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“A mídia dá automaticamente o veredicto dos crimes, sobretudo os cometidos pelos pobres”

Sylvia Motezen, professora de comunicação da Universidade Federal Fluminense. Foto: Rovena Rosa.

Sylvia Moretzsohn, professora de Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense. Foto: Rovena Rosa.

O Fazendo Media convidou Sylvia Moretzsohn, professora de Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense, para falar sobre um caso super explorado pela mídia comercial brasileira: a morte de Isabella Nardoni.  Dois anos depois, a polêmica retorna com o julgamento dos acusados, que foram condenados. Debates sobre criminologia e mídia, além da espetacularização da notícia e suas consequências, são temas dessa entrevista.

Qual objetivo da disciplina que relaciona jornalismo e criminologia?

Por meio da literatura sobre criminologia, os alunos percebem a dificuldade que é definir o que é o crime e o criminoso. Tenta mostrar também como isso é naturalizado no senso comum. Mas, antes de mais nada, apresentar a agenda do direito penal. Observamos como o iluminismo tentou estabelecer uma racionalidade sobre o que pode ser a pena e quem seria punido. Não punir a pessoa, mas sim o fato, que é uma diferença do que acontecia até então. Vemos ainda como isso se desdobra até hoje. E aí você vai na teoria para justificar porque punir determinado comportamento.

A teoria retributiva, por exemplo, diz que você deve fazer a reparação correspondente ao dano. Só que como corresponder o dano à morte? Já que vocês vão inevitavelmente tocar no caso Isabella, vou dar esse exemplo. A mãe da menina disse logo depois da sentença: “A justiça foi feita, mas isso não irá trazer minha filha de volta”. É claro. Não significa dizer que você não irá fazer nada, mas que não se tem efetivamente uma compensação. No caso, mesmo que sejam eles que tenham matado a Isabella, e eu não sei se foram, se matam os dois [pai e madrasta], adianta o quê? Nada, a menina já morreu. Teoricamente você pode dizer: “ah, isso serviria de reparação para um serial killer”.  Até pode ser, o cara é um psicopata, vai que sai da cadeia matando de novo. Inimigo pode ser alguém como o Bandido da Luz Vermelha. “Fechem suas casas, tranquem as virgens, aí vem o bandido da luz vermelha”, como se ele se multiplicasse por aí, não é? Mas, no caso Isabella, não se justifica o drama e a espetacularização que houve. A princípio, o casal não iria cometer um ato desse várias vezes. 

O problema, então, é formular uma teoria, porque ela tem que valer para todo mundo. Como estabelecer uma regra geral? Daqui a pouco extrapolam a regra e dizem: “ah, mas você está me olhando esquisito” ou “você estava vestido de um jeito estranho”. Por que a criminologia clássica do Lombroso [Cesare, médico italiano] fez tanto sucesso? Porque identificou características físicas – o cara é negro, tem uma determinada conformação da face e do crânio. Imediatamente diziam: “ah, esse cara aí não é nosso”.

Então, o retrato dado ao criminoso pela criminologia clássica ainda está refletido nos meios de comunicação?

Com certeza. Como é que se cobre o crime na classe média? E na periferia ou favela?  Nem descrevem mais, “naturalmente” ele é negro.  Mas contam como é do outro lado: “É branco, tinha tudo e não precisava”.

Essa é uma forma de criminalizar a pobreza?

Claro que sim. É uma forma de criminalizar quando você localiza na pobreza a gênese do crime. Mas é muito confusa a cobertura midiática já que, ao mesmo tempo, existem matérias que enaltecem os pobres “do bem”. O problema é que o sub-texto disso é: “essas pessoas sabem o seu lugar”. Diz que se esses caras derem certo, digamos entre aspas, eles vão dar certo dentro do sistema. Não vão dar certo contestando, mas se integrando.

"Como é que se cobre o crime na classe média? E na periferia ou favela?  Nem descrevem mais, 'naturalmente' ele é negro.  Mas contam como é do outro lado: 'É branco, tinha tudo e não precisava'. Foto: Gabriel Bernardo.

"Como é que se cobre o crime na classe média? E na periferia ou favela? Nem descrevem mais, 'naturalmente' ele é negro. Mas contam como é do outro lado: 'É branco, tinha tudo e não precisava'", ressalta a professora. Foto: Gabriel Bernardo.

