......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



09.02.2009
FALTA LUZ NO TÚNEL DE 2010

Por Hamilton Octavio de Souza(*)

O presidente Lula tem menos de dois anos de mandato. Em 31 de dezembro de 2010 concluirá oito anos de Presidência da República e dois mandatos de governo do PT. O que virá depois – principalmente para aqueles que consideram a atual gestão muito aquém de qualquer avanço social e popular – tem tudo para ser muito pior, pelo menos a se levar em conta o quadro sucessório desenhado até o presente momento.

Vejam bem: Lula abriu mão do projeto histórico do PT para fazer um pacto de governabilidade com o capital financeiro, as multinacionais e a burguesia nacional. Montou dois governos com amplo leque partidário, do malufismo ao PCdoB, do agronegócio às centrais sindicais, de gente bem intencionada até notórios capatazes das oligarquias e dos esquemas privados que se sustentam nas mamatas do Estado.

Em troca do recorde de lucro para os bancos, dinheiro barato do BNDES para todo tipo de negócio (compra de ativos podres, financiamento da destruição ambiental, privatização de serviços e recursos naturais) e a “pacificação” dos movimentos sociais e lutas sindicais, o governo do PT distribuiu algumas migalhas para os mais pobres, como os programas Bolsa-Família e ProUni.

Em mais de seis anos, esse governo de composição não alterou a correlação das forças políticas que dominam os poderes da República desde o golpe de 1964; setores mais atrasados da direita permanecem incrustrados no bloco governamental e continuam ativos nas ante-salas do Planalto e em vários ministérios, em especial no Banco Central; velhas oligarquias regionais, com seus capos restaurados, integram a base parlamentar no Congresso Nacional; o empresariado deita e rola nos seus pedidos – sempre atendidos sem maior esforço.

É claro que o governo Lula tem apoio popular, porque diferentemente dos governos anteriores (FHC, Collor de Mello, Sarney e Ditadura Militar) tratou de jogar migalhas para os mais pobres, tirou muita gente da ameaça concreta de morrer de fome. Essa é a grande obra da gestão: não deixou que a exploração capitalista chegasse ao genocídio ensaiado desde os tempos da Ditadura Militar. Em compensação, os trabalhadores do campo ficaram sem a reforma agrária (200 mil famílias aguardam em vão os assentamentos que não vieram) e os trabalhadores da cidade ficaram entregues ao desemprego, ao arrocho salarial e à precarização das condições de trabalho.

É preciso pensar seriamente: nesses anos de lulismo quem ganhou as paradas políticas e quem ganhou dinheiro, quem acumulou capital e patrimônio? Não dá para dizer que os 10 milhões de famílias incluídas no programa Bolsa-Família tenham mudado definitivamente de vida. Conseguiram comer e sobreviver, mas ainda assim continuam dependentes do programa assistencialista. O dia em que o programa for cortado ou desativado, elas entram de novo na área do genocídio. Não conquistaram a cidadania plena em direitos e bem-estar.

Não dá para dizer que os trabalhadores da cidade e do campo melhoraram de vida, estão fora da ameaça do desemprego e da instabilidade social. Mesmo a classe média, que tem os melhores empregos e aposta no próprio negócio, também tem passado aperto – especialmente para custear a educação, a saúde e o futuro de seus filhos. Ou seja, no cômputo geral dos últimos anos, só mesmo as elites conseguiram acumular riqueza e manter seus lucros e privilégios – os grandes proprietários rurais e grandes empresários se deram bem, os banqueiros idem, os que fazem grandes negócios com o Estado também, os altos funcionários da República (Executivo, Legislativo e Judiciário) não têm o que reclamar. A maioria da Nação dançou feio com a política econômica do governo Lula.

Essa é a verdade. A grande questão agora é saber quem vai suceder esse governo, se vai seguir as regras atuais, se vai arrochar mais ainda para o povo ou se vai fazer alguma mudança mais democrática e popular. Os candidatos que estão no páreo – José Serra, Aécio Neves, Dilma Rousseff e Ciro Gomes –, não oferecem a menor garantia de que o futuro do povo brasileiro pode ser melhor. Ao contrário, nenhum deles acena com revisões significativas nas políticas adotadas até agora – desde Collor e FHC – ou com mudança na composição das forças que dão sustentação aos seus esquemas atuais. Serra empolga mais o empresariado da FIESP; Dilma provavelmente herdará a simpatia dos banqueiros e das oligarquias regionais (Sarney, Jader, Renan etc). Ambos trabalham com projetos “desenvolvimentistas” subordinados ao capital estrangeiro, principalmente nas novas frentes do agronegócio e da exploração do pré-sal. Nenhum deles fala em reforma agrária, proteção da produção nacional, acabar com o desemprego, redistribuição da renda ou adoção de projeto democrático-popular mais próximo dos países que compõem a ALBA.

Parece claro que a articulação que sustenta Lula continuará dando sustentação ao governo eleito em 2010 – seja com qualquer um desses candidatos a presidente da República. As esquerdas continuam paralisadas e sem forças para interferir no processo, mesmo agora em que o capitalismo mundial vive uma crise profunda e todos os paradigmas do neoliberalismo global estão sendo jogados no lixo. Os trabalhadores continuam em hibernação, um sono profundo de duas décadas.

A não ser que apareça uma opção comprometida com as transformações econômicas e sociais para a maioria do povo brasileiro, o que o Brasil terá em 2011 será mais do mesmo – o que, na verdade, significa piorar o que está aí. Só resta rezar...

(*) Hamilton Octavio de Souza é jornalista e professor da PUC-SP.


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