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09.02.2009
PRESIDENTA DA UNE FALA SOBRE O MOVIMENTO ESTUDANTIL
Por Eduardo Sá, da redação. Foto: arquivo UNE
Desde os 11 anos Lúcia Stumpf participa do movimento estudantil, quando chega aos 20 tranca os estudos em duas faculdades e vai morar em São Paulo para ser diretora de comunicação da União Nacional dos Estudantes – UNE. Hoje é presidenta dessa entidade que faz parte da história do país, casa de onde surgiram diversos representantes que compõem o atual quadro político nacional. Nesse momento o movimento estudantil tem seu espaço de diálogo com o governo, a sede da UNE demolida pela ditadura militar será revitalizada no Rio de Janeiro, projetada pelo arquiteto Oscar Niemeyer, com apoio do presidente Lula. Nessa entrevista ao Fazendo Media Lúcia Stumpf fala sobre a relação da UNE com os movimentos sociais, as mobilizações organizadas pela juventude e as pautas e reivindicações na educação brasileira por parte dos estudantes.
Como se deu sua relação e há quanto tempo você está envolvida com o movimento estudantil?
Eu comecei no movimento estudantil com 11 anos de idade em 1992 na época do fora Collor, eu estudava numa escola em Porto Alegre, minha cidade de origem. Estava na 5ª série do ensino fundamental, no 1º grau, e eu comecei a ver aquelas passeatas do movimento estudantil, comecei a me envolver. Fui numa primeira passeata, minha mãe me levava ainda, não me deixava ir sozinha e vi todo aquele movimento e decidi que era por ali que eu queria ficar, no meio de um monte de estudante, de jovens, lutando por um bem comum, pela transformação do país e desde então eu não sai mais de perto do movimento estudantil. Nessa época eu já entrei no grêmio como representante dos estudantes do primeiro grau.
Com 11 anos?
Com 11 anos, na 5º série eu era representante dos estudantes do 1º grau e depois mudei de escola e fui presidente do grêmio por duas vezes consecutivas no 2º grau. Quando eu passei no vestibular eu passei para duas universidades, uma universidade pública e outra privada, ciências sociais na Federal do Rio Grande do Sul e fazia jornalismo na PUC do Rio Grande do Sul. Então eu ingressei logo nas duas realidades diferentes das instituições, de democracia, de condições de ensino, de perspectiva que os estudantes tinham, fazia ciências sociais durante à tarde e jornalismo à noite.
Então eu conheci duas realidades bem diversas e nas duas eu me inseri também no movimento estudantil disputando centro acadêmico, participando do DCE. Até que eu conheci o Congresso da UNE, foi logo no meu primeiro ano de universidade, eu fui eleita a delegada representante do meu curso para ir ao congresso ainda em 1999. Fui nesse congresso, conheci a UNE e desde então também tenho feito parte de todos os momentos da história dessa entidade, em 2001 eu fui eleita para ser vice-regional, diretora responsável pelo Rio Grande do Sul da UNE. Foi quando eu comecei a largar o meu curso na verdade, tranquei o curso de ciências sociais por um semestre e depois retomei porque tinha que viajar muito pelo interior como representante da UNE no Rio Grande do Sul, comecei a me dedicar mais a UNE que ao meu curso.
E nessa época a UNE voltou a ganhar força né, mais ou menos de 2000 em diante...
Eram as lutas contra o governo Fernando Henrique, contra o neoliberalismo, as lutas em defesa da universidade pública, então diversas greves eu organizei na Universidade Federal de Pelotas, na Federal Santa Maria, na Federal de Rio Grande no interior do Rio Grande do Sul e viajava muito para poder fazer esse movimento em nome da UNE no meu estado. Foi quando eu me dei conta de que para mim era mais importante o movimento estudantil do que qualquer opção individual que tivesse na minha vida, era mais importante eu poder ajudar o conjunto dos estudantes, a galera se organizar, do que eu mesmo conseguir concluir o meu curso ou estar ali na mordomia e na praticidade da minha casa em volta da minha família.
Em 2003 no Congresso da UNE seguinte eu fui eleita para ser da executiva da UNE, diretora de comunicação da UNE, então foi quando eu tive que fazer a opção de fato mais definitiva pela UNE em detrimento do resto porque eu tive que ir para São Paulo. Então foi quando eu tranquei minhas duas faculdades, foi quando eu saí da casa da minha família, eu tinha 20 anos, saí da casa dos meus pais e fui morar em São Paulo sozinha para ser diretora da UNE, diretora de comunicação, depois eu fui diretora de relações internacionais até que hoje eu fui eleita presidente e estou aí nessa gestão.
