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A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



18.03.2009
A CONJUNTURA LATINOAMERICANA E A IMPRENSA

Por Eduardo Sá, da redação. Foto: Angelo Cuissi/Fazendo Media

Emir Sader na noite de autógrafos, no Rio de Janeiro, do seu novo livro: <i>A nova topeira – Os caminhos da esquerda latinoamericana</i>. Foto: Angelo Cuissi/Fazendo Media
Emir Sader na noite de autógrafos, no Rio de Janeiro, do seu novo livro: A nova topeira – Os caminhos da esquerda latinoamericana. Foto: Angelo Cuissi/Fazendo Media.

Na noite de autógrafos do seu livro lançado no Fórum Social Mundial, A nova topeira – Os caminhos da esquerda latinoamericana, o sociólogo Emir Sader concedeu uma entrevista ao Fazendo Media na livraria Travessa, do Leblon, no Rio de Janeiro. Em sua fala são abordados temas que estão em seu livro, que em breve terá uma resenha aqui no Fazendo Media, é feita uma análise sobre a realização do Fórum Social Mundial que ocorreu meses atrás no Pará, e, dentre outras questões, a mídia latinoamericana é observada criticamente.

Qual a sua reflexão sobre a realização do Fórum nesse contexto da América Latina que você desenha no livro, lançado no próprio Fórum, em relação ao Lula que, por exemplo, não foi chamado para o encontro dos presidentes por parte dos movimentos sociais?

Eu acho que o Fórum tem três planos. Primeiro é o dos movimentos sociais, muito representativo, muito forte. Quem esteve lá viu a presença do movimento indígena, do movimento negro, dos jovens, muitas mulheres, o movimento sindical, discutindo os seus temas em geral que é o que dá substância ao Fórum.

O segundo plano é o das alternativas políticas, dos presidentes. Os quatro na reunião e os cinco à noite tiveram o espaço político que o Fórum em geral não previa que existisse, mas a América Latina colocou na ordem do dia. A construção de outro mundo possível passa pelos países em maior ou menor medida, então não dá para desconhecer isso.

E o terceiro nível é o nível negativo, quer dizer, uma espécie de coordenação de Ong's que fizeram uma apresentação numa entrevista coletiva do Fórum para o mundo. Ong's brasileiras, sem participação nenhuma dos movimentos sociais. Não é em combinação, coordenando, apoiando, quer dizer, é usurpando, substituindo os movimentos sociais.

Então é um nível formal, burocrático, esvaziado do Fórum. O outro é socialmente forte e as políticas da América Latina hoje. São três instâncias diferentes e o ruim é que, devido à hegemonia das Ong's no Brasil minoritárias, o Fórum não deixa proposta.

Quem é que tem uma proposta? Algumas propostas né, e não deixa prioridades, tinha 2.400 unidades e todas elas fragmentadas, do mesmo tamanho, então nem sequer falou daquelas coisas: terra, água, capital financeiro... e isso aparecia como prioritário, então acaba o Fórum só existindo no momento em que ele se realiza.

Isso tem alguma relação com o esvaziamento teórico da esquerda?

Eu acho que tem muitas idéias, mas acontece que o espaço público, o espaço político de reflexão estratégica, está reduzido a alguns núcleos como na Bolívia. A reflexão sobre essas novas teorias da esquerda e os impasses potenciais não passa pelo Fórum, porque em princípio o Fórum se aliena a essa reflexão.

Os próprios presidentes que deveriam ir não apenas para fazer um discurso, ir para colocar em discussão as suas políticas, colocar em discussão o Banco do Sul, colocar em discussão as novas constituições. Então o Fórum não é contemporâneo aos dilemas colocados hoje para os projetos mais avançados, até por que as vitórias dos partidos se dão quando você consegue uma correlação de força a nível nacional.

Então num problema genérico da globalização o mundo foca experiências do país, como é que você tropeçou aqui, como é que você avançou ali, e essa reflexão acaba não passando para o latem. Muita teoria sobre a crise, mas uma crise da teoria.

Para o sociólogo, ao referir-se às eleições de 2010, destacou que é preciso "fazer um grande debate sobre um projeto de país, que país a gente tem, em que país se transformou, que país a gente quer?". Foto: Angelo Cuissi/Fazendo Media.
Para o sociólogo, ao referir-se às eleições de 2010, destacou que é preciso "fazer um grande debate sobre um projeto de país, qual país a gente tem, em qual país se transformou, qual país a gente quer?". Foto: Angelo Cuissi/Fazendo Media.

Num recente artigo seu você destaca o processo em andamento em El Salvador, ou seja, há possibilidades de irradiar uma transformação também para a região da América Central. Como você analisa essa questão?

Digamos que houve um tal vazio de alternativas que mesmo agora na semana passada eu estava num seminário de economistas em Cuba, que estava lá o presidente de El Salvador com o de Honduras, e Honduras aderiu a Alca (Área de Livre Comércio das Américas) sem ter sido eleita uma força progressista. De maneira que houve um certo vazio de coordenação internacional.