Eles até podem pontualmente se integrar, mas é mais ou menos como jogar na loteria. A loteria dá boa vida para meia dúzia, mas são milhões que apostam. “Ah, se o Lula é presidente da república, você também pode ser”. Não, você não pode ser, porque sua vida vai durar 70 anos e aí você vai pescar, não vai ser mais presidente da república.

E qual o papel da comunicação na ideia de que é possível “dar certo” dentro do sistema?

Não acho que seja uma via de mão única, que só a mídia domina e tal. Até porque se fosse assim você não teria a contrapartida. Qual é a contrapartida? Hoje existem outras iniciativas [de comunicação], por mais que sejam menos divulgadas. No entanto, o pessoal se mantêm… Não é só a Globo, é a Record e outras emissoras. São as apresentadoras, a Luciana Gimenez, a Adriane Galisteu…

Sobre a recente tragédia no Rio após as chuvas, como ela deve ser mostrada na mídia?

A tragédia tem que ser mostrada, só não pode ser explorada do ponto de vista sensacionalista.

Mas como estabelecer esse limite? O que fazer para que a abordagem não torne o fato em espetáculo?

É dificílimo. O Carlos Fino [jornalista português que cobriu a Guerra do Iraque], por exemplo, quando veio ao Brasil, perguntaram justamente isso: “Qual é o impacto que tem a exposição de uma pessoa toda estropiada depois de um atentado com bomba?”. Já no inicio da invasão, jogaram uma bomba num mercado em Bagdá e um monte de gente morreu. E aí a mão de mulher foi decepada e recolhida por alguém, que começou a acenar com ela. As TV’s de todo mundo deram. E ele disse: “olha, optamos por não dar porque acreditamos que ultrapassava determinado limite”. E aí perguntaram qual era o limite. E ele respondeu: “Não sei dar uma resposta precisa. Como é que damos o horror da guerra sem imediatamente sermos acusados de comungar da sociedade do espetáculo e de explorar o sentimento alheio? Eu vou pôr a mão decepada no mercado de Bagdá quando os Estados Unidos provocaram mais uma vítima colateral? Ponho a mão para provocar desgosto e repulsa ou não exponho essa imagem para não ferir os sentimentos das pessoas?”. Eu também não tenho uma resposta, mas não tem muita saída, tem que avaliar.

Voltando ao caso dos Nardoni, a defesa deles alegou que antes mesmo do julgamento já estavam condenados. A imprensa hoje dá o veredicto?

Os crimes em geral, sobretudo os cometidos por pobres, têm automaticamente o veredicto. Mas em um caso como o da Suzane [Richthofen] também. Ninguém vai ficar discutindo o que causou, o que pode ter acontecido. Em um crime bárbaro pegam o negócio do ponto mais íntimo, o da filha que mata o pai. O do João Helio e da Isabella Nardoni também, já que “poderiam ser seus filhos”. Mas quantas outras crianças sofrem barbaridades cotidianamente?  E o garoto das agulhas [menino que teve o corpo perfurado por agulhas], que é pobre, do interior de não sei onde da Bahia? Ninguém saiu na cara do fórum dizendo: “mate, mate!”. Não gerou uma comoção popular como o caso da Isabella, por quê? Porque a classe média é bonitinha? “Ah, é uma barbaridade!”. Certamente é. “Ah, mas é uma criancinha”. Mas e as criancinhas que passam fome, que são jogadas fora, que tomam tiro por aí?

O Instituto de Criminalística de São Paulo fez uma animação que reconstituiu o crime do caso Isabella. A produção foi exibida pela Globo. O que você achou da abordagem?

Escrevi artigos sobre isso. A cobertura toda foi feita através de “pílulas” de informação e, em muitos momentos, elas eram totalmente contraditórias. Em agosto de 2008, essa animação foi divulgada no Fantástico e no Jornal Nacional. Eles dizem logo no início que as personagens não representam rigorosamente as pessoas, que foram descaracterizadas para não ficarem iguais aos envolvidos, à testemunha e a vítima. Um detalhe é deixado de lado na cobertura. Quem viu o fato? O menino de quatro anos. A testemunha, no caso, só pode ser o irmão da Isabella.  E pensei: essa é a pauta! Mas não falaram nada sobre isso. Apenas repercutiram o que o promotor disse: “no momento adequado vai ser dito”.

"Justamente por ser difícil que você é jornalista. É para fazer perguntas incômodas, levar respostas desagradáveis, levar porta na cara", destaca Sylvia. Foto: Gabriel Bernardo.

