......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



11.02.2009
MOVIMENTO SINDICAL INICIA CICLO DE PALESTRAS SOBRE A CRISE

Por Eduardo Sá, da redação. Foto: jornal BancáRio

Maria da Conceição Tavares na foto
Maria da Conceição Tavares em palestra no Sindicato dos Bancários do Rio de Janeiro

No dia 6 de fevereiro a CUT Socialista e Democrática (CSD) promoveu no Sindicato dos Bancários do Rio de Janeiro o primeiro debate em busca da qualificação da vanguarda sindical em relação à crise financeira atual. No dia seguinte ocorreu em Campo Grande/RJ a palestra Crise Econômica Global, com os economistas Saturnino Braga e Adhemar Mineiro.

Participaram da mesa Os trabalhadores e o novo cenário econômico: a CUT frente à crise, a economista Maria da Conceição Tavares e Miguel Rosseto, ex-dirigente da CUT; estavam presentes cerca de 200 pessoas, na maioria sindicalistas. Como mediadora da mesa a atual presidente da CUT/RJ, Neuza Luzia Pinto, iniciou o debate destacando a importância de eventos com tal propósito e fez um pequeno resumo da crise na perspectiva dos trabalhadores.

No momento também houve o chamamento para um ato nacional, Os trabalhadores não vão pagar pela crise, realizado hoje (11 de fevereiro) às 16 horas na porta da mineradora Vale, no Rio de Janeiro. O local escolhido é uma resposta às demissões que a Vale fez recentemente, desnecessárias segundo os participantes.

Passando a palavra para Maria da Conceição Tavares, a primeira atitude da economista foi pedir um minuto de silêncio pela morte de Adão Pretto, deputado federal pelo PT/RS e destacado defensor nas lutas pela reforma agrária.

Sua fala iniciou comparando a atual situação financeira brasileira com a da crise em 1929, assegurando que “houve um avanço civil e político em relação à época passada”. Para ela, no Brasil e até certo ponto na América Latina, a crise financeira não contaminará os bancos como no exterior; apenas os lucros serão menores. “Não quero que os bancos quebrem, não tem substituição para os banqueiros, eu quero que eles dêem crédito, invistam...”

Em referência aos Estados Unidos, destacou que as atitudes que o presidente Barack Obama tem feito para tirar o país da crise não vão resolver nada, considera suas ações meramente simbólicas e políticas. “Não tenho confiança que ele consiga tirar os EUA da crise mesmo com sua equipe competente”, ressaltou complementando que a Europa e o Japão estão na mesma condição.

"Antigamente eles espirravam e nós pegávamos uma pneumonia. Agora, eles pegam a pneumonia e nós só espirramos", ironizou.

Contextualizando o processo brasileiro, começou comparando nossa taxa de exportação com a da China, esta com 40% e aquela com 10%, que se sustenta pelo alto nível de consumo interno, o que não ocorre nos Estados Unidos devido às famílias estarem endividadas.

“Não tem esse papo de corte de custeio”, disse levando em consideração que os hospitais brasileiros, por exemplo, por mais que tenham filas as pessoas são atendidas. Ao contrário do que acontece em países como os Estados Unidos que tem um sistema de saúde público praticamente inacessível.

Os setores brasileiros mais afetados são os de capital aberto ao mercado internacional, sobretudo as indústrias siderúrgicas, automobilísticas e de eletroeletrônicos, mas acredita que elas serão salvas pela Petrobras e empresas da construção civil.

A reforma tributária que está em pauta e será votada em março não passará pelo Congresso, segundo a economista. “Não tem condições de fazer uma reforma tributária em crise, as reformas sociais e trabalhistas também não passam, não tem clima”, afirmou. Aliás, com essa imprensa não passará nada, criticou: “os serviçais (jornalistas), aqueles de gravatinha, fazem com que não surja uma força política para aplicar as reformas”.

Uma questão que lhe incomoda é a urbanização, Maria da Conceição Tavares se preocupa com o fato de entrarmos no modelo de consumo de massas e esquecermos do resto: “Que tipo de segurança a gente quer? E a questão do ambiente? Ela não se restringe à Amazônia”, observou.

São as pautas de longo prazo, rompidas pelo governo FHC quando acabou de vez a era Vargas, avalia. “Eles (países de primeiro mundo) precisam inventar outro modelo civilizatório, mas não podemos esperar para fazer o nosso modelo tropical, como dizia Darcy Ribeiro”, pontuou ao encerrar com um chamamento: “Agora cabe à classe trabalhadora lutar pelos seus interesses e os interesses da sociedade brasileira”.

E foi esse chamamento que inspirou a fala de Miguel Rosseto, que preferiu não se estender muito dando oportunidade à Maria da Conceição Tavares de se manifestar. O que ele mais destacou foi o cenário geopolítico atual, as oportunidades abertas para uma efetiva participação da esquerda política e da vanguarda sindical nas resoluções junto aos governos.

Para ele, “estamos vivendo uma qualidade política distinta, a vinda de 5 presidentes para o Fórum Social Mundial sinaliza uma forma de buscarmos uma resposta unificada a partir da preservação dos interesses sociais e populares”. A fragmentação das centrais sindicais lhe preocupa, ele acredita que o povo trabalhador precisa buscar a unidade para disputar um espaço nas decisões da agenda pública, criar um espaço ativo na composição política. “Precisamos exigir vez e voz junto ao governo federal, disputarmos as forças políticas”, ponderou.

Sugeriu também uma maior proximidade ao Banco do Brasil e ao BNDES aproveitando a crise para ampliar o espaço político junto às instituições gestoras. Deu o exemplo do reajuste salarial como característica dos avanços da categoria que, mesmo em tempos de crise e desemprego, conquistou mais essa vitória.

As intervenções que se seguiram trataram especialmente dos meios de comunicação, da integração regional e do meio ambiente, todas respondidas pela Maria da Conceição.

Sobre a integração ela defendeu que já vem se projetando desde a década de 70 através das multinacionais e do Mercosul, mas ressaltou que agora as soluções têm que ter um caráter mais político que economicamente correto; respeitando a unidade na diferença, já que se trata de economias e sociedades distintas. “Na Europa é a integração capital, não é a integração dos povos. Nós temos que inventar um modelo que vá além do Mercosul”, analisou.

A Conferência de Comunicação, anunciada pelo presidente Lula no Fórum Social Mundial, “é a que deveria ter sido feita desde o começo”, respondeu. “Com esses meios de comunicação não adianta, não dá para fazer nenhuma reforma e política de cultura que leve à libertação, à democratização”; “com esses meios de comunicação não tem saída”, completou.

Apesar das suas críticas à imprensa, encerrou lembrando que ainda assim a popularidade do Lula está no patamar dos 80% e que os sindicalistas não devem ter vergonha de defender o presidente, ao contrário da classe média que o odeia.


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