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26.03.2009
UM TESTEMUNHO SOBRE NELSON WERNECK SODRÉ
Por Eduardo Sá, da redação
Pode soar como parcial o testemunho de uma filha, mas Olga Sodré, em sua extensa formação, também é especializada em metodologia de pesquisa. Deixando seu testemunho sobre o pai, Nelson Werneck Sodré, na Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, ela não só analisou sua vasta obra, como também relembrou características do historiador no seu dia-a-dia e maneira de pesquisar.
Sua obra é ampla, abrange diversos campos do conhecimento, e quase sempre preocupada com o Brasil. Vai da história militar à história da literatura brasileira. Todos os seus livros são detalhadamente documentados e analisados. Utilizava uma linguagem que contextualiza o processo político, associando os fatos sociais ao sistema. Foi “um historiador do tempo presente”, lembrou um dos pesquisadores presente à recente palestra que Olga deu no Rio de Janeiro.
Sua formação foi militar. “O contato dele com o exército o fez conhecer um Brasil que poucos pesquisadores conhecem”, afirmou sua filha, destacando que ele era também um “homem de campo, um cara da imprensa”. Foi professor na Escola de Estado-Maior, onde deu início a um caminho que contribuiu para sua participação no Iseb (Instituto Superior de Estudos Brasileiros) anos depois. "Foi um emérito professor em todas as áreas da alta cultura", afirmou um ex-militar presente.
“Nelson sempre foi apaixonado e guardou uma linguagem jornalística, daí sua atualidade”, foi a introdução de Olga ao referir-se ao método de pesquisa do pai que é contestado por muitos acadêmicos. Em sua época, foi criticado pela USP. Para ela, o pesquisador tem que guardar o espírito crítico do que ele está fazendo. "É a partir da experiência que a gente pode entender determinada conjuntura”, relata Olga.
Ao contrário do que era defendido na maior parte das universidades, Nelson Werneck se posicionava nos seus estudos. “Ele foi um dos precursores da crítica ao neoliberalismo no Brasil. Seu método o levou a ter essa visão tão lúcida”, comentou, ao referir-se à atual crise mundial.
Dizia-se um memorialista e trilhava suas análises através de teorias marxistas. Segundo a pesquisadora, era um "marxismo maduro", não se enquadrava em rótulos, mas "era integrante do partido comunista e é preciso dizer isso". "Utilizava elementos que não estão em Marx" quando, por exemplo, apontava o regresso ao feudalismo numa das etapas da formação brasileira. “Gramsci é o cara que mais o influenciou”, mesmo que seus estudiosos não afirmem e não seja explícito, revelou Olga, que conversava com seu pai ainda menina sobre o teórico italiano. E também não tinha preconceitos com o clero e os militares. Entre estes era muito respeitado, independente das suas posições.
Era um antipositivista e principalmente anti-imperialista convicto, concepções que lhe renderam críticas tanto da direita quanto da esquerda; ficou isolado muitas vezes.
Nelson Werneck Sodré escrevia ouvindo música clássica, era disciplinado, tirava horas para as suas pesquisas e só depois ia ter com a família, mas com muita descontração. Era metódico com a leitura, recortava matérias de jornais, tinha um arquivo onde guardava seus fichamentos, “que foram dando poder ao seu caminho teórico”.
“Para ele não pode haver imprensa sem a luta pela liberdade”, ressaltou Olga Sodré. Sua obra, que é referência em todos os cursos de jornalismo - A história da imprensa no Brasil - não poderia deixar de ser debatida. Em suas últimas análises, comparava o processo de transição da imprensa artesanal para a empresarial, do discurso literário para o jornalístico, da análise e posicionamento para a objetividade e imparcialidade. Aponta também a concentração que estava ocorrendo no setor, cujos espaços condicionaram o surgimento de monopólios.
Foi a instalação da indústria cultural no Brasil, a proliferação de agências de informação dominantes, uma tendência ao controle e à homogeneização. "A desnacionalização da cadeia produtiva", segundo Olga, com padrões modelando e alienando a sociedade.
“A imprensa hoje não tem crítica nenhuma, BBB (Big Brother Brasil) para o Nelson era Biblioteca Básica Brasileira”, comparou o pensamento do pai com as circunstâncias atuais.
Um fator que incomoda muito Olga é que “a intelectualidade brasileira foi dizimada”. “A universidade brasileira é uma grande tristeza, os professores brasileiros são heróis”, observou a pesquisadora ao destacar a burocratização dos meios acadêmicos e sua consequente infertilidade. “Onde está o homem de imprensa hoje? Onde estão aqueles homens de cultura? Estão na academia? Estão pensando?”, indaga a pesquisadora.
"É um pesquisador de nível mundial, com mais de 60 livros publicados", destacou a palestrante. Por isso ela está lutando para reeditar a obra, mas "os editores marxistas não estão abrindo o direito de consulta e voto: stalinismo não!”, afirmou. Não podendo opinar, mesmo tendo profundo conhecimento sobre a obra do pai, decidiu: “Vou pagar para devolver ao povo o que é dele”; não autorizou os editores. Está construindo um projeto para publicar tudo na Internet, criando o Instituto Nelson Werneck Sodré e pretende deixar aberto ao público todos os livros do pai. Se vingar, será o primeiro autor nacional a abrir todo o seu acervo na internet.
Nelson Werneck Sodré era um otimista, mas passou por momentos de solidão e detenção. Enquanto seus amigos saíam do país por causa da rigidez do regime, com o golpe militar, "ele ficou e aguentou todo aquele período duro. Depois houve uma crítica em massa ao socialismo que ele acreditava, então isso para um lutador é uma coisa muito triste". Alguns dos seus livros foram censurados. Por exemplo, A história militar do Brasil.
Era antes de tudo um nacionalista, lutando pela memória e soberania de seu país. Preocupado com isso publicou, entre outros livros, uma "bibliografia brasiliana": O que se deve ler para conhecer o Brasil, de profunda utilidade. Mesmo com as dificuldades que enfrentou, "acreditava que o mundo virará socialista, não importa suas vicissitudes históricas", ressaltou Olga Sodré.
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