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15.05.2009
UMA HISTÓRIA CUJO HERÓI É O DINHEIRO
Por Eduardo Sá, da redação

"K" (Editora Ensaio)
Vassilis Vassilikos
preço: R$ 10,00 a 20,00
O livro não é novo, mas a mensagem que transmite e o contexto de sua história são mais que atuais. A obra “K”, do escritor grego Vassilis Vassilikos, publicada no Brasil em 1995 pela Editora Ensaio, é um retrato de nossa época: “Hoje o dinheiro está nu. Não é temperado com nenhuma ideologia, nenhuma cruzada. É o dinheiro pelo dinheiro, como se diz arte pela arte. Quem possui tem o direito de filosofar. Quem não tem não é ninguém".
Trata-se da história de um banqueiro que, ainda adolescente, vai morar no Bronx, bairro pobre nos Estados Unidos, onde desenvolve seu exercício de falsário. Enriquece ao fraudar o seguro desemprego norteamericano e, com dinheiro e um emprego garantido por seu professor, no Banco de Creta, volta para a sua terra natal, a Grécia, onde constrói seu império vertiginosamente: em um ano, de contador passa a diretor do banco, logo depois o compra e daí em diante estende seu negócio para os meios de comunicação, o futebol, as construções e outras áreas. É o Berlusconi grego, segundo os “jornais da época”.
Apesar de ser um romance, uma ficção, utiliza elementos da realidade, inclusive o tema chave é baseado num escândalo ocorrido na Grécia, na década de 80. Tem um quê de Recordações do Escrivão Isaías Caminha, do nosso querido Lima Barreto, mas, com todo o respeito, é ainda mais interessante: seus personagens, instituições, empresas, locais, etc. são representados em magnatas da comunicação como Rupert Murdoch e Hearst; presidentes como Margaret Thatcher, Mitterrand e Bush; instituições como FMI; empresas relacionadas ao mercado financeiro como a Merrill Lynch, Citibank, American Express; e países como Iraque, em guerras infundadas.
Jorge Amado e o Brasil também são citados. Jorge K., o banqueiro protagonista, foge clandestinamente para o Rio de Janeiro em determinado momento, cidade onde, segundo o autor, existem as favelas: “esses bairros miseráveis são controlados pelo maior cartel da droga no hemisfério sul".
Tudo se passa em torno do enredo principal, na Grécia, descrevendo também o processo político durante os últimos anos no país, a queda da ditadura dos coronéis e a ascensão do partido socialista ao poder, o seu atraso frente às grandes potências, a evolução da informática e do audiovisual, dentre outros aspectos da época.
A essência da obra “K” evidencia os mecanismos da corrupção financeira, das relações escusas nas cúpulas do poder, dos privilégios e abusos de influências, dos paraísos fiscais, dos meios de comunicação, da nítida intrusão do setor privado no setor público, tornando quase impossível distingui-los, e muito mais. Temas como o aborto, agrotóxicos, meio ambiente, miséria, imigração e até as favelas do Rio de Janeiro, como já mencionado, são colocados ligeiramente em questão.
O jornalismo, sobretudo a grande imprensa, muitas vezes é abordado no livro, pois assim que “K” entra no mercado, quebra o monopólio de cinco oligarquias no país: “seus concorrentes, fechados em si mesmos há muitos anos, como se estivessem constipados, não podiam admitir aquele elefante na sua loja de porcelana. Aproveitaram a ocasião em que Sua Grandeza (presidente) ficou doente, para começar a derrubá-lo, metodicamente”. Foi a sua forma de apresentar criticamente a concentração e uniformidade da estrutura comunicacional que impera nos dias de hoje. Os bancos também recebem suas alfinetadas: “Isso não interessa ao banco que empresta (...) Repito: a única coisa que nos interessa é o dinheiro, não sua proveniência".
A linguagem é instigante, Vassilikos instrumentaliza diversos recursos lingüísticos, intercalando desde um avô (que "vivenciou" o processo narrado, era jornalista e literato) contando toda a história ao seu neto, até aos diálogos da época, as notícias dos jornais, as falas na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do processo, as cartas trocadas pelos personagens... O tempo da narração é arranjado de tal maneira que, passado, presente e futuro vão e voltam a todo instante, numa constante mutação, e a cada hora escritos de uma maneira.
Jorge K. é preso, responde ao processo na CPI, mas o desfecho fica aberto à imaginação de cada leitor, segundo o desenvolvimento do romance, “cujo herói é o dinheiro”: “A história de ‘uma nova época, a do dinheiro fictício’, em que as fronteiras entre o legal e o ilegal, o certo e o errado se diluem, em que a imagem é mais importante que a verdade”. Qualquer semelhança entre a história de “K” e os fatos recentes da história brasileira é mera coincidência!?
Vassilis Vassilikos mora hoje na França, sua principal obra é “Z”, sucesso literário mundial que foi adaptado para o cinema por Costa Gravas, e é um dos mais importantes autores gregos da atualidade. Foi jornalista e sempre um escritor engajado, fato que o levou ao exílio quando houve o golpe de estado em 1967 na Grécia. Vassilikos tem mais de 80 livros publicados e hoje se dedica exclusivamente à literatura.
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