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O MUNDO AO SEU ALCANCE

18.03.2009
Uruguai não dá tréguas a torturadores

Um fato importante aconteceu no Uruguai e que merece a mais ampla divulgação. O ex-ditador, general Gregório Álvarez compareceu a um tribunal para responder sobre o assassinato de Cecilia Fontana em 1978, vítima casual de um atentado por envenenamento dirigido contra vários políticos opostos à ditadura.

A história é escabrosa e dá bem a idéia de como os países do Cone Sul sofreram durante aquele nebuloso período. Cecília ingeriu um copo de vinho retirado de uma de três garrafas enviadas de forma anônima a seu marido, Mario Heber, e aos também dirigentes do Partido Nacional (PN) Luis Alberto Lacalle e Carlos Julio Pereyra, que defendiam uma abertura política.

Em 5 de setembro de 1978 Cecília morreu depois de beber o vinho de uma garrafa enviada ao marido que continha um cartão dizendo que “na quinta-feira 31 ao meio dia brindaremos pela Pátria em sua nova etapa”. Lacalle e Pereyra nunca abriram os presentes. Além de Alvarez, que está preso e apareceu no Tribunal de algemas, outro acusado pelo homicídio político é o ex-tenente coronel Julio Gavazzo.

Naquele momento de 1978, a extrema direita uruguaia, infiltrada no governo ditatorial do então presidente de fato, o civil Aparício Méndez, queria impedir a qualquer custo o avanço nos esforços no sentido de se alcançar uma abertura democrática. Seria o correspondente aqui no Brasil aos extremistas que tentaram explodir bombas no Riocentro e um dos explosivos atingiu os próprios, um sargento e um capitão. O capitão sobreviveu e continuou sua carreira militar. O sargento morreu no local.

A Justiça uruguaia agora quer esclarecer de uma vez por todas os grupos que participaram do homicídio político que resultou na morte de Cecília. Os jornais uruguaios têm especulado bastante sobre o fato, tendo o jornal La Republica assinalado que o homicídio político poderia estar relacionado com uma disputa pelo poder entre Alvarez e Gavazzo.

O fato positivo é que o ex-ditador Alvarez e o não menos hediondo Gavazzo vão ter que responder por tudo que fizeram durante o período que mandavam no Uruguai.

O único país em que crimes hediondos resultantes de homicídios políticos continuam impunes é o Brasil. Por aqui, existem figuras como Gilmar Mendes e o Ministro da Defesa, Nelson Jobim, que apregoam que torturadores e assassinos não podem ser punidos porque está em vigor a lei de anistia, promulgada pelo último general de plantão, João Batista Figueiredo e que estará completando 30 anos em setembro próximo.

Não se entende o motivo pelo qual nos países da região, Argentina, Paraguai, Uruguai e Chile, quem cometeu graves violações dos direitos humanos está sendo julgado, enquanto no Brasil continuam impunes muitos personagens que seguem por aí no remanso dos seus lares, alguns assinando manifestos do gênero Guerra Fria ou sendo até homenageados no Clube Militar, como o Coronel reformado Carlos Alberto Brilhante Ustra, chefe do Dói-Codi em São Paulo.

Recado do vice de Uribe

Outro fato importante que merece registro é a recente declaração do vice-presidente da Colômbia, Francisco Santos, de que é necessário acabar com o Plano Colômbia. Segundo ele, que assim entra em choque com o governo de Álvaro Uribe, o referido plano é injusto e foi indigno o tratamento que a Colômbia recebeu por parte de setores da sociedade civil e do Parlamento estadunidense.

Como se sabe, o Plano Colômbia é um projeto entre os governos estadunidense e colombiano com o objetivo de gerar uma cooperação de combate ao narcotráfico e resolver o conflito armado que vive o país. Tudo começou em 1999, ainda no governo de Bill Clinton. Muitos milhões de dólares foram empregados, que poderiam ter servido para ser empregado em coisas muito mais úteis do que foram em todos estes anos.

Em suma, o vice colombiano que entrou em choque com Uribe entende que o Plano já era e é necessário que a sua efetividade seja avaliada , pois o custo é de “maltrato e humilhação”.

Para alguns observadores, o desabafo de Francisco Santos pode estar dirigido também a Barack Obama para ver se ele se toca e sua administração reavalie as políticas estadunidenses em relação à América Latina, que têm tido como tônica a filosofia segundo a qual a região não passa de quintal ou pátio traseiro dos Estados Unidos.

Aguardemos o desenrolar dos acontecimentos.

Ilustração: Táia Rocha
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> Mário Augusto Jakobskind é jornalista e escritor. Foi colaborador dos jornais alternativos Pasquim e Versus, repórter da Folha de S. Paulo (1975 a 1981) e correspondente da Rádio Centenária de Montevideo, além de editor de Internacional da Tribuna da Imprensa (1989 a 2004) e editor em português da revista cubana Prisma (1988 a 1989). Atualmente é correspondente do semanário uruguaio Brecha e membro do conselho editorial do Brasil de Fato. É autor, entre outros, dos livros América Que Não Está na Mídia (Adia, 2006), Dossiê Tim Lopes - Fantástico/Ibope (Europa, 2004), A Hora do Terceiro Mundo (Achiamê, 1982), América Latina - Histórias de Dominação e Libertação (Papirus, 1985) e Cuba - apesar do bloqueio, um repórter carioca em Cuba (Ato Editorial, 1986).

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