A partir do governo Lula houve uma abertura muito grande para a questão do movimento estudantil, eles estão apoiando bastante seja financeiramente como também politicamente. Eu queria saber sua opinião a respeito dessa distância do movimento estudantil com o movimento social, por exemplo, eu vejo nesse evento (6ª Bienal de Cultura da UNE, Salvador/BA) vários patrocínios institucionais, sobretudo dos ministérios e secretarias, e quase não há representação dos movimentos. Como você enxerga essa questão?
Eu em 2005 até 2007, quando fui diretora de relações internacionais, a minha tarefa na UNE foi ser parte da coordenação dos movimentos sociais. Uma congregação de todos os movimentos, onde grande parte dos movimentos sociais brasileiros que une mais especificamente a partir do tripé da UNE, da CUT e do MST todo o conjunto dos movimentos sociais do Brasil. Porque a UNE sempre teve essa ligação principal e prioritária com os movimentos sociais brasileiros e a partir da eleição do governo Lula a relação do governo com os movimentos sociais como um todo, e não só com a UNE, ou muito menos com a UNE que com outros inclusive, mudou. Porque durante o governo Fernando Henrique não havia qualquer tipo de diálogo, era uma relação de enfrentamento. Os movimentos sociais iam para as ruas e brigavam e apanhavam da polícia federal que era enviada pelo próprio presidente e nós solicitávamos audiência e não éramos recebidos. Fazíamos greves e o governo nos respondia com ainda mais endurecimento das políticas salariais, das políticas de investimento das universidades.
Isso tudo muda com a eleição do presidente Lula, um presidente eleito com a luta dos movimentos sociais, e foi quando então nós tivemos mais condições de diálogo, não só a UNE, principalmente outros movimentos. Agora nossas pautas são colocadas não mais necessariamente no enfrentamento, na luta contra a polícia, mas são colocadas na mesa, nós reivindicamos ao presidente onde ele afirma o que ele pode dar e o que não pode dar. O que ele diz que não pode dar nós saímos às ruas e daí sim exigimos, porque não depende da vontade dele mas sim do poder do povo e do poder do movimento social organizado conquistar as vitórias que nós queremos.
E o que aconteceu nesse último período, que eu analiso na minha opinião pessoal, é que com essas possibilidades maiores de vitórias dos movimentos específicos, por exemplo, o movimento sindical que conquistou uma série de vitórias históricas, o reconhecimento das centrais sindicais, a negociação do salário mínimo a partir da participação dos trabalhadores. E a UNE conquistando a expansão na universidade pública, as possibilidades de avanços na política nacional de assistência estudantil, mesmo o MST conquistando uma série de avanços no que diz respeito à reforma agrária. Isso tudo fez com que cada movimento se virasse mais para si mesmo, fez com que cada movimento aproveitasse esse momento que nós sabemos que é transitório para avançar nas suas conquistas, e menos aquela unidade que eu ainda acho que é tão importante e tão necessária, mas que marcou a década de 90. Então não há um afastamento da UNE em relação a qualquer movimento social.
Então porque eles não estão presentes nesse que é provavelmente o maior evento da UNE, sobretudo o MST que é o movimento social de maior representação no Brasil?
Teve diversos movimentos sociais aqui presentes, talvez tu não tenhas visto, o MST estava agora à tarde numa mesa aqui com a gente discutindo uma nova visão cultural. O movimento sindical veio aqui, representantes da CUT, de diversas centrais sindicais...
Na programação do evento não consta nada disso...
Todos na programação da UNE, movimentos juvenis diversos, nação hip-hop Brasil, entidades ligadas à democratização dos meios de comunicação, todos eles presentes na nossa bienal. E eu acho que o que falta, essa visibilidade que tu sentes falta e que é justa que sinta, é dessa luta mais unitária nas ruas, dessas pautas que levem os movimentos sociais para as ruas. Acho que isso é fruto de um momento que a gente está passando de mais possibilidades de avanços em cada pauta de cada movimento em que talvez alguns exijam menos essa unidade que foi tão necessária na década de 90. Mas a UNE está tão aliada quanto nunca a todos os movimentos sociais, traz eles todos para cá, faz com que todos eles estejam presentes em todos os nossos momentos e valorizamos mais essa unidade e essa relação do que qualquer relação com o governo.
Eu queria entrar na questão da educação, pelo que eu percebi é a principal bandeira que vocês estão lutando atualmente. Vai ter uma conferência em 2010, do que se trata e qual a proposta e envolvimento do movimento estudantil nesse processo?
A UNE sempre lutou primeiro em defesa da educação e depois em defesa do Brasil, ou, enfim, tudo isso muito inter-relacionado. Para a gente a defesa da educação passa por um projeto de país, não adianta a gente defender a universidade se a gente não tiver um país com distribuição de renda, um país com a sua Amazônia preservada, um país com políticas salariais e sociais justas. E a gente consegue hoje se voltar para essa perspectiva mais da luta em defesa da universidade e não uma luta reativa como foi na década de 90, não uma luta que dizia: eu não quero que se corte os salários dos professores, eu não quero que a UFRJ venha a fechar as portas porque não teve dinheiro para pagar as contas de luz como aconteceu.
