Eu não sou e nunca fui petista. Sempre votei no PT, mas sou um crítico do PT. E nessa do mensalão, a mídia tentou transformar uma história em outra com um evidente propósito político de favorecer uma política mais conservadora do PSDB. O Luiz Eduardo tinha clareza de que nós faríamos na CartaCapital um trabalho de contraposição à versão da história dos aloprados, de pegar dinheiro, puseram na televisão, e a Globo levou as eleições para o segundo turno. O Luiz Eduardo é meu amigo, mas ele sabe que o meu trabalho não é por uma questão de amizade, eu entrei na história porque achei a coisa interessante. Quando eu li o relatório do Protógenes Queiroz [delgado da polícia federal, que  comandou a Operação Satiagraha até julho de 2008 ] achei aquela coisa absurda.

Como é que entra o Protógenes nessa história?

Isso é uma coisa contínua que vem de 2003, é uma investigação da Parmalat que vira uma investigação contra o Dantas, a operação Chacal. Esta operação se transforma na investigação que se abre em São Paulo dos elos entre o Dantas e o mensalão, que, por sua vez, vira Dalien, Dantas e Alien, que é uma coisa curtinha, e o delegado resolve desistir. Quando o delegado resolve desistir aparece o Protégenes, que só fez a Satiagraha, em 2007.

O Élzio Silva [delegado da Polícia federal], que comandou a operação Chacal e vai até começo de 2007, fez um relatório dizendo que aquilo não deu em nada. Eu olhei a Chacal também, eu vi esses relatórios do delegado dizendo que ele está desistindo porque ele grampeou milhões de páginas na internet do Banco Opportunity e achou que aquilo ali não dá nada. Ai surge misteriosamente a Satiagraha. Então, qual é o processo? Isso vale de um modo geral: o Protógenes diz que vai tocar com as provas que tem, e pede para o juiz, que prorroga.

“Eu fui vendo na minha investigação que a pessoa que transcreveu não entende nada de finanças e não sabe o que é o serviço do Daniel Dantas", alegou Raimundo. Foto: Gabriel Bernardo/Fazendo Media

O que estava estranho no relatório final produzido pela equipe do Protógenes Queiroz ?

No relatório final que ele faz em junho de 2008, o Protógenes pede uma série de coisas, inclusive a prisão do Greenhalgh, que o promotor encaminhou para o Juiz  Fausto De Sanctis [responsável pelas prisões da Operação Satiagraha, da Polícia Federal, na CPI das Escutas Telefônicas Clandestinas], que não deu. O juiz dá a prisão de todos os outros que ele pediu, mas não dá a do Greenhalgh nem a da jornalista da Folha de São Paulo, Andrea Michael.

A minha impressão, após conhecer o processo muito detalhadamente há mais de 2 anos, é que  isso é uma armação. São os altos dos processos, além dos grampos onde se ouve tudo quanto é tipo de conversa. E como é um trabalho ruim, inclusive não é focado nas coisas certas, tem muito lixo. Esse inquérito é um desdobramento de outro, a chamada Operação Satiagraha. Por que um inquérito virou um outro novo?

Tem cerca de 10 mil páginas de Protógenes, que eu examinei. Depois tem uma síntese, que é o relatório final. Eu li o relatório final, depois fui para o escritório do Greenhalgh e comecei a ler os outros relatórios do Protógenes, pilhas, e fiquei lá vários dias lendo e anotando. Nós começamos a construir um material que acabou se transformando numa série, porque você vai investigando e descobrindo coisas.

Eu estava de início interessado só na parte financeira, como é que é essa questão do dinheiro, dos paraísos fiscais que você aplica aqui pela legislação do banco central que foi criada justamente para esconder isso. Fizemos um ponto de vista na revista, depois fizemos também a sombra da operação Satiagraha, depois fizemos dos crimes perfeitos. E achei que era uma boa de nós promovermos um debate dentro da Retrato Brasil, porque é assunto que nós íamos entrar do lado completamente oposto. Na própria esquerda que é do nosso campo ia causar uma confusão grande, mas nós decidimos fazer.

E como é que você teve acesso aos grampos?

O Protógenes disponibilizou para todos. Ele pegou os grampos, editou, e divulgou amplamente para as pessoas que ele achava que devia. Isso apareceu em tudo quanto é lugar. O Protógenes pegou, eu cito isso no livro, uma conversa de 12 minutos e transcreveu em 10 linhas. Só quando eu estava fechando o livro que eu fui perceber que a transcrição era tão distorcida. Transcrição precisa ser uma coisa bem feita, caso contrário é jogar dinheiro fora. Eu fui vendo na minha investigação que a pessoa que transcreveu não entende nada de finanças e não sabe o que é o serviço do Daniel Dantas.

Por que você acha que a imprensa não fez essa investigação apurada, já que eram documentos públicos?

Existem dois problemas nesse caso, a imprensa da esquerda e a imprensa em geral, inclusive a de direita, a Veja, por exemplo. Porque a primeira grande matéria é a da Veja em 2000 [ http://veja.abril.com.br/020800/p_126.html ], que ela vai analisar essa sociedade feita com os três fundos. A Veja quem começou, por quê? Porque o escândalo vende jornal. Uma coisa é dizer que o Dantas realiza um negócio, no qual é competente e que a gente não entende muito bem, e outra é dizer que ele é um monstro, entendeu?

Antes de ouvir a gravação feita pelo Protógenes o senhor não tinha a interpretação de que o banqueiro Dantas foi bode expiatório?

O fundo do Banco Opportunity [envolvido na denúncia de movimentações ilegais na operação Satiagraha] que é a peça chave dessa história, porque o Dantas tinha um fundo de queima com vários aplicadores. O Dantas foi escolhido porque era um grande financista aqui no Brasil, um cara de muita competência, amigo do Simonsen, um jovem brilhante. E quando a dívida brasileira foi renegociada, o Citybank ficou com uma grana para aplicar no Brasil, e escolheu o Dantas como sendo o gestor desse seu dinheiro. Ele ficou gerindo o fundo que ele tinha em queima, gerindo a grana que ele tinha do City e gerindo também a grana dos fundos de pensão. Quer dizer, como eu falo numa matéria, ele era uma santíssima trindade, era três em um. Aí que eu percebi, a história é muito mais complexa, muito mais interessante também porque a grande finança engloba tudo isso.

Existe uma armação da Polícia Federal e da Globo?

O Protógenes foi condenado por fraude processual. Ele apresentou uma prova falsa ao juiz Fausto de Santis, com uma gravação da polícia federal entre o ex-presidente da Brasil Telecom Participações, Humberto Braz, e o professor universitário Hugo Chicaroni. Não é uma gravação da polícia federal, é uma gravação feita pela Globo. O sigilo da fonte não é uma licença para mentir, assim como o policial não pode mentir o jornalista também não pode. Você pode ser enganado, e aí você tem que reconhecer o erro. Se eu me enganei, pago o erro, mas eles têm a obrigação de me provar.

(*) Para informações mais especificas sobre  o caso acesse a entrevista  do Conjur: http://www.conjur.com.br/2010-nov-21/entrevista-raimundo-pereira-rodrigues-jornalista

3 comentários em “Caso Daniel Dantas: como a imprensa se comportou?

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  3. quero entrar em contato com raimundo rodrigues pereira, perdemos seus contatos

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