......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



27.04.2009
UMA REPORTAGEM DO OUTRO LADO DO FRONT

Por Gizele Martins, Renata Souza e Douglas Baptista (*). Fotos: Naldinho Lourenço/Agência Imagens do Povo.

Para que não prevaleça apenas a versão da polícia, em tiroteios como o de ontem (14/04), que resultaram na morte de Felipe do Santos Correia de Lima, de 17 anos, no Complexo da Maré, e em protestos de moradores contra a violência policial, o blog publica um relato de Gizele Martins, moradora da favela e estudante de jornalismo da PUC-Rio. A reportagem de Gizele foi enviada para o email do blog pela ONG Justiça Global.

Fala Gizele:

"Por volta das 11h de hoje (14 de abril), Felipe dos Santos Correia de Lima, de 17 anos, morador da Baixa do Sapateiro, Complexo da Maré, foi executado com um tiro na cabeça dado pela Polícia Civil*, na Rua 17 de Fevereiro, rua em que morava. Segundo testemunhas, eram cinco policiais que chegaram na mais famosa Blazer branca, carro já temido por todos da área. Este carro percorre já há algum tempo, as ruas da favela.

Gilmara Francisco dos Santos, mãe de Felipe, ainda muito abalada pelo ocorrido, e em lágrimas, conta como levaram seu filho para o hospital: “Isso é uma injustiça. Ele tinha acabado de acordar e saiu para a rua. Os policiais chegaram e atiraram nele. Na hora não deixaram os moradores socorrer o menino, todo mundo queria socorrer, e eles não deixaram. Colocaram dentro do carro e foram embora, a tia dele conseguiu ir no carro. Quando ele chegou no Hospital Geral de Bonsucesso, ainda estava vivo, mas a polícia não deixou os médicos o atenderem, ele ficou lá gemendo e não deixaram ele ser atendido”.

Felipe era estudante e trabalhava em uma lanchonete próxima a sua casa. Natália de Brito, também moradora do local, fala de sua revolta. “Eu estava na rua, indo para o trabalho, não teve tiroteio como estão afirmando, isso não é verdade. Isso é uma injustiça, eu sou contra essa política de segurança, o que existe é extermínio, a polícia vem e mata, é isso o que acontece. Isso é a banda podre da polícia, são todos corruptos. E nós, moradores, queremos deixar bem claro que Felipe era trabalhador, vendia cachorro-quente, era estudante, todos gostavam dele, a prova disso é que todos os moradores foram em cima, todo mundo foi para a rua”. Ainda não foi confirmado o horário e o local do enterro de Felipe. Moradores querem se organizar e protestar também no enterro."

Segundo a reportagem publicada no Globo de hoje, a PM afirmou que o rapaz era traficante e morreu em confronto numa operação policial feita por agentes do Serviço Reservado da PM (P-2). Segundo o comandante do do 22º BPM (o batalhão da Maré), tenente-coronel Rogério Seixas, os policiais militares foram cumprir mandados de prisão na favela. Achei estranho esse fato porque só policiais civis podem cumprir esse papel de polícia judiciária.

Infelizmente não é sempre que se pode acreditar na versão da polícia, de que alguém morto em tiroteio era traficante ou criminoso. Está mais do que comprovado que há casos em que maus policiais simulam confrontos e colocam a arma na mão de inocentes. Por outro lado, há também muitos jovens que participam do tráfico de drogas como simpatizantes e nunca tiveram sequer passagem pela polícia. O mais importante é não se engolir imediatamente nenhuma versão e sempre se evitar os julgamentos precipitados.

* Post Scriptum: A moradora se equivocou ao atribuir o crime à Polícia Civil, já que a PM admitiu ter feito a operação. A confusão foi motivada pelo fato de os policiais militares terem se apresentado à paisana por serem agentes da P-2.