Os TLC's (Tratados de Livre Comércio) são situações hoje em dia totalmente inviáveis, tanto pela crise norte-americana como pelo protecionismo que não leva adiante. Então já tem elementos novos, polêmicos, o movimento da União Européia de qualquer maneira está aí. E a possibilidade inédita, porque nunca as condições foram tão favoráveis para uma eventual vitória do Farabundo Marti (Mauricio Funes foi eleito pelo partido, em El Salvador, após a entrevista).

Está aí um governo mais caracterizadamente de esquerda na América Central, que é uma região normalmente soldada pelos Estados Unidos diretamente ou indiretamente pela do México; estava fora dos processos.

Então lentamente também vai se penetrando uma espécie de espaço de alternativa na América Central, isso que é muito importante, até para ser um projeto de transição da luta armada para a luta política que tenha reaberto o caminho de acumulação de forças.

Qual o papel da imprensa nesse contexto latinoamericano?

Eu acho que a América Latina é a expressão mais clara da incompetência da mídia tradicional, porque tem uma realidade nova, uma realidade pelo menos polêmica, contraditória, inovadora, e, no entanto, a mídia tem o universo dela.

O sistema dela está sendo derrotado, a direita tradicional é derrotada, mas eles continuam com um monopólio forte do discurso, da formação da opinião pública. Mas eu acho que como é o continente que mais se avançou, acho que essa defasagem fica mais clara, são raríssimas exceções que têm uma tradição de imprensa forte como a La Jornada, a Página 12.

Mas é impressionante como há um bloco muito homogêneo, muito parecido, de imprensa tradicional igualmente incompetente. Não é que eles não são de esquerda, eles não são pluralistas. Não têm nem espaços minoritários, mas que expressem a vontade majoritária eleitoral politicamente expressa da massa da população. Você olha a Venezuela e a imprensa da Bolívia, parece que é uma imprensa de outro país.

"Eu acho que a América Latina é a expressão mais clara da incompetência da mídia tradicional", afirma Emir Sader. Foto: Angelo Cuissi/Fazendo Media.
"Eu acho que a América Latina é a expressão mais clara da incompetência da mídia tradicional", afirma Emir Sader. Foto: Angelo Cuissi/Fazendo Media.

Aqui no Brasil isso se expressa de forma muito clara quando a Venezuela é a pauta do dia...

Tudo bem, mas isso é, digamos, ideologicamente. Agora, a imprensa da Venezuela não consegue falar da Venezuela, a da Bolívia não consegue falar da Bolívia. De fora, o Chávez aparece como um personagem ideológico, não aparecem as transformações sociais profundas que ele fez. Porque sempre se instrumentaliza um país para a polêmica ideológica interna, mas quem está no país não pode deixar livre.

Por que o Evo Morales quando a imprensa corre ele também marca ponto? Que transformações ele fez para operar? Então isso é a imprensa nacional, assim como eles tiveram que se dar conta no segundo turno com a recuperação do tecido do Lula, tiveram que se dar conta que havia políticas sociais, que o mundo não era tão reduzido como a visão que eles têm.

Quais as perspectivas dessas eleições de 2010?

Eu acho que é um dilema, porque é uma possibilidade da esquerda assumir este governo do Lula, contraditório e de transição, e partir para um ruptura com o governo. Pode ser com a candidatura da Dilma, ou um retorno ainda que disfarçado da direita tradicional que por acaso é a aliança tucanos/DEM; os tucanos PFListas.

Então o que já não pode ser anti-Lula, menos ainda com a crise internacional atual pode ter uma candidatura do Alckmin com a tese do Estado mínimo. Mas esses dois blocos que estão hoje ocupando o espaço político é que vão se enfrentar. É uma nova oportunidade de tomar o que teve de positivo nesse governo e avançar para romper o modelo, que acho que é a possibilidade real da esquerda.

A Heloisa Helena agora vai ser muito isolada, pouco expressiva, até porque o PSOL não tem o que dizer do país, não é só a direita que não tem discurso alternativo, a esquerda radical também não tem.

E tem que fazer um grande debate sobre um projeto de país, que país a gente tem, em que país se transformou, que país a gente quer né? Tem que politizar a revolução.

No que você acha que o conflito dessa convergência histórica, dessa emancipação dos povos indígenas da América do sul com essa crise atual vai resultar?

Está resultando no primeiro grande governo dos movimentos indígenas na América Latina e no mundo que é o da Bolívia, mas isso foi uma confluência de outras forças.

Não são muitos países que têm uma maioria expressa de população indígena que é reivindicada como tal, nem o Equador se pode dizer que tem essa característica. Então é uma força como em outros países que pode ser majoritária, é uma frente social com uma política anti-neoliberal, pós-neoliberal, que pode ser importante.

Mas em outros lugares os movimentos ficaram isolados, como no México, não retomaram a relação com a esfera política contra a hegemonia a nível nacional. A transição política na Guatemala não gerou um movimento popular forte de esquerda, foi neutralizado politicamente, então é desigual, mas acho que o papel que tem o governo do Evo Morales é muito importante.


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