"Justamente por ser difícil que você é jornalista. É para fazer perguntas incômodas, levar respostas desagradáveis, levar porta na cara", destaca Sylvia. Foto: Gabriel Bernardo.

Pois é, chegou o julgamento e ninguém lembrou. Não falaram sobre a tal testemunha. Que seja essa uma estratégia da acusação é uma coisa, que a defesa não tenha dado bola para isso, é problema deles. Mas o jornalismo tem que dizer: “vem cá, como vocês sabem que foi assim?”. É elementar. “Cadê aquela informação? Ignoraram, por quê?”. Era uma pauta sensacional. Será que um garoto de quatro anos não está influenciado pelos filmes que andou vendo? Será que ele falaria contra os próprios pais?

Entendo que seja difícil fazer uma matéria assim diante do clima que se criou, mas você tem que tentar buscar uma alternativa equilibrada. Podem até dizer: “estão querendo defender esses monstros”. Mas é tua obrigação levantar pontos obscuros. “Ah, é difícil fazer jornalismo”. Justamente por ser difícil que você é jornalista. É para fazer perguntas incômodas, levar respostas desagradáveis, levar porta na cara. Na ditadura não se enfrentava isso, mas agora para quê tanto receio? Mas aí perguntaram: “o que o seu coração de mãe tem a dizer sobre aquela noite?”. Isso não é uma pergunta que se deva fazer! É um escândalo!

Essas comoções desmedidas são seguidas pela mídia ou provocadas por ela?

As duas coisas. Aí que entra a dialética, o que é importante!  Ela é uma resposta a uma demanda, com certeza, e ao mesmo tempo reitera e amplifica essa mesma demanda. Por isso que é tão complicado trabalhar com mídia no sentido alternativo. Essa demanda existe, é ancestral, é a ideia da defesa: “na minha casa não, no meu quintal não”.

Uma vez uma matéria para o jornal laboratório [da UFF] falou sobre abrigos de moradores de rua que seriam construídos em Copacabana. Fizemos entrevistas aleatórias com comerciantes, moradores, trabalhadores da britadeira do metrô… Eles foram unânimes em dizer que os moradores de rua tinham que ter um abrigo, “mas não aqui”. E onde seria legal? “Ah, lá na zona oeste”. Esse tipo de cultura nada mais é do que a lógica da defesa social do ponto de vista do direito penal mesmo. “Eu não quero que a minha vidinha mude”. Isso é conservador. É igual a anúncio de margarina. Tem papai, mamãe, cachorro, de preferência amarelo que nem a margarina, um labrador… É a família ideal. Só que o mundo não é assim!

O desafio é: como posso contrapor esse discurso hegemônico de forma eficaz? Dizer para muita gente, não só para meia dúzia de público. “Ah, a mídia manipula e as pessoas vão entender se a gente fizer assim”. Não vão, porque elas estão acostumadas com aquilo, é uma forma de se localizarem no mundo. As pessoas ligam a televisão para se reconhecerem e reiterarem aquilo que já sabem. Tudo aquilo que fala diferente é rejeitado.  Não estou com isso eximindo: “Ah, coitadinha da Globo, ela só dá o que o povo quer”. Existe esse discurso, mas não é isso. “Se as pessoas pedirem a revolução, vamos dar a revolução”. Vão? Não vão dar revolução nenhuma, pelo contrário!

4 comentários em ““A mídia dá automaticamente o veredicto dos crimes, sobretudo os cometidos pelos pobres”

  1. Ótima abordagem a partir da influência da mídia no caso Isabella para falar sobre a falta daquela atitude contestadora quem um jornalistas e todas as pessoas de um modo geral DEVERIAM ter!

  2. É preciso tornar crime a “POBREFOBIA”!!!

    O maior exemplo de “POBREFOBIA” são os preconceitos que sofre nosso
    chefe de Estado brasileiro e emergente liderança mundial: LUIZ INACIO
    LULA DA SILVA. Ele terá de provar, até sua morte, segundo os
    preconceitos que são cultivados pela imprensa brasileira e consequente criminalização da pobreza, que ele é uma pessoa, da PAZ, e capaz. Se isso é uma
    covardia, e perversidade, com o nosso presidente da república, imaginem com os de baixo!?

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  4. Hoje, 24/5/2010, em jornal da TV Globo, assisti a um noticiário que tá total razão ao que se mostra na matéria. Dois pedófilos presos, ambos idosos, um pobre e outro médico aposentado. O jornal não mostra imagem do médico pedófilo, mas a do pedófilo pobre fica na tela à exautão.

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