Fotos comprovam que PM reprimiu manifestantes na Maré

Um PM do 22º Batalhão intimida manifestantes: ação beneficiada pela ausência da imprensa. Foto: Naldinho Lourenço/Agência Imagens do Povo
Um PM do 22º Batalhão intimida manifestantes: ação beneficiada pela ausência da imprensa. Foto: Naldinho Lourenço/Agência Imagens do Povo

Cerca de 300 pessoas acompanharam, nesta tarde, o sepultamento de Felipe Correia de Lima, de 17 anos, no Cemitério do Caju. O jovem, segundo moradores, foi executado ontem (14/4) por policiais com um tiro de fuzil na cabeça em frente sua casa na favela Baixa do Sapateiro, no Complexo da Maré. Durante o enterro, familiares e amigos da vítima gritaram por justiça e, após o sepultamento, fizeram passeata na Avenida Brasil.

Jovens choram a morte de Felipe, assassinado em operação da PM na Favela da Maré. Foto: Naldinho Lourenço/Agência Imagens do Povo.
Jovens choram a morte de Felipe, assassinado em operação da PM na Favela da Maré. Foto: Naldinho Lourenço/Agência Imagens do Povo.

Para Mayck Félix, amigo de Felipe, o que a polícia fez foi uma injustiça. “Eu conhecia ele, estudava em Bonsucesso, lá no Pedro Lessa, ele tinha acabado de pedir transferência para Escola Estadual Bahia. Lembro que domingo ele estava muito feliz, falando que tinha voltado para a namorada, que tinha arrumado um novo emprego. E aconteceu isso, foi a maior tristeza para nós, era um moleque tranqüilo, e isso que fizeram com ele, foi a maior covardia”, fala.

O presidente da Associação de Moradores da Baixa do Sapateiro Charles Gonçalves, quis deixar claro que Felipe era apenas um estudante. “Imagina a dor dessa mãe com a perda de seu filho. O menino teve sua carreira parada, era um adolescente cheio de sonhos, estudava, trabalhava, mas que teve a vida interrompida. Ele foi brutalmente executado por uma polícia despreparada. Agora é tentar fazer possível para solucionar esses problemas, temos que ver meios para que isso chegue até o governador, vê se dá um basta para não haver mais inocentes mortos como Felipe”, diz Charles.

Caminhada pacífica pela Avenida Brasil acabou em tumulto e truculência de policiais no Complexo da Maré. Foto: Naldinho Lourenço/Agência Imagens do Povo.
Caminhada pacífica pela Avenida Brasil acabou em tumulto e truculência de policiais no Complexo da Maré. Foto: Naldinho Lourenço/Agência Imagens do Povo.

Depois do enterro, um grupo de moradores, na sua maioria jovem, decidiu protestar de forma pacífica na Avenida Brasil, sentido lha do Governador, o que não terminou nada bem, já na entrada da Rua 17 de Fevereiro, local em que Felipe foi executado, e onde se findaria a manifestação, policiais apareceram e começaram a gritar para que todos corressem. Todos correram, mas ao mesmo tempo foram atingidos por spray de pimenta e bombas. Alguns moradores caíram, outros passaram mal, e outros foram reprimidos pela polícia, e soltos logo depois.

Cerca de 300 pessoas foram às ruas em protesto por mais uma morte no Complexo da Maré. Foto: Naldinho Lourenço/Agência Imagens do Povo.
Cerca de 300 pessoas foram às ruas em protesto por mais uma morte no Complexo da Maré. Foto: Naldinho Lourenço/Agência Imagens do Povo.

São inúmeras pessoas que morrem todos os dias nas favelas do Rio de Janeiro por causa da injusta segurança pública que existe. Algo que não dá mais para suportar. Moradores durante o sepultamento e a caminhada gritavam, clamavam por justiça, direitos humanos, direitos que deveriam ser oferecidos a todos, sem separação de cor, raça e classe social. Até quando este povo terá que enterrar seus parentes, pessoas inocentes, que querem e queriam apenas ter o seu direito de viver.

Manifestantes após o enterro de jovem morto por policiais militares. Foto: Naldinho Lourenço/ Agência Imagens do Povo.
Manifestantes após o enterro de jovem morto por policiais militares. Foto: Naldinho Lourenço/ Agência Imagens do Povo.

(*) Gizele Martins, Renata Souza e Douglas Baptista são integrantes da Renajorp (Rede Nacional de Jornalistas Populares). Reportagens enviadas para o blog Repórter de Crime no site de O Globo, publicadas nos dias 14 e 17 de abril.


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