......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS



PENSANDO ALTO

02.09.2007
Teoria da conspiração ou faca no pescoço? O poder da mídia empresarial no Brasil

Desta vez não foi nenhuma coluna obscura de um site alternativo, nem um político cassado em busca de pretexto para livrar-se de uma condenação. Desta vez não foi uma teoriazinha da conspiração qualquer. Se existe mesmo uma teoria da conspiração para dizer que a mídia global e, alguns patamares abaixo, o resto da mídia empresarial nativa, age como um poder político paralelo, antiético, absolutamente autoritário e ideologizado, quem revelou isso para o mundo foi, ironicamente, um setor dessa mesma mídia.

Primeiro ato: um repórter fotográfico das Organizações Globo, demonstrando, pelo menos aparentemente (mais teoria da conspiração?), criatividade e audácia, flagrou a conversa eletrônica de dois Ministros do STF, em plena sessão de julgamento do mensalão.

Primeiro "fato": a editoria do jornalão aproveitou as imagens e montou manchetes e matérias que faziam interpretações dos supostos conchavos entre os Ministros desavisados. O teor das matérias do Globo intimidou não apenas os personagens diretamente envolvidos, mas a grande maioria, senão todos, dentre os Ministros do STF.

Os "fatos" indicavam um posicionamento, prejulgado pelos editores globais, pelo qual havia uma tendência no tribunal de não incriminação de alguns dos assim considerados "40 ladrões". O resultado da ardilosa campanha todos os minimamente informados (ou a chamada Opinião Pública) já sabem: os Ministros votaram quase unanimemente pela incriminação (não ainda pela condenação, é claro) de todos os envolvidos nas acusações. O único voto destoante foi de um dos flagrados na conversação laptopiana, o Ministro Lewandowski.

Segundo ato: no dia seguinte à votação, o Ministro azarado foi flagrado novamente, desta vez cochichando ao telefone com um interlocutor impertinente. Um solerte repórter (apud Jânio Quadros) da Folha de São Paulo, gravou a voz do Ministro dizendo literalmente que "o Supremo votou com a faca no pescoço". E o Ministro completou a sentença (no caso, apenas uma frase, não um julgamento, até porque o sentenciado neste caso todo passou a ser ele próprio: de juiz a réu) afirmando que a imprensa havia influenciado diretamente na decisão mais política da Suprema Corte brasileira há muitos anos.

Segundo "fato": a editoria da Folha foi mais além e revelou que o Ministro também teria dito que a tendência inicial da votação seria a de "amaciar para o Zé Dirceu". Entre o primeiro ato e o segundo "fato" ficou demonstrado que a mídia empresarial manipula editorialmente qualquer situação. A mídia se traiu. A máscara caiu. A repercussão das declarações de Lewandowski foram o suficiente para que ele caísse na mais humilhante das desgraças, não somente frente aos seus pares de Tribunal como diante da chamada Opinião Pública. Entre tantos atos falhos e simbolismos que o caso engendrou, destaque-se a versão do próprio ministro para o seu voto e para sua frase de efeito. Lewandowski, aparentemente (pra valer, sem teoria da conspiração), é um Ministro sem rabo preso com ninguém, votou com a sua consciência e com a sua formação jurídica. Isto é, considerou que a denúncia do Procurador Geral era inconsistente, juridicamente falando, para incriminar a todos os réus, permitindo a abertura de processo contra eles. Aliás, dentre as interpretações dos editores do Globo sobre as imagens do cochicho notebukiano, está a que admite a possibilidade de que outros Ministros viessem a votar contra o Relator e o Procurador, ainda que por outras e menos nobres motivações. Mas, pressionado de todos os lados e sob coação da mídia empresarial, o Ministro Lewandowski piscou (com todo o respeito, apud Ancelmo Góis). E neste piscar de olhos, o Ministro teria afirmado que a tal faca havia sido colocada exclusivamente no seu próprio pescoço. Logo ele que votou contra a imensa maioria. Obviamente, esta segunda versão dos segundos atos e "fatos" não se sustenta e não pode ser levada a sério. É o dito pelo não dito.

Porém, o Ministro, no segundo ato, estava certo. A Folha de São Paulo flagrou (e divulgou) o depoimento histórico de uma pessoa acima de qualquer suspeita de pertencer à laia (à nossa laia) de colunistas da mídia alternativa e popular. Sem saber, o Ministro Lewandowski fez muito mais pela democratização dos meios de comunicação no Brasil do que ele mesmo poderia imaginar, ao confidenciar uma grande verdade que a mídia, por ato falho, alastrou amplamente: que esta mesma mídia empresarial exerce uma espécie de poder de veto, político e/ou ideológico, sobre as instituições públicas do país, agindo e repercutindo suas ações como se fosse o próprio poder ditatorial, travestido de jornalismo, como se estes jornalistas fossem generais sem farda.

Ao Ministro Lewandowski, fica o nosso reconhecimento por suas preciosas inconfidências, evidentemente involuntárias, que desmascaram o jogo de poder dos grandes empresários e seus editores, "donos" da mídia no Brasil. E a solidariedade daqueles colaboradores das mídias alternativas que, como ele, vivem como se sentissem lâminas de facas cortando suas próprias carnes. Carnes de pescoço.

__________

> Canrobert Costa Neto, Bacharel em Sociologia Política pela Universidade de Brasília, Mestrado em História do Brasil pela UnB, Doutorado em História da América Latina pela Universidade Federal Fluminense, Pós-doutorado em Sociologia Rural pela Universidad de Córdoba, Espanha. Membro do conselho editorial da revista Margem Esquerda. Co-autor do artigo "Das ocupações de terra à reforma agrária no Brasil", revista Margem Esquerda, número 2, Editora Boitempo, São Paulo. Professor, Pesquisador da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Presidente da Associação de Docentes da UFRRJ (ADUR).


Google

Clique aqui para assinar nosso jornal impresso


Este site é melhor visualizado na resolução de 800 x 600 pixels.
© 2004 Fazendo Media - por Kzal Design