......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS



O MUNDO AO SEU ALCANCE

07.01.2009
Os (des)indicadores sociais de 'O Globo'

O Globo, um jornal que manipula informação e que é também um dos responsáveis pela instalação de uma ditadura de 21 anos no Brasil, por ter dado apoio integral ao golpe de estado de abril de 1964, começou o ano de 2009 seguindo pauta do Departamento de Estado, ainda sob a administração de Condoleezza Rice.

Em editorial, o jornal da família Marinho exortou o Senado a corrigir um erro da Câmara dos Deputados que aprovou o ingresso da República Bolivariana da Venezuela no Mercosul.O editorialista furioso vociferava contra o presidente Hugo Chávez sob o argumento, que não resiste a menor análise, segundo o qual o ingresso de Caracas fará com que o Mercosul se torne um fórum anti-Estados Unidos e assim sucessivamente. Ou seja, se dependesse de O Globo o Brasil retornaria aos tempos em que governos subservientes, de militares ou civis, se dobravam às pressões norte-americanas.

O padrão ideal de O Globo é de um ministro do Exterior como Celso Lafer, do governo de Fernando Henrique Cardoso, que se submeteu às exigências da alfândega estadunidense tirando os sapatos dos pés, ainda por cima sorrindo.

No dia seguinte ao ataque raivoso contra Chávez, O Globo não fazia por menos contra o regime cubano. Mas aí o editorialista se superou em matéria de manipulação primária. Depois de afirmar que "o socialismo cubano apenas distribuiu igualitariamente a pobreza", The Globe, como também pode ser chamado o jornal dos Marinhos, afirmou que "mesmo alguns dos propalados bons indicadores sociais já eram razoáveis nos tempos de Fulgêncio Batista". Quer dizer, para O Globo, no tempo de Batista Cuba não era o prostíbulo do Caribe, nem um país de maioria de população analfabeta e em condições de vida miseráveis. Aquilo lá era um paraíso dos trópicos, não da máfia. Absolutamente, o jornal deixou claro que Cuba de Batista estava numa boa. Claro, os tempos de "bons indicadores sociais" para O Globo são quando a burguesia distribui renda com a própria burguesia. O resto que se exploda.

O Globo não se conforma que os tempos hoje são outros. Numa tentativa de evitar maiores avanços de decisões soberanas deste país, desde agora a Organização que tem o mesmo nome está empenhada em dar todo apoio ao candidato presidencial José Serra, que tem como projeto de política externa o retorno aos tempos subservientes de FHC. Não é à toa, por exemplo, que na TV Globo a edição de matérias sobre Serra fica a cargo de um dos seus diretores. A palavra de ordem por lá é todo apoio ao futuro candidato da aliança PSDB-Demo. Nesse sentido, a direção decidiu impor mão de ferro para evitar eventuais falhas do esquema. O Globo quer que prevaleça o seu conceito de "bons indicadores sociais".

O rancor das Organizações Globo contra Chávez se deve também ao fato de quando o presidente venezuelano recebia a Medalha Tiradentes na Assembléia Legislativa do Estado Rio de Janeiro afirmou em alto e bom som que O Globo é um grande inimigo do povo brasileiro e latino-americano. Verdades às vezes incomodam, sobretudo quando são ditas por presidentes.

O jornal e a televisão da família Marinho, da mesma forma que o Departamento de Estado norte-americano, são sectariamente contra a integração latino-americana. Qualquer dirigente que defende esta estratégia, sobretudo quando entende que a integração não deve ser apenas econômica, passa a ser tratado como inimigo. Editores e colunistas recebem a recomendação no sentido de detonarem essas lideranças e para isso são empregados todos os tipos de argumentos, inclusive mentiras e meias verdades.

Por estas e ainda muitas outras, toda a vez que O Globo e o grande patronato midiático falam em liberdade de imprensa, é necessário analisar se por trás desta prédica não se encontra de fato a defesa da liberdade de empresa.

Para enfrentar esse violento esquema empresarial de manipulação da informação e pensamento único e para haver de fato democracia no Brasil é necessário o fortalecimento da imprensa alternativa às grandes mídias. Nesse sentido, o Estado pode ter papel relevante, como acontece em países como a Suécia e Canadá. Para tanto é necessário que prevaleça a vontade política.

Ou seja, é preciso que sejam abertos espaços midiáticos para que leitores e telespectadores tenham melhores condições de avaliar os acontecimentos nacionais e internacionais. Sem isso, o povo brasileiro continuará refém dos big-shots midiáticos, defensores de interesses que na maior parte das vezes são antagônicos aos da maioria.

Ah, sim: sabem da última? Bush pai, que dirigiu a CIA e presidiu os Estados Unidos, disse que gostaria de ver o seu outro filho, um tal de Jeb, presidente. Esta família acha pouco o mal que causou ao mundo.

Ilustração: Táia Rocha
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> Mário Augusto Jakobskind é jornalista e escritor. Foi colaborador dos jornais alternativos Pasquim e Versus, repórter da Folha de S. Paulo (1975 a 1981) e correspondente da Rádio Centenária de Montevideo, além de editor de Internacional da Tribuna da Imprensa (1989 a 2004) e editor em português da revista cubana Prisma (1988 a 1989). Atualmente é correspondente do semanário uruguaio Brecha e membro do conselho editorial do Brasil de Fato. É autor, entre outros, dos livros América Que Não Está na Mídia (Adia, 2006), Dossiê Tim Lopes - Fantástico/Ibope (Europa, 2004), A Hora do Terceiro Mundo (Achiamê, 1982), América Latina - Histórias de Dominação e Libertação (Papirus, 1985) e Cuba - apesar do bloqueio, um repórter carioca em Cuba (Ato Editorial, 1986).

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