Audiência Pública coloca em xeque a política de segurança em SP
Por Thaís Barreto, 28.07.2012Pela primeira vez uma audiência pública foi capaz de sinalizar com devido destaque os graves problemas da Segurança Pública do Estado de São Paulo. O encontro aconteceu nesta quinta-feira (26/7) no auditório do Ministério Público Federal (MPF) e surpreendeu, inclusive pelo número de participantes.
Havia pessoas em pé, faixas estendidas, mostrando que os familiares e vítimas da violência, vindos das periferias de diversos lugares, uniram-se e exigem modificações urgentes. Neste momento, os representantes destacam o crescimento exponencial do número de mortes praticados por agentes do Estado e pronunciaram-se para propor novas medidas.
Há um grande problema, mata-se e depois procuram saber quem é. Pelo menos é dessa forma que tem acontecido na maioria dos casos. Os defensores públicos, procuradores e representantes de movimentos sociais acompanharam vários casos e fazem eco à denúncia.
Para Carlos Eduardo, representante da comunidade de Belém, há um entendimento de que a polícia militar deve ser a linha de frente da defesa da população. O que contrasta, mas define a finalidade da audiência, ao expor que, o está sendo discutido é a atuação violenta da polícia.
Débora da Silva Maria, representante das Mães de Maio, defendeu a extinção da forma opressora do Estado. “Nós pagamos com nossos impostos a bala que mata nossos filhos. Não aceitamos essa política de Segurança Pública. Basta desse extermínio da nossa juventude”, reclamou.
Carlos Weis, presidente da audiência pública, destacou que é preciso reduzir a “letalidade policial”. Além disso, defendeu que esse momento da audiência é importante para o exercício da democracia participativa, trazendo os dois lados para o mesmo ambiente, proporcionando o debate.
Segundo Osório Barbosa Sobrinho, procurador regional da República, no Estado de São Paulo a violência recrudesceu. “A segurança pública está funcionando mal. Esse é o primeiro momento de uma luta, devemos cobrar da sociedade e das instituições”, afirmou.
O presidente do Conselho Estadual dos Direitos da Pessoa Humana (Condepe), Ivan Seixas, também esclareceu sobre o questionamento quanto à postura dos policiais. “Não aceitamos que policiais se transformem em carrascos, em nome de uma política errada e criminosa”, disse.
Capacidade operacional
Seixas reiterou que a atividade policial tem que ser algo digno e protegido. “A polícia civil está amordaçada, sem capacidade operacional”, afirmou. Ao mesmo tempo, lembrou-se do caso recente do publicitário Ricardo Prudente, morto após perseguição policial no dia 18/7.
“Sabemos da existência do ‘kit vela’ composto por armas frias e drogas para incriminar”, informou Seixas. O caso do publicitário chama atenção, familiares negaram qualquer envolvimento de Ricardo Prudente com drogas ou atos ilícitos.
Transparência
Quanto ao número crescente de vítimas, a situação ficou mais preocupante por conta da falta de transparência. Segundo Seixas, há registro de mortes por conta da indicação de um conflito da polícia com o crime organizado. Há informações de que pelo menos 100 policiais foram mortos e mais de 300 civis.
Além disso, a grande preocupação é que as mortes denunciadas, no geral, são jovens, negros e pobres. A situação se complica, pois os movimentos sociais denunciam o quanto isso tem sido corriqueiro na região do Estado de São Paulo.
Índices
A defensora pública, Daniela Albuquerque, afirmou que o Estado de São Paulo tem índices inadmissíveis de mortes de civis por policiais. “O índice de morte cometido por agentes públicos é de 20%. Segundo o relatório da Anistia Internacional, só 3 % seria admissível, em um Estado como o nosso. É preciso acabar com essa roleta russa”, relatou.
O coordenador do Movimento Nacional dos Direitos Humanos, Rildo Marques, defendeu que é preciso o funcionamento de políticas públicas para reduzir esses números alarmantes. Além disso, observou que nos últimos anos o país registrou alto crescimento econômico, mas na outra ponta houve o crescimento da criminalidade.
O procurador Matheus Baraldi defendeu a troca do comando da Polícia Militar durante a audiência. Para ele, a estrutura ideológica da violência já passou dos limites. Muitos agem pelo mero “prazer de espancar” segundo Baraldi.
(*) Matéria reproduzida do blog Thaisbarreto.com