Hoje é uma luta que a gente diz: eu quero além da ampliação das vagas também assistência estudantil, além da ampliação das vagas eu quero uma política e uma carreira para os docentes ainda mais valorizada. Então nós estamos numa perspectiva diferente de outras, que nos propõem uma série de avanços na educação e foi percebendo isso que a UNE de hoje, a UNE dessa gestão, dessa geração, disse que era o momento de a gente, assim como fizemos na década de 60, formularmos o nosso projeto de reforma universitária. Nós não estamos mais reagindo, eu não digo mais o que eu não quero, eu estou podendo afirmar que a universidade que eu quero, a universidade que o Brasil precisa, está prevista naquele projeto recém aprovado no Coneb (Comissão Organizadora do Conselho Nacional de Entidades de Base da UNE, realizado antes da 6ª Bienal em Salvador/BA) da UNE com a participação de mais de 1.500 centros e diretórios acadêmicos na sua plenária final.
Então essa nova universidade que a gente defende, que é um projeto de longo prazo, eu diria de décadas de luta para os estudantes, é uma universidade que nós vamos discutir nessa Conferência Nacional de Educação. Conferência essa convocada pelo Governo Federal, uma conferência que vai discutir o ensino básico e o ensino superior, então não é uma conferência específica da universidade, vai discutir a formação de um sistema nacional de educação a partir das entidades convocadas pelo governo. E a UNE está querendo e se propõe a organizar um conjunto dos estudantes universitários para reivindicar dentro dessa conferência o nosso projeto de reforma universitária. A gente quer que a resolução dessa conferência de 2010 seja de que a universidade que o Brasil precisa responda àquelas demandas que os estudantes apresentam: de mais financiamento, de mais democracia interna, de radicalização da democracia do acesso com o fim do vestibular, com políticas de cota e de reserva de vagas, de políticas de permanência com assistência estudantil.
Então é uma luta que faz com que na Conferência Nacional de Educação nós disputemos opinião não mais com a rede do movimento estudantil. Porque entre nós essa universidade tem nuances, tem pequenas diferenças, mas é essa mesma universidade, a universidade pública, valorizada, com recursos. Nessa Conferência Nacional de Educação a gente vai disputar a concepção com os grandes tubarões do ensino, com os empresários da educação que defendem um modelo privatista de ensino superior, um modelo de mercantilização dos nossos direitos, um modelo que visa mais ao lucro do que a qualidade da educação que nós queremos. Então eu acho que essa Conferência é central para que a gente possa se organizar não só entre os estudantes, mas com os trabalhadores da educação, com os servidores, com os professores, para que todos juntos possam reivindicar essa universidade pública fortalecida em detrimento da universidade particular, privatista e mercantil que os grandes tubarões de ensino defendem hoje no Congresso Nacional.
E essa 6ª Bienal da UNE, qual a sua avaliação na perspectiva da conscientização à ação? Como você acha que o pessoal vai passar isso para o campo orgânico? Tomando como referência a própria Bahia, não sei se você percebeu a pobreza em que se encontra esse Estado...
Então, eu acho que a Bienal superou as nossas expectativas no que diz respeito à mobilização não só de estudantes que vieram para cá, foram mais de 7.000 estudantes que vieram de fora, não só nessa mobilização massiva, mas também na formulação que os estudantes universitários demonstram que têm sobre a cultura popular do Brasil. Porque foram mais de 1500 trabalhos inscritos nas universidades do país, foi um recorde de inscrições de trabalhos nas 7 áreas da Bienal: artes cênicas, plásticas, audiovisual, literatura, enfim... Em todas as áreas de trabalho nós superamos todos os recordes que nós tínhamos nas bienais anteriores, isso demonstra que a juventude, os estudantes, estão formulando sobre o Brasil que a gente vive, estão formulando sobre a cultura que a gente produz e reproduz e estão formulando sobre a educação.
E o que isso gera para a sociedade fora desse círculo?
Isso tudo sem dúvida gera transformações na sociedade, porque a ruptura vai vir dessa política cultural transgressora que a juventude faz que é justamente a cultura que não tem espaço nas galerias e nos grandes palcos de espetáculo. É justamente essa política cultural de ruptura que a bienal cria espaço e cria o palco para ser apresentada, para circular entre todo o país, é nessa cultura que pode nascer um Brasil diferente e com menos desigualdade social, com mais justiça e com uma educação de mais qualidade para todos. Então eu aposto muito em encontros como esses, além dos congressos da UNE, além dos fóruns de deliberação do movimento estudantil, eu acredito muito na bienal como uma grande articuladora de políticas da transformação da sociedade que virão pelas mãos da juventude que é e sempre foi o artífice das grandes mudanças sociais do nosso país.
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