......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



18.03.2009
"A FOLHA DEVERIA VER AS FOTOS DOS ASSASSINADOS SOB TORTURA PARA VER SE DITA FOI BRANDA OU FOI DURA"

Por Raquel Júnia e Sheila Jacob, da Redação. Foto: Raquel Júnia

Militante do Partido Comunista Brasileiro e da Ação Libertadora Nacional (ALN), Gilney Amorim Viana foi expulso do curso de medicina da UFMG pelo decreto 477. Ele foi preso em março de 1970 e permaneceu encarcerado por quase dez anos, respondendo a dez processos. Só em 1985 terminou sua condenação. Gilney foi um dos 21 anistiados políticos no último dia 27 de fevereiro, no Rio de Janeiro. "Pego as fotos de centenas de companheiros que foram mortos sob tortura, e vou jogar lá no editor para ele saber se a dita foi branda ou foi dura", disse, se referindo a recente editorial da Folha de S. Paulo que chamou a ditadura brasileira de "ditabranda".

Gilney discursa após ser declarado anistiado político. “A indenização é irrelevante do ponto de vista histórico, de tudo que passamos”, fala. Foto: Raquel Júnia/Fazendo Media.
Gilney discursa após ser declarado anistiado político. “A indenização é irrelevante do ponto de vista histórico, de tudo que passamos”, fala. Foto: Raquel Júnia/Fazendo Media

O que representa para o senhor essa anistia política que recebeu hoje?

Eu era estudante de medicina, fui atingido pelo 477, impedido de estudar durante três anos e isso me valeu mais quinze anos porque eu caí na clandestinidade, depois peguei 10 anos de prisão. Isso ocorreu em 69, mas eu só voltei a estudar em 80, quando a escola de medicina da Universidade Federal de Minas Gerais me restituiu o direito à matrícula.

Este julgamento por parte da Comissão de Anistia encerra um ciclo da minha vida, que foi injusto. E me restitui também meus direitos plenos de cidadão, sem que os dez processos aos quais eu respondi na justiça militar tenha qualquer peso, embora tudo aquilo que passamos está incorporado em nosso modo de ser, de ver as coisas e nós não queremos esquecer.

Isso faz de mim um homem renovado também, que passou por tudo isso e tem capacidade de amar as pessoas, de não cultivar o ódio, não ser revanchista e ao mesmo tempo ter perspectivas de que o mundo pode mudar. Eu estou na mesma linha que eu estava na minha juventude, eu acredito que nós podemos mudar o mundo, então, eu estou bem.

Como o senhor avalia a política do atual governo federal com relação aos crimes da ditadura?

Em relação a anistia avançou, no reconhecimento dos mortos e desaparecidos, que é uma outra comissão, também. Dando mais publicidade aos dados, politizando o debate, mostrando que é um dever do Estado reconhecer o erro em relação aos que foram atingidos, perseguidos, torturados e os mortos sob tortura. E avançou também no debate em relação ao alcance da anistia. Eu estou entre aqueles que acham que foi muito importante a Comissão de Anistia, a Secretaria de Direitos Humanos, o Ministério da Justiça levantar a tese de que a Lei da Anistia não abrange os crimes contra a humanidade, como torturas, seqüestro, assassinato de prisioneiros sob a guarda do estado. Isso quer dizer que os torturadores não podem ser e não foram anistiados. Acho isso muito importante.

Onde não houve avanço é justamente na abertura dos arquivos das forças armadas e na descoberta dos restos mortais de muitas companheiras e companheiros que foram assassinados sabidamente pelos órgãos do estado. Ainda tem uma resistência muito forte em alguns setores das forças armadas, que impede o governo de dar esse passo.

Por outro lado também o próprio governo e o presidente Lula tem tido uma atitude muito tímida em relação a esses setores, que infelizmente ainda se arvoram em falar em nome das forças armadas e impedem que esse entulho autoritário, essa seqüela da ditadura militar seja superada para que nós possamos viver em paz, para que não tenhamos um Coronel Brilhante Ulstra da vida fazendo palestras, defendendo a tortura ou fugindo das suas responsabilidades. Ou um capitão Gomes Carneiro, que chefiou a tortura contra mim almoçando nos restaurantes de Brasília como se fosse um herói da pátria.

O médico e ex-militante da ALN recebe abraços emocionados das pessoas presentes após o Estado brasileiro ter pedido perdão a ele oficialmente. Foto: Raquel Júnia/Fazendo Media.
O médico e ex-militante da ALN recebe abraços emocionados das pessoas presentes após o Estado brasileiro ter pedido perdão a ele oficialmente. Foto: Raquel Júnia/Fazendo Media.

O senhor foi preso em Brasília?

Não, fui preso no Rio de Janeiro, fui torturado aqui no quartel do 1º Batalhão da Polícia do Exército, na Tijuca. Esses cidadãos tem que ser julgados, processados, eventualmente condenados se a justiça assim entender. E eu acredito que assim entenderá porque as provas são robustas contra eles e que paguem por seus crimes.

E não me venha com essa conversa fiada de que nós é que éramos terroristas para desqualificar nossa luta de resistência armada. Nós que fomos presos, torturados, condenados, cumprimos nossa pena, fomos perseguidos até o último dia da ditadura militar e como se nós fôssemos parasitas do Estado. Nós nunca fomos e não seremos até porque eu sou um professor, tenho minha vida acadêmica, vivo disso, sempre vivi do meu trabalho e não preciso disso.

Agora, quero o seguinte, se eu não posso processar o torturador, eu quero que o Estado reconheça os danos que me causou, danos morais principalmente, políticos, familiares e, eventualmente, os danos financeiros. Todos esses danos jamais serão pagos porque são muitos anos de cadeia e sofrimento e isso não tem preço.

Quando o jornal Folha de S.Paulo chama a ditadura instaurada no Brasil com o golpe de 64 de “ditabranda” em um editorial, o que o senhor sente?

Olha, eu sinto vontade de pegar as fotos dos assassinados sob tortura, não sob combate, porque nós estávamos numa guerra e é uma lei da guerra se morrer em combate, como ser preso também. Então, isso eu não reclamaria, mas eu pego as fotos do Mario Alves, do Nelson José de Almeida, da Aurora [Nascimento Furtado], pego as fotos de centenas de companheiros que foram mortos sob tortura, e vou jogar lá no editor para ele saber se a dita foi branda ou foi dura. Que ele veja lá, que se fosse o filho dele, se fosse o pai dele, a mãe dele que sofreu aquelas torturas e foi assassinado sob tortura pelos agentes do Estado, se ele faria essa classificação sobre o regime militar.

Eu acho que é uma forma do grupo Folha, dos Frias, fazer uma média com essa onda conservadora que ainda tem força na sociedade brasileira. Eu sou leitor e assinante da Folha e realmente me deu vontade de rasgá-la, mas como eu acho também que nós precisamos ouvir os vários lados da questão, com esse espírito democrático, estou com tolerância para dialogar. Quem sabe se nós jogarmos na cara do editor essas fotos eles possam mudar o ponto de vista deles e falar que a ditadura foi tão sangrenta quanto as outras.

Pode não ter matado tanto quanto as outras, mas torturou tanto ou mais do que a chilena e a argentina. Essa forma de qualificar e comparar é na verdade uma forma política de conciliação com aqueles que já foram superados historicamente, mas teimam em ainda ter um papel negativo na realidade brasileira atual